Rogai por nós, telespectadores

Montagem a partir de imagens do site oficial da novela Sete pecados
Sete pecados: e não deixeis cair em tentação a audiência das 19h da TV Globo.
1
Vinícius Faustini · Rio de Janeiro, RJ
23/6/2007 · 133 · 2
 

A TV Globo iniciou ontem um momento importante para a carreira do autor Walcyr Carrasco. Reconhecido por crítica e público por suas "novelas de época" escritas para o horário das 18h da TV Globo (O cravo e a rosa e Alma gêmea), o novelista foi promovido de horário (para as 19h) e promoveu uma mudança significativa no cenário de sua nova trama - Sete pecados.

Do charmoso início de século XX das suas novelas anteriores, Carrasco agora ambienta sua primeira "novela das sete" na caótica São Paulo deste início de milênio. A trama não tem tanto sabor de novidade: Beatriz (vivida por Priscila Fantin) é uma moça rica, cuja herança do pai desaparecido sustenta toda sua família. Sua primeira aparição na novela é em uma cartomante (que mais tarde o público descobrirá se tratar do "anjo" Custódia, participação especial de Cláudia Jimenez). A vidente afirma que a patricinha encontrará um homem com alma de anjo, mas a moça não acredita porque a descrição física não se assemelha à do homem que a pedirá em casamento dentro de algumas horas - Pedro (vivido por Sidney Sampaio).

O extremo oposto da "pecadora confessa" Beatriz (ela assume gostar de pecar em uma de suas primeiras falas) é apresentado em seguida: o taxista Dante (vivido por Reynaldo Gianecchini), homem capaz de sacrificar o dinheiro da poupança da família para ajudar o vizinho Nino (interpretado por Flávio Migliaccio), vítima de um enfarte. Casado com a doce Clarice (papel de Giovanna Antonelli), o motorista de táxi, cujo nome faz alusão ao escritor italiano Dante Alighieri, passará por uma trama com leve inspiração em A divina comédia - poema célebre do poeta e que, com o passar dos anos (foi escrita no século XIV) parece não ter perdido a atualidade. Em sua história com a "tentadora" Beatriz, Dante passará pelos três "estágios" narrados por xará da vida real mas de sobrenome Alighieri: Inferno, Purgatório, até chegar ao Paraíso (ou não) no capítulo final que será escrito por Walcyr Carrasco daqui a cerca de oito meses.

Em torno da trama amorosa principal, Walcyr enumerou personagens com qualidades e defeitos, mas que trazem neles cada um dos sete pecados capitais. O entrecho cômico promete ser a família de Perseu (a cargo de Zé Victor Castiel), o dono da pizzaria que é guloso a ponto de não sobrar queijo para a pizza de mussarela. A avareza foi apresentada na figura do Romeu feito por Ary Fontoura (papel semelhante a Nonô Correia, que ele interpretou na novela Amor com amor se paga, assinada por Ivani Ribeiro e exibida na TV Globo em 1984), que, no trajeto do táxi, recriminou Dante por ele dar esmola a dois meninos de rua. A soberba se tornou vaidade na pele de Rebeca, a mãe de Beatriz - outra personagem que promete ter situações inusitadas, mas que perde muito da sua comicidade pois a atriz Elizabeth Savalla usa o mesmo tom de humor escandaloso que criou para Jezebel, bem sucedida vilã cômica que ela fez em Chocolate com pimenta, novela das 18h assinada por Walcyr Carrasco e exibida entre 2003 e 2004.

Alguns pecados ainda não foram apresentados de forma concreta, mas o decorrer dos capítulos se encarregará disso - e também dos perfis dos anjos Custódia e Gabriel (que será feito por Erik Marmo), um espiritismo cômico, no estilo de Deus nos acuda , uma também novela das 19h, mas assinada por Silvio de Abreu. Em compensação, dois pecados roubaram a cena e fizeram a primeira página do folhetim Sete pecados ser promissor.

Um deles foi acentuado após uma situação constrangedora. Na inauguração de uma casa noturna que tem como inovação mostrar em suas paredes vídeos amadores da Internet, apareciam imagens nas quais Beatriz e um homem se agarravam numa praia, e ela tirava o biquíni para fazer amor com ele dentro do mar. Uma interessante alusão à Daniela Ciccarelli (flagrada por um paparazzi em situação parecida com o namorado numa praia da Espanha no ano passado), inclusive no momento em que a avó da personagem (assim como a avó da modelo na vida real) afirmava não ter achado nada de mais. Entretanto, na novela, diante daquela situação, Pedro viu despertar nele o pecado da ira, da raiva diante da traição exposta em público.

O outro pecado veio à tona de maneira sutil. Alguns instantes depois do espectador ver a áspera reação de Pedro e a fuga de Beatriz num carro, o autor revela que o homem que estava com ela no vídeo foi contratado por Ãgatha, a inveja em pessoa que quer tomar o dinheiro da protagonista - e, graças à direção de Jorge Fernando, tornou a personagem de Cláudia Raia sombria sem ser caricata.

Em seu retorno à escrita de um recorte contemporâneo da realidade (coisa que não fazia desde a longínqüa e esquecida Cortina de vidro, que escreveu no SBT em 1984), Walcyr Carrasco parece ter adequado seu estilo ao molde dos folhetins exibidos no horário das 19h da TV Globo. Sete pecados traz a correria, a ação e a comédia que caracterizam o horário, mas reservam espaço para o tom de fábula das tramas do dramaturgo.

Entre anjos e arcanjos, a TV Globo roga aos telespectadores para que o horário das 19h consiga uma redenção de audiência - e usa um "milagreiro dos sonhos" que consolidou as 18h como o paraíso da audiência global. A emissora também reza para que Walcyr Carrasco não deixe o público cair na tentação de mudar de canal na hora em que Sete pecados estiver no ar.

compartilhe

comentários feed

+ comentar
wiene
 

Ultimamente, as novelas da Globo deixam a desejar, por conta de chavões, estrelismos e tramas requintadas. E a fórmula tem se modernizado nas novelas da Record, que, se ainda nao tem o padrão global de qualidade, não virou um clone. É necessário fôlego novo sem, com isso, sacrificar a inteligencia do espectador.

wiene · Cuiabá, MT 21/6/2007 15:16
sua opinião: subir
Julio Rodrigues
 

Os ambientes das hostórias globais continuam os mesmos, muito luxo de uma lado, falsos pobres do outro, e no meio o público que já não consegue embriagar-se com isso porque a realidade está logo ali fora, na sua rua e no seu bairro, e cada vez menos as pessoas conseguem ignorar isso. A dramaturgia da Globo sim, está ignora de vez, e prefere apostar em vilões escancarados e comicos enquanto boa parte da população que fugir da bala perdida que ninguém sabe que vilão oculto disparou. Será que a romantica Globo está certa com seu cartel de mocinhos idealizados contra o realismo do nosso cotidiano? Apesar de toda a sua força, ela vai ter que prestar conta ao ibope e aos seus anunciantes.

Julio Rodrigues · Cuiabá, MT 23/6/2007 13:28
sua opinião: subir

Para comentar é preciso estar logado no site. Faça primeiro seu login ou registre-se no Overmundo, e adicione seus comentários em seguida.

filtro por estado

busca por tag

revista overmundo

Você conhece a Revista Overmundo? Baixe já no seu iPad ou em formato PDF -- é grátis!

+conheça agora

overmixter

feed

No Overmixter você encontra samples, vocais e remixes em licenças livres. Confira os mais votados, ou envie seu próprio remix!

+conheça o overmixter

 

Creative Commons

alguns direitos reservados