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REFLEXÕES SOBRE A VIDA, O DESEJO E A FELICIDADE

Marcelo Uchoa
Orquídea
1
Marcelo Uchoa · Aracaju, SE
2/10/2006 · 79 · 9
 


O que se pode fazer quando tudo aquilo se deseja parece está
distante de nossas possibilidades? Como conviver com essa falta
que amargura o coração de quem se sabe carente, sente os desejos e é obrigado a aceitar a impossibilidade de concretizá-los?

Ele conhecia bem essa angustia da falta e do desejo. Desde menino trazia consigo esse sentimento de desejar, de possuir, de ter, de ser alguém ou representar algo com um grau de importância que ele mesmo não sabia como expressar. Sentia a dor física que essa falta provocava. Um buraco no peito, uma incapacidade de raciocínio lógico, uma angustia que o levava a considerar-se o mais infeliz das criaturas sobre a Terra. Não era uma carência material, ou a falta de estruturas mínimas para uma vida confortável e sadia, tudo isso era oferecida pelos seus pais. Era uma carência existencial, um momento de distração do criador, uma desatenção mínima e ele teria nascido faltando alguma coisa. A conhecida sensação de buraco no peito retornava mais forte, as angustias triplicavam, o medo do que poderia acontecer invadia sua alma e seus pensamentos. Seria medo da morte? Mas não temia a morte, pelo contrário tinha por ela certa simpatia e agradecimento. Simpatizava com a certeza de encontrá-la um dia e lhe era grato por ter levado embora alguns, antes que estes pudessem lhe causar mal.

Temos o péssimo hábito de nunca estarmos contentes com o que somos e com o que construímos. Nossas realizações podem até ser importantes e consideradas, em algumas situações, como válidas e representantes daquilo que almejávamos construir. Entretanto, esse comportamento é reflexo da adequação a que nos submetemos para parecermos normais, no fundo não valorizamos tanto assim nossas realizações e conquistas. Aquele egocentrismo infantil, aquela analise do mundo e dos outros continua acontecendo a partir de nossos umbigos. Pouco nos interessa saber do outro, queremos mais é vê o nosso lado. Não, não somos felizes! Felizes são eles que têm isso, possuem aquilo, podem comprar o que quiserem e a esta hora estão passeando de lancha.

Conhecemos pessoas que se tivessem vivido um quarto das experiências que vivemos estariam plenas na realização de seus desejos. Se analisar-mos veremos que nossos mais profundos desejos e realizações não passam de hábitos cotidianos para alguns e, mesmo esses alguns, estão cheios de angustias e preocupações quanto aos seus desejos. Porque desejamos coisas diferentes. Estaria no desejo a causa maior da infelicidade?

Sentia a falta de algo, de um pouquinho a mais para ficar plenamente realizado e mesmo quando conseguia esse pouquinho, sentia a falta de mais. A felicidade é como uma droga poderosa quem dela experimenta não consegue mais largar, quem nunca experimentou já ouviu falar e se morde de curiosidade para conhecê-la. O que não sabem é que felizes são os que não a desejam. Os que aceitam tudo do jeito que é, sem questionamentos, sem dúvidas, sem revide. A vida em sociedade foi feita para os passivos, para os que baixam a cabeça, para os que oferecem o outro lado do rosto depois que um é esbofeteado.

Há momentos em que cometemos determinados atos, assumimos rígidas posturas ou nos armamos até os dentes para defender algo, pode ser um objeto, uma idéia, uma crença... Ao fazer isso transferimos nosso ponto de referência, que deve ser nos mesmos, para esse algo, essa alguma coisa. Nossas atitudes passam a ser norteadas a partir dessa escolha. Temos o campo de visão reduzido. A unilateralidade impossibilita que vejamos o que acontece ao lado, atrofia nossa capacidade de pensar. Com o passar do tempo essas coisas se materializam, tomam corpo e vida própria, independentes de nos, que os criamos e tão reais se tornam que muitas vezes mesmo sabendo que o ato, o gesto, a atitude, o pensamento, a postura, ou qualquer outra manifestação do caráter humano não é correto, ou não cabe naquela situação especifica, nos o cometemos.

Achamos que as coisas são o que são por serem. Que tudo já foi determinado e que essa determinação imposta é correta, sacra e deve ser aceita sem questionamentos para não prejudicar o equilíbrio das coisas. Mas, de qual equilíbrio estamos falando? Deste que mantêm alguns poucos tão felizes e realizados e remete outros ao mais profundo vazio? Esse equilíbrio que prega o amor entre os homens, a fraternidade, e que diz sermos todos iguais perante a Deus? Mas como, se Deus nem neste mundo reside? Se Deus criou mesmo esse mundo e tudo que há nele por que então deliberou sua administração aos homens se sabe que os homens são egoístas e não medem esforços nem respeitam o próprio Deus quando se trata de alcançar seus objetivos? Por que Deus não ficou, ele mesmo aqui, na sua criação a administrá-la, a indicar o caminho correto que os homens deveriam seguir?





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Juliana Grosskopf
 

gostei muito do texto, só acho que de um parágrafo para o outro você poderia colocar um espaço, só para facilitar a leitura mesmo. E também no fim do texto quase, tem a palavra referência sem acento. Só isso! Parabéns pelo texto , adorei!

Juliana Grosskopf · Bassas da India , WW 29/9/2006 19:01
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apple
 

As pessoas realmente não se realizam plenamente porque se comparam aos outros.
Ao atingirem o patamar almejado, passam a desejar outro em que estão outras pessoas.

Querem ser aceitas, valorizadas, prestigiadas.

O importante seria que buscassem ser melhores do que elas mesmas a cada dia.

Devem pensar na própria vida, nos seus valores, nos seus objetivos. Devem pensar quais valores tinham, quais valores permanecem ao longo dos anos , quais valores estão sendo agregados, quais valores são necessários para atingir seus objetivos. As pessoas devem avaliar a própria vida periodicamente...

Devem, então, agir para atingir o alvo ou, então, descartar os objetivos. Ver se o esforço compensa, se estão dispostos ao trabalho, se precisam atingir certas metas...

apple · Juiz de Fora, MG 30/9/2006 10:07
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Thalis Valle
 

Muito bom. Percebo que o autor questiona a existência de Deus, em alguns pontos diretamente e indiretamente. Mas, sei que ele acredita, tem fé. Possivelmente esse texto é de um Espírita.

É realmente assim que se encontram a maioria das pessoas hojes, como eu. E digo-lhes: encarem com força e sem resmungar, assim como diz o autor. Esse texto pode mudar sua vida se souber lê-lo e sentí-lo.

Paz e Luz

Thalis Valle · Catanduva, SP 3/10/2006 08:49
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apple
 

Marcelo,
Gostei muito dos seus textos que cheguei a ler.
Só acho que sâo meio longos... mas recomendo.
Escreve bastante, tá?
Vou até imprimir para ler depois com mais calma.
Obrigada por escrever para nós que acessamos o site...
Seus textos sâo muito inspiradores!

apple · Juiz de Fora, MG 3/10/2006 21:41
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Sofia Amorim
 

Marcelo:
Troca de comentários (rs)!
Também adorei seu texto. Achei muito legal esta questão do desejo e da felicidade. Na verdade, acredito eu que, como dizem algumas religiões orientais, quanto mais se deseja, mais infeliz se fica. Porque a concretização do desejo não é felicidade, é algo perene, mutável. Acredito que felicidade é equilíbrio, é plenitude, calma. O resto é paixão - que passa.
Outro comentário sobre seu texto é a questão de Deus. Independentemente da sua crença (a qual não pretendo desrespeitar), acho que Deus não nos deixou aqui sozinhos. Ele é isso, ele é todos nós, ele também está descobrindo sua própria criação. Quando penso assim, me sinto menos só...
É tão bom ler reflexões como a sua e se identificar! Obrigada por indicar o texto!
Abraços

Sofia Amorim · Ribeirão Preto, SP 11/10/2006 00:19
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apple
 

Sofia,

O quê você quis dizer com "Marcelo, troca de comentários" ?

Está fazendo algum tipo de crítica valendo-se de ironia?

Ironia é coisa de pessoas que não sabem focar os problemas ; não sabem se expressar, discutir com respeito e objetivo de melhoras .

Preferem criticar pelo simples prazer de criticar ou são incapazes de críticas construtivas.

Pessoas irônicas são egocêntricas, más-comunicadoras e discutem visando mais ofender do que resolver as questâo.

apple · Juiz de Fora, MG 11/10/2006 06:05
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apple
 

Sofia,

Desculpe-me, entendi errado o quê você quis dizer! Explicaram melhor para mim. Inicialmente, achei que você estivesse debochando de alguns comentários, talvez o meu também...

Notei que você trocou de foto. Legal ver melhor com quem estamos falando! Você capta muita coisa apenas com uma foto. Não é questão só de aparência.

Desculpe-me, tá? Sinto muito mesmo. Ai!

apple · Juiz de Fora, MG 11/10/2006 18:45
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Doroni Hilgenberg
 

Marcelo,
Legal esse texto.
Achei interessante você questionar Deus.
Acho que Deus esta no coração de cada pessoa, e é justamente isso que faz com que alguns seres humanos sejam conformados ou não. Isso não quer dizer que devemos dar a outra face, isso não, mas devemos reagir conforme a natureza das coisas, e muitos não fazem assim, querem o poder a todo o custo e quanto mais tem mais querem, e o poder corrompe, destrói e avilta. E será que essas pessoas tão poderosas são felizes?
Ou será que essa busca constante por um desejo não é a falta de Deus em si?
Conheço pessoas que tiveram até helicóptero, mas não sabiam
respeitar o próximo ( empregados e etc) e hoje amargam uma
velhice triste e desestruturada, pois perderam muito e os
filhos não se entendem.

ter desejos é bom, mas de acordo com nossas necessidades, pois quem muito quer e vive só por isso, tudo perde também.
As vezes eu penso que o castigo vem aqui na terra mesmo.
bjs

Doroni Hilgenberg · Manaus, AM 13/7/2009 00:09
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Roberto A
 

fantástico post. condiz com o vazio constante da nossa sociedade...

Roberto A · Cuiabá, MT 13/7/2009 10:48
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