Reflexões sobre nossa Referência Cultural

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Hosaná Dantas · São Paulo, SP
25/4/2007 · 163 · 9
 

A Poesia de Drummond e uma Reflexão
sobre nossa Referência Cultural



"Chega!
Meus olhos brasileiros se fecham saudosos.
Minha boca procura a 'Canção do Exílio'.
Como era mesmo a 'Canção do Exílio'?
Eu tão esquecido de minha terra...
Ai terra que tem palmeiras
onde canta o sabiá!"

(Carlos Drummond de Andrade
Europa, França e Bahia
Alguma Poesia, 1930)



A sedução pelo lamento do poeta, ao deter-se no verso "Meus olhos brasileiros sonhando exotismos”, do mesmo poema a que alude a epígrafe, obriga o pensamento a pousar no árido terreno da discussão sobre nossa tão maltratada cultura. E o verso "Eu tão esquecido de minha terra..." ficou ressoando, eterno, impiedoso, solene, na memória até constituir-se em um manifesto de coragem na fala que, decerto, destoaria; "tão esquecido de minha terra?". Algo parecia ressoar que não deveria ser assim...

Entretanto, foi preciso enxergar uma situação que, da mesma forma, era angustiante: também não lembrávamos a "Canção do Exílio" e, na extensão, não ouvimos falar de Antônio Nóbrega, nada sabemos do Boi-Bumbá, Câmara Cascudo é um nome que nos diz muito pouco e nossos ouvidos refinados não permitem a realização de uma embolada nordestina. Ficamos esquecidos de nossa terra!

A observação de uma realidade circundante permitia uma dimensão maior do problema: vivemos uma fase que comemoramos o Halloween, mas não sabemos nos aproximar dos festejos do interior do Brasil. Nossa cultura perdeu-se em deslumbramento de outros contextos, que alguém tratou de julgar para nós como sendo a melhor referência. Vivemos o que pode ser chamado de submissão cultural.

Forte? Não, não tanto. Vejamos: quantas e quantas vezes fomos impelidos a desprezar um valor cultural nacional em favorecimento a uma atitude de deslumbre frente a uma variável de exotismo estrangeiro? Somos, na melhor das hipóteses, patriotas de ocasião. Sabe aquele que chora quando o hino nacional é tocado ao anteceder dos jogos de Copa do Mundo ou em Olimpíadas? Nesse momento, sentimo-nos brasileiros. E enfeitamos as ruas de bandeiras verdes e amarelas, e vestimos camisas verde-amarelas, e lavamos a nossa alma de patriotismo, e até sabemos a letra do hino de cor... Mas, quando tudo se acaba e temos que voltar à nossa vidinha rotineira, esquecemos a "Canção do Exílio"... Ou, ainda, deixamos as virtudes se negarem na "hora em que os bares se fecham", como nos alertava o poeta.

Esse modelo de submissão cultural a que nos limitamos cerceou-nos, sobretudo, a visão de país que deveríamos ter. A verdade é que não conhecemos o Brasil; não conhecer no sentido do desrespeito às tradições culturais do nosso povo. Esse desrespeito, via de regra, é fruto da não-aceitação de uma variável diversa àquela que a mídia propaga. Ou poderia ser dito diversa àquela proferida pelo dominador, como pudemos observar nos textos dos cronistas do descobrimento, que versam, em boa parte, sobre a questão do desrespeito às tradições culturais e intelectuais de um povo - basta lembrar a visão do índio como destituído de saber, de tradição e de cultura, a reforçar a discriminação dos valores do povo conquistado, nas inúmeras cartas e nos relatos da época do descobrimento. É nessa mão que estamos: aceitamos ser um povo que não valoriza sua cultura, simplesmente porque não a conhecemos ou, o que é pior, rejeitamo-la sem ao menos nos dar o trabalho de experimentá-la e, daí, fazer um juízo de valor.

Aceitamos simplesmente. Não brigamos, não exigimos, não fazemos nada... E há tanto o que fazer. O mesmo Drummond nos arrebata em outro de seus versos: "Um grito pula no ar como foguete”, e parece-nos que essa é a medida da nossa atitude: precisamos gritar! Talvez um grito sutil que se inflame a partir desse texto e provoque algumas pessoas a pensarem a conscientização de nossa cultura. Que essa provocação mostre que cada cidadão tem uma parcela de responsabilidade nessa contribuição a nos apontar a prioridade de revalorizar a cultura do nosso país. O prazer, a honra e a satisfação de amor à pátria devem ser bandeiras, não de um discurso panfletário, mas de um compromisso levado ao extremo, quase como a propor, como também o dissera o mesmo Drummond, uma releitura do hino nacional: "Precisamos descobrir o Brasil! / Escondido atrás das florestas, / com a água dos rios no meio, / O Brasil está dormindo, coitado. / Precisamos colonizar o Brasil.". E esquecer de vez essa tendência abominável de depreciação aos nossos valores.

É preciso fazer das nossas considerações a necessidade maior de manter sempre vivos os nossos lamentos, não tristes - mas carregados de seriedade e de esperança em acender desejos de que o conceito de identidade cívica seja examinado com olhos de admiração e respeito.

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Marcos Paulo
 

Oi Hosaná! De repente, se você der espaço entre um parágrafo e outro, facilita a leitura.

Aproveita que ainda está na fila de edição.

Marcos Paulo · Rio de Janeiro, RJ 24/4/2007 10:24
1 pessoa achou útil · sua opinião: subir
Hosaná Dantas
 

Olá, Marcos Paulo. Obrigado pela dica... concordo com você. Devo mandar o texto outra vez? Abraços.

Hosaná Dantas · São Paulo, SP 24/4/2007 16:00
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Hosaná Dantas
 

Bom, acho que aprendi, Marcos Paulo... como sou estreante por aqui, fiquei meio sem saber o que fazer, mas acho que fiz...Abraços, e obrigado!

Hosaná Dantas · São Paulo, SP 24/4/2007 18:45
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Saramar
 

Hosaná, seu texto é uma aula, pela erudição e esse próprio grito descrito no verso de Drummond pela mensagem.
Obrigada. Aprendi muito e me senti tocada por essa temática que deveria estar em todos os espaços onde se manifestam os escritores e artistas brasileiros.

beijo

Saramar · Goiânia, GO 25/4/2007 00:11
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Hosaná Dantas
 

Obrigado, Saramar... Que possamos sempre aprender nos caminhos em que passamos. Beijos... espero que troquemos aprendizagens.

Hosaná Dantas · São Paulo, SP 25/4/2007 11:03
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Higor Assis
 

Cultura e Sociedade.

Parabéns Hosana, muito boa a reflexão. Diante dos fatos a maioria das pessoas estão ainda com aquela perspectiva de o País do futuro e hoje em dia os tempos são outros.

Dê uma olha nesta colaboração que coloquei em tempos atrás trata-se de um tema que aos poucos vem sendo abordado por aqui no Overmundo olhe aqui, com certeza tem algo escrito parecido com o que você se indaga.

Abraços cordiais, seja bem vinda.

Higor Assis · São Paulo, SP 26/4/2007 09:47
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Mulumgu
 

Precisamos descobrir o Brasil! / Escondido atrás das florestas, / com a água dos rios no meio, / O Brasil está dormindo, coitado. / Precisamos colonizar o Brasil.". E esquecer de vez essa tendência abominável de depreciação aos nossos valores.
O overmundo é aqui. Como poderemos ir com as novas perspectiva, além do isso aí, além do que é isto aqui?

Mulumgu · Vitória, ES 26/4/2007 11:15
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Marcos Paulo
 

Aprendeu direitinho, Hosaná.

O Overmundo é, de fato, um desses lugares para divulgar a cultura que anda esquecida (e precisa ser mostrada) pelo Brasil a fora. Fique a vontade para colaborar, viu!

Abraço.

Marcos Paulo · Rio de Janeiro, RJ 27/4/2007 11:55
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Robert Portoquá
 

Parabéns Hosaná!
Reflexão profundamente cívica sem recair no nacionalismo barato. São estes "puxões de orelha" que nos devemos dar sempre, para quem sabe um dia, termos orgulho de sermos quem somos e de, como disse o poeta, não "darmos as costa para o país em detrimento de nosso olhar para o mar..."
Bem-vindo; Grato por estar aqui e um grande abraço.

Robert Portoquá · Adamantina, SP 27/4/2007 19:41
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