Quien és más macho: Cartola ou Niemeyer?

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Marcelo Oliveira da Silva · Porto Alegre, RS
2/11/2007 · 115 · 5
 

Cartola e Oscar Niemaier são dois ícones da cultura brasileira que recentemente tiveram suas biografias reverenciadas, cada uma a sua maneira, em bons documentários. A disputa não é parelha e já começa pelo apelido versus sobrenome. Cartola – Música para os Olhos não explica sequer a origem da alcunha de Agenor de Oliveira, criador da Escola de Samba da Mangueira, nascido em 1908, falecido em 1980. Oscar Niemeyer – A vida é um sopro, informa até que o mais longevo e notável de todos arquitetos vivos (completará um século em novembro) foi homenageado pela Escola de Samba Unidos de São Lucas no desfile de carnaval do Rio em 1989.

Melhor financiado, o documentário de Fabiano Maciel levou oito anos e várias viagens internacionais para ficar pronto e provavelmente seja o melhor já feito sobre Niemeyer, que foi entrevistado diferentes vezes naquele período. Talvez isto tenha conferido ao filme um certo ar de autobiografia, pois mesmo que dezenas de personalidades tenham sido convidadas a depor (José Saramago, Eduardo Galeano, Eric Hobsbawn...) Niemeyer sempre teve a última palavra. Possivelmente a única crítica possível, aquela pra cobrar perfeição mesmo, é que alguns argumentos críticos importantes não foram respondidos pelo arquiteto e caberia ao entrevistador insistir. É certo que a aura de um centenário intimida qualquer perguntador, imagina quando ele é genial (e não se brinca com esse adjetivo). Mesmo quem conhece a fundo a biografia de Niemeyer (que só perde para a rainha Elisabeth como celebridade há mais tempo no topo, livrando décadas de Fidel Castro e Mick Jaeger) vai encontrar novidades.

Antes de comparar, é preciso diferenciar os graus de dificuldade. A tarefa de Lírio Ferreira e Hilton Lacerda, que dividem roteiro e direção dos 85 minutos dedicados a um (materialmente) pobre sambista nascido e criado nas favelas do Rio, e ali falecido há mais de um quarto de século, era infinitamente mais difícil. Não há elogio suficiente para a pesquisa de imagens feita por ambos. As centenas de horas despendidas em diferentes arquivos nos trazem cenas absolutamente comoventes, como no reencontro em que um já envelhecido Cartola canta ao violão um samba para seu pai.

Ao filme não falta reverência ao mestre e suas composições, que também são notáveis pela sofisticada simplicidade para quem escuta e suma complexidade para quem executa. Chico Buarque que o diga. Entretanto, falta flagrantemente aos realizadores um mínimo sentido de método. Não sabemos nunca quem está sendo entrevistado, nem quando. Não há uma linha de tempo para que o leigo possa agrupar mentalmente aquilo que o filme vai revelando. Várias pequenas histórias são iniciadas sem que uma acabe para que a outra comece. Raras são contadas até o fim. Que doença atacou o nariz do sambista e por que diabos a operação nele ficou incompleta? As poucas histórias inteiras exigem memória e capacidade associativa de um bom detetive porque estão embaralhadas.

Li e ouvi eses dois realizadores dizerem que essa bagunça foi proposital, que refletia a conversa de boêmios, tal qual Cartola vivia. Ora, essa desculpa é conhecida desde que a sala de aula foi inventada. Justificar-se desta maneira ou aceitar uma justificativa destas é preguiça intelectual. Sendo o carnaval do Rio um dos maiores espetáculos da terra, Cartola foi das figuras mais centrais na concepção atual deste que é talvez o mais internacional entre os patrimônios culturais do Brasil. (Alguém aí apostaria na arquitetura?) Que se elogie a iniciativa dos diretores em resgatar a memória de Cartola, mas que voltem à mesa de corte para remontar a história (e incluir intertítulos nas muitas vezes que falta qualidade ao som) para que esta cine-biografia esteja à altura do mestre. Conteúdo pra que seja definitiva não falta.

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Jornalista81
 

Eu voto no Cartola! Porque aqui em Brasília o Niemeyer rouba todo o crédito do verdadeiro gênio, o Lúcio Costa!

Leia meu texto quando puder
http://www.overmundo.com.br/overblog/um-pequeno-exemplo-cosmico-do-caos

Jornalista81 · Brasília, DF 1/11/2007 16:50
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Andre Pessego
 

Marcelo, muito boa a tua inserção.
- Tem pessoas que alcançam este estágio, este patamar: situar-se acima do bem e do mal. Assim se situam entre nós estes dois nomes.
- Acho, sem querer contrariar a opinião do JornalistaB1, foi
o povo que foi incorporando mais "valores e realizações ao Oscar que ao Lucio", e não propriamente um ou outro.
Mas a Historia, o tempo, irão corrigindo. Veja o caso de Fidel e Che Guevara; Domingos Jorge Velho, a Princeza Isabel...
um abraço, (desculpa ao meu intelectual Jornalista), andre.

Andre Pessego · São Paulo, SP 2/11/2007 07:51
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Marcos Paulo Carlito
 

Não assisti nenhum dos dois. Mas voto em tua colaboração porque é um registro de fatos Históricos.

Grande abraço Guaicuru!

Marcos Paulo Carlito · , MS 3/11/2007 11:00
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adan arr.
 

nossa, amanhã será exibido gratuitamente o documentario sobre o Cartola aqui em Maringá. em uma casa de rock.
o meu voto vai pro Angenor, é claro.
:*

adan arr. · Maringá, PR 7/11/2007 21:31
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Marcelo Oliveira da Silva
 

Depois conta pra nós o que você achou.
abraços!

Marcelo Oliveira da Silva · Porto Alegre, RS 8/11/2007 15:34
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