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Rodolpho Xavier: negro, flâneur e memorialista

Bibliotheca Pública Pelotense
Pelotas - RS - 1919
1
Lúcio Xavier · Curitiba, PR
24/1/2008 · 154 · 4
 

Rodolpho Xavier nasceu em Pelotas – RS, em 10/05/1874, filho de escravos. Aos dez anos de idade concluiu o curso de alfabetização masculina, promovido pela Bibliotheca Pública Pelotense, juntamente com seu irmão Antônio Baobab. Posteriormente, iria referir-se a esse como seu grande mestre, não apenas em relação às letras, mas também como exemplo de um negro (ex-escravo) que conquistou espaços negados a indivíduos dessa condição, como líder operário e intelectual. Dentre os diversos ensinamentos recebidos de seu irmão, Rodolpho aprendeu também o ofício de chapeleiro.

Antes de estabilizar-se, efetivamente, como pedreiro, exerceu, ainda, diversas outras profissões, tais como: vassoureiro, colchoeiro e maleiro, todas abandonadas pela dificuldade de obter serviços em uma época de capitalismo incipiente. Esse tipo de dificuldade agravava-se, ainda mais, em virtude da sua condição de individuo negro, desqualificado pelo estigma de inferioridade aplicado aos escravos e seus descendentes, que viria a caracterizar o trabalhador daquele sistema emergente, impondo-lhes, principalmente aos afro-descendentes, uma extrema dificuldade de ajustamento social.

Em 1907, um grupo de operários negros fundou, na cidade de Pelotas, o jornal A Alvorada. Segundo seus fundadores, o periódico obedecia a um programa proposto a lutar contra essa discriminação étnica e se posicionar em defesa do operariado.

Já em 1908, Rodolpho aparecia como um dos articulistas; em seus escritos apresentava temas como: política, religião, tradições e costumes e economia, mas exibia, principalmente, abordagens referentes ao preconceito étnico e à organização da classe operária pelotense, que prevaleceram como centrais pelo menos até 1957, último ano que compõe o acervo do A Alvorada na Bibliotheca Pública Pelotense.

Assim, minha idéia inicial de desenvolver este artigo utilizando-me do material que transcrevi do A Alvorada - até então trabalhado com o enfoque na questão étnica e na organização sindical em Pelotas - advém das leituras e demais metodologias desenvolvidas na disciplina de Cidade e História. Um exemplo desses elementos que me despertaram tal interesse é o texto “O Flâneur” de Walter Benjamin .
Nesse texto, o autor apresenta a trajetória de um estilo de literatura – fisiologias – que apresentavam escritos produzidos a partir da descrição dos tipos percebidos em lugares específicos da cidade, desde vendedores ambulantes até indivíduos de classes mais abastadas, encontrados nos foyers das óperas. Do interesse pelos tipos humanos, esse estilo literário passa a se ater à cidade, de onde, segundo Benjamin, surgiram obras do tipo Paris à Noite, Paris à Mesa, Paris a Cavalo, Paris na Água, entre outras. Os fisiologistas também se arriscaram a produzir outras fisiologias, como a dos povos e dos animais.

Enfim, tudo podia transformar-se em matéria prima para este e outros estilos literários que surgiram com propostas semelhantes, sejam dias de festa, dias de luto, lazer, casa, filhos, escola, teatro, tipos, profissões, cerimoniais etc.

A captação desses elementos se dava segundo uma prática que o autor apresenta como flânerie, ou seja, como literalmente diz o próprio verbo flanar, o passear ociosamente, vaguear, perambular; é esse andar despretensioso, que permite maior tempo de observação. Desta forma, Benjamin apresenta a figura do flâneur como um observador, um captador, seja das transformações pelas quais passa a cidade, como da perpetuação daquelas que já existem. A rua torna-se, assim, sua grande morada e fonte de análise.

Na maior parte do texto, o autor debruça-se sobre a produção do poeta francês Charles Baudelaire, comparando-a com a de outros escritores e identificando nela elementos típicos dessa forma de observação, tomando como exemplo o fato de quando o poeta apresenta uma espécie de fantasmagoria acerca dos perigos de uma Paris em constante urbanização: “O que são os perigos da floresta e da pradaria comparado com os choques e conflitos diários de um mundo civilizado? Enlace sua vítima no bulevar ou traspasse sua presa em florestas desconhecidas, não continua sendo o homem, aqui e lá, o mais perfeito de todos os predadores?”

Benjamin, em determinada parte de seu texto, ao discorrer sobre a utilização da iluminação a gás nas ruas de Paris e seu considerável crescimento durante a época de Napoleão III, apresenta a idéia central de um poema de Robert Stevenson, onde o último revela seu lamento acerca do desaparecimento dos lampiões a gás.

Na análise de Benjamin, a queixa de Stevenson “se deixa levar, sobretudo pelo ritmo no qual os acendedores de lampião seguem pelas ruas, de um lampião a outro. No princípio, esse ritmo se distingue da uniformidade do anoitecer, mas agora contrasta com o choque brutal que fez cidades inteiras se acharem de repente sob o brilho da luz elétrica”; nas palavras do poeta: “essa luz só deveria incidir sobre os assassinos ou criminosos políticos ou iluminar os corredores nos manicômios – é um pavor feito para aumentar o pavor”.

Nas passagens de Baudelaire e Stevenson percebe-se nitidamente um registro de memória, deixando, apenas no campo da lembrança, evidências de uma cidade pacata, sem maiores perigos e de um viver idílico sob o ritmo de acendedores e lampiões a gás.

Tais percepções remetem à idéia de Benjamin - ora indicada, ora presumida - de identificar os poetas com a figura do flâneur. Porém, não no sentido do indivíduo habitante das ruas, que utiliza a multidão e a cidade para perder-se ou achar-se ou simplesmente vaguear ao léu, mas sim com aquele que a percorre, estabelecendo uma relação de maneira especial, de modo a perceber obstáculos, apelos e signos, numa diversidade da vida cotidiana onde emerge sua representação do urbano.

Este tipo de relação com a cidade, captando-lhe as transformações, os contrastes e os paradoxos, ao produzir um tipo de literatura, acaba por invocar um objeto ausente, criando a representação daquilo que já não é ou não mais está para ser visto, sentido e experimentado pelos leitores do presente.

Nesse caso tem-se, consciente ou inconscientemente, a produção de uma narrativa memorialística, ou seja, a presentificação de algo ausente ou mesmo a recorrência ao tempo passado como elemento crítico, explicativo, comparativo ou simplesmente nostálgico de interação com o tempo presente.

Para cumprir uma das exigências da disciplina de Cidade e História (apresentação de seminários) selecionei para expor à turma um dos textos do professor Charles Monteiro , oportunidade em que pude tomar maior conhecimento e contato com esse tipo de narrativa memorialista.

Nesse trabalho, Monteiro dialogou com um conjunto de crônicas produzidas por Nilo Ruschel (Rua da Praia, 1971) e Moacyr Scliar (Mistérios de Porto Alegre, 1976), nos anos 1970, como narrativas da cidade que continuavam ecoando no presente. Eram relatos que manifestavam uma pluralidade de vozes, evidenciando os “traumas” causados pela aceleração do tempo e a ruptura com o passado, que aquele presente procurava superar através da reelaboração da memória.

Tanto Ruschel quanto Scliar enquadram-se na categoria de cronistas da cidade, mesmo que caracterizem narrativas distintas, pois enquanto Ruschel escrevia, nos anos 1970, sobre a Porto Alegre dos 1920 e 30, narrando suas andanças pela Rua da Praia e tratando de uma cultura urbana que se organizava ao redor de cafés, bares e restaurantes, Scliar, por sua vez, abordava a Porto Alegre dos anos 1970, a cidade do presente com todos os seus problemas e contradições.

Nesses escritos fica evidente a constatação das mudanças da cidade, onde Ruschel propõe ao leitor uma espécie de refúgio na cidade do passado e Scliar aponta para a impossibilidade dessa alternativa, diante do ritmo alucinante de transformações e a total perda de ligação com qualquer tempo retrô.

No entanto, em ambos, aparece claramente a busca, assim como em Baudelaire e Stevenson, de reconstituição de uma memória social fragmentada e mediatizada escrita nas folhas dos jornais e dos livros, ou seja, a captação dos elementos de dois tipos de cultura urbana, a fim de deixá-los como legado a uma geração posterior; fato que, sem dúvida, os caracteriza autênticos memorialistas.

Sendo assim, pode-se pensar essa reelaboração de memória sem a ação da flânerie? Qual a impossibilidade de um flâneur, que produz um escrito a partir de sua observação, se tornar um memorialista, já que deixará para o futuro o relato de algo, provavelmente, transformado? Ou então, um escritor memorialista pode ser considerado um tipo, entre outros tantos, de flâneur?

Foi justamente a partir desses questionamentos e diante desta encruzilhada de caracterizações, definidora de um mesmo indivíduo, que comecei a lançar um olhar diferente sobre Rodolpho Xavier e suas crônicas. Passei a dedicar-me aos escritos em que Xavier referia-se ao passado e trabalhar com a hipótese de considerá-lo um exemplo de flâneur, entre tantos prováveis.

Rodolpho destacou-se em Pelotas como líder operário e combatente do preconceito de cor aplicado aos negros na cidade. Participou das diretorias da União Operária Internacional, do Centro Operário 1° de Maio, da União Operária de Pelotas, da Liga Operária, do sindicato dos Pedreiros em 1933 e 1936 e de outras associações de etnia ou de classe. Foi redator do jornal da Liga Operária “O Proletário” e em 1925 esteve no 3° Congresso Operário Rio Grandense em Porto Alegre, como um dos delegados da Liga Operária.

Foi membro do Conselho Consultivo da Frente Negra Pelotense e ajudou na fundação do Centro Ethiópico Monteiro Lopes, este último parte de uma luta que mobilizou várias outras cidades da região, contra a recusa em empossar, como deputado federal, o negro Monteiro Lopes.

Como negro e pela prática de líder operário, explica-se, de certa forma, que a maioria das crônicas de Xavier, como já mencionado, tenham sido direcionadas à organização do operariado pelotense e à emancipação social da sua etnia.

Entre os diversos argumentos e estratégias que o articulista utilizava para organizar seu empreendimento em torno da satisfação das questões acima citadas, uma estava em voltar ao passado e recolher fatos, personagens, idéias e demais elementos que pudessem dar base à formulação de seu discurso.

Em artigo publicado às vésperas das comemorações do 13 de maio, no ano de 1935 , Rodolpho fazia severas críticas aos negros de Pelotas, pelo fato de a maioria estar buscando o branqueamento da “raça”, demonstrando, segundo o articulista, a vergonha daqueles indivíduos em pertencerem ou descenderem da etnia negra.

Contra isso, Xavier relatava o episódio, ocorrido no ano de 1890, em que cerca de 50 ou 60 pretas minas, quitandeiras, invadiram a Secretaria da Câmara Municipal para protestarem contra a cobrança de impostos de vendas pelas ruas, a fim de trazer aos negros de sua época subsídios que despertassem o orgulho de ser negro, orgulho de uma luta legitima de seus antepassados; de buscarem seus direitos enquanto afro-descendentes ao invés de negarem suas origens e desejarem “embranquecer a raça”.

Em outra crônica o articulista discorre sobre a situação da classe operária, falando da preferência dos patrões por trabalhadores imigrantes, das necessidades de diminuição da jornada de trabalho, férias, salário mínimo e da Lei dos Sindicatos; essa última vista como um benefício do Estado, pelo menos naquele momento.

Diante desse suposto “benefício”, Xavier fazia críticas contundentes aos operários que não se sindicalizavam e ainda censuravam e desprezavam a instituição. Condenava aqueles que se prestavam a ocupações frívolas e sem proveito e que, por sua vez, estariam sendo beneficiados pelo fruto da luta dos sindicalizados – interesse este que lhes caberiam na mesma obrigação. Assim, o articulista evidenciava que:

"(...) Querem todas compensações, não querem é dispensar trabalho com coisa alguma. Entretanto como é difícil de obter aquilo que desejam, como é difícil de se obter nada sem esforços, aqui D’el-Rei! Os sindicatos não prestam! Exulta com isso os empregados pois sabem, positivamente, que, enquanto houver elementos desagregados eles podem contar com o domínio absoluto".

Para convocar o operariado - ainda reticente com o sindicalismo - e alertar sobre os perigos da não comunhão de interesses, Rodolpho, mais uma vez, voltava ao passado e trazia para as páginas do A Alvorada a memória da organização operária em Pelotas. Xavier falava dos anos de 1896-97, quando da fundação da União Operária Internacional, sindicalizada por classe, que, segundo o articulista, “baqueou pela inconsciência dos que não acompanhavam”, não podendo, desta forma, fazer frente à Liga Operária, organizada por patrões.

Rodolpho encerra a crônica apresentando a fundação do Centro 1° de maio e outras tentativas de organização que “malograram-se: umas por conter idéias extremistas, outras por isto ou por aquilo, de maneira que aos ‘comodistas’ nada lhes servia e interessava”.
Esses e outros tantos relatos de Xavier fazem dele, portanto, um memorialista, pois trazem para o seu tempo presente a memória da cultura urbana de uma cidade que passava por conflitos sociais e étnicos, decorrentes da integração dos ex-cativos ao mercado de trabalho livre e, também, da organização, das frustrações, dos embates e da evolução do movimento operário.

À guisa de conclusão apresentei uma perspectiva, em relação a Rodolpho Xavier, com diálogo bastante próximo à idéia de “ilusão biográfica”, desenvolvida por Pierre Bourdieu . Esse autor afirma que as biografias produziriam uma espécie de “ilusão”, em que a vida seria como um caminho, uma passagem, um percurso orientado, um deslocamento linear, unidirecional, com começo, etapas e um fim; ou seja, “[...] um conjunto coerente e orientado, que pode e deve ser apreendido como expressão unitária de uma“intenção” subjetiva e objetiva, de um projeto”.

O que Bourdieu propõe, é que se entendam os acontecimentos biográficos como “colocações e deslocamentos no espaço social” e as trajetórias dos indivíduos “como série de posições sucessivamente ocupadas por um mesmo agente (ou mesmo grupo) num espaço que é ele próprio um devir, estando sujeito a incessantes transformações”.

Assim, as facetas de líder operário, flâneur, memorialista e outras podem caracterizar essa sucessão de deslocamentos e posições ocupadas por Rodolpho, evidenciando àqueles historiadores que pretendem trabalhar com biografia, cotidiano ou gênero a sensibilidade e o cuidado que se deve ter diante da pluralidade dos agentes históricos.

Referências Bibliográficas

BENJAMIN, Walter. Charles Baudelaire: um lírico no auge do capitalismo. São Paulo: Brasiliense, 1989.

BOURDIEU, Pierre. A ilusão biográfica. In: AMADO, Janaína. e FERREIRA, Marieta de Moraes. (orgs). Usos e abusos da história oral. Rio de Janeiro: Ed. da Fundação Getúlio Vargas, 1996.

MONTEIRO, Charles. Duas leituras sobre as transformações da cultura urbana de Porto Alegre nos anos 1970: entre memória e ficção. Estudos Ibero-Americanos. Porto Alegre: PUCRS, v. XXX. n.2, p.67-88. Dez/2004.

Periódico consultado no acervo da Biblioteca Pública Pelotense:

A Alvorada – Pelotas – RS

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Lu&Arte

Lúcio
Parabéns pelo teu trabalho. Moro em Porto Alegre, mas sou de Pelotas. É muito bom ver este tipo de pesquisa aqui. Pelotas tem muita história esperando para ser contada e pesquisada. Nunca tinha ouvido falar de Rodolpho Xavier, muito legal.
Algumas sugestões de edição: seria bom se facilitasses a leitura do texto com espaços entre parágrafos, e/ou formatação de algumas partes do texto com itálico ou negrito. E valeria a pena uma imagem da Biblioteca Pelotense. A bela arquitetura pelotense não é conhecida em boa parte do Brasil. Um abraço, Luciana

Lu&Arte · Porto Alegre, RS 21/1/2008 10:12
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Higor Assis

Olá Lúcio.

seria bacana colocar espaço entre os paragrafos para a leitura ficar menos pesada nos moldes da internet. Bacana também, caso puder colocar algums fotos ilustrando estes casos e até se conseguir alguma raridade de imagem do Alvorada e do Rodolpho, não sei se há, mas seria muito bacana poder ver isso...

Quanto ao texto/idéia - adorei, muito bacana mesmo. Valeu pela aula.

Abraços..

Higor Assis · São Paulo, SP 21/1/2008 10:14
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Lu&Arte

Oi, Lúcio
A organização do texto ficou bem melhor. Voltei pra votar.

um abraço, Luciana

Lu&Arte · Porto Alegre, RS 23/1/2008 11:10
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Andre Pessego

lucio,
legal. Muito bom texto. E será legal tantos nessa direção,
um abraço, andre.

Andre Pessego · São Paulo, SP 25/1/2008 15:44
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