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REPRESENTAÇÃO DA FELICIDADE NA CONTEMPORANEIDADE

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Ronaldo Barbosa · Recife, PE
28/11/2009 · 2 · 0
 


No entorno sócio-cultural contemporâneo um criativo segmento publicitário se aprimora para vender charme, independência, beleza e juventude encarnadas nas mais diversas marcas de felicidade. Isto tudo motivado pelo complexo desenvolvimento tecnológico, científico e econômico; levando os ecologistas argumentarem que, o consumo exacerbado afetará cada vez mais o futuro do planeta e conseqüentemente da humanidade.
Seguindo essa linha de raciocínio, Costa (2001) ao fazer um estudo histórico percebe que, o contexto sócio-cultural desse novo indivíduo começa a mudar a partir dos anos 1960. De início veio o ataque contestador a família, a repressão sexual, a opressão das mulheres, ou seja, aos valores da sociedade feudal como um todo.
O autor acima citado enfatiza também que, em seguida veio a corrosão paulatina e arrasadora da publicidade comercial e por fim, a globalização com a depreciação do valor do trabalho. Como reflexo, as obrigações profissionais e o anseio por maior liberdade individual, afigura-se ter tornado esse novo homem desenraizado do seu lugar de origem e do seu espólio cultural.
Por outro lado, o indivíduo social tem muitas vezes a tendência de acompanhar as metamorfoses sociais, e com todas as mudanças ocorridas no cotidiano acaba moldando-se as mesmas, sem muitas vezes se questionar. E ao perceber um emaranhado de atribuições que nem sempre foram pensadas e analisadas, é que chegam os conflitos e desamparos, por que perde muitas vezes a noção de singularidade para ser mais um na multidão.
Com efeito, Baudrillard (1975, p.16) enfatiza que, na cultura do consumo na qual o homem encontra-se inserido, “[...] como a ‘criança-lobo’ se torna lobo a força de com ele viver, também nós, pouco a pouco nos tornamos funcionais. Vivemos o tempo dos objetos; quero dizer que existimos segundo seu ritmo e em conformidade com sua sucessão permanente.”
Isso mostra como a sociedade moderna por influência ou não da publicidade comercial pode organizar-se diante do seu contexto cultural. Como o consumo de bens materiais ou a idéia do corpo perfeito pode ser confundido com a idéia de felicidade. Nisto, não parece haver implícita idéia religiosa do período medieval que prometa o paraíso na vida eterna. Pelo contrário, torna-se enfático a proposta de Freud (2002) de que talvez a felicidade consista no poder do narcisismo.
Por conseguinte, e com todas as mudanças ocorridas no contexto social vigente, bem como a idéia do corpo perfeito disseminada pelos meios de comunicação em larga escala, muitas vezes se sofre a influência de ideologias produzidas, sejam elas atreladas ou não a felicidade. O que se faz mister compartilhar com Karl Marx de que, “não é a consciência dos homens que determina sua existência, é, pelo contrário, a sua existência social que determina sua consciência.”
Ademais, diante do legado cultural brasileiro, percebe-se um sentimento de covardia coletiva. Há um silêncio passivo, subserviente e assustador, como se todos tivessem de aceitar os desfechos da espetacularização da mídia ao perpetrar a idéia de que todos têm desejos, ambições e desafios, que podem ser compreendidos como um universo que se quer abraçar. Ser rico, ser famoso, ter o corpo de Daniela Cicarelli e Thiago Lacerda, e assim por diante. Ou seja, a idéia da “cultura da felicidade” vendida pelos meios de comunicação.
Afinal, o que fazer com tamanha violência com a espécie humana? Onde fica a farinha de mandioca, a pipoca, os tubérculos e costumes, herança do indígena brasileiro. Para onde vão os aspectos simbólicos da cultura afro-brasileira como candomblé, xangô, batuque, tambor da mina e macumba.
As mesmas conversas sem fim. Explicações incompletas e superficiais. Tudo parece complexo demais. Longe demais. Trocam-se personagens, porém, atitudes se repetem. Falta-se absolutamente tudo. Falta vontade de lutar contra um sistema tão perverso como o capitalismo.
Ter o corpo de Daniela Cicarelli e Thiago Lacerda pode fazer parte do contexto cultural vigente na busca da felicidade e ser o sonho de muitos brasileiros. Porém, esquecer a sua herança cultural em detrimento de uma “cultura da felicidade” que se assemelha numa confortável tensão entre ambições e competências, é no mínimo querer enxergar camelo em florestas brasileiras.

REFERÊNCIAS

BAUDRILLARD, Jean. A sociedade do consumo. 70ªed. Lisboa, 1975.
COSTA, Jurandir Freire. A ética e o espelho da cultura. 3ªed. Rio de Janeiro: Rocco, 2001.
FREUD, Sigmund. O mal-estar na civilização. Rio de Janeiro: Imago, 2002.


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