Revendo Humberto Teixeira e sua telúrica paixão

Foto tirada por Carlos ETC
Cancioneiro Humberto Teixeira
1
Carlos ETC · Salvador, BA
22/1/2007 · 70 · 14
 



"Hoje longe muitas légua
Numa triste solidão
Espero a chuva cair de novo
Pra mim vortá pro meu sertão"
Asa Branca (Luiz Gonzaga e Humberto Teixeira)

Quando um tema é abordado de maneira vasta, principalmente nas artes, pode-se dizer com uma certa firmeza que se trata de alguma característica própria do ser humano. O amor à terra natal, por exemplo, é um tema que já foi bastante explorado aqui no Brasil, certamente porque já se viveu muito esse amor e, diga-se também, essa saudade.

Com Humberto Cavalcanti Teixeira não foi diferente. Cearense da cidade do Iguatu, foi viver no Rio de Janeiro em busca de crescimento profissional. Logicamente que seu caso não era tão parecido com o dos retirantes que, sendo pobres, iam para o sudeste na intenção de sobreviver. Mas tinham muitas coisas em comum e, basicamente, o imenso amor e saudade pela terra de origem.

Sendo um legítimo Teixeira e convivendo com o seu povo, Humberto levou para o Rio de Janeiro essencialmente três coisas: a musicalidade própria da família e refinada na flauta por seu tio -- o bem-humorado maestro Lafaiette Teixeira, cuja "escola musical sanguínea" espalhou-se por alguns outros cantos do Brasil; um senso de humor espetacular, também herança cearense e "teixeirense"; e muitos, muitos sonhos, principalmente relativos à sua terra.

Resumindo bastante a história, estando no Rio de Janeiro, Humberto Teixeira encontrou-se com outro nordestino e, desse encontro, saíram vários hinos de amor ao sertão daquela região flagelada, terra de muitos e também, infelizmente, terra de ninguém. O encontro se dá com Luiz Gonzaga, sanfoneiro vindo de Exú, sertão de Pernambuco -- depois da parceria feita, Luiz seria coroado como Rei do Baião, representante oficial da voz nordestina para o Brasil. Humberto seria "nomeado" o "Doutor do Baião", por ser advogado e um tanto erudito.

Assim, com músicas imortalizadas, Humberto Teixeira nunca deixou de levar no coração o amor por sua terra, por seu povo. E não só isso, preocupou-se ainda: "Será que o Ceará me esqueceu?"

Hoje, a gente pergunta: Será que o Brasil lembra do Humberto Teixeira? E não só do Humberto, mas de tantos outros que também cantaram amores por esta terra, seja em ritmo de baião, samba ou choro. Quanto a Humberto Teixeira, alguns movimentos ultimamente para resgatá-lo à memória, através de um livro e um filme já mencionados aqui no OVERMUNDO.

O livro: "Cancioneiro Humberto Teixeira", belíssima edição de luxo com dois volumes -- bibliografia e seleção de músicas -- onde se encontra muito mais informações sobre a vida deste apaixonado pelo sertão, desde sua infância até a suas labutas no Rio de Janeiro (inclusive com alguns fatos curiosíssimos). Ainda estou lendo e já estou gostando muito!

Já o documentário, o longa-metragem "O Homem que Engarrafava Nuvens", que ainda não consegui adquirir, mas já ouço algumas coisas a respeito e parece estar bem interessante. (E desde já recomendo a todos!)

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Waleska Barbosa
 

Uma retificação: Exú fica em Pernambuco e não na Paraíba. No mais, fico feliz em saber do livro e do longa - obras que ainda não sabia que existiam. Está em todas as livrarias, você sabe?

Waleska Barbosa · Brasília, DF 19/1/2007 15:06
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Waleska Barbosa
 

completando..."o livro" - está em todas livrarias?

Waleska Barbosa · Brasília, DF 19/1/2007 15:07
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Carlos ETC
 

Oi, Waleska! Muito orbigado por sua observação! Dei uma vacilo feio, não sei onde estava com a cabeça! Ainda bem que há tempo de consertar! :D
Quanto ao livro, eu perguntei por acaso numa livraria (Civilização Brasileira, em Salvador) e lá tinha um exemplar só, parece. Não sei se existem muitos exemplares, infelizmente...
Muito obrigado mais uma vez!

Carlos ETC · Salvador, BA 19/1/2007 15:13
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Carlos ETC
 

E vai desculpando essas letras trocadas aí... estou demais, hoje! Valha...

Carlos ETC · Salvador, BA 19/1/2007 15:17
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Helena Aragão
 

O link para a matéria sobre o longa-metragem que saiu no Overmundo está aqui. Muito bacana ver essas iniciativas gerando textos espontâneos para cá. Sinal de que Humberto Teixeira não será esquecido tão cedo...

Helena Aragão · Rio de Janeiro, RJ 19/1/2007 18:07
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Carlos ETC
 

Obrigado, Helena! Não tem mesmo como ser!

Carlos ETC · Salvador, BA 19/1/2007 18:22
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danielgarcia
 

danielgarcia · Rio de Janeiro, RJ 8/2/2007 15:42
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danielgarcia
 

O filme está em fase de montagem. Dentro de uns cinco meses estará pronto.

danielgarcia · Rio de Janeiro, RJ 8/2/2007 15:44
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Carlos ETC
 

Ótima notícia!

Carlos ETC · Salvador, BA 8/2/2007 20:59
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Ivan Maurício
 

A família do compositor José de Souza Dantas, o Zedantas (sem acento e pegado, era assim que ele gostava de ver gravado seu nome), já cumpriu sua parte do acordo para não polemizar sobre a autoria de músicas estabelecido entre ele, Luiz Gonzaga e Humberto Teixeira (advogado, arrecadador de direitos autorais, político, poeta e compositor cearense).
A parte ética já foi cumprida com rigor desde o momento em que os três, ainda em vida, fizeram um pacto de não falar, em público, sobre o assunto: a verdadeira autoria de grandes sucessos como "Asa Branca" e "Juazeiro", atribuídos a dupla Luiz Gonzaga e Humberto Teixeira, mas que na verdade são criação exclusiva de Zedantas.
A família de Zedantas cumpriu, com disciplina e respeito à memória dos três artistas, o compromisso ético. E, também o financeiro. As músicas são executadas e regravadas até hoje e rendem bom dinheiro em direitos autorais. Agora, não é compreensível o silêncio da família de Zedantas no que diz respeito a verdade histórica. O Brasil inteiro precisa saber que é da autoria de Zedantas, e apenas dele, as músicas "Asa Branca" e "Juazeiro".
Zedantas nasceu no dia 27 de fevereiro de 1921 em Carnaíba, na época distrito de Flores, e faleceu no Rio de Janeiro em 11 de março de 1962.
Médico obstetra diplomado em 1949. No ano seguinte, seguiria para o Rio de Janeiro.
Ainda estudante, no Recife, em 1946, Zedantas conheceu Luiz Gonzaga no bairro do Pina. Zedantas mostrou suas músicas que ficou encantado. E lhe entregou seis composições, entre elas, duas adaptações do folclore - "Asa Branca" e "Juazeiro".
No Rio de Janeiro, Luiz Gonzaga registrou, em parceria com Humberto Teixeira, as gravações de "Asa Branca" (1947) e "Juazeiro" (1949).
Conforme relata no livro "Baião de Dois: Zedantas e Luiz Gonzaga" a escritora Mundicarmo Maria Rocha Ferreti:
"Zedantas ao encaminhar a ele (Luiz Gonzaga) suas primeiras músicas, queria apenas vê-las gravadas, autorizando-o inclusive a registrá-las como suas, pois temia a reação de seu pai ao ver o nome do filho num disco. (...) Aquela autorização não dava direito a Humberto Teixeira aparecer ao lado de Luiz Gonzaga como parceiro."
Em 1949, Zedantas concluindo o curso de Medicina foi para o Rio de Janeiro para fazer sua residência médica. Conforme me revelou Dona Iolanda Simões, com quem Zedantas casou em 1954 e lhe dedicou um de seus grandes sucessos "A Letra I", ele percebeu que como estagiário do Hospital dos Servidores do Estado do Rio de Janeiro recebia menos doque o rendimento dos direitos autorais de "Asa Branca" e "Juazeiro" que faziam enorme sucesso.
A partir de 1950, Zedantas não aceitou mais "dividir" a autoria dos seus sucessos com Humberto Teixeira. Nesse ano, Luiz Gonzaga gravou, oficialmente, a primeira em que Zedantas aparece, de fato e de direito, como autor: "Vem Morena". Mesmo assim, generosamente, Zedantas permitiu que Luiz Gonzaga assinasse "Vem Morena" como parceiro.
E assim sucederam-se outros grandes sucessos como "A Volta da Asa Branca" (1950), "A Dança da Moda" (1950), "Cintura Fina" (1950), "O Xote das Meninas" (1953), "A Letra I" (1953), "Algodão" (1953), "Olha a Pisada"(1954), "Noites Brasileira" (1954), "Sabiá" (1955), "Paulo Afonso" (1955), "Derramaro o Gai" (1956) e "Siri Jogando Bola" (1956).
Com a decisão de Zedantas em não permitir que Humberto Teixeira assinasse a autoria de suas músicas, a relação entre os dois - que faziam o programa "No Mundo do Baião" em emissora do Rio de Janeiro - ficou estremecida.
Luiz Gonzaga usou de muita habilidade e promoveu um encntro de Humberto Teixeira e Zedantas no seu sítio em Mangaratiba. Lá, como revelou Dona Iolanda, os três firmaram um pacto de não mais falar sobre a verdadeira autoria de "Asa Branca" e "Juazeiro" através da imprensa.
Em 1957, com o nascimento de sua primeira filha, Zedantas deixou de dar "parceria" a Luiz Gonzaga nas músicas que compunha. Zedantas explicou a Luiz Gonzaga que precisava ganhar um pouco mais de dinheiro diante dos compromissos familiares que cresciam.
E, a partir de 1957, as músicas de Zedantas, gravadas por Luiz Gonzaga, passavam a ter sua exclusiva autoria: "São João no Arraiá" (1960), "Pisa no Pilão" (1961), "A Profecisa" (1963) e "Samarica Parteira" (1973).

Ivan Maurício · Fortaleza, CE 20/2/2007 00:52
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Ivan Maurício
 

Humberto Teixeira - que foi um dos pioneiros na implantação do sistema brasileiro de arrecadação de direitos autorais - teve idêntico problema de apropriação indevida de autoria com o compositor cearense Lauro Maia, autor de "Balanceio" e que este ano é o homenageado do carnaval de Fortaleza.
Tenho em meu poder livro em que este problema é relatado. Inclusive, na época, houve uma desavença familiar entre Humberto Teixeira e Lauro Maia, pois ambos eram ligados por laços familiares. Vou procurar entre os meus livros e documentos e depois envio o relato.

Ivan Maurício · Fortaleza, CE 20/2/2007 01:01
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Carlos ETC
 

Quanto mais informação, melhor né?
Obrigado.

Carlos ETC · Salvador, BA 21/2/2007 17:20
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Caffé
 

Boa tarde à todos..Li alguns dos relatos sobre a propriedade intelectual das obras de Humberto Teixeira. Quero dizer que apontar a propriedade intelectual de alguém não pode ser baseado em boatosa té mesmo pq existem as sanções penais para isso. Denise Dummont, filha de Humberto vem lutando há anos para recuperar o que por direito de herança é seu. Humberto não sobreviveu à sombra de Lauro nem de Luiz muito menos de Zé algum...Todos dividiram um momento de nossas relações pessoais onde o convívio pacífico era a regra. Todos eles sobreviveram ao tempo atravez de suas obras, coincidentemente as obras de Humberto (mesmo sem parceiros) tornaram-se tão populares qto as em parcerias. E agora surge um desejo baseado sabe-se lá em que de desmerecer a riqueza imaterial de todos eles. se alguém comprou foi pq alguém vendeu, ou se recebeu foi pq alguém deu...Isso ficará lá naquele tempo, naquele momento. De resto Asa Branca, Assum Preto, Qui nem jilo, etc....são obras de Luiz e Humberto e patrimônio nosso. As obras de Zedantas será que tb não foram compradas? e as obras de Roberto Carlos e as obras de Michael Jackson??? Na falta do que fazer e do que falar se faz qq coisa, não é mesmo???
É salutar em nome do respeito conquistados por todos esses personagens que os entreveros pessoais entre os amigos sejam resolvidos entre eles, se já não estão conosco, tudo já foi resolvido, se é que existe algo à resolver. O que se sabe é que Bodocongó é de Humberto, Dono dos teus óio e Kalú tb....assim como Xote das meninas é de Zé assim como o hino Nacional é de Manuel Duque Estrada (sei lá)...e é tb nosso...O tempo, a idade faz com que certas coisas se percam, entre elas alguns detalhes que enriquecem e dão sabor aos momentos atuais!!!

Paz, Luz à todos

Caffé · Fortaleza, CE 2/10/2009 13:59
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Carlos ETC
 

Estou contigo, Caffé! Obrigado pelas palavras!
Abraço
Carlos ETC
http://interludios.blogspot.com

Carlos ETC · Salvador, BA 2/10/2009 23:50
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Os dois volumes de "Cancioneiro Humberto Teixeira"
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