Recortes atuais do audiovisual mineiro

Divulgação
Imagem de Aboio, de Marília Rocha, do coletivo TEIA
1
Sergio Rosa · Belo Horizonte, MG
24/5/2007 · 186 · 3
 

Falar que existe uma “cena mineira” de audiovisual tem incomodado muita gente. A principal retratação é a de que esse rótulo acaba reduzindo e apagando as nuanças entre os trabalhos de diversos realizadores. Embora seja verdade que, por outro lado, dar um nome a essa produção ajuda a divulgar as obras que têm dificuldade de circular pelo país. Fora os festivais e as salas dedicadas exclusivamente ao cinema-arte, os espaços são limitados para esse tipo de produção que costuma fugir tanto esteticamente quanto politicamente dos padrões comerciais.

Há hoje uma certa expectativa em relação à produção mineira de cinema e principalmente de vídeo. Este último é de longe a forma de expressão audiovisual mais forte no estado. Desde que os primeiros trabalhos do videoartista Éder Santos deram o que falar na década de 80, a imprensa especializada do país inteiro passou a olhar com mais afinco para essa produção local.

De lá para cá novas gerações de realizadores surgiram. As universidades, as produtoras independentes e os festivais chamam novos nomes à baila. Depois da geração da videoarte, ganhou destaque e virou pauta a geração digital. Do fim da década de 90 para cá surgiram jovens realizadores que ajudaram a sedimentar a produção de vídeo, curtas e documentários em Belo Horizonte. Em um emaranhado de passados, presentes e futuros alguns se destacam: Cao Guimarães, Leando HBL, Conrado Almada, Carlos Magno, Marcellvs, o coletivo TEIA e muitos outros.

De: serg.eva@xxx.xxx.xx - oi Sérgio, vou responder as perguntas. Quero deixar claro entretanto que esses são apontamentos pessoais, não sei se exatamente um pensamento da TEIA. É bom lembrar que são pessoas com afinidades, mas também com diferenças.

A última frase de Sérgio Borges é representativa. Ela resume boa parte das opiniões que pessoas diferentes possuem a respeito da produção contemporânea de audiovisual em Minas Gerais.

Borges, junto com Clarissa Campolina, Helvécio Marins Jr., Leonardo Barcellos, Marília Rocha e Pablo Lobato formam o grupo de artistas audiovisuais que levam o nome de coletivo TEIA. O coletivo é um dos nomes sobre o qual atualmente recai mais atenção. O grupo, que foi formado em 2003 com uma mistura de novatos e experientes do circuito mineiro de audiovisual, ganha relevância pela sua produção que valoriza o lado autoral e um estilo peculiar de produzir cinema.

Para saber mais sobre o assunto e tentar construir um quebra-cabeça impossível era necessário que fossem desencadeadas várias conversas paralelas, não necessariamente ligadas umas às outras.

Para: jpdumans@xxx.xxx.xx - Oi, João. Tudo bem? Preciso conversar com você. Na próxima quarta, às 19 horas, aí no café do Palácio das Artes. Pode ser?

Dumans é curador do Cine Humberto Mauro, principal espaço em Belo Horizonte para a exibição da produção audiovisual de Minas Gerais. É lá que diversas mostras acontecem o ano inteiro. O Festival Internacional de Curtas de Belo Horizonte (julho) e o Fórum.doc (novembro) são os que atraem maior público. Em uma conversa de um café e outro e diversas anotações de nomes, telefones e emails, por coincidência, apareceu Sérgio Borges.

A Escola que não existe

A concepção de uma Escola Mineira vem sendo utilizada principalmente para dar conta de alguns nomes que vêm se destacando com premiações dentro e fora do país. Além da TEIA, incluem-se aí os nomes de Cao Guimarães, Carlos Magno e Marcellvs. Os dois primeiros são categorizados na produção de documentário-experimental. Novo rótulo, novas oposições a ele. O termo é escorregadio e não ajuda muito a entender a individualidade de cada um deles. Apesar de algumas similaridades estéticas e da realização de alguns trabalhos em conjunto (“Acidente”, obra de Guimarães em parceria com Pablo Lobato, da TEIA), o óbvio é que cada um deles tem os seus trabalhos com características próprias e singulares. Até mesmo dentro do trabalho coletivo da TEIA preza-se pelos projetos individuais e paralelos. O ser “diferente” é muito mais fértil para a criação do que o “igual”.

A produção atual é formada por uma rede de referências: o vídeo experimental, o videoativismo, a literatura, o quadrinho, as artes plásticas, o cinema, o buteco. As várias intertextualidades dessa produção não podem ser traduzidas apenas no termo guarda-chuva do “experimentalismo”.

Há, naturalmente, uma referência à geração da videoarte, encabeçada por Éder Santos. Uma das principais heranças do trabalho do videoartista é o gosto pela utilização da câmera de vídeo como expressão audiovisual e o desenvolvimento de técnicas de edição e tratamento de imagem.

Digital pós-videoarte


Apropriaram-se desse pensamento Conrado Almada e Leandro HBL. Os dois foram os criadores, no fim da década de 90, do estúdio Mosquito. O estúdio – que teve muitos outros integrantes, inclusive alguns que fazem agora parte da TEIA – exerceu um papel importante de mostrar que era viável realizar projetos com poucos recursos técnicos. Os trabalhos iniciais, principalmente com vinhetas televisivas e videoclipes, mostravam que a criatividade era acirrada pelo pouco material que se tinha em mãos.

“O princípio básico do mosquito que eu vejo que se mantém hoje em BH é ao invés de você sentar e chorar, você produz com o que você tem. E, outra coisa, para ser um realizador você não tem que ver tudo. Quem disse que você tem que ver Glauber Rocha? Éder Santos? Não precisa ver nada. Na verdade, acho até bom dar um tiro no escuro, o trabalho sai de uma forma mais espontânea”, afirma Almada.

Leandro HBL, parceiro de Almada desde a época dos corredores da faculdade, explica que há algumas coincidências em torno dessa “geração digital” dos anos 90.

Com o dólar em baixa, as câmeras digitais de qualidade ficaram mais baratas. As leis de incentivo ao audiovisual voltaram a ser uma política pública. O mercado local não conseguia assimilar todos os profissionais que saíam das faculdades cheios de vontade de produzir e experimentar. Parte deles procurou abrigo em outras capitais, brasileiras ou não. Por trás disso tudo há um pano de fundo literário e poético inerente ao mineiro, que carrega um passado cheio de referências e influências da literatura. Esses diversos fatores foram essenciais para formar essa massa de artistas audiovisuais mas que de maneira alguma, na opinião de HBL, forma uma cena entre eles.

Para Cao Guimarães, realiza-se em Minas Gerais o “cinema de cozinha”. As pessoas que há um tempo não conseguiriam se expressar artisticamente através do audiovisual, hoje estão produzindo. Elas trabalham com uma equipe reduzida em pequenos estúdios caseiros e independentes de uma grande estrutura. Os projetos demoram mais para serem executados, mas, por outro lado, permitem que o resultado final seja mais autoral e aprimorado visualmente.

Essa sim talvez seja uma característica encontrada em diferentes gerações de realizadores mineiros: estar fora do principal eixo econômico e cultural do país, obriga-os a se virar com o que têm, a procurar maneiras mais baratas de filmar e que não dependa de condições econômicas favoráveis.

De: overmundo.mg@gmail.com - Oi, Carlos. Você recebeu o meu email anterior?

De: karlmarx@xxx.xxx.xx - Recebi e responderei suas perguntas com respeito.

Premiado por melhor direção (Kalashnicov, dirigido junto com Chico de Paula), na última edição do Festival Internacional de Curtas de BH, Magno tem uma origem social e formação política bem diferente da maior parte dos atuais realizadores mineiros. Magno é de opiniões muitas vezes desagradáveis a um sugerido status quo do audiovisual mineiro.

“Cinema em Minas Gerais sempre foi um lixo, até que chegaram as novas tecnologias e possibilitaram pessoas como Éder Santos e Cao Guimarães a serem autores genuínos. (...) Hoje vivemos um momento que tudo isso está na universidade, um videorealizador faz um curso de comunicação, filma gente pobre ou tenta imitar pessoas como o Éder (Santos) e o Cao (Guimarães)”, afirma.

A crítica de Magno é principalmente em relação à política de troca de favores entre curadores e realizadores, ao abuso das leis de incentivo e à benevolência da mídia. Ocorre também um certo processo de “standirzação” da produção. Na esteira de nomes que alcançam alguma relevância surgem outros tantos que tentam repetir a técnica criada pelos primeiros, como se aplicassem um filtro de photoshop.

“Á margem disso tudo temos pessoas como Dellani Lima que tenta fazer um trabalho autêntico, Marcellvs, que atualmente mora em Berlim, Sara Ramo, pessoa reflexiva e ativista que faz trabalhos que dialogam com as novidades contemporâneas e Cíntia Marcelle; artistas de grande importância para a transformação deste panorama provinciano que é o panorama mineiro do audiovisual”, completa.

De - l.marcellvs@xxx.xx.x

“Não faço parte de nenhum grupo e muito menos de qualquer escola”, assim Marcellvs resume a sua visão sobre a tentativa de se categorizar artistas e produções tão diferentes entre si.

Em 2006, ele foi o artista mais jovem a participar da Bienal Internacional de São Paulo. Atualmente ele reside na Alemanha, onde, no ano passado, foi premiado em um dos festivais de curtas mais importantes no mundo.

Antes do prêmio, Marcellvs havia enviado 15 cópias do vídeo 0778 man.road.river para festivais nacionais. Em apenas um deles ele foi selecionado. Após o aval europeu, o interesse foi despertado pelo lado de cá. Isso tem se tornado comum na trajetória de quase todos os artistas: as suas obras rodam o mundo, ganham o reconhecimento dos festivais e críticos estrangeiros para depois se tornarem mais conhecidas dentro do Brasil.

“Acredito que [o Festival de] Oberhausen foi mais um exemplo, e infelizmente não será o último, do que acontece muitas vezes no Brasil. Alguém precisa afirmar uma opinião para que depois outros corram atrás”, explica o videoartista.

A tal cena mineira tem mais dúvidas do que certezas quanto à sua identidade. É mais heterogênea do que se pensa e vive mais de autocrítica do que de vanglória. Como se sabe, mineiro não tem a habilidade de falar bem de si mesmo e solidariedade não é uma das suas principais qualidades. Entre o “muito barulho por nada” e o elogio precoce resta o óbvio: a necessidade de não deixar o trem parar, de manter a produção em alta, com os recursos que estão à mão, com ou sem a atenção da mídia.

compartilhe

comentários feed

+ comentar
marcelo santiago
 

muito boa a matéria, para variar.

marcelo santiago · Sabará, MG 24/5/2007 14:55
sua opinião: subir
Marcus Assunção
 

Muito bom. O trem não pode parar.

Marcus Assunção · São João del Rei, MG 24/5/2007 19:51
sua opinião: subir
Sander Kelsen
 

ótima matéria!
Atualmente, faço estágio no laboratório de vídeo da PUC Minas... Minha coordenadora por lá é Elisa Rezende, também destaque na década de '80 da escola, com o vídeo "Estranha Guerra Estranha". Na PUC há um grande incentivo a produção de audiovisual. Vale também ressaltar que os "leões" da escola mineira sairam da Universidade Federal de Minas Gerais e da Faculdade de Comunicação e Artes da PUC/MG. E é impressionante como BH tem destaque internacional em relação a produção do vídeo e de novos formatos audiovisuais!

Sander Kelsen · Belo Horizonte, MG 10/5/2008 15:02
sua opinião: subir

Para comentar é preciso estar logado no site. Faça primeiro seu login ou registre-se no Overmundo, e adicione seus comentários em seguida.

imagens clique para ampliar

Fila de entrada para o Festival Internacional de Curtas de BH zoom
Fila de entrada para o Festival Internacional de Curtas de BH
Videoinstalação ebbing.flowing de Marcellvs, em Berlim zoom
Videoinstalação ebbing.flowing de Marcellvs, em Berlim
Frame de Alma do Osso, documentário de Cao Guimarães zoom
Frame de Alma do Osso, documentário de Cao Guimarães
Igreja revolucionária dos corações amargurados, de Carlos Magno zoom
Igreja revolucionária dos corações amargurados, de Carlos Magno

filtro por estado

busca por tag

revista overmundo

Você conhece a Revista Overmundo? Baixe já no seu iPad ou em formato PDF -- é grátis!

+conheça agora

overmixter

feed

No Overmixter você encontra samples, vocais e remixes em licenças livres. Confira os mais votados, ou envie seu próprio remix!

+conheça o overmixter

 

Creative Commons

alguns direitos reservados