Raízes fincadas na rede e na rima

Helena Aragão
Dudu na praça de Morro Agudo: logo do movimento foi grafitada no Encontrão
1
Helena Aragão · Rio de Janeiro, RJ
10/3/2007 · 166 · 5
 

Morro Agudo é um dos bairros mais populosos de Nova Iguaçu, município fluminense. Tem poucas opções de lazer e atividades culturais. É de lá que um foco de arte engajada vem chamando atenção. O Movimento Enraizados é identificado por seus membros como “uma rede de auto-ajuda”. Um auxilia o outro, ensinando o que sabe e colaborando para o conhecimento coletivo e para a conscientização cada vez maior via elementos do hip hop: rap, break e graffiti. Claro que isso não quer dizer que hoje em Morro Agudo todo menino sabe rimar e por todo canto há gente com colorjet grafitando os muros. Na comunidade, a iniciativa vai mostrando força aos poucos, atraindo interessados e o poder público.

Na internet, Morro Agudo tem status de iniciador do Movimento Enraizados, que hoje já conta com representantes em 16 estados brasileiros: Acre, Rondônia, Amapá, Rio Grande do Norte, Paraíba, Piauí, Bahia, Alagoas, Tocantins, Brasília, Mato Grosso, Santa Catarina, São Paulo, Minas Gerais, Espírito Santo e Rio de Janeiro. A rede tem um portal de notícias, promove eventos e oficinas, lança coletâneas e camisas, participa de fóruns sociais e musicais e tem linha direta com prefeituras e Governo Federal (é Ponto de Cultura do Ministério da Cultura e Ponto de Presença do Ministério das Comunicações). Faça a experiência de jogar “Morro Agudo” + “Nova Iguaçu” no Google e confira: uma das primeiras coisas que aparecem em destaque é Dudu de Morro Agudo.

Este é o apelido e a identificação como rapper de Flávio Eduardo da Silva Assis, jovem morador do bairro que um dia resolveu transformar inquietação em ação. Em 1999 ele já era entusiasta do hip hop e leitor voraz de revistas sobre o movimento. Sua empolgação contrastava com a cena local e mesmo do estado do Rio que, segundo ele, não tinha unidade. Resolveu então mandar cartas (isso mesmo, pelo Correio) para grupos de São Paulo, da Paraíba e do Piauí a fim de trocar informações. Para sua surpresa, as respostas começaram a chegar aos borbotões e a conversa se intensificou no decorrer dos meses.

Tanto que em 2000, Dudu, que sempre foi autodidata, concluiu que aquela comunicação só iria para frente se eles começassem a usar a internet. Encarou o HTML e criou o Portal Enraizados – nome que tem alguma influência do reggae, ao mesmo tempo que, segundo Dudu, “tem tudo a ver com o hip hop”.

A partir daí a rede só fez crescer. Em termos, digamos, “macro”, apresentou o povo do Rio a grupos que já estavam alguns passos à frente. “Fiquei muito impressionado com o nível de organização e envolvimento político do pessoal do Nordeste. Se não fosse o contato com eles, talvez a gente não tivesse ido tão longe”, conta Dudu. Esse “tão longe” é metafórico e envolve também a esfera “micro”, que não deixava de ser o objetivo inicial. Dudu percebeu que existia gente apaixonada por hip hop em várias periferias do estado no Rio, como K2, de São Gonçalo, Neném, de Barra do Piraí, e Fiell, paraibano que veio morar na Cidade de Deus.

O primeiro desafio foi tentar integrar cada vez mais gente no estado do Rio – e não só pela internet. “Aqui o hip hop é muito favela e em favela há facção. Mesmo que o cara não seja do crime, ele pode se indispor com as pessoas da facção inimiga. Foi por isso que a gente resolveu promover o Boladão, um futebol que junta gente de várias comunidades. É uma tarde só de alegria”, explica Dudu. Nos últimos anos, o evento foi realizado em Praça Seca e na Vila Operária, em Caxias. A idéia é levar para outras áreas.

Já em 2001, o Enraizados lança seu primeiro produto: uma coletânea que reúne grupos e rappers de seis estados brasileiros. Segundo o portal, “esta foi a primeira coletânea de rap independente a nível nacional, onde os grupos se conheciam apenas através da internet”. Em 2002 veio a segunda, “Dudu de Morro Agudo apresenta A Banca”, sendo a banca um conjunto de grupos que ele valorizava em quatro estados. Foi nessa época que o movimento se consolidou, expandiu seus trabalhos e eventos, envolveu-se na militância. Aos poucos, algumas pessoas de Morro Agudo perceberam e estimularam o esforço da rapaziada. Uma mulher da comunidade ofereceu o quintal de sua casa para a realização de oficinas de rap, break e graffiti aos sábados. Em 2003 a visibilidade foi ainda maior: passaram a organizar festas e realizar oficinas contratadas, além de viajar para fazer shows e reuniões em outros estados e agenciar grupos de hip hop. Nessa época o Enraizados se filiou ao Movimento Hip Hop Organizado Brasileiro (MH2OB) e Dudu passou a cumprir a função de coordenador de comunicação da entidade nacional.

O amadurecimento culminou com a realização do evento Raiz do Hip Hop, em 2004, na Cerâmica de Nova Iguaçu. “Foi a primeira vez que fizemos um evento desse porte na nossa comunidade-berço. Já tínhamos algum reconhecimento nacional graças à internet, mas o alto grau de exclusão digital na nossa área não dava possibilidade de comunicação alternativa”, conta Dudu. Palestras, exposições, batalhas de break e freestyle permitiram a integração dos jovens de Morro Agudo com gente de diversas cidades do Rio de Janeiro.

2005 foi um ano chave para os Enraizados. Para integrar mais a comunidade, eles passaram a produzir o Zine “Voz Periférica”, com periodicidade mensal e tiragem inicial gratuita de 200 a 300 exemplares. A coletânea “Raiz do Hip Hop” foi lançada com os artistas (praticamente todos de Morro Agudo) que se apresentaram no evento do ano anterior. Começaram a ser realizados os Encontrões, eventos mensais feitos na rua para escoar a produção dos oficineiros e para oferecer internet para a população – num deles, promoveram a grafitagem da pequena praça de Morro Agudo. Tudo feito na camaradagem: Dudu botava seu próprio computador na rua, uma empresa de internet do bairro dava o suporte tecnológico, um tio de Caxias emprestava a tenda para dias de chuva e pronto. Hoje em dia, a coisa cresceu. O Encontrão recebe gente de vários estados e deixou de ter periodicidade fixa. O próximo será em maio e terá como tema os problemas da comunidade.

Ainda em 2005, Dudu reuniu rappers, bboys, grafiteiros e quem mais aparecesse para articular a consolidação do movimento, a partir da conquista com um canal direto com o Governo Federal e a possibilidade de criação de um Ponto de Cultura. Foi nessa reunião que apareceu uma figura que até então nada tinha a ver com o hip hop, mas acabou virando pessoa-chave na organização: Luiz Carlos Dumontt é ator e presidente da Cia. Encena de Teatro. Com ele e os outros membros da organização, Dudu alugou uma sala em Morro Agudo, recebeu quatro computadores e alguns equipamentos de áudio e vídeo. A articulação com o Governo Eletrônico - Serviço de Atendimento ao Cidadão (Gesac), programa do Ministério das Comunicações que promove inclusão digital em comunidades de baixo Índice de Desenvolvimento Humano (IDH), permitiu a chegada da internet por satélite. “Aqui o pessoal praticava hip hop dentro de casa, de qualquer jeito, tirava até o leite das crianças. Agora a gente recebe as ferramentas em estado meio bruto, mas não ficamos reclamando e esperando ajuda. Fuçamos até botar tudo funcionando”, garante Dudu.

O upgrade na internet e a articulação de Dumontt fazem a rede agigantar. E o portal também. Hoje ele tem músicas em MP3, clipes, entrevistas, colunistas, fotos, links dos parceiros de vários estados e banners pagos. Quem quer ouvir o som dos Enraizados deve se preparar para absorver todo tipo de mensagem. Dudu explica: “Nunca vi tanta diversidade dentro de uma organização. Tem preto, branco, homo, hetero, kardecista, evangélico. Um dos melhores rappers que conheço diz que está no movimento para passar a mensagem de Deus. Uma vez veio um ônibus de Minas para um Encontrão que tinha evangélico e um grupo de presos em regime semi-aberto que tiveram autorização para viajar. A gente tem que estar junto no que nos une. Isso não é mérito do Enraizados e sim do hip hop”.

Espírito CC mesmo antes de conhecer

Desde a primeira coletânea lançada, os Enraizados estimulavam a venda e distribuição sem limites. Só depois de alguns anos foram ouvir falar pela primeira vez de Creative Commons. Desconfiado como sempre, Dudu foi pesquisar. E percebeu que era só um nome para o que já praticava há tanto tempo: a disseminação livre da mensagem do hip hop. Aí eles abraçaram para valer projeto CC, como fica claro no texto do portal sobre a última coletânea, gravada no Sexto Encontrão, em novembro de 2006: “Todos esses grupos aceitaram disponibilizar essas músicas para livre comercialização, sob a licença Creative Commons, desde que estejam todas juntas neste CD. Liberaram para disponibilizá-las na internet e em outros meios, inclusive sampleá-las, desde que as novas obras derivadas destes samples estejam sob a mesma licença. Pronto, nasceu mais um projeto LIVRE!!!”

Os discos lançados são vendidos por membros dos grupos e levados para os camelôs copiarem. Dudu explica: “No hip hop ninguém recebe cachê. Mas você pode vender camisa e até discos dos outros. A idéia é fazer o produto para o pessoal poder ganhar algum dinheiro. Por isso a idéia da coletânea, pois aí o sujeito tem que vender a coletividade. Quando botamos a música na internet, estamos assumindo que não é nossa prioridade ganhar dinheiro com a venda. Mas não tenho nada contra o fato de o camelô ganhar um dinheirinho com o disco. Pelo menos vai ajudar alguém. Hoje minha música é ouvida em Angola, em Portugal. Mas o tiozinho aqui da rua não ouvia. Então não vejo outra forma de chegar até a comunidade que não seja por meio do camelô”. Por isso, eles dizem que fazem “o primeiro CD pirata totalmente original do país”.

Sendo ou não o primeiro, trata-se de um exemplo consciente e radical de Open Business (Negócio Aberto). De tão aberto, fica difícil quantificar as vendas e volta e meia rolam situações curiosas. Quando foi ao Fórum Social Mundial de 2003, em Porto Alegre, Dudu viu uma das coletâneas sendo vendida numa barraca. Não faz a menor idéia de como o material chegou lá, mas ficou feliz. Em Morro Agudo, quando soube que um camelô tinha copiado e estava vendendo uma coletânea, foi até a barraca conversar. Na hora, o rapaz escondeu os discos. Dudu perguntou e o vendedor negou. Depois de insistir, viu o disco e falou, sorrindo: “Poxa, a gente tem o maior trabalho para fazer uma capa bonitinha e você faz uma cópia vagabunda dessas! Vê se da próxima vez faz uma xerox melhor”.

Com isso, a demanda aumentou. Tanto que não é mais tão fácil definir o público-alvo: “Há cinco anos eu diria que era gente de 14 a 30 anos. Hoje mudou. Tem gente de 50 ouvindo rap.” Agora, eles se preparam para lançar a quinta coletânea e o primeiro DVD dos Enraizados.

Rotina de trabalho

O Movimento Enraizados tem dezenas de membros pelo país, mas atualmente há oito pessoas que trabalham no escritório do movimento, uma pequena sala num prédio de dois andares em Morro Agudo, alugada desde que o Ponto de Cultura foi concretizado. Lá há cinco computadores e alguma aparelhagem de som e vídeo. O grupo tem uma escala de trabalho, cada um com uma função: produção de áudio, vídeo, internet, etc. Não há remuneração fixa e sim a partir do que conseguem vender. O único que vive do Enraizados é Dudu. Os outros encaixam este trabalho com os seus “principais”: tem camelô, profissionais em suporte de informática, donas de casa e muitos estudantes. Luiz Carlos Dumontt leva seu trabalho com teatro em paralelo e duas vezes por semana trabalha no projeto Nós do Morro. “A gente quer fazer as coisas do jeito certo. Eu podia extorquir alguns moleques, botar para trabalhar e pagar uma merreca. Mas não quero criar seguidores e sim líderes, quero pensar no crescimento deles”, raciocina Dudu.

Os custos de manutenção fixos são baixos: apenas o pagamento de aluguel e conta de luz. A manutenção dos computadores é feita pelos próprios membros da iniciativa. “Se no fim do mês vemos que não vamos ter o dinheiro para pagar o aluguel, juntamos a galera para vender CD e completar a grana”, explica Dudu.

Os CDs são vendidos por R$ 5. O dinheiro fica todo para o vendedor, a não ser que use a estrutura do Enraizados para imprimir as capas e pegar CD virgem. Aí R$ 2 da venda volta para o escritório. Há também as camisas do Movimento, que levam a logo com três carinhas de óculos escuros e fones de ouvido. “Nosso sonho é que vire uma marca forte que nem uma Nike da vida. Que as pessoas vejam as três carinhas e já saiba que é o Enraizados”, conta Dudu. O preço sugerido é de R$ 15, dos quais R$ 12 devem voltar para o movimento. Nada impede que a pessoa venda por R$ 30, contanto que a parte fixa volte para os produtores. Os CDs e blusas também são enviados via portador ou correio para pessoas de outros estados venderem. Nos eventos do movimento as vendas aumentam. “Num show vendo 50 CDs fácil, fácil”, garante Dudu.

Mesmo sem saber quanto exatamente os discos venderam, há números referentes ao que o escritório conseguiu distribuir. A coletânea “Raiz do Hip Hop” vendeu 3 mil cópias. “Dudu de Morro Agudo apresenta a banca” vendeu 5 mil. Os Enraizados também faturam com o agenciamento de grupos de hip hop, ganhando 10% do lucro gerado nos shows.

Para divulgar todas as empreitadas, O Movimento Enraizados conta com um mailing com 10 mil endereços eletrônicos e com banners em sites de entidades parceiras. Sem internet, dificilmente teria dado os primeiros passos. “Tudo é graças à rede. Para você ter uma idéia, quem me ensinou a fazer projeto de patrocínio foi um cara do Acre”, exemplifica Dudu. Eles são alvos constantes de matérias em revistas especializadas e, mesmo sem buscar, foram tema de uma matéria de cinco páginas do jornal O Dia, um dos mais populares do estado do Rio. O grupo tem um quadro de 15 minutos na Rádio Tropical Solimões, de Nova Iguaçu e os jornais da cidade também noticiam nas novidades. A divulgação visa a popularização: “Queremos ficar conhecidos pelos camelôs”.

Hoje, segundo eles, a prefeitura de Nova Iguaçu não realiza um evento cultural sem entrar em contato com o grupo. O reconhecimento oficial alegra a todos, mas eles querem mais. Estão se preparando para abrir um telecentro em Morro Agudo, mas dependem da chegada de computadores para serem reciclados. “O telecentro vai desesperar os donos de lan-houses por aqui”, diverte-se Dudu. Enviaram um projeto para o Programa Petrobras Cultural com o objetivo de bancar os encontrões e pagar os grupos participantes. “Hoje o pessoal nos vê organizados e vai seguir o exemplo para se organizar também, como fizemos quando conhecemos o povo do Nordeste. E aí vai. Daqui a alguns anos todo mundo da periferia vai aprovar projetos por aí”.

compartilhe

comentários feed

+ comentar
Dudu de Morro Agudo
 

Muito boa a matéria, conseguiu retratar o que é realmente o Movimento Enraizados.

Dudu de Morro Agudo · Nova Iguaçu, RJ 9/3/2007 13:26
3 pessoas acharam útil · sua opinião: subir
neto727
 

Realmente esta materia esta show, retrata a história do movimente com muita clareza e a evolução que vem tendo em todo esses anos. Eu particularmente fico muito feliz com tudo que vem acontecido detro deste movimemento, ja que conheci de perto o nascimento desta ideia crescendo dentro do coração do mano Dudu de Morro Agudo, e venho acompanhando de longe e as veses de perto em alguns shows e encontros que fui o que tem acontecido. É incrivel a proporção e a importancia que o Movimento Enraizado vem tendo para o crescimeto socio cultural de nosso municipio, os eventos vem incentivando cada vez mais as pessoas a apreciar e a entender cultura Hip Hop. Por esse disprendimento e determinação, só tenho que dar os parabéns a todas as pessos que de alguma forma fazem o Movimento Enraizados chegar ao patamar de onde chegou....
Valeuuu.
Enraizado até os ossos...
Neto.

neto727 · Nova Iguaçu, RJ 12/3/2007 12:23
sua opinião: subir
Re.Fem
 

Parabéns!!!
Este é o Movimento Enraizado do Brasil!!!!
Tamus juntus!!!

Re.Fem · Duque de Caxias, RJ 12/3/2007 13:12
sua opinião: subir
Tetê Oliveira
 

Muito legal a matéria, Helena. Apesar de ser "vizinha" do Dudu, e ter trabalhado tanto tempo no Viva Favela, com correspondente na Baixada, não conhecia o trabalho do movimento Enraizados. Isso é que é legal no nosso trabalho: há sempre muitos projetos, personagens, histórias interessantíssimos a se descobrir - e divulgar. Parabéns à turma do Enraizados!

Tetê Oliveira · Nova Iguaçu, RJ 13/3/2007 00:17
sua opinião: subir
joao xavi
 

que boa surpresa encontrar por aqui uma matéria tão bacana sobre o enraizados.
é um trabalho sinistro mesmo, matar um leão por dia, mas as conquistas podem ser vistas a olho nu.
dia 06/07 estaremos celebrando um pouco dessa batalha no ressaca hip-hip. p,10, dudu de morro agude e eu.
quem viver vera

joao xavi · São João de Meriti, RJ 2/8/2007 04:12
sua opinião: subir

Para comentar é preciso estar logado no site. Faça primeiro seu login ou registre-se no Overmundo, e adicione seus comentários em seguida.

imagens clique para ampliar

QG dos Enraizados - Software livre e paredes coloridas zoom
QG dos Enraizados - Software livre e paredes coloridas

áudio

O Dom da Disposição, de Dudu de Morro Agudo

Instale o Flash Player para ver o player.

filtro por estado

busca por tag

revista overmundo

Você conhece a Revista Overmundo? Baixe já no seu iPad ou em formato PDF -- é grátis!

+conheça agora

overmixter

feed

No Overmixter você encontra samples, vocais e remixes em licenças livres. Confira os mais votados, ou envie seu próprio remix!

+conheça o overmixter

 

Creative Commons

alguns direitos reservados