Reflexões para um dia num museu

Bruno Maia
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Bruno Maia (sobremusica.com.br) · Rio de Janeiro, RJ
29/5/2006 · 60 · 4
 

Este texto se chamaria “A diferença de ir a um museu no Brasil e no exterior”, mas não se chamou. Ohquei, ohquei. Admito que não sou freqüentador de museus no Brasil. E atire a primeira pedra quem é. Para constar, no Brasil eu só conheço uns três ou quatro museus no Rio e o do MASP, em São Paulo. Aquelas miudezas de pequenas cidades não estão sendo computadas... Mas brasileiro tem essa coisa de que a grama do outro é mais verde, então quando chega fora do país, já vai perguntando logo onde é que são os museus mais importantes. Ir a Paris e não passar no Louvre é quase uma heresia.

Eu sou brasileiro.

Em Colônia, para onde muitos dos brasileiros se dirigem agora – já que se trata da cidade-oficial do Brasil na Copa, para onde todas as agências oficiais que vendem pacotes para o evento, que pára o país durante um mês, vão mandar seus cinco mil clientes fanfarrões -, o principal museu é o Museum Ludwig. E como eu sou brasileiro, fui lá hoje, 21 de maio de 2006.

Sempre me senti um pouco culpado, afinal faço parte de uma pequena parcela da população que teve acesso básico à educação como qualquer cidadão do chamado primeiro-mundo. Freqüentei boas escolas, duas boas faculdades, já havia tido a chance de viajar para o exterior em outras oportunidades, mas mesmo assim, nunca consegui curtir museus. Eu deveria gostar!!! Mas não conseguia.

Entrei no Ludwig como quem cumpre um ritual obrigatório sobre o qual serei cobrado ao voltar ao meu país: “E os museus? Foi a muitos?”, hão de querer saber. Atraído pelo imenso cartaz que anuncia uma exposição de Salvador Dali, um dos meu pintores favoritos – dentro do universo de oito ou dez sobre os quais consigo discorrer mais de cinco minutos – fui entrando. Passei primeiro na lojinha. Lembrancinhas de museus são sempre bem quistas por nós, afinal dá um ar de intelectual ter um quadro do Matisse como imã de geladeira, não dá? Pois é. Enfim, mas eu não comprei nada por lá, não. Só uns postais. Definitivamente dentro do museu, logo na primeira escada que eu desci, estava exposta aquela célebre seqüência de dez retratos de Marilyn Monroe, feitas por Andy Warhol, um cara que eu nunca tinha entendido muito bem e que pra mim era mais sinônimo de “no-futuro-cada-um-terá-seus-quinze-minutos-de-fama” do que de pintor de qualidade.

Pop-art é muito mais maneiro do que eu supunha. A série de quadros, instalações e vídeos foi me prendendo por um bom tempo. Enfim consegui ser tocado por aquelas coisas coloridas, por aquelas caixas de detergentes e latas de Coca-Cola. O pouco que eu conhecia da obra de Roy Lichtenstein já me fazia ter a sensação de que era o meu favorito. Acho que hoje confirmei. Aqueles traços carregados de referências a gibis, aquelas bolinhas compondo o fundo, as expressões fortes típicas dos comics americanos a serviço da informação e da crítica são fatais. Depois vários Andy Warhols (destaque para o quadro com "Double Elvis" e para o vídeo “Kiss”, no qual Warhol filma um casal se beijando durante cinqüenta minutos) e outros, cujos nomes não fixei, vi que eu estava curtindo a brincadeira de andar por um museu cheio de alternativas, de saídas criativas, de espaços que trabalham em função da arte e não esperam que a arte se vire naquele espaço que se tem.

Seguindo, muitos andares, muitos quadros, muita informação, alguns japoneses. Antigamente, antes da máquina fotográfica digital, se falava que os japoneses faziam foto de tudo sem nem aproveitar o que estavam tendo a oportunidade de ver. Os japoneses preferiam fotografar do que enxergar, confiando mais na memória do papel do que na sua própria. Hoje, o mundo é composto de japoneses. Todo mundo bate milhares de fotos. Bastou algo ligeiramente diferente ou mais colorido pra pipocar outro flash. A máquina apazigua a falta de tempo para digerir tanta informação. É tanta cultura criada pela humanidade nos últimos cinco mil anos, muitas delas expostas ali – ou no Museu de arte Romana, que fica ao lado do Ludwig – que você tem que ser ágil. Todo mundo tem que ver tudo, pois não sabe quando vai poder voltar ali, nem se vai querer voltar. Então se pipoca flash e deixa pra tentar entender depois. Não há muito tempo nem pra se relacionar com a arte, nem para se conhecer os corredores dos museus. Eles fecham às 19hs.

Faço eu também meus pipocos. Não entendo aquele quadro do Picasso – são muitos deles no Ludwig – , vou fazer a foto e vou tentar pensar em casa. (Vou?). Outra inquietação que eu me dá é exatamente a compreensão. Numa sociedade cartesiana - por mais que você não se considere necessariamente um –, tudo precisa de uma explicação. Os professores de belas-artes sempre tinham alguma pra dar nas aulas da faculdade. Eles pioraram minha situação. Naquela época eu estava quase entendendo que a arte não precisa da razão, apesar de elas até poderem ser companheiras. Fico tentando achar respostas, mas o quadradinho do lado do quadro só me diz “Mulher deitada”, “Busto de homem com chapéu”, “Duas crianças”... Isso tudo eu já sei! É tudo que está mais evidente. Não há respostas fáceis. Talvez não existam respostas, mas eu fico triste e sinto a falta delas. Mas será que aquilo então não pode ser realmente apenas uma mulher deitada? Um busto de um homem? E aquelas duas crianças? Tem que ter uma relação de pedofilismo e de crítica cristã ali também?

As questões estavam tomando conta de mim e você achando que eu tinha perdido o rumo do texto. Mas não, isso é só uma representação do envolvimento e das questões que iam tomando conta da minha cabeça naquelas horas que se passavam lá dentro. Nada muito original, é verdade, mas o museu estava fazendo sentido. E lá pelas tantas eu me dei conta disso. Olhei o espaço inteligente, bem pensado. A luz do sol entra em grande parte do museu e é tão bom quando isso acontece... Rola uma leveza. Paredes brancas também ajudam a não cansar a vista. Quadros não se amontoam, se expõem - e essa lição é boa pro MASP, por exemplo. E mais que tudo, as obras são boas demais por aqui. Isso faz toda a diferença. Não querendo desmerecer os nossos artistas, mas, do que eu conheço, plasticamente o Brasil ainda está muito atrás, conquanto hajam dicavalcantis, portinaris e tarsilas.

Hoje descobri mais alguns caras bem bacanas e alguns deles se destacam em minhas lembranças: Jörg Immendorff, Francis Picabia e Heinrich Hoerle. Peço desculpa se era muito ignorante por não conhecê-los, caso eles sejam vitais para a arte. O primeiro deles é um alemão e é o único dos três que ainda está vivo. Havia três trabalhos dele expostos no Ludwig retratando fortemente a sociedade alemã do pós-guerra, entre eles Café Deutschland I, muito bonito. As referências à suástica, ao muro, à União Soviética, aos Estados Unidos, à calça jeans, ao sub-mundo vulgar, formavam uma espécie de purgatório de um país. A arte fala diretamente com o tempo atual. Apesar do quadro ser de 1977, ele ainda é forte para o alemão médio nos dias atuais. Um amigo me disse que Immendorff está muito doente, com uma enfermidade degenerativa. Seu tempo de vida é curto, uma pena. Do francês Picabia, destaco La nuit espagnole. De Hoerle, cria dessa cidade, a quase-carnavalesca Masken.

O texto caminha para o fim e o autor está mais sensibilizado por museus. Sensibilizado, cético quanto à cultura no Brasil e mais certo do privilégio que tem. Só que, cadê o Dalí?, o seu pintor-favorito.... Ahá!!! Dali não entra na história. Até então tudo fora gratuito, para o Dali teria que pagar cinco euros. Eu já estava muito cansado e o museu quase fechando. Já que é pra pagar - e como eu, a esta altura, adoro visitar exposições e museus, rsrsrs - vou deixar pra ir outro dia, com calma e olhar bem. Museu é maneiro. Para os brasileiros que estão chegando por aqui, tranqüilidade: a exposição Salvador Dali – La gare de Perpignan fica no Museum Ludwig aé 25 de junho. Ou, para facilitar a compreensão, até dois dias após o fim da participação da seleção brasileira na primeira fase do Mundial.

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Thiago Camelo
 

Que bacana um texto de fora do país que relaciona nossa cultura com as estrangeiras! Acho isso muito bem-vindo ao site.

Thiago Camelo · Rio de Janeiro, RJ 26/5/2006 13:21
1 pessoa achou útil · sua opinião: subir
Diogo Rezende
 


Realmente mueseu é maneiro.
E realmente não é só o Dali, ou o Monet que deve nos atrair para esses espaços tão magníficos. Museu é maneira... pela qual se vê uma realidade artística.
Certamente nossos musues ainda deixam muito a desejar quando o assunto é experiência. O projeto para experiência. Talvez porque muitos deles são edificações históricas, projetadas para outros propósitos, ou ainda projetados sob a otica modernista.

Museu é também linguagem e diálogo. Dialoga com a obra, recontroi mensagens, cria novas. Suas corredores devem condizir-nos para a fruição. Fotografias ficam para os "auto-didatas", que sequenciam e fragmentam a experiência, cegando-se para fruição.

A experiência museológica é assunto muito pouco discutido, apesar de essencial para uma aproximação com a sociedade, para uma suposta renovação de seus valores e imagems, para a compreensão de sua cultura.

Temos sim execelentes artistas plásticos e pintores, o que não temos são propostas mais adequadas de espaços em sintonia com as necessidades, dinâmicas e complexas, de nossa sociedade. Fechamos nossos olhos com a indústria que trasmuta a essêncica da arte em grandes nomes, nomes espetaculares.

Muito a falar sobre o tema. que novas propostas sejam posta na mesa. Museologia é diálogo, tb é arte.

Diogo Rezende · Rio de Janeiro, RJ 27/5/2006 18:50
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ich_bien_ein_elmo
 

ôps!

tudo bem!
poderia ter colocado uma fotinha!
iria ficar legal!

beijos

ich_bien_ein_elmo · Coqueiro Seco, AL 25/11/2006 23:07
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ich_bien_ein_elmo
 

ops
acho q por um momento nao tinha visto ainda aquela teba daquela foto lá em cima!
i´m so sorry"

ich_bien_ein_elmo · Coqueiro Seco, AL 25/11/2006 23:08
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