Uns dois anos atrás eu ia viajar de ônibus, de noite, e achei melhor levar um travesseiro. Cris tinha acabado de ganhar um muito bom, que era pequeno, porém bastante consistente.
– Não vai levar, você vai perder.
– Tá maluca? Claro que não vou perder...
– Vai perder sim, te conheço, não vai levar.
– Mas ele vai salvar meu sono...
– Não quero saber, não vai levar, você vai perder...
E as duas coisas aconteceram. Eu levei o travesseiro e o perdi. Esqueci no ônibus. Desci sem ele.
Recebi um e-mail de um cara de Vitória da Conquista, me convidando para lançar o livro por lá.
– Pago a passagem e você fica aqui em casa – disse ele.
De Salvador pra Vitória da Conquista, são aproximadamente dez horas de ônibus. Cris tinha comprado outro travesseiro igual. Até melhor.
– Mas nem a pau você vai levar dessa vez...
– Você acha que, depois daquela vez, eu vou repetir o erro?
– Com certeza...
– Tá maluca? Claro que não vou perder...
– Vai perder sim, te conheço, não vai levar.
– Mas ele vai salvar meu sono...
– Não quero saber, não vai levar mesmo...
– ...
– ... mas nem a pau você vai levar esse travesseiro.
No primeiro momento em que entrei no ônibus, abri a biografia de Roberto Carlos para ler. A reservei pra viagem. Peguei emprestada com um amigo que comprou o último exemplar dela no G.Barbosa, quando o biografado, através de uma ação judicial, a retirou de todas as lojas.
Já na primeira página, tomei um susto quando descobri que o autor da biografia, o jornalista Paulo Cesar de Araújo, nasceu na cidade para qual eu estava indo naquele exato momento lançar o meu livro, Vitória da Conquista. Fã de Roberto Carlos, ele começa o livro narrando a história de um show do cantor por lá, no estádio de futebol Lomanto Junior, o Lomantão... Peguei no sono e só acordei às 2:30 da madrugada e fiquei dormindo, acordando, lendo, dormindo, acordando até que o ônibus chegou.
Peguei um táxi e me dirigi para o endereço da casa de Ian, o cara que me convidou. Nunca o tinha vista na vida. Estudante do 7º semestre de jornalismo, morava num local chamado Casa do Estudante.
Com minha mochila e uma mala com 30 livros, cheguei na porta e li uma mensagem dizendo que a porta estava aberta, que era pra eu entrar e dormir um pouco.
Eram seis horas da manhã e, dar uma dormida seria a melhor coisa a se fazer depois do acorda-dorme da viagem, quando, ocupando o mesmo tempo e o mesmo espaço no meu cérebro, me vieram as mensagens:
“Ainda bem que trouxe o travesseiro” e “PUTAQUEPARIU, esqueci o travesseiro no ônibus”.
Fiz um rápido retrospecto dos acontecimentos e lembrei que desci do ônibus sem ele.
Dei adeus ao sono gostoso e fui em busca do travesseiro perdido. Jamais voltaria pra Salvador sem ele.
Com o bilhete da passagem na mão, achei o telefone da Camurujipe, empresa que me levou. Saí do local pra não acordar ninguém, liguei e “aperte um pra aquilo, dois pra aquilo outro, três pra num sei o quê, quatro, cinco...”, até que apertei o de falar com um ser humano e fiquei ouvindo a música que algum ser humano da Camurujipe achou que era adequada pra fazer o cliente esperar. E esperei, esperei, esperei, e, enquanto esperava, saí andando pelas ruas, pensando onde estaria o travesseiro, no que iria ouvir quando dissesse “esqueci o travesseiro”...
Com o celular no ouvido, já na avenida Siqueira Campos, escutando a maldita música da Camurujipe, vendo os conquistenses fazendo exercícios, outros indo pra escola, me dei conta de que era pouco mais de seis da manhã, que não deveria ter ninguém trabalhando àquela hora. Não na Camurujipe. Ainda tentei um telefone da Camurujipe de Vitória da Conquista, que achei em um catálogo de um posto de gasolina, mas deu no mesmo. Teria de esperar até as oito pra começar a tentar o resgate. Nem lembrava mais do lançamento do livro. Voltei pra Casa do Estudante. A porta continuava aberta.
– E aí, rapaz, tava onde? Susto da porra. Quando acordei e vi que você não tava no beliche, achei que tinha desistido de vir. Só me tranqüilizei quando vi a mochila. Já tomou café? Vamos nos arrumar pra sair, tem uma entrevista na televisão e depois na rádio – disse ele sem parar, estendendo a mão pra me cumprimentar.
– Você que é Ian? E aí, tudo bem? Venha cá, me diga uma coisa... sabe onde teria uma loja de travesseiros?
– Hein?
No ônibus, no caminho pra TV da UESB – Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia –, consegui meu primeiro contato imediato com um ser vivo da Camurujipe:
– O ônibus foi pra garagem pra ser lavado. Tem que ligar pra lá.
Liguei pra garagem.
– Camurujipe, Helena, bom dia?
– Dona Helena, tudo bem? – ela tinha uma voz de mais idade.
– Tudo.
– Olhe só, eu vim de Salvador no ônibus das 22 e esqueci um travesseiro dentro dele. Eu estava na poltrona 34. Teria como ver se ele está lá? Viajo amanhã, no ônibus do meio-dia. Na rodoviária mesmo eu pegaria ele de volta.
– Vou olhar pra você. Pode ligar daqui a 20 minutos?
Chegamos na UESB e fui dar uma entrevista pra um jornal que vai ao ar, pela TV aberta, ao meio-dia. Fiz a entrevista pensando no travesseiro, na minha reputação em casa e assim que acabou, liguei pra dona Helena. Ela me pediu vinte minutos, já tinham se passado quase uma hora.
– Ô, menino, ainda nem fui lá, me perdoe... apareceu um problema aqui...
“E você quer problema maior que esse, dona Helena?”, pensei.
– Ah, tá... mas assim que puder, dona Helena, veja isso pra mim, por favor...
– Me ligue depois do almoço.
– Dona Helena, meu casamento depende desse travesseiro – implorei.
Ela riu.
Fomos pra rádio 96 FM, onde dei outra entrevista pensando no travesseiro e depois fomos conhecer a livraria onde seria o lançamento do livro.
Letras e Prosa. Gostei muito. Estava em promoção e tinha muitos bons livros. Livros da editora Conrad com 35% de desconto e da Cosac Naify com 40%.
Depois do almoço, liguei de novo. Não era dona Helena. Era um cara:
– Seguinte, amigão, eu esqueci um travesseiro no ônibus que...
– Rapaz, já procuraram seu travesseiro e não acharam, não...
– Hein?
– Tava lá não.
Fiquei puto, mas não demonstrei. Naquele momento, aquele cara nunca poderia virar meu inimigo.
– Dona Helena tá aí?
– Ainda não voltou do almoço, não – respondeu ele.
O lançamento do livro estava marcado pras 19 horas. Marcamos de ir para a livraria às 18. Ian estava nervoso pelo evento:
– E aí, man, será que vai dar gente?
– Relaxe...
– Eu divulguei nas universidades e em outros locais, você falou no blog, deu entrevista na rádio e televisão... será que vai dar gente?
Até as 15 horas, eu estava mais preocupado com dona Helena que não me atendia do que com o lançamento. Até pensei, fazendo promessa “prefiro que não dê ninguém, mas que eu ache o travesseiro”.
Ninguém atendia na Camurujipe. Pela voz incisiva do cara que atendeu na hora do almoço, dizendo que o travesseiro não foi achado, achei a coisa meio estranha. O cara foi lá na poltrona 34, olhou e não achou?! Outro indício que deixa a coisa mais misteriosa foi que, às 17 horas, já sem esperança, liguei e, milagrosamente, dona Helena atendeu:
– Camurujipe boa tar/
– Dona Helena?
– Ricardo?
– Sim...
– Estou com o travesseiro. Achei ele – disse ela, empolgada pela vitória.
Tenho certeza de que dona Helena passou esse tempo todo longe do telefone executando um corajoso resgate. Marquei de pegar o travesseiro no dia seguinte, quando fosse viajar de volta pra Salvador. Marcamos meio-dia e cinco, no guichê da Camurujipe.
– Acharam o travesseiro? – perguntou Ian, quando desliguei o telefone.
– Acharam – respondi.
– Massa. Que sorte, hein?
– Pois é... E aí, será que vai dar gente?
A livraria tem dois ambientes. Um interno, onde ficam os livros, e um externo, onde ficam as mesas, as cadeiras, o bar e o espacinho onde os músicos se apresentam. Contra a minha vontade, o espaço destinado a mim não era ao lado dos livros, mas do lado de fora. Argumentei, mas o dono disse que a livraria era pequena e que iria ficar muito apertado.
Ian, além de promover o evento, também faria a apresentação musical. Voz e violão. Durante a tarde, enquanto eu estava aflito com o travesseiro, ele ficou no quarto ensaiando algumas músicas. Tocou várias de um cara chamado Chuck Ragan.
O bar foi enchendo. Pessoas bebendo, conversando... Um cara na faixa dos cinqüenta e poucos, com jeitão de quem foi hippie nos anos 70, chegou e pegou um livro. Ficou em minha frente. Leu, leu, leu, leu, leu... quarenta minutos depois, devolveu.
– Muito gostosa a leitura. Flui, né?
– É?
– É. Flui muito bem.
– Então é.
– Parabéns.
– Valeu.
Depois Ian disse que o cara era professor dele. Ficou pirado que ele não comprou.
– Ainda por cima ele dá aula dançando – disse ele.
Uma outra mulher, numa mesa do fundo, também pegou um e leu durante um bom tempo. Ela bebia cerveja enquanto lia, e eu fiquei torcendo pra ela derramar, sem querer, só um pouquinho de cerveja no livro. Depois de quase uma hora, ela o devolveu, intacto:
– Adorei, seu texto prende muito a gente. São coisas simples mas que fazem refletir, né?
– É?
– É. Parabéns, de verdade, boa sorte nessa jornada, viu?
– Viu.
Cris ligou pro meu celular:
– E ai, vendeu algum livro?
– Ainda não, mas já ganhei cada elogio da porra...
No fim das contas, peguei 10 horas de ônibus, cheguei de manhã, passei o dia lá, vendi dois livros, peguei mais 10 horas de ônibus e voltei.
O cara que fez o livro de Roberto Carlos devia tá pior. Roberto Carlos é um otário, pois nem quis dialogar com o autor. A biografia foi fruto de 15 anos de pesquisa intensa, 200 entrevistas exclusivas, investimento, tempo, dedicação e que conta, de uma forma muito tranqüila e respeitosa, com detalhes tão pequenos de Roberto, toda a sua trajetória: as tentativas frustradas pelas rádios cariocas, pelas gravadoras, pelos apreciadores do seu trabalho...
Um livro foi vendido pra uma mulher que hora nenhuma pegou no livro e que estava levemente embriagada. Isso foi aos 47 do segundo tempo. O bar e a livraria fechando, todos pagando a conta, nenhum livro vendido, quando ela passou e disse:
– Sabe de uma coisa, vou levar um livro seu.
E levou.
O outro livro quem comprou foi Ian.
Cheguei na rodoviária às 11:30. Meu ônibus sairia 12:20 e tinha marcado com dona Helena às 12:05, que era o tempo dela sair do escritório da Camurujipe, atravessar a rua e chegar na rodoviária pra entregar meu travesseiro.
Fiquei esperando na frente do guichê e achei que dava tempo de ir ao banheiro fazer xixi e voltar. Estava apertado. Quando voltei, vi a mulher do guichê já com o travesseiro na mão.
– Dona Helena já passou aqui?
– Agorinha. Acabou de deixar aqui. Você é? – perguntou ela, olhando pro nome anotado por dona Helena e esperando a minha confirmação.
– Ricardo. Cadê ela?
– Já foi... saiu apressada.
Tentei achar dona Helena, mas não consegui. Valeu, dona Helena.
Dois livros vendidos dão 60 reais; menos 25 reais de um livro que estava na promoção da Conrad, sobraram 35 reais; menos o táxi da rodoviária até a Casa do Estudante, 25 reais; menos cinco passagens de ônibus por Conquista, 15 reais; menos 13 reais de biscoito e água pela estrada, lucro de 2 reais. Livro é lucro sempre. Só Roberto Carlos que não acha.
Ainda teve um travesseiro a salvo, que Cris, quando soube do acontecido, jurou que, na próxima viagem, mas de jeito nenhum eu levaria o travesseiro de novo.
Vamos ver...
_______________
(1) Roberto Carlos mandou tudo pro inferno, de Ronei Jorge.
Simplesmente maravilhoso! Adorei ler o relato ou o conto
Abraço
O problema dos seus textos, seu Cury, é que eles viciam. E vc, alimentando esse vício com doses homeopáticas aqui no overmundo, vai acabar me fazendo comprar o livro. E eu não tô podendo comprar mais nada agora!! A solução pros viciados duros é vc aumentar a dose aqui... Conta mais, cara!
abraços
ronei jorge, áh ronei... domingo, 12 do corrente, boom bahia fest pc tereza batista, salvador... blá blá blá.... todo intervalo de musica pedia raul, ## TOCA RAUL ##, até q ele disse: -vamos tocar um refrão de raul, tudo na sua hora.... fim do show, Dj, (vamu embora num sei quem?) ele n tocou RAUL, rss,
abs cury, o rock baiano cada vez com mais força!
Votado com merecimento! Muito bom! Estou em votação também, dê uma passada. Obrigado!
http://www.overmundo.com.br/overblog/a-des-graca-de-um-poeta
Gostei da sua análise um tanto silógica, mas super oportuna. Alías, vigorosa em valorizar o papel do escritor, aqui, no caso, um fã do Roberto Carlos. Tanta dedicação por nada, pensamos. Contudo, seu feito rendeu-lhe, ao menos, certa mídia. Um bom conselho é qeu quem como o colega tiver o mesmo projeto faça-o com o conhecimento do personagem. Poderia ter poupado força e inteligência.
Abraços. Votado.
http://www.overmundo.com.br/overblog/25-novos-autores-publicados-pela-nova-coletanea
pô, cara, sou de Salvador tb, e meu marido conquistense. Daqui pra lá de ônibus, só mesmo com um belo travesseiro... e muita sorte, como no seu caso. Abração!
Ana F. · Salvador, BA 20/10/2008 20:42Para comentar é preciso estar logado no site. Faça primeiro seu login ou registre-se no Overmundo, e adicione seus comentários em seguida.
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