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RecorDança é memória da dança na internet
André Dib · Olinda (PE) · 29/8/2007 12:41 · 211 votos · 8 comentários ·  
 
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overponto
Hans Manteuffel
Elástico, Cia Cais do Corpo 1992. Coreografia virou videodança de Lírio Ferreira
Imagens
Companhia dos Homens - espetáculo Corpo Espírito, 1987
Gracita Cavendish dá aula de balé clássico no Dep Estadual de Cultura, 1969
Espetáculo "Ita", do grupo Performático TOTEM, 1991
Espetáculo "O Anjo Azul" (1983), grande sucesso da Associação de Dança do Recife
versão atual do espetáculo "Nordeste", do Balé Popular do Recife criado em 1987
Bailarina Flávia Barros, atuando no balé Municipal do Rio de Janeiro (1954)
Virou lugar comum dizer que brasileiro tem memória curta. Mesmo assim, a afirmação nunca deixou de ser verdadeira.

Fechando o foco na cultura, não é pequeno o descaso na conservação de arquivos das últimas décadas. Isso está exemplarmente denunciado no último filme de Lírio Ferreira e Hilton Lacerda, “Cartola – Música para os Olhos”. Frente a dificuldade em levantar material referente à época vivida pelo sambista carioca, os cineastas incluíram na edição pedaços de película deteriorada, fotos quase destruídas, entrevistas com áudio repleto de ruídos.

Mas, como diz o ditado, pra que chorar sobre leite derramado? Melhor cada um fazer o que está no alcance para, aos poucos, reverter a situação. Nesse sentido, projetos que digitalizam e disseminam arquivos antigos - do You Tube à Biblioteca Nacional - vêm trazendo para a consciência coletiva uma perspectiva histórica nunca antes experimentada.

Uma dessas iniciativas é o Acervo RecorDança On Line, idealizado pela bailarina e pesquisadora Valéria Vicente. Primeira experiência multimídia disposta a registrar digitalmente a memória da dança nacional, o site entrou no ar há pouco mais de 30 dias. É uma documentação inédita na internet, e neste primeiro estágio oferece informações sobre a história da dança pernambucana entre 1970 e o ano 2000.

Aos poucos, o projeto foi ganhando adeptos: Liana Gesteira, Roberta Ramos, Helena Sette, Marcelo Sena, Márcia Virgínia, Rejane Gesteira, Renata Pires, Roberta Ramos, Rozeane Ferreira, Tamisa Vicente, Carlos Ferrera, Duda Freyre, Lêda Santos e Andreína Vieira. Artistas e pesquisadores do Recife, que tiveram como desafio encontrar estratégias para acessar os documentos e indivíduos que compuseram a história da dança local. Pois até então não havia nenhuma instituição ou publicação que reunisse e preservasse essas informações.

Entre os registros mais antigos está a criação do Balé Armorial do Nordeste, em 1976. É deste mesmo período a fundação da Escola de Frevo, pelo bailarino popular Nascimento do Passo (1973), e a organização do que seria, a partir de 1977, o Balé Popular do Recife.

Para Liana Gesteira, coordenadora do acervo virtual, este é “um projeto dinâmico, que está sempre se atualizando, e disseminando histórias”. “Esta é mais uma conquista para preservação da memória em dança no país, pois vai propiciar que novas gerações possam conhecer uma parte da história artística brasileira, e fornece mais um instrumento de estudo na área da dança. Pesquisar e organizar dados históricos não é apenas uma forma de divulgar informações, mas também um mecanismo de estímulo à reflexão e ao pensamento”, diz a pesquisadora.

Na noite de lançamento do site, houve um debate sobre a necessidade da criação de cursos universitários exclusivos para a dança, com participação de Marília Rameh, Coordenadora do Movimento Dança Recife. É estranho de imaginar, mas atualmente, quem autoriza as academias de dança são técnicos formados em educação física. Ou seja, pessoas que não tem em sua formação noções de arte ou história da dança.

E essa é somente uma das amarguras da dança brasileira, geralmente relegada ao universo das “artes cênicas” na programação cultural dos jornais e até mesmo aqui no Overmundo – não há dança entre as categorias de postagem neste Overblog. Mal comparando, é como se cinema e fotografia fossem a mesma coisa.

“Para entrar nas grandes discussões da sociedade é preciso ter visibilidade e respeitabilidade. O reconhecimento do percurso histórico, das etapas que gerações de artistas da dança vem ultrapassando para se manter em atividade e sintonia com seu tempo e sociedade, legitima o trabalho dos artistas de hoje. O reconhecimento impulsiona não só a auto-estima, mas a compreensão de que as ações individuais sempre fazem parte de um contexto maior", diz Valéria.

Antenado na importância da construção de acervos de dança no país, o jornal Diario de Pernambuco preparou uma série de duas reportagens que ocupou seu caderno cultural na data de lançamento do acervo, e no dia seguinte também. "Falta informação organizada sobre a dança no Brasil, mas estão surgindo projetos como o do RecorDança. Outros países, como Paraguai, Peru, e alguns da América Central,como Costa Rica e Honduras, também estão tentando escrever sua história da dança. E a maioria das vezes isso parte dos artistas e não das instituições", declarou Sônia Sobral à repórter Tatiana Meira, autora das matérias para o Diario. Sobral é gerente de artes cênicas do Itaú Cultural, e integrante da Red Sudamericana de Danza.

Além disso, a reportagem mapeou os acervos disponíveis atualmente. Um deles é o Acervo Mariposa, de São Paulo (site atualmente em manutenção). "Concatenar as informações de dança é um ato de cidadania cultural que reafirma a necessidade da troca efetiva do conhecimento e da circulação dos bens culturais, ao mesmo tempo em que afirma a necessidade política e social em rastrear a dança ao longo do tempo", afirma Nirvana Marinho, na apresentação do Mariposa, que conta com uma videoteca com 700 fitas de dança.

Para o RecorDança, a palavra de ordem hoje é ampliar o acervo e intercambiar com experiências semelhantes no Brasil e no mundo. Por isso, ele esteve presente no 25º Festival de Dança de Joinville, um dos mais tradicionais e importantes do país, participando do seminário História em Movimento: biografias e registros da dança.

“Na medida em que suas atividades são de localização, catalogação e disponibilização de documentos sobre a dança na Região Metropolitana do Recife, o RecorDança facilita as pesquisas, lança pistas sobre possíveis conexões, bases mais palpáveis para poder se construir discursos, teorias, sobre as danças produzidas em Pernambuco e os focos de atenção dos artistas locais. Até o momento temos pouquíssimos trabalhos teóricos sobre a arte da dança no Recife, apesar de ela ter uma história de vitalidade, criatividade e inserção na cultura local”, avalia Valéria Vicente.

O Acervo RecorDança também pode ser consultado no formato CD-ROM, disponível em cinco instituições: no Instituto Itaú Cultural (SP), na Videoteca Petrobrás - Fundação Joaquim Nabuco (PE), na Biblioteca Pública Estadual Camilo Castelo Branco (PE), no Centro de Documentação Osman Lins do Centro Apolo-Hermilo (PE) e no Deutsches Tanzarchiv Köln (Alemanha).

Para acessar o acervo na internet, basta teclar na barra de busca o nome do coreógrafo, companhia de dança ou documento. Para ter a lista completa dos arquivos, basta clicar em "pesquisar" com o campo vazio.

O RecorDança continua reunindo material, agora tendo seu acervo alimentado à distância - de Brasília, Recife, Salvador, Rio de Janeiro, Rio Grande do Sul, ou onde mais seus pesquisadores estiverem. Você também pode colaborar com a construção dessa memória coletiva com fotos, vídeos, e demais registros multimídia. Basta procurar a equipe do projeto, e assim fazer parte desse movimento pela reconstrução da história da dança.

tags: Recife PE artes-cenicas


 
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Maravilha, Dib. Acho que a iniciativa é superválida, sobretudo se estiver em contato com outras dedicadas a mapear a dança brasileira. Apesar de haver pouco mapeamento, como você conta, há alguns trabalhos em andamento, seja nos outros estados ou na internet (como no site Idança).
Achei interessante o que você falou sobre a dança como categoria própria. Mas me parece que é um pouco diferente do exemplo que você dá em relação a cinema e fotografia, porque, ao que me consta, dança é sim uma das categorias das artes cênicas. E ao meu ver isso não a diminui nada como arte, é singular, como é o circo, a ópera... (essas deveriam continuar sendo consideradas artes cênicas? Imagino que isso deva gerar uma discussão enorme entre os envolvidos.)
E no caso mais específico ainda do Overmundo: aqui tudo pode ser mudado, de acordo com o uso que é feito do site. Infelizmente, há mesmo poucos textos sobre dança. Pode ser uma coisa cíclica - se não há interesse, não se criam novos interessados, etc. Pode ser também porque as pessoas que escrevem e gostam do tema ainda não descobriram o Overmundo como um espaço legal para essas discussões. Tomara que descubram e façam a dança bombar por aqui, sendo ou não uma categoria específica.
Helena Aragão · Rio de Janeiro (RJ) · 27/8/2007 14:18 
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Adoro dança, André. Parabéns pelo postado!
Beijin
Juliaura · Porto Alegre (RS) · 29/8/2007 12:17 
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Bela matéria, André!
Grande abraço!

Egeu Laus · Rio de Janeiro (RJ) · 29/8/2007 13:04 
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Excelente colaboração a tua. Iniciativas como essa do Recordança devem ser copiadas.
Um abraço.
FILIPE MAMEDE · Natal (RN) · 29/8/2007 14:55 
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Esqueci de falar das fotos. Uma mais bonita que a outra...
FILIPE MAMEDE · Natal (RN) · 29/8/2007 14:56 
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eu acho uma pena o brasileiro ter memória curta. Principalmente na política!!!
Artnococo · Natal (RN) · 29/8/2007 15:17 
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Bela matéria.Arquivada! Parabéns!
CRIS
crispinga · Rio de Janeiro (RJ) · 29/8/2007 17:46 
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Valéria Vicente André, obrigada pela matéria. Estamos muito felizes pela repercussão do recordança e da sua abordagem sobre ele.
Valéria Vicente · Olinda (PE) · 29/8/2007 18:22 
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