Receita Para Voar

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Ana Murta · Vitória, ES
6/3/2006 · 161 · 5
 

"Deite-se de costas para o chão
apóie suas pernas em um muro
bem rente
encoste a bunda no muro
olhe paralelamente ao muro
agora veja bem!
você não está olhando para cima
você está olhando para frente
você não está deitado no chão
você está sentado no muro
o chão não é o chão
é uma parede na qual você está apoiando
suas costas
o que era muro será trampolim
para seu primeiro salto
agora em um só impulso fique de pé
não é lindo, enorme, infinito ?
vá até a beirada e pule.
pronto.
você está voando."

Foi com esse exercício poético que chegou se apresentando a banda zémaria. Ele vinha no encarte artesanal do primeiro álbum Receita para voar. Verdadeiramente independente, os CD´s foram feitos à mão, em três dias, durante o feriado de sete de setembro de 2002. Saíam do forno mil discos. Cada capa tinha uma cor, cada CD, uma seleção diferente de músicas. E a venda foi no boca a boca, mão a mão e através de cartas.

Vieram mais umas 500 cópias, e muitos elogios. Muita gente ficou de cara com a música dos meninos, principalmente quem pode conferir in loco a celebração que era o show. E ainda é. Assistir à performance dessa banda é garantia certa de diversão e prazer. Eles fazem música moderna, de qualidade, cheia de acentos diferentes, misturada e alta pra caramba.

Antes de ser Zé, era banda È, que lá pelos idos de 1997 fazia um rock pós punk, ou algo assim. E a ligação com a tecnologia começava ali. Era perceptível a procura por uma nova sonoridade, e a simpatia pelos efeitos conseguidos através dos pedais, nas três guitarras do conjunto. Marcel vinha do hardcore, da primeira formação do Dead Fish. NegoLéo era percussionista do Pé do Lixo, banda de rock percussivo. Michel veio do Acid Cake, que soava a la Helmut. E Alex, do The Rain, que fazia grunge.

O responsável pela introdução do computador foi o Constantino Buteri, ex-integrante da primeira formação, que a princípio convenceu Marcel a usar o equipamento só pra gravar, porque os caras tinham medo de que o som ficasse metalizado. Mas daí já viu, a galera tomou gosto, e surgiu o zémaria, que naquela época era uma banda, hoje é outra e vai saber que som estará fazendo daqui há alguns anos.

Sala 11

A história deles se confunde com a do estúdio Sala 11, uma casa inicialmente alugada para o aperfeiçoamento do barulho, e que mais tarde se tornaria estúdio de gravação e ponto de encontro. O nome veio do antigo local de ensaio, a sala de número 11, do Centro de Artes da Ufes. O bairro, futuramente daria nome a uma música, Jardim Camburi.

Em 1999, a primeira demo foi distribuída em fita cassete. Reginaldo Secundo era o vocalista. E o Cons respondia pelas programações e sintetizadores. Um ano depois, Sanny Lys já emprestava seu charme à banda, e seduzia o público, nascia o Receita para voar. Em 2002, pela Lona Records, um selo local, lançaram o prestigiado CD zémaria. Compuseram, gravaram, mixaram e masterizaram o disco, imbuídos pela melhor das seqüelas que o punk deixou para o mundo pop, o "faça você mesmo".

O disco, mais uma vez, foi bem recebido. Boas críticas, muitos shows e duas apresentações no Musicaos da TV Cultura. Em 2003, no Skol Beats, tocaram no palco principal, e participaram também da coletânea Café Copacabana 2 com a faixa Jardim Camburi. A banda acabou ficando maior do que o estúdio, e não dava mais para conciliar o trabalho próprio com a produção de terceiros. A evolução tecnológica também colaborou, quando os garotos descobriram que podiam carregar num lap top a parafernália toda.

Sampa

Em 2004 o terreno estava fértil para a música no Espírito Santo. Mas o zémaria, com seu som dançante, e difícil de ser classificado, estava à procura de novos espaços e públicos. Mudaram-se pra São Paulo com seus computadores embaixo do braço, e foram morar numa grande casa coletiva em Pompéia. No quarto dos fundos, um novo estúdio chamado, claro, Sala 11.

E Sampa não demorou a fazer efeito sobre o som dos caras. Descambaram totalmente pro eletrônico, influenciados pela noite paulistana. Foi aí que se consolidou o zémaria redux, com o Speedz, uma noite semanal de música eletrônica em uma casa de rock da capital paulista. A banda funcionava como host, e recebeu muita gente bacana como DJ Nepal, Loop B e Marcelinho da Lua. E toda última terça-feira do mês, eles se apresentavam.

Foi barra, mas foi bom porque eles puderam conhecer gente legal e divulgar seu nome. Depois, começaram a se apresentar em outras casas, festas, e o leque foi se abrindo. Gravaram um EP e ganharam um prêmio da Revista Dinamite. No começo de 2005, numa incursão ao Rio, tocaram em uma boate carioca, e o que era pra ser um set de 1h, durou 2h e meia. E ficou a impressão de terem acertado o alvo.

Parece que a galera entendeu a pancadaria. Todo mundo gostou e divulgou. E o Seu Dudu Marote, respeitado produtor musical, convidou a banda para participar do casting de sua gravadora, a Segundo Mundo. O disco ainda não saiu por conta de uma turnê na Europa. E aguardem, porque a rapazeada viajou com o repertório aberto, prontos para receber influências para o próximo CD.

"Os gringos esperavam a batucada, que não vinha. Mas daí há pouco eles estavam adorando o som. Lá, todo mundo é habituado com a textura do eletrônico, mas não com o groove e swing brazuca. E influência é isso. É perceber a reação das pessoas a ser brasileiro e universal", afirmam os zés.

A saga continua

Saiu um integrante, o Alex Cepille, mas o périplo continuou. Eles se apresentaram na edição 2005 do Tim Festival junto com Fausto Fawcett e Apavoramento. Agora, eles estão no estúdio, no Rio de Janeiro, fazendo alguma coisa sonora com esses mesmos caras. Pergunto se tem data pra ouvir, e a resposta é não. Se tem previsão ? "Não."

Mas a gente espera, porque o zémaria é preto e branco, e todas as outras cores. Enquanto isso, a banda indica, para ouvir, o CD Anniemal, de Annie, música brasileira da década de 70, Mundo Livre e Smokin City. Para ler, a revista Quase, jornal, qualquer publicação referente a relações internacionais. . Para assistir no teatro, Alice através do espelho; em TV de plasma LCd 42 polegadas, a TV Cultura, o DVD Bob Marley, Ao vivo em Santa Bárbara e Lucy y el sexo. Para acessar, www.rraurl.com (portal de musica eletrônica), www.taruira.blogger.com.br (blog de um DJ), www.unazen.net (site de uma banda) e www.fotolog.com/mirabolica (fotolog de uma produtora).

Eu recomendo que você vá até www.zemaria.art.br e tire suas próprias conclusões. As músicas estão lá para serem baixadas, e os meninos ficam muito contentes com essa prática. Mandam avisar que as músicas também estão disponíveis para serem inseridas em outros programas de downloads gratuitos.

E se eles passarem pela sua cidade, recomendo também não perder a chance de vê-los ao vivo. Empolgante, barulhento e altamente dançante, os shows são históricos e sempre diferentes. Cada apresentação é uma viagem. O som dos caras é eletro e acústico, suave e porrada, e contraditório. Os zés estão sempre mudando de idéia. Mas a ordem é não pirar, e seguir fazendo. A banda prega o livre arbítrio sonoro, e quem ouve agradece.

?O resumo da ópera é que por mais eletrônico que a gente tenha ficado, eu sou guitarrista e toco o sintetizador com os dois dedos. O Léo enfia a mão na batera. E se você tirar as músicas na guitarra, você toca. O zé é aquela velha discussão, digital e acústico. Porquê a gente é os dois?, conclui Marcel.

Zémaria por si mesmo

Marcel Dadalto, programações, sintetizadores e guitarra - "Sou um cara que tocava numa banda de hardcore, partiu pra música eletrônica e não tem nenhum problema com isso".

NegoLéo, bateria, programações e sintetizadores - "Eu gosto de tocar música por prazer".

Michel Spon, baixo, programações e vocal - "Eu gosto de ficar na minha".

Sanny Lys, vocal - "Eu gosto de arte, praia, sossego e música, ao mesmo tempo".

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lemarc
 

e vamo q vamo !

lemarc · Vitória, ES 8/3/2006 11:56
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Jana Assis
 

nãopáranãopára não...

Jana Assis · São Paulo, SP 11/3/2006 22:26
2 pessoas acharam útil · sua opinião: subir
(©urve)music™
 

fala ze... easy now with the new album, Ai, Ai, Ai :)

(©urve)musicâ„¢ · Combinado, TO 13/3/2006 18:59
2 pessoas acharam útil · sua opinião: subir
Jabah
 

Realmente....se alguém pretende voar um dia.... vá ao show do Zémaria! Os caras são psicopatas!

Jabah · Vitória, ES 11/4/2006 21:32
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