Quem tem medo de televisão? A Gema não

Gema TV (www.gemagema.tv)
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ronaldo lemos · Rio de Janeiro, RJ
6/8/2007 · 246 · 8
 

Muita gente adora dizer que não assiste televisão.

No orkut, por exemplo, são vários os perfis que no campo programas de tv consta um sonoro não assisto. Parece que ninguém quer ser identificado com o hábito de assistir TV. Se eu fosse um sociólogo tentando explicar esse fenômeno, diria que existe nele uma relação de alteridade, em que o hábito de assistir tv é visto como algo que apenas os “outros” fazem, mas eu mesmo não faço.

Isso lembra a pesquisa que o economista Eduardo Gianetti da Fonseca popularizou há alguns anos perguntando se as pessoas se achavam felizes ou infelizes. A maioria absoluta das pessoas se declarava feliz. No entanto, ao serem perguntadas se achavam que os outros eram felizes ou infelizes, a maioria também respondia que os outros certamente deviam ser infelizes. Ou seja, ninguém queria se identificar com a "infelicidade", ou tinha uma percepção errada sobre si mesmo.

Com a TV parece acontecer a mesma coisa. Tem gente que mesmo assistindo à televisão de um jeito ou de outro, continua acreditando que não assiste. Há pouco tempo escrevi um artigo discutindo a ausência de novidades na linguagem televisiva. Talvez essa ausência possa ser creditada a essa postura de distanciamento com relação à TV, já que ela acaba percebida como uma mídia menor, especialmente quando comparada ao cinema, uma mídia vista como mais "nobre".

No entanto, desde o momento em que o vídeo na internet tornou-se um fenômeno gigantesco, foi dada a largada para ver quem inventa a nova linguagem para essa nova mídia “televisiva”. Ou seja, mesmo que o preconceito ainda seja um obstáculo, o desafio da renovação da linguagem audiovisual que antes era problema apenas das redes de TV, passou a ser compartilhado por todo mundo.

Olha a Gema aí


Eis então que para ilustrar essas possibilidades surge um projeto como a Gema TV. Sem qualquer preconceito com a televisão (que está inclusive no nome do projeto), a Gema nasce com a missão de ser precisamente uma “TV” de moda na internet. Mas peraí, TV na internet? Não seriam fenômenos contraditórios? Ao que parece não. Como diz José Camarano, fundador do projeto, na entrevista que ele concedeu ao Overmundo:

"Somos apaixonados por televisão desde crianças, e hoje por internet, nada mais normal que juntar os dois."

É curioso notar que a Gema TV não tem medo de se apropriar de formatos consagrados da televisão, mas adicionando a eles uma boa dose de traquinagem. Um exemplo é o formato de “entrevista”, renovado pelo site por meio da improvável “entrevistadora de maiô”, um dos quadros fixos da Gema. Até mesmo o formato de “programa de viagem” sofre um reprocessamento, ganhando uma abordagem mais direta, só possível com a internet. Como o pessoal da Gema TV fica perambulando por lugares como Nova Iorque e Tóquio, de tempos em tempos são enviados streamings ao vivo pelo site (com hora marcada) de cada um desses lugares.

O formato adotado pelo site é o de clipes curtos, o que mostra uma consideração com as peculiaridades da Internet enquanto mídia. Um vídeo curto pode ser assistido casualmente, entre uma tarefa e outra no computador. Faz parte do que a revista Wired chamou recentemente do fenômeno da snack culture. Além disso, o pessoal da Gema investe tempo e idéias na edição do conteúdo. Essa é uma característica do site que vale acompanhar. Na medida em que a internet vai ficando saturada do formato de vídeos “toscos’, sem qualquer produção/edição, uma hipótese é de que quem trouxer linguagens novas e mais elaboradas sai na frente tão logo o efeito “novidade” acabar.

Por fim, é importante destacar que a Gema TV não deixa também de dar sua contribuição em termos de experimentação de linguagem. Nesse sentido o site criou um outro quadro fixo, chamado fashion clips. São editoriais de moda “conceituais”, que desenvolvem um tema específico ao longo de um ou dois minutos. Vale conferir o vídeo de Paranoid para se ter uma idéia. As roupas mostradas são de estilistas e lojas bacanas e estão à venda. É curioso notar como o pessoal da Gema consegue gerar uma “ressignificação” interessante dos produtos. E moda é exatamente isso.

Em síntese, cada vez fica mais claro que a fonte da inovação está se tornando os próprios usuários (como defende há anos gente como Eric von Hippel). A tendência é que tanto os centros de pesquisa e desenvolvimento das empresas quanto as redes de televisão tradicionais acabem sendo deixados para trás em termo de inovação pelas experimentações feitas por seus próprios usuários. É a lógica do “do it yourself” levada às últimas conseqüências.

Para acompanhar um pouco mais de perto um exemplo desse fenômeno, deixo a palavra com José Camarano, fundador da Gema TV:

Overmundo: Qual é a história da Gema TV? Existe um conceito que guia o site?

José Camarano: A idéia do site nasceu com o intuito de aproveitar as facilidades de transmissão de vídeo atuais para nossos próprios interesses. Mas foi uma idéia totalmente adaptada, partindo do principio que a GEMA TV pretendia ser uma revista impressa, coisa muito rara de se fazer (bem feita e barata) hj em dia. Resolvi então fazer um blog, um ano e pouco atrás, que foi ganhando cada vez mais colaboradores, adeptos e por conseqüência, mais força para se tornar um site.

Overmundo: Quem são as pessoas que fazem a Gema TV? É gente da internet, de mídia ou de moda? E como chegaram ao site?

JC: Alem de editar o site, sou stylist há 5 anos, colaboro para revistas como Vogue, Vogue Rg, Revista Domingo do Globo e faço desfiles no Fashion Rio. Sou internauta de carteirinha e muito ligado e apaixonado por tecnologia. Consegui finalmente transformar o meu hobby em trabalho.

O crew Gema é formado basicamente por amigos, das áreas de moda, mídia, música (djs), jornalismo e tecnologia. Estamos juntos o tempo todo tendo idéias coletivas e implementando novidades no site de maneira totalmente informal. Nunca tivemos uma "reunião" sequer... Porém, desde que começamos a fazer o site, não conseguimos falar mais em outro assunto.

Estamos sempre conectados, apesar de alguns morarem até mesmo em outros paises (temos correspondentes em NY, Londres, Paris, Berlim e vamos aumentar ainda mais este quadro). Celulares, rádios (nextel), skype e msn nos mantêm conectadissimos.. Assim é feita toda a comunicação e programação do site. Não somos profissionais do vídeo. Nosso foco é estético e informativo, não estamos preocupados com "técnicas de edição" já estabelecidas.

Overmundo: Para quem o site é feito, ou seja, qual é o público alvo ideal dele?

JC: Recentemente li no “O Globo” que o Brasil é o número 01 em número de horas/mês na internet. Somos o país onde cada internauta passa mais tempo conectado e q tbm tem o maior número de amigos virtuais. Este é o nosso publico alvo! Pessoas ligadas em tecnologia, moda, música e arte e cansadas de formatos já existentes (e quem não está nos dias de hj?).


Overmundo: Existe algum plano de levar o conceito/conteúdo do site outras mídias dentro ou fora da internet? Ele tem um plano de sustentabilidade, de publicidade ou outras formas de gerar receitas?

JC: Pretendemos disponibilizar downloads de conteúdo para celular, mp3 e vídeo players, temos uma versão impressa do site, que circulará vez ou outra em formatos completamente diferentes (o número 01 foi uma espécie de teaser do site, anunciando o que estava por vir, em formato de pôster, em quarto versões diferentes, distribuídos na festa de lançamento do projeto no Hotel Sheraton (Rio), durante o último Fashion Rio) e tbm fazemos festas e intervenções artisticas (já com datas programadas), pois apesar de internautas, somos festeiros e gostamos de "encontrar gente". Queremos propôr life style, dos bons. Somos um crew de amigos, por isso conseguimos trabalhar com custos baixos em prol do site neste inicio, mas estamos captando recursos para que o mesmo possa crescer cada vez mais, melhorando a qualidade e quantidade das produções. Todos temos carreira sólidas em outras áreas, mas estamos curtindo tanto, que adoraria fazer da Gema minha primeira opção de trabalho.


Overmundo: Uma das coisas mais interessantes da Gema TV é que ela desenvolve uma linguagem própria para a internet. Além de renovar formatos tradicionais (entrevista, cobertura de evento etc) em clipes curtos, o site cria outros formatos próprios. Um exemplo são os "fashion clips". Essa experimentação de linguagem é proposital? O que mais podemos esperar do site nesse sentido?

JC: Nada disso foi pensado. O nosso formato é o “não formato”. Fizemos tudo do jeito q gostaríamos que as coisas fossem e gostamos muito da cultura pop, de tentar coisas novas e de relembrar coisas legais já feitas. Ainda estamos desenvolvendo essa linguagem, estudando, testando. Queremos experimentar, acertar, errar... Que bom que a aceitação está sendo boa, pois não tínhamos a menor idéia de como o público e a imprensa receberiam o site. E no dia que estiver tudo com uma cara, um formato, certamente já estaremos em outra. Mas sair do óbvio, isso sim foi uma das intenções. A busca pelo novo tem muito a ver com o meu trabalho como stylist, assim como na tecnologia que se alimenta do novo. Uma das propostas do site é levar o novo às pessoas, tanto no conteúdo, quanto na tecnologia da navegação. Um dos nossos objetivos para o futuro, é fazer com que o site passe vídeos o tempo todo, como uma TV mesmo (estamos começado este processo, através de um midiaplayer q nos permitirá tocar mais de um vídeo de uma só vez, agrupando assim o conteúdo, como num programa de tv). Somos apaixonados por televisao desde crianças, e hj por internet, nada mais normal que juntar os dois. A rapidez da informação é outro ponto importante nos dias de hj, vídeos curtos e ágeis têm muito mais chance de ser assitidos que um documentário da bbc, por exemplo. Não pretendemos e nem queremos fazer jornalismo sério, aliás, “não pretendemos nada!”. Queremos simplesmente mostrar e fazer coisas q gostamos e acreditamos, e quem se identificar que assista. Os fashion clips nasceram de uma vontade de exibir o meu trabalho em uma nova midia, conectando a moda com um novo público (todos os fashion clips têm créditos de roupas a venda nas lojas e funciona tbm como uma prestação de serviço do site, estamos subindo as galerias de imagens de cada clip, que em breve ganhará hotsite, que misturará fotos com vídeo.)

Overmundo: Como a Gema TV se posiciona em face do You Tube, por exemplo, que atrai a maioria da atenção dos usuários em busca de vídeos? Vale apostar em um site de nicho, com conteúdo específico?

JC: Após a avalanche de vídeos na internet, se sobressair aos demais é um desafio. Ser super assistido no Youtube não é o nosso objetivo. Estamos mais preocupados com a qualidade do público que nos assiste do que com a quantidade de vezes que o vídeo foi visto. O nosso publico preza por qualidade tecnológica e visual e queremos proporcionar prazer enquanto ele navega no site. Não queremos “ser mais um” no youtube, queremos que o youtube seja mais um site onde divulgaremos o nosso trabalho. Inclusive, ainda temos que fazer a nossa pagina lá. Foi tanta correria que não deu tempo ainda. Adoramos o myspace, por exemplo, que reúne mais o nosso publico, os tais "apaixonados por moda e tecnologia"...

Overmundo: Um denominador comum de projetos novos é que no começo as pessoas ainda não sabem bem para o que eles servem. Foi assim com o começo do Orkut, do Twitter e do Second Life. Então, pergunto, para que serve a Gema TV?

JC: Para entreter, divertir e informar. Queremos fazer com que pessoas do mundo todo possam exibir seus vídeos, contando um pouco do que estão fazendo, vendo, e que isso possa interessar ao público. "Comunicar" é a palavra de ordem. Estamos caminhando para o "nosso" futuro, aquele que quando crianças sonhávamos em viver, com parentes próximos e amigos aparecendo nas telas de tv em tempo real para nos visitar, onde a tecnologia seria nossa aliada, e para nós esse futuro já é o presente, é só aproveitar o que a tecnologia vem nos oferecendo.

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DaniCast
 

Sabe por que cada vez mais as pessoas não assistem TV? Porque a programação da TV está cada vez pior. Porque TV não é interativa. Porque a internet dominou.
As pessoas não estão em estado de negação, dizendo que não assistem TV só para posar de cult. A TV vem perdendo mesmo os espectadores, perdendo para a internet e a TV a cabo.
Eu não assisto TV aberta há 15 anos, não assisto TV a cabo há 6 anos mas não vivo sem internet. A internet se transformou no veículo de comunicação mais barato e mais completo que o ser humano já criou.
O mais curioso é que estava conversando com alguns amigos outro dia e o comentário é sempre o mesmo: não tem nenhuma novidade na TV, a TV sempre passa as mesmas coisas.
É por isso que as pessoas dizem que não assistem TV: elas não assistem mesmo!

DaniCast · São Paulo, SP 6/8/2007 09:49
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ronaldo lemos
 

Oi Dani, eu concordo com você. As pessoas estão assistindo cada vez menos televisão e por várias razões. Esse artigo aqui, por exemplo, mostra como os japoneses estão deixando de assistir TV no horário nobre por causa do sucesso do Wii, videogame da Nintendo. O meu ponto no texto é que, mesmo quando não havia mídias novas, a linguagem televisiva nunca era levada muito a sério. Deveria ser o contrário: quanto pior a programação da TV, maior deveria ser a experimentação e os estudos sobre a televisão enquanto mídia. Mas isso não aconteceu. Agora com as novas mídias surge a oportunidade de qualquer pessoa contribuir para inovar essa mesma linguagem deixada de lado por anos.

ronaldo lemos · Rio de Janeiro, RJ 6/8/2007 15:48
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dudavalle
 

A internet também estah cheia de lixo assim como a tv, mas se procurar tem coisa boa nas duas, a diferença obviamente estah na relação de passividade da tv.

dudavalle · Rio de Janeiro, RJ 7/8/2007 12:57
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Tânia Brito
 

Achar algo muito interessante na tv é mesmo uma garimpagem... Alguma coisa aqui e outra ali! Mas que bom então que experimentações como essas venham reinventar ou inovar essa linguagem televisiva...
" Mas sair do óbvio, isso sim foi uma das intenções"... Só por isso já tem crédito o projeto!
Parabéns pela matéria Ronaldo. Gostei bastante!

Tânia Brito · Campo Grande, MS 7/8/2007 15:08
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dudavalle
 

dudavalle · Rio de Janeiro, RJ 8/8/2007 01:13
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dudavalle
 

Tânia,
Vou citar alguns :
(re)corte cultural com Michel Melamed
Roda Viva com Markun
Provocações com Abujamra
Cafè Filosófico
Invenção do Contemporaneo
Debate com Lobão

dudavalle · Rio de Janeiro, RJ 8/8/2007 01:18
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Tânia Brito
 

Sim Duda. Desses, gosto do Roda Viva e bastante do Café Filosófico. Que venham mais e mais! Pra ligar a tv e estar passando algo bacana e não ter que esperar tal dia, tal horário pra ver coisas legais!
Abs

Tânia Brito · Campo Grande, MS 8/8/2007 16:22
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DaniCast
 

Mas aí é que a internet se transformou em um diferencial de peso: você assiste o que quiser, na hora que quiser e ainda interage. Basta ver o sucesso do Youtube. O Yutube é uma "tv" oned as pessoas escolhem o que querem ver na hora que querem, ainda podem votar, comentar e postar seus próprios vídeos! Essa interatividade e dinâmica é que está fazendo com que o velho modelo televisivo esteja morrendo aos poucos. A própria Rede Globo vem perdendo anunciantes, porque não traz mais o retorno que trazia antes da internet. Na minha opinião veremos cada vez mais yuotubes, ou seja, comunidades interativas onde todos são programadores e todos são audiência ao mesmo tempo.

DaniCast · São Paulo, SP 10/8/2007 19:45
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