Recife e o Zepelim

Patrimônio Histórico
Zeppelin atracado no Campo do Jiquiá, Recife, PE
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Josué · Recife, PE
4/10/2007 · 102 · 21
 

“Um dia surgiu, brilhante/Entre as nuvens, flutuante/Um enorme zepelim. /Pairou sobre os edifícios...”

Naquele 22 de maio de 1930, o Recife viveu momentos inesquecíveis com o aparecimento da gigantesca máquina voadora prateada que competia com o sol na disputa por um lugar ao céu. Era a viagem inaugural do Graf Zeppelin na linha Friedrichshafen – Recife - Rio de Janeiro e o surgimento da glamurosa era dos dirigíveis no Brasil. A partir daquele dia, o Recife, por sua posição geográfica estratégica, seria escala obrigatória dos zepelins na rota Europa – América do Sul.

No final de tarde daquela quinta-feira, o cruzador das nuvens sobrevoava a catedral da Sé de Olinda à procura do campo de pouso. Aos poucos, os seus faróis de proa e popa acesos dimensionavam a grandiosidade da aeronave. Após algumas tentativas de atracamento, a aeronave conseguiu ser amarrada à torre de ferro construída no Engenho Jiquiá especialmente para o dirigível. Claro que aconteceu de tudo nesse dia, até uma mulher que, na tentativa de ajudar, amarrou um dos cabos a um pé de macaíba, que não resistiu e foi arrancada.

Os navios aportados no Recife acionaram em conjunto suas sirenes, assim como o carrilhão do Diário de Pernambuco. A chegada do Zeppelin era o acontecimento da cidade e não se falava em outra coisa. Conta-se que mais de 15 mil pessoas usando todo tipo de transporte (2 mil conduzindo automóveis e os bondes ficaram lotados!) correram (Lá vem o zepelim!) até o campo do Jiquiá para conferir a imensa baleia de prata.

"Noite memorável, histórica, foi bem tarde que o zepelim surgiu no céu recifense, grande multidão o esperava. Fui o primeiro brasileiro a ter contato com dirigível e com seu comandante ilustre e com o infante de Espanha, o mais significativo passageiro", disse Gilberto Freyre, então secretário particular do governador Estácio Coimbra.

O Zeppelin atracou sem incidentes e seus passageiros e tripulantes foram saudados de uma forma tal pelo governo e povo pernambucano, que jamais seria esquecida pelo seu comandante Hugo Eckener, que lamentou o incômodo causado à população recifense pelos estrondos dos motores que assustara o povo e as aves nativas da bela cidade, que carinhosamente recebia o dirigível com tanto entusiasmo. Palavras do comandante.

Na sua viagem de volta, o Zeppelin atracou no Jiquiá, permanecendo por dois dias, abastecendo-se de galinhas, ovos, água mineral, conservas e mil quilos de gelo da saudosa Fratelli Vita, além de 18 sacos de correspondência.

De Lisboa, o comandante enviou mensagem telegráfica ao governador de Pernambuco, enfatizando “a mais fidalga acolhida por parte da população e das autoridades pernambucanas. Vou sugerir que um futuro Zeppelin passe a se chamar Pernambuco”.

Mal sabia ele que foi gente correndo pra todo lado, num misto de medo e admiração. Gente usando de amizade junto aos policiais para entrar no campo. Teve de tudo! Até o empreiteiro da torre adoeceu com febre de tanto se expor no lamaçal, perto do campo.

O dirigível

A aeronave construída entre 1926 e 1929, media 236 m de comprimento, 30,5 m de diâmetro e 33,5 m de altura. Voava a uma velocidade média de 110 km/h e a uma altura de 150 a 200 m. Possuía cabines confortáveis para 20 passageiros, salão de festas, sala de leitura, sala de jantar e toaletes. Sua tripulação era composta por 26 pessoas.

Sua cor prateada refletia melhor os raios solares e não aquecia a câmara de gás, pois era uma tinta aluminizada sobre tecido de algodão que recobria as estruturas metálicas internas do dirigível. O seu volume de gás hidrogênio dava para iluminar um combustor durante 235 anos. Poderia navegar 10.000 km sem aterrissar e pesava 55 t.

Foi o primeiro e único dirigível a cruzar o oceano Pacífico e dar a volta ao mundo, realizando 590 viagens (65 ao Recife, entre 1930 e 1936). Passava pela cidade duas vezes por mês, trazendo passageiros, mala postal, carga e filmes de cinema. Entre os passageiros ilustres, o próprio presidente Getúlio Vargas que ia do Recife ao Rio, e na viagem inaugural vinha o infante espanhol D. Alfonso de Borbón.

Foi substituído pelo Hindenburg, outro famoso dirigível, que atracou duas vezes no Jiquiá, cujo incêndio no ano de 1937, em New Jersey, encerrou a romântica era dos dirigíveis. A tragédia do Hindenburg causou a morte de 26 pessoas que pularam da aeronave ou morreram queimadas, e enterrou a imagem dos dirigíveis como a forma mais segura e confortável de se navegar pelo mundo. Atualmente, o hidrogênio, altamente inflamável, foi substituído pelo hélio, mas o glamour perdeu-se no tempo.

O Campo do Jiquiá: um patrimônio abandonado


O Campo do Jiquiá, situado no sul do município, era administrado pela empresa Herm Soltz & Cia e possuía uma torre de ferro de 16,5 m de altura e 3,5 t de peso, fortemente presa a cabos de aço e piso de cimento. Foi construída em 1930, especialmente para aterrissagem do Zeppelin.

Para recepcionar os passageiros, tripulação e convidados, o campo do Jiquiá contava com um pavilhão de 315 m² com sala de embarque e despacho de cargas, posto médico, loja de selos e charutos, bar, sala de imprensa, cozinha, refeitório, dormitório de oficiais e estação de rádio, além de uma pequena fábrica de hidrogênio e um depósito de gás.

Essa torre de 1930 foi substituída, em 1936, por outra de 19 metros, montada no mesmo lugar com peças trazidas da Alemanha. Hoje a torre, localizada no bairro de Jiquiá, é tida como a única de atracação de dirigíveis remanescente no mundo. Em 1982, foi tombada pelo Patrimônio Histórico e Artístico de Pernambuco.

Há projetos para restauração da torre e criação de um sítio de preservação histórico e ambiental de 54 ha, inclusive com a recuperação do manguezal das margens do rio Jiquiá, mas os projetos não saem do papel. Enquanto isso, a estrutura vem se deteriorando e já se pode ver muitas invasões na área. O piso de madeira das duas plataformas está destruído e a ferragem mostra sinais de corrosão.

Em 1981, sete sobreviventes dos tripulantes do Graf Zeppelin realizaram uma visita sentimental, patrocinada pelo Governo de Pernambuco, Aeroporto de Frankfurt e Varig, à única torre de atracação ainda existente no mundo. Em emocionada solenidade foi descerrada uma placa comemorativa, atualmente perdida.

O Zeppelin teve direito até à poesia (“Graf Zeppelin”) do grande Ascenso Ferreira, poeta pernambucano da primeira fase do Modernismo, que reproduzo a seguir.

Graf Zeppelin

W Z! K D K A! U Z Q P!
Alô, Zeppelin! Alô, Zeppelin! Alô, Zeppelin!
Usted me puede dar nuevas del Zeppelin?
Dove il Zeppelin?
Where is the Zeppelin?
Passou agorinha em Fernando de Noronha.
Ia fumaçando!
Chegou em Natal!
(Augusto Severo, acorda de teu sono, bichão!)
Alô, Zeppelin! Alô, Zeppelin!
Rádio, rádio, rádio!
W Z - Q P Q P – G Q A A ... = Jiquiá!
Apontou!
Parece uma baleia se movendo no mar.
Parece um navio avoando nos ares.
Credo, isso é invento do cão!
Ó coisa bonita danada!
Viva seu Zé Pelim!
Vivôôôô!
Deutschland über alles!
Atracou!


Esta matéria não seria possível, sem as informações compiladas de Fernando Chaves Lins, do sítio virtual AeroFans e Camilo Soares do Le Mangue

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baduh
 

Uau! Grande artigo, Josué! Perfeito!
Até piano de calda havia a bordo! E tomava-se champagne Veuve Clicquot. Tudo o que encontro sobre os Zepellins eu leio. É fascinante. Havia varandões, com espreguiçadeiras de vime, diante das vidraças panorâmicas. Até que se deu a tragédia, que encerrou uma era. Uma pena!
Grande texto! Os nossos diálogos tupiniquins estão absolutamente encantadores (e são históricos). Meus parabéns,
Baduh

baduh · Rio de Janeiro, RJ 1/10/2007 10:54
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Josué
 

Oi Baduh,
Suas palavras me envaideceram demais. Muito obrigado pelo comentário carinhoso. Tô com essa matéria na cabeça desde que vi o zepelim no céu de Pernambuco, em "Lisbela e o Prisioneiro". Era o Titanic dos ares (o Hindenburg, quero dizer)!
Um grande abraço

Josué · Recife, PE 1/10/2007 11:56
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baduh
 

Josué.
Desculpe lá o piano de calda. Para fazer-se um piano de calda é necessário uma panela imensa (e muito açúcar!).
É já a arterioesclerose precoce (tabagismo!) fazendo (e direitinho) o seu trabalho. Não consigo parar... e já fumo há mais de 35 anos!
Leia-se, por favor, piano de cauda (esses sim, são para tocar e não para comer!) rsrs...
Voltarei para votar neste excelente artigo.
Um abraço, e, mais uma vez, peço que me desculpe o deslize.
Baduh

baduh · Rio de Janeiro, RJ 1/10/2007 12:20
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biranunes
 

Parabéns por mais uma memória dessa história surpreendente de nossa terra. Você é fera.

biranunes · Caruaru, PE 1/10/2007 12:51
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FILIPE MAMEDE
 

Josué... excelente matéria...histórica, interessante... fotografias maravilhosas. E sobrou até mesmo para conterrâneo meu no poema. Augusto Severo, hoje é o nome do nosso aeroporto e também de uma praça aqui em Natal e digo o porquê. Apaixonado pelo céu, Augusto, professor de matemática, diretor do velho Atheneu, abolicionista, líder político, orador, deputado federal, inventor da dirigibilidade dos balões semi-dirigidos ( navio de alto-mar, como ele chamava), criador do do balão "PAX", cortou os céus de Paris em 1902. Infelizmente, uma explosão levou, definitivamente Augusto Severo para o céu.
Excelente matéria. Um abraço.

FILIPE MAMEDE · Natal, RN 2/10/2007 09:39
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Josué
 

Oi Filipe,
Valeu pela força! É verdade, Augusto Severo é o Santos Dumont potiguar.
Abraço grande

Bira,
Deixei um comentário no seu post da fotografia. Muito obrigado pelas palavras.
Abraços

Josué · Recife, PE 3/10/2007 06:45
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Rosa Campello
 

Lieb Josué! Wie geht's dir? Ich bin die absteigend Reisende aus Graf Zeppelin!
Meu avô viajjou no Zeppelin, numa das 1ªs viagens entre o Rio de Janeiro e Recife. Sou fascinada, tb., pelo tubarão prateado. Beijão, e parabéns!(obrigada pelas dicas, acho q, a próxima notícia sobre o Leão Coroado, colocarei no OVERBLOG, só c fotos).

Rosa Campello · Recife, PE 3/10/2007 08:31
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baduh
 

Josué.
Votadíssimo!
Baduh

baduh · Rio de Janeiro, RJ 3/10/2007 10:28
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Josué
 

Oi Rosa,
Quando vi esse comentário começando em alemão, pensei que era alguém da tripulação do zepelim. Mas foi quase isso. Adorei saber do seu pai.
Baduh, valeu mesmo!
Abraço para os dois.

Josué · Recife, PE 3/10/2007 10:37
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Josué
 

Rosa, corrigindo,
Quis dizer "do seu avô"!!
Tô doido!
Beijão

Josué · Recife, PE 3/10/2007 11:19
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Marcos Paulo Carlito
 

Visto e votado meu irmão.

ótima matéria para Arquivo Histórico. Parabéns!

Abraços

Marcos Paulo Carlito · , MS 3/10/2007 11:33
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Joca Oeiras, o anjo andarilho
 

Querido Josué:
Joquinha Presente!
beijos e abraços
do Joca Oeiras, o anjo andarilho

Joca Oeiras, o anjo andarilho · Oeiras, PI 3/10/2007 11:34
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Josué
 

Oi Marcos e Joquinha,
Briagado pela força!
Abraço grande

Josué · Recife, PE 3/10/2007 13:47
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azuirfilho
 

Nobre Josué seu Trabalho é extraordinário.
Minha Máe viu o Zepelim no Rio de Janeiro em 1930.
Adorei seu trabalho cheio de detalhes e encantamento.
Parabéns pela sua Qualidade no difundir esse tema adorável.
Fiz uma poesia pra minha mäe e o Dirigivel, qualquer hora lhe mostro.
Um Grande Abraço e muitos Parabéns.

azuirfilho · Campinas, SP 3/10/2007 17:36
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Josué
 

Oi Azuir,
Valeu pelos elogios! Aguardarei a sua poesia. Que tal postá-la no Banco de Cultura? Me avise!
Um abraço grande

Josué · Recife, PE 4/10/2007 07:44
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FILIPE MAMEDE
 

Josué, vim, vi e, votei!
Abraço.

FILIPE MAMEDE · Natal, RN 4/10/2007 09:53
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Higor Assis
 

Delicioso o texto e muito interessante essa história.

Higor Assis · São Paulo, SP 4/10/2007 16:31
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ILZE SOARES
 

Parabéns!!! Fui logo ver sua reportagem pois fala de Recife, minha terra. Por outro lado, a história do Zepelim é sempre bem vinda. Seu texto é interessante. Votei de primeira.

ILZE SOARES · Salvador, BA 4/10/2007 16:47
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Josué
 

Valeu Ilze e Higor!!!
Um abraço forte

Josué · Recife, PE 4/10/2007 17:02
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Josué
 

Amigos,
Depois notei que um dos links (o Le Mangue), no qual vocês podem obter mais informações sobre o zepelim e de onde retirei muita coisa, está errado. O correto é www.lemangue.com.br. Mil desculpas!

Josué · Recife, PE 4/10/2007 17:03
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Elizete Vasconcelos Arantes Filha
 

Josué. Artigo muito bem construido, bela aula de história do inicio da aviação no Brasil.
Obrigada por ter me avisado que encontraia algo especial. É verdade.
Votado e votarei sempre que ler algo tão bom.
Elizete

Elizete Vasconcelos Arantes Filha · Natal, RN 4/10/2007 19:36
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Torre do Jiquiá, Recife, PE zoom
Torre do Jiquiá, Recife, PE
Graf Zeppelin sobre a cidade do Recife zoom
Graf Zeppelin sobre a cidade do Recife
Crianças no manguezal de Jiquiá com o Zeppelin ao fundo, Recife, PE zoom
Crianças no manguezal de Jiquiá com o Zeppelin ao fundo, Recife, PE

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