Renda: mais uma vítima da “exigente” globalização

Cultura X Mercado - uma disputa constante no presente século que vivemos
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Jair Melo · Fortaleza, CE
19/4/2008 · 136 · 2
 

Considerada uma das mais belas expressões da arte fortalezense, ela era produzida no início do século passado como um simples passa-tempo, sobretudo pelas mulheres que habitavam na faixa litorânea da cidade. O lucro que se tinha com a fabricação das rendas nessa época ainda era inexpressivo. Com o crescimento do comércio em Fortaleza, deixou de ser um produto tipicamente regional para ganhar notoriedade não só no âmbito nível nacional, mas internacional.

Tradicionalmente feita à mão, tendo o apoio de bilros de madeira e de uma almofada apropriada, a arte, desde os seus primórdios, tinha como principal matéria-prima as linhas de cores brancas. No entanto, para se inserir no mercado globalizado de produtos regionais, a renda precisou sofrer algumas modificações: linhas coloridas passaram a compor os desenhos rendeiros. A renda fortalezense teve que aceitar essa mudança principalmente pelo fato de ela ter passado a ser um produto típico de exportação da cultura local, principalmente para ser aceita no exterior, como por exemplo, em países da Europa e nos Estados Unidos.

Estaria a cultura local se rendendo à globalização e perdendo a sua essência, aquilo que é “sagrado” ou tradicional? Existiria algo de positivo nessa nova forma de “fazer ou vender cultura”? O psicanalista Félix Guattari (1986) chama esse fenômeno de estandardização, o que, segundo ele, desvirtua o real valor ou expressão cultural que a arte agrega.

Também chamada de normatização, essa mudança transforma o produto inicialmente possuidor de um valor cultural expressivo em um detentor de um valor simplesmente mercadológico. Ou seja, deixou-se de se preservar aquilo que se afirmava como um produto cultural típico de Fortaleza para se tornar mais uma mercadoria vendável, que teve que se adequar aos moldes globalizados e capitalistas para conseguir se firmar como uma arte local exportável.

Com relação à renda produzida na bela capital do sol, notou-se a partir das últimas décadas, com mais intensidade, que ela passou a fazer parte de um sistema integrado, que sofre constantemente influências políticas e, sobretudo econômicas para se sustentar no mercado comercial global. Fredric Jameson (2001) afirma que uma transformação dessa natureza é mais uma amostra característica da realidade que a globalização existente no mundo contemporâneo propõe.

Na visão de Jameson, para que um produto cultural tenha aceitação fora de seu território, além de se “reinventar”, é necessário que exista interferência tanto do lado político quanto financeiro para dar sustentação a essa difusão da cultura local. Somente dessa forma é que seria possível entender esse processo chamado globalização e que a nossa renda está submetida.

Excelente para uns, péssimo para outros, a verdade é que as expressões de arte locais têm perdido a sua essência e a sua simplicidade para dar espaço a concepções de países de “cultura e costumes dominantes” que se permitem interferir no que é natural ou original, para que venham, em troca disso, se firmarem como consumidores. Cestarias e trançados são outros exemplos da arte local submetidos a esse sistema.

Não precisa ir longe, a música regional, de “raiz”, como é chamada, também sofreu modificações. Resultado: acabou entrando na lista das expressões culturais que “teve” que se render às propostas impulsionadas pelo capitalismo hodierno. Tudo virou mercadoria. São nações desenvolvidas e até mesmo imperialistas que nesse caso se colocam como as vilãs dessa inaceitável transformação que sofreu a renda e outros produtos culturais, em especial, na capital cearense.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:
GUATTARI, Félix. “Cultura: um conceito reacionário?” In GUATTARI, F.; ROLNIK, S. Micropolítica: cartografias do desejo. Rio de Janeiro: Editora Vozes, 1986.

JAMESON, Fredric. Globalização e estratégia política. In: Contracorrente: o melhor da New Left Review em 2000, Emir Sader (org). Rio de Janeiro: Record, 2001.

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Alessandra Marques
 

muito bom o texto, e o conteúdo ficou ainda mais rico com as referências bibliográficas.

Alessandra Marques · Fortaleza, CE 15/4/2008 20:10
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Gledson Shiva
 

quanto falatório pseudo-intelectualóide!...

Quem pode determinar que algo (seja q tipo de tarefa for) é sagrado ou profano? quer dizer que o critério é: tudo que é vendável é profano? Ou: tudo que é modificável com o passar dos tempos é profano? Ou: tudo que se mantém igualzinho é sagrado? São estes os critérios? Sério?! Quanto asneira! Quanta falta de relações diretas com o processos históricos que formam as nações e as culturas, quando todas - absolutamente, estão submetidas aos processos de interferência de outros, sejam estes outros internos ou externos a sua comunidade, tribo, povo ou seja lá o nome q vc der a um aglomerado de gente que tenta repetir uniforme as mesmas práticas de produzinr, se divertir, viver, etc.

O mais importante de tudo é fazer uma pesquisa com as atuais rendeiras e tantas artesãs e artesãos que há em regiões onde a atividade econômica é restrita (o nordeste como um todo é o exemplo tácito disso) e perguntar a eles o que é exatamente este "sagrado", e se eles estariam dispostos a não vender e nem perverter (modificar) mais nada que produzem em troca de praticar a "essÊncia da cultura" e não se renderem a "globalização"; alguém tem dados de uma pesquisa deste tipo aí?

Bem, estes pseudo-intelectualóides deveriam produzir conhecimento útil e não ficarem a se lamentar pelos fatos do mundo está em constante mudança (hoje em dia num processo mais acelerado) e sem o mínimo controle destas mudanças; e que se julgam "defensores do bem, do sagrado, da essência" de gente que mal sabe ler e escrever, mas certamente sente fome e frio e toda uma amalga de carencias que todo ser-humano tem, e que são facilmente domados e iludidos por discursos fajutos como este que considera a "globalização" o algoz e o artesão o mocinho. Este discurso é velho e está surrrado, XÔ!!! OFF.

Gledson Shiva · Fortaleza, CE 23/4/2008 10:07
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