REPENTISTA PASSAGEIRO

Evandro Veiga
No ônibus em movimento, Dunga usa o pandeiro para chamar atenção e fazer rimas
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Pablo Reis · Salvador, BA
10/7/2007 · 290 · 16
 

Dunga faz graças e rimas dentro do ônibus para driblar a vida difícil

No primeiro ponto, eles invadem o nosso ônibus, adentram rindo pela porta da frente, têm pandeiros na mão, fonemas na mente, e o jeito nordestino da pele curtida de sol. E nós não dizemos nada. No segundo ponto, fazem um gracejo com o motorista e o cobrador, cantam pilhérias em ritmo de cordel, ganham dos condutores do coletivo um sorriso de céu e ainda não dizemos nada. No terceiro ponto, já vencem a nossa resistência, criam dichotes com nossa aparência, comparam o passageiro barbudo com o presidente da República, a moça de cabelo arrumado com a apresentadora de telejornal e ganham risos das próprias vítimas de seu poema informal. Até que, no final da viagem, arrancam gargalhadas de nossa garganta, têm-nos como cúmplices de suas rimas tantas e, conhecendo nossa satisfação, ganham dinheiro miúdo em troca desse momento de júbilo e de gozação. E já esquecemos que o trânsito é uma droga, ainda mais num ônibus apertado dessa vida agitada. E não precisamos dizer nada.

São irmãos e repentistas, trabalham em dupla, pongando de ônibus em ônibus, transportados pela necessidade de sobrevivência. Têm o rosto redondo, a cabeça achatada como jerimum, o sotaque agudo como um poema de João Cabral de Melo Neto.

Ligados desde o nascimento pelos laços consagüíneos, permanecem unidos em uma batalha cotidiana entre a falta de uma remuneração formal e o estômago vazio deles e dos que deles dependem. Genivaldo Antônio da Rocha, o Palito, tem 29 anos, mas na fisionomia já passou dos 40 fácil, fácil. Luciano já completou 28, e é o único que aparenta ter apenas dois anos a mais do que o registrado na certidão de nascimento. Só que essa história é a do caçula, Gerisvaldo, o Dunga, que parece já ter passado dos 35, embora esteja ainda nos 25 anos.

Dunga desce de um transporte e vai em busca de outro até dar o dia por terminado. E isso geralmente acontece antes das 15h. É o que ele considera suficiente para arrancar a féria da família. Pode trabalhar com Luciano, mas ultimamente tem feito a parceria melhor com Genivaldo. Começaram no meio da manhã, em um sobe-e-desce de tons e de carros que têm o fim da linha na Estação da Lapa, no Cabula, no Doron, em Mussurunga. Não importa o destino, vale mais a viagem, que pode ser uma sinfonia lucrativa de freadas bruscas ou uma corrida insossa com passageiros de muitos risos e poucas cédulas.

Na entrada no veículo, já fazem o lobby com o motorista e o cobrador, inventando algum repente com os dois profissionais. Ganham a simpatia dos responsáveis pelo ônibus e ao mesmo tempo criam uma expectativa para os clientes potenciais, que formam a platéia de viajantes. Na base do improviso, vão direcionando sua cantoria para cada um dos ocupantes do coletivo, que não pode nem estar superlotado, muito menos vazio. Um jovem de cabeça raspada e redonda, dentes ligeiramente afastados, vira um clone do jogador Ronaldo. Um senhor de físico avantajado e aparência de bonachão ganha o apelido de Faustão. Até a senhora que entrou também pela frente e ocupa uma das primeiras cadeiras, reservadas a idosos, gestantes ou deficientes, fica parecendo com Hebe Camargo.

Mundo de privações

Nesse mundo todo feito de rimas fáceis e instantâneas, a própria realidade do repentista não tem nada de uma prosa agradável. A embolada na vida de Gerisvaldo não está relacionada apenas à música que pratica, é também um resumo de seu currículo como pai.

Aos 25 anos, é pai de cinco filhos, o mais velho (Jeanderson) com 6 anos, o mais jovem (Gabriel) com 30 dias de nascido. Os meninos já começam a decorar as primeiras rimas, na tentativa de demonstrar a vocação prematura para a semente do cordelismo familiar.

“Cante se souber cantar/ e se não canta, cala a boca/ porque com cantiga pouca/ você não pode me açoitar”, repetem os pequenos barrigudinhos, num refrão ensaiado em vozes altivas de guris. Ao sair dos limites das estações de transbordo, Dunga adentra em seu mundo de privações absolutas, num barraco feito com madeirite e boa vontade. É neste lar com as dimensões de uma sala e uma constituição mais frágil do que casa de bonecas que a vida é tocada para além dos repentes.

Morava de aluguel em uma casa na Boca do Rio, perto da praia, mas pagando custosos R$150 por mês. Com algumas poucas economias, comprou o terreno, um nome pomposo para um pedaço de pirambeira barrosa em Saramandaia, estatisticamente um dos bairros mais violentos de Salvador. Com os irmãos, montou uma espécie de condomínio da carência coletiva. O vizinho e fã das cantorias, de prenome Adriano, virou o engenheiro leigo, o mestre-de-obras caridoso que ajudou a colocar a alvenaria em posição vertical nas casas de Genivaldo e Luciano. Faltou dinheiro para os blocos que Dunga gostaria de transformar na concretização do sonho íngreme na encosta de Saramandaia.

A vizinhança, reconhecidamente, não é das mais amistosas com os forasteiros. Por isso, mesmo sendo recepcionado pelos anfitriões de letra e melodia é difícil se afastar do carro para fazer entrevista. “O pessoal aqui respeita a gente, mas pode ser que alguém não tenha visto que você chegou comigo”, sussurra. Então, enquanto Dunga fala, Luciano faz um discreto serviço de vigilância no veículo.

Nascido em Arapiraca, Dunga ainda preserva o forte sotaque alagoano. O pai formava dupla com o tio, eram Patativa e Curió. Os irmãos mais velhos, Luciano e Genivaldo, já somam mais de duas décadas ganhando a vida com versos de improviso e chistes de supetão. Conheceram quase todo o Brasil na vida itinerante de cantadores sem destino. “Paraná, Paraná/ capital é Curitiba/ João Pessoa é Paraíba/ E Fortaleza é Ceará/ Paraná, Paraná...”

Dom da família

Dunga tomou conta do pandeiro há bem menos tempo. Estava em São Paulo, passando necessidades, quando se tocou que tinha nos genes a criatividade necessária e suficiente para se sustentar com ritmo e dignidade. “Eu estava dormindo, quando percebi que precisava acordar para esse dom de família. Meu pai cantava, meu avô também. Nasceu de semente”, justifica. Na maior metrópole brasileira, aprendeu que poderia conseguir os trocados nas viagens de trem. Quando veio para a Bahia, apenas adaptou ao transporte coletivo urbano.

Juntos, anunciam trabalho para casamentos, aniversários, quaisquer eventos de gozo ou de comoção. “Até em velório, a gente canta e ainda leva dez pessoas pra chorar”, brinca Dunga, sem perder o bom humor em nenhum momento. “A aranha veve do que tecer”.

São artistas capazes de improviso ou de composições pensadas como protestos satíricos. Algumas delas, como O poder da bunda, um gracejo anatômico com mais de seis minutos. Eleva para os limites da criatividade calipígia os elogios a esse monumento da redonda anatomia feminina. “Comercial de bebida, roupa, cigarro e charuto/ a mulher exibe a bunda no vídeo mais de um minuto/ sem censura e sem demora, a bunda faz propaganda pra vender qualquer produto/ nas companhias aéreas, esse transporte excelente/ só aceitam aeromoça bonita e inteligente/ são exigidos diplomas, que falem três idiomas, e tenham bunda atraente”.

Dunga não pára de sorrir, não se dá conta de que obstáculos são avistados quando se olha para o futuro, justamente porque só lhe interessa o presente, e isso ele tira de letra fazendo versos instantâneos. Tem uma facilidade incomum para recitar, mas não entende como alguém pode escrever e conversar ao mesmo tempo. “Você escreve o quê? O que está ouvindo ou o que está escrevendo de sua cabeça?”, questiona. E para demonstrar uma certa gratidão, não livra nem o repórter de um pouco de sua inventividade com métrica própria. “É um doutor de respeito/ sei que é muito estudado/ com tanto pêlo no peito/ que só mesmo Tony Ramos/ É peludo desse jeito”/ Tem que carregar os cinco filhos e a mulher com o sustento dessas rimas improvisadas. De repente, eles, os três irmãos cantadores do ônibus, emocionam com uma trajetória simples, rimada e doída. E já não temos nem palavras pra traduzir tanta história de vida.

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Andre Pessego
 

Pablo, estou indo pro parque, treinar - sou matonista de meia -
vou voltar e ler teu texto. Nem precisa, quese que das saudades estou satisfeito. Vou ler só pra aprender. Xô te contar.
- Acho que meu primeiro contato com leitura foi ver um cego , repentista, ler romances de cordel. e acho que o primeiro foi o pavão misterioso. um abraço andre.

Andre Pessego · São Paulo, SP 7/7/2007 11:21
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Andre Pessego
 

maratonistas de meia maratona.

Andre Pessego · São Paulo, SP 7/7/2007 11:21
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Tetê Oliveira
 

Pablo, parabéns pelo texto e por nos apresentar, com a sensibilidade que lhe é peculiar, a história de Dunga e seus irmãos. Uma história que se repete país afora - só mudando os nomes dos personagens e, às vezes, o ofício.
Na edição, tenho uma dúvida e duas sugestões. Quando vc diz que eles "conheceram quase todo o Brasil", imagino que não tenha sido no sentido literal, mas através dos versos/rimas. É isso mesmo?
Ao escrever que “A aranha veve do que tecer”, acredito que vc tenha optado por manter a forma usada pelo Dunga. Nesse caso, que tal pôr em itálico o "veve"? E, no final, "com tanto pêlo no peito".
Abraço.

Tetê Oliveira · Nova Iguaçu, RJ 7/7/2007 18:55
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Pablo Reis
 

ok, Tetê! O texto já está na lista de votação com suas indicações. Obrigado

Pablo Reis · Salvador, BA 9/7/2007 11:06
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Helena Aragão
 

Muito bom, Pablo. Pra fazer jus a uma dupla com improvisos tão 'na mosca', só com um texto legal assim... :)

Helena Aragão · Rio de Janeiro, RJ 9/7/2007 17:46
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Erika Morais
 

Bravo!

Erika Morais · São Paulo, SP 10/7/2007 15:27
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Priscila Silva
 

Excelente figura, Pablo!

Parabéns.

Priscila Silva · Cabo Frio, RJ 10/7/2007 15:37
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Lígia Saavedra
 

Puxa! Pablo, que modo claro e direto de falar desses brasileiros muitos, com os quais convivemos mas quase não prestamos atenção neles, não é?
Parabens!
Um grande abraço marajoara

Lígia Saavedra · Ananindeua, PA 10/7/2007 17:54
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Pablo Reis
 

Helena, Erika e Priscila, muito obrigado pelos elogios. Vindo de vocês, que apresentam colaborações tão interessantes, eles são de extrema importância. Lígia, que bom receber sua crítica marajoara...rsrs
Tenho certeza que aí no Pará encontramos muitas figuras interessantes assim. Beijos a todos

Pablo Reis · Salvador, BA 10/7/2007 19:26
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Andréia Santos
 

Oi Pablo..acho muito importante sua maneira de escrever, digo detalhando os fatos, cativando os leitores.sou estudante de jornalismo, e tive uma professora que sempre nos dava dicas de escrever assim, detalhando a historia deixando ela sempre natural e agradavél, assim como a sua está! è muito bom descobrir pessoas assim, eu conheço um cego que vive dessa maneira...Pessoas assim tem boas historias pra contar, merece um espaço!

Andréia Santos · Salvador, BA 10/7/2007 21:41
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Cipy Lopes
 

Excelente texto, Pablo. Parabéns!!! Mto bacana o 'caminho' pra contar a história dos repentistas. E eu, soteropolimoradora, sou apresentada a estas figuraças por vc. Valeu!
Bjo,

Cipy Lopes · Salvador, BA 10/7/2007 23:04
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FILIPE MAMEDE
 

Muito bom Pablo, as pessoas se viram como podem. Os repentistas deixaram as antigas feiras (DE MANGAIO) e ganharam as praças e os transportes públicos por aí a fora. Aqui em Natal, vez por outro, topo com repentistas e forrozeiros (pé de serra)... é a cultura se movimentando. Literalmente...

Abraço.

FILIPE MAMEDE · Natal, RN 11/7/2007 10:34
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silvino
 

Sei muito bem do que você está falando.
Vai aí o meu voto pelo oportuno registro.

silvino · Reino Unido , WW 12/7/2007 19:48
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Aisele Moreira
 

Olá Pablo mas uma vez estou aqui para elogiar mais um de seus textos, parabéns! Já pude conhecer estes artistas e são realmente encantadores e de fazer qualquer um rir. Adorei seu texto e espero ter oportunidade de ler e comentar vários outors, continua assim tá.
Abraços

Aisele Moreira · Salvador, BA 12/7/2007 19:55
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Cintia Thome
 

A cultura também anda, muda de cenário...belo texto e estória de Dunga e família. Sobrevivência, e esperança e força! Parabens Cintia Thome.

Cintia Thome · São Paulo, SP 13/7/2007 00:05
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Marcio Capuera
 

legal , gostei mesmo

Marcio Capuera · Canadá , WW 16/7/2007 00:32
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