- Tome um guri de 3 anos, filho de classe média baixa, morador do centro, que tenha o pacote básico de TV a cabo em casa e um computador conectado em banda larga.
- Uma menina de 6 anos, pobre, que assista todo domingo ao Faustão e nunca tenha mexido num pc na vida.
Coloque os dois para jogar em um site simples e assista. O resultado será servido todos os dias nas faculdades/universidades do país.
Quando fiz essa receita, observei que o menino, apesar de passar perrengues leves, como falta de grana pra comprar material escolar, consegue navegar e lê o conteúdo na web. Aos três anos, está pronto para ser caixa de supermercado, uma vez que sabe dar “enter” e realizar tarefas básicas necessárias para a tarefa. A menina está apta a ser da limpeza ou faxineira do supermercado, com três anos a mais.
Em uma análise feita com base nas aptidões, o resultado é claro: o gosto piora quando o menino passa para uma universidade pública e se forma, indo de classe média baixa para alta, e a menina passa 4 anos de sua vida gastando o apartamento que não tem em uma Faculdade que não vai ensinar a ela 20, 25 anos de defasagem tecnológica. Isso se não se endividar eternamente com o FIES.
É sério. Nas faculdades particulares de mensalidades de R$ 199,90 é que mora o perigo. Com raras exceções que eu não conheço, essas instituições distribuem diplomas em troca de grana, o MEC dá o seu aval com classificação “C”e tudo continua lindo assim.
Falo com experiência de professora, vejo uma diferença nada sutil entre os ingredientes: um está sendo feito para se tornar a parte que consome, feliz, o que pode pagar. A outra vai ser consumida pelos que podem pagar pelos seus serviços. É alarmante: o Brasil está recriando o modelo de desigualdade separando nativos digitais de nativos não analógicos excluidos digitalmente. E imagina quem é a maior parte desse bolo?
Pois é, Yasodara... Esse assunto certamente deve ser discutido, já que a desigualdade social e econômica não vem do nada. Obrigada por ter aberto o assunto e chamado a nossa atenção. Espero sinceramente que você continue escrevendo sobre isso, talvéz até em forma mais extendida, aqui no Overmundo.
Krista K · Salvador, BA 1/12/2008 00:49
Embora não tenha muito a ver com o assunto, ontem vi uma entrevista do Valdemar Setzer no Roda Viva. Na opinião dele as crianças e adolescentes deveriam ficar longe do computador, da TV e qualquer outra mídia eletrônica.
O principal argumento dele é que esses aparelhos inibem a criatividade e imaginação das crianças.
Sergio - até um certo ponto até que entendo esse argumento do Valdemar. Uma criança só jogando game no computador não é o melhor exemplo de criatividade e educação. No entanto, conhecer como funciona um computador, aprender a criar documentos/tabelas/apresentações, mexer com texto/imagem/som, aprender a
buscar (ou produzir!) informações no computador e na internet, descubrir todas as oportunidades que o uso de computador abre para uma pessoa - não vejo como tudo isso pode diminuir a criatividade de um jovem. (Na verdade, vejo conhecimentos básicos para um futuro colaborador de Overmundo - exemplo primeiríssimo de criatividade) ;)
Tudo depende de como a criançada usa o computador. E o que Yasodara está dizendo é que tem alguns que aprendem a usar e tirar vantagem dessas máquinas desde cedo, e outros que ficam fora desse mundo e as oportunidades dele.
Justamente, digo que a desigualdade agora, com a "era digital", toma proporções maiores, uma vez que a experiência digital desenvolve habilidades difíceis de recuperar. Não é como um adulto analfabeto que pode ser alfabetizado. As crianças sem contato com o digital, nascidas nessa nova época, ficam na margem para sempre. É quase irremediável. É preocupante...
Yasodara Córdova · Brasília, DF 2/12/2008 15:53Para comentar é preciso estar logado no site. Faça primeiro seu login ou registre-se no Overmundo, e adicione seus comentários em seguida.
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