A alimentação deixou de ser algo vital. Suas funções ritualísticas, sua descoberta, seu cultivo, sua apreciação, tudo isso deu lugar a apenas saciedade e satisfação. Perdemos qualquer contato com alimento, em última instância nem mesmo sabemos seus ingredientes e como foi seu preparo, não temos tempo pra isso. A indústria em contrapartida, tem muito tempo para isso, tempo e dinheiro para dispor de uma equipe de PHDs, burocratas, químicos e pessoas especializadas em seu paladar e satisfação. Pouco se sabe sobre as embalagens coloridas repletas de ideogramas químicos e código de barras, que nem de longe nos remetem à maçã sendo colhida do pé. Se irá nos nutrir, nos alimentar ou trazer algum bem à saúde, pouco importa. Importa é estarmos “cheios” rápido o bastante.
Vivemos no tempo do rápido e do descartável. Entretanto, esses não são fins, mas sim mais um dos meios de se alcançar determinadas “metas”. Se o mundo é fast food? Arriscaria dizer que sim. Mas não só fast food, como também fast life, fast thinking, fast talking, fast connection, fast em seu sentido amplo, rápido, superficial, vendável e descartável. A indústria alimentícia, em especial, não vive só de comida rápida e descartável. Burger King, McDonalds e KFC são Deuses trazendo novas religiões para o ocidente, seus negócios nunca foram sanduíches e sim o fast food life style, o estilo de vida fast food. Naomi Klein, no seu livro No Logo, demonstra como o Branding, tática do marketing moderno, faz de pessoas comuns cegas defensoras de marcas, adotando estilos de vida vendidos com propósito de conseguir adeptos para suas novas religiões. Hoje não importa se o estilo de vida da sua marca é melhor ou mais benéfico, mas sim se ele ganha mais adeptos e vende mais. Se ele for uma unanimidade, não importará o quão ruim, antiético, destrutivo ou perverso ele é. Coca-Cola é uma dessas unanimidades desse mundo vendido, que engloba qualquer estilo de vida à moda antiga. Se o indivíduo é roqueiro, playboy, favelado, comunista, rabino ou assassino, não importa ele bebe Sempre Coca-Cola. Assim são feitas as unanimidades.
Como os fins parecem sempre justificar os meios dessas novas religiões, a indústria alimentícia e fast food criou também o fast animal. Animais que vivem em fazendas-fábrica alimentados com grãos, em sua maioria soja e milho, ganha quem os transformar mais rapidamente em fast food. Para a indústria, esses animais deixaram de ser seres sencientes, seres sensíveis capazes de sentir dor e medo, e se tornaram objetos. Se por um lado os animais já eram tratados como objetos pelo pensamento cartesiano por séculos no ocidente, por outro a indústria conseguiu potencializar ainda mais essa condição miserável, tornando-os fast animals. Animais aqui são chamados de máquinas de produzir leite e as referências são sempre quantitativas “colocamos uma quantidade X de ração aqui” e no final teremos uma “quantidade Y de carne”. Vivem em péssimas condições e são submetidos à estímulos artificiais, uma semana no escuro e uma semana com as luzes acessas são o bastante para fazer com que as galinhas voltem a botar ovos. Esses métodos já são relatados em diversos filmes como A Carne é Fraca e livros como Libertação Animal. Se não importa as intenções e vontades do cliente, não podemos dizer algo melhor sobre a vida desses animais. O fast animal não vive, nem sobrevive, ele é sobrevivido, o uso de hormônios os faz crescer rapidamente - é necessário colocar logo o produto no mercado; o uso de anabolizantes os faz ter mais carne - é necessário “encher” as pessoas; as doenças se espalham pelas péssimas condições de higiene e pouco espaço, então resolve-se o problema com antibióticos – isso tudo que vai pro seu prato depois; pesticidas e outros químicos também. Vivem muito pouco, é claro esse é o objetivo, a carne de vitela é como chamam a carne do filhote, bezerro, anêmico que vive poucas semanas. O Brasil tem se orgulhado de ter encontrado uma saída economicamente lucrativa para os bezerros machos que nascem das vacas leiteiras (vaca não dá leite sem estar grávida), transformando-os na carne de vitela. Tudo isso para conseguir mais em menos tempo. Essa é a visão dos que produzem não só para as fast foods, mas para os cidadãos exigentes por uma vida rápida e eficiente.
As novas religiões que pregam a vida rápida e descartável sabem muito bem de suas mazelas, mas fazem um bom trabalho de marketing social. A grande maioria das vezes elas conseguem sair como heroínas no trabalho de “reeducação” pela publicidade.
E não pára por aí... Quem viu o filme A Corporação tem um pequeno apanhado. Destruição de culturas nativas, grilagem de terras, assassinato, racismo, exploração animal, abuso sexual, destruição da natureza, biopirataria, trabalho escravo, são tantas que não conseguiria enumerar com a certeza de faltar algo importante.
Usar a bicicleta ou andar à pé no lugar de andar de carro, diminuir o consumo de água ou reciclar a água, utilizar uma fonte de energia limpa, permacultura, agroecologia, agricultura urbana, agroflorestas, ecoarquitetura são formas concretas de fugir da velocidade mortal dos dias atuais. Ser vegetariano(a) ou em última instância vegano(a) é uma das mais fáceis maneiras de mudar nosso ritmo, de dar uma freada a cada refeição e pensar no direito intrínseco desses seres sencientes. Essa escolha fica ainda mais fácil para quem não quer ir tão longe, hoje algumas fast foods, não tão sacrossantas e fundamentalistas como as já citadas, já possuem alimentos vegetarianos / veganos disponíveis.
Esse texto foi apresentado no último 4º encontro do MARP (Movimento de Arte e Reflexão Política) do Grupo Oficcina de Multimédia
Caro amigo, o texto é muito interessante, mas nao vejo música nele, sugiro que mude o tema, é só editar.
Abraço.
Nada! =], já serei avisado para quando passar para a fila de votação, tambem sou contra esse comportamento, torna as pessoas mais maquina. Comem mais rapido para trabalhar mais e descansar o inverso, as pessoas também se tornam descartaveis.
Parabéns
Abraço
muito bom o texto.
Renato Corrêa · Belo Oriente, MG 1/12/2006 19:32
Oi, Preto Velho!
Sugeri uma parceira do "Yuri Velho" com você. O quê acha?!
http://www.overmundo.com.br/overblog/trafico-de-animais-silvestres
isso mesmo blz cara a gent pod entrar em contato!!!
yuri_mcf@hotmail.com
abraços
xxx
Parabéns pelo texto, estou copiando o link e colando em algumas listas que participo. Idéias como essa devem ser divulgadas ao máximo.
Eduardo Neves · Teresina, PI 3/1/2007 19:31
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