ready made, antropofagia e brasilidade

marcel duchamp
1
francesco napoli · Belo Horizonte, MG
6/9/2008 · 63 · 7
 

O ready made de Marcel Duchamp, a antropofagia de Oswald de Andrade e a construção de uma identidade artística brasileira.

Não há dúvidas que Duchamp é um dos maiores artistas do séc. XX. Suas atitudes e gestos desmistificaram a arte e provaram que arte e vida podem se relacionar antecipando o conceito de bricolagem que chegou até a música pop na forma de “do it yourself” que é a origem da verve do punk rock. O ready made pressupõe uma incorporação de algo não artístico que é trazido para a esfera do artístico pelo simples gesto do artista, que escolhe e delibera sobre o que é e o que não é arte, mas o próprio ready made não é arte, já que seu objetivo é a ironia e a crítica.

Quando Duchamp desce a arte de seu pedestal etéreo para o chão da vida, a arte se “democratiza” como previu Walter Benjamin e, o que veio a se chamar música pop, de um jeito ou de outro, legou o espírito duchampiniano e nos chegou com as vantagens e desvantagens da reprodutibilidade técnica.

Esta incorporação de elementos não artísticos se desdobrou, na arte contemporânea, em incorporação de elementos de outras obras para comporem as novas obras, promovendo um rico diálogo entre os artistas e caracterizando a arte moderna e contemporânea pelo meta-discurso.

Quando, no final da década de vinte, Oswald de Andrade propõe uma antropofagia artística, há uma desmistificação da idéia segundo a qual construir uma identidade nacional seria retomarmos apenas os primeiros habitantes dessa terra: os índios. Partindo desta proposta, Oswald cria o conceito de antropofagia, no qual nossa cultura devora o estrangeiro e, a partir dessa incorporação (um corpo que devora o outro), há uma constituição artística autêntica.

Os índios brasileiros nunca praticavam antropofagia para se alimentarem, mas sim com a intenção de incorporar o inimigo, reconhecendo suas virtudes e desejando obtê-las por meio deste ato. Este seria o principal traço de uma cultura tipicamente brasileira, o colonizado devora o colonizador: na arte os papéis se invertem. Como disse Tom Zé, “a bossa nova inventou o Brasil e teve que fazer direito”.

É esta a grande inovação que a geração da ditadura nos legou: No auge da repressão, o espírito da modernidade artística chega à música pop/popular brasileira e, desprovido de bons modos, devora os estrangeiros, incorporando suas virtudes do modo mais brasileiro. Oswald tinha razão: a brasilidade sempre esteve no canibalismo, o Brasil é junção, mistura, incorporação, em uma palavra: antropofagia. Do mesmo modo que, por exemplo, o congado mineiro tem ritmos africanos para louvar Nossa Senhora do Rosário [os santos europeus convivem com orixás africanos] Gilberto Gil e Os Mutantes utilizaram guitarras elétricas para os puristas da M.P.B no Domingo no Parque: chuva do mesmo bom sobre os caretas. Sempre fomos miscigenação, sempre fomos inclassificáveis como disseram Arnaldo Antunes e Chico Science.

O tropicalismo traz a antropofagia da esfera da literatura/filosofia para a cultura de massa, incorporando elementos da música pop do hemisfério norte, e traduzindo-os em uma nova linguagem. A partir daí a música pop/popular brasileira aprendeu a devorar. A tropicália, no final dos anos sessenta, inicia o banquete proposto por Oswald de Andrade. Já a década de oitenta quase não devorou, apenas engoliu e, nos anos noventa, temos uma retomada da antropofagia.

E assim o tropicalismo ensinou: decifra-me, ou te devoro. Incorporação de tudo o que pulsa, que vive, do rock aos regionalismos, da inovação absoluta da bossa nova de João Gilberto, até o iê iê iê romântico mal deglutido da jovem guarda.

O Virna Lisi, grupo mineiro, pioneira e magistralmente propôs um rico diálogo entre rock , samba e experimentações fonéticas, o que antecipou e, sem dúvidas, influenciou propostas artísticas bem sucedidas comercialmente, como os Raimundos, e bem sucedidas artisticamente, como o movimento Manguebeat. Chico Sciense emblematicamente simbolizou o movimento com a parabólica fincada na lama do manguezal. E os pernambucanos do Manguebeat reinventaram a música pop/popular do Brasil devorando os estrangeiros e divulgando a cultura do mangue para o mundo.

Essa marca da modernidade deixada por Duchamp nos legou a atitude característica do contemporâneo: a paródia, a apropriação, o diálogo, a arte que fala de si mesma. O Brasil soube incorporar estes elementos de forma única e podemos senti-la por toda parte. Desde, por exemplo, as experiências de djs que utilizam trechos de canções da black music norte americana até Adriana Calcanhoto, que confeccionou uma música utilizando somente fragmentos de canções de Caetano Veloso para criar uma nova canção intitulada “vamos comer caetano”.

Se a música baiana tem como característica principal, além das percussões, a guitarra elétrica; se os músicos do clube da esquina dizem amar os Beatles e se a bossa nova incorporou elementos do jazz e vice versa, isto significa que o Brasil dialoga de igual para igual com o hemisfério norte, ao menos em termos artísticos e, no século vinte, acompanhou plenamente as vanguardas mundiais. O manifesto da poesia pau-brasil de Oswald de Andrade foi escrito no mesmo ano do manifesto surrealista de Breton, 1924.

O movimento tropicalista delineou os caminhos da música brasileira e abriu portas para experimentações abalando os pilares da conservadora cultura de massa. Essas ousadias nos proporcionaram incríveis propostas artísticas, desde bandas como Secos & Molhados que até mesmo inspiraram o que veio a ser o grupo Kiss, a partir da famosa recusa de Ney Mato Grosso em participar, até a pulsante atmosfera contemporânea de bandas e artistas independentes que optam pelo risco, pela autenticidade, pela independência eminentemente criativa, devorando o que lhes interessa da cultura de massa e transformando isso em boa música pop/popular. Para exemplificar cito artistas que estou ouvindo ultimamente e que endossam meu argumento: O Vanguart de Cuiabá, O Seychelles de São Paulo, o borTam, Pedro Morais e Batucanto de Belo Horizonte, entre tantas outras...

texto publicado originalmente no jornal "O Cometa Itabirano" em Julho de 2008.
As canções do Virna Lisi podem ser ouvidas clicando ao lado desse texto.

compartilhe

comentários feed

+ comentar
Karla Gohr
 

Votado e bela aula o texto acima... beijo.

Karla Gohr · Curitiba, PR 8/9/2008 11:22
sua opinião: subir
Marcos Carvalho Lopes
 

muito legal... estiu escrevendo atualmente um ensaio sobre o Caetano aí quero comentar usnado duas falas de seu filme Cinema Falado (muito pouco debatido): " (Jovem branco escorado em um carro esporte vermelho conversivel diz em inglês]: Os Estados Unidos são o país mais velho do século XX. no meio do século XIX nós já estávamos no século XX, enquanto outros países ainda estão no século passado.
[Menino sentado em uma bicicleta de cabeça para baixo com uma bola na cabeça diz: "O Brasil ainda não chegou lá, mas vai ser o primeiro país do século XXI"
A outra é de um um diaógo televisivo, bem longo entre um casal sobre cinema, televisão e etc.: "Seu desequilíbrio entre pobreza e riqueza, arcaísmo e modernidade, ignorância e sofisticação o Brasil é ambiente propício para esses deslocamentos. Julio Bressane experimenta porque o Brasil vai precisar. Nós fazemos o filme para o sonho, não porque a realidade permita.
Formas bastardas de expressão, como o cinema, a tevê e a canção popular tendem a ganhar demasiada importância entre nós, não porque somos pobres e incultos, mas, sobretudo porque esboçamos um mundo novíssimo." Temos que nos pensar como UTOPIA, tempos a necessidade de nos inventar como síntese... Abraço


Marcos Carvalho Lopes · Jataí, GO 8/9/2008 11:44
1 pessoa achou útil · sua opinião: subir
francesco napoli
 

valeu karla! obrigado pela visita!

Gostei muito de sua idéia marcos! fiquei curioso! quando estiver pronto me mostre! Caetano é um artista incrível! abraço!

francesco napoli · Belo Horizonte, MG 8/9/2008 11:56
sua opinião: subir
Spírito Santo
 

Francesco,

Acabei de saber e votar. Faltam 8 minutos. Reposta a matéria, não é justo que ela não seja publicada.

Abs

Spírito Santo · Rio de Janeiro, RJ 8/9/2008 17:31
sua opinião: subir
Ilhandarilha
 

Texto super informativo e bem escrito, Francesco. Cheio de questionamentos legais. Concordo com o Spírito, ela tem que ser publicada!

Ilhandarilha · Vitória, ES 8/9/2008 17:36
sua opinião: subir
Hermano Vianna
 

puxa - só vi agora - pena: o Overmundo anda precisando de textos como este! voto pela republicação!

Hermano Vianna · Rio de Janeiro, RJ 8/9/2008 20:36
sua opinião: subir
ventanias
 

cara!!!que show de texto...ou melhor Mestre!!!Ah!Saudades...essa semana te ligo!!!

ventanias · Santo André, SP 8/9/2008 22:08
sua opinião: subir

Para comentar é preciso estar logado no site. Faça primeiro seu login ou registre-se no Overmundo, e adicione seus comentários em seguida.

áudio

o diálogo de amor

Instale o Flash Player para ver o player.

Cabeçal

Instale o Flash Player para ver o player.

Se desce a lona vira circo, se cerca vira hospício

Instale o Flash Player para ver o player.

7000 cabeças

Instale o Flash Player para ver o player.

O Trem

Instale o Flash Player para ver o player.

Sua cara

Instale o Flash Player para ver o player.

filtro por estado

busca por tag

revista overmundo

Você conhece a Revista Overmundo? Baixe já no seu iPad ou em formato PDF -- é grátis!

+conheça agora

overmixter

feed

No Overmixter você encontra samples, vocais e remixes em licenças livres. Confira os mais votados, ou envie seu próprio remix!

+conheça o overmixter

 

Creative Commons

alguns direitos reservados