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Romário e o sol da aurora

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Marvin Kennedy · Lauro de Freitas, BA
7/8/2007 · 72 · 5
 

Dizem que a primeira impressão é a que fica. Desta vez não foi bem assim...

Já passara da hora do almoço e eu ainda estava imerso nos tacs tacs dos teclados da redação da assessoria em que trabalho, quando o telefone tocou. Era Guerra, o porteiro do gabinete da Prefeitura. Com sua voz de cristão arrependido, me disse que havia deixado dois "irmãos" descerem para falar comigo.

Olhei o relógio do celular, respirei fundo e disse que tudo bem:

- Ok, já que tá dentro...

Saí da minha mesa cinza como as nuvens que cobriam aquela manhã de quinta-feira e abri a porta da sala para os dois irmãos. Surpresa! Em vez de me deparar com aqueles tradicionais irmãos, com roupas de velório e bíblias em mãos, me bati com duas pessoas que me passaram à mente serem jornaleiros do A Tarde, com seus coletes e calças azuis e jornais que largam tinta debaixo das axilas da fardinha.

- Bom dia irmão!

Agora sim ele se fez parecer com um "irmão" de verdade.

- Meu nome é Romário e este é Gilberto (não me lembro se era este o nome do colega de Romário). Nós somos do jornal Aurora da Rua.

Esta frase já me fez pensar uma coisa bastante ruim: a mistura de um "irmão" com vendedor à lá telemarketing bem na minha hora do almoço. Porém, o nome e a imagem do jornal, bem colorido e que me fez lembrar o caderno A Tardinha, me chamaram muito a atenção. Resolvi dar trela a eles.

- Este jornal é todo feito por nós, ex-moradores de rua de Salvador. Aqui a gente conta nossa história, nossas vidas. Moramos numa igreja perto da Feira de São Joaquim e, o bom de dormirmos lá é que não ficamos mais expostos aos riscos da noite nas ruas.

Enquanto Romário, que até se parece com o dos mil gols, baixinho e com carinha de marrento falava, eu pensava na disciplina da Pós-graduação e no texto que a história deste cara dava para publicar no Overmundo.

- Custa um real.

Voltei a cair na real.

- Tá, e o dinheiro vai para quem? Perguntei.

Romário, que não tinha a língua presa e não sabia muito bem o português, começou a me explicar que a verba era dividida da seguinte forma:

- Setenta e cinco centavos fica "pra" mim e o resto, vinte e cinco né, é "pra" pagar o papel.

Olhei para Romário novamente, com sua fardinha de jornaleiro azul, parecendo um smurf, e percebi que só os 25 não davam para tanto.

- Certo, mas têm outras pessoas que ajudam vocês?

- Tem sim senhor. Tem uma jornalista que olha as matérias, outra que monta, mas tudo é a gente que faz. A igreja também ajuda.

Romário era morador de rua de Lauro de Freitas, cidade da Região Metropolitana de Salvador. Ele guardava carros e morava na praça por onde passo todos os dias para ir trabalhar e ouvir os benditos tacs tacs dos teclados que as fabricantes dizem ser silenciosos.

Nunca o havia percebido, assim como os ex-colegas dele, com seus colchões de papelão e bombinhas de cachaça, que ainda habitam a Praça da Igreja Matriz. Agora "irmão", ele diz estar liberto não só dos perigos das madrugadas ao léu, mas também das drogas.

Quando dei por mim, estava arrepiado e percebi como o jornalismo, a escrita, a publicação e o ato de se ver em boa forma num jornal havia mudado a vida dele. Voltei a pensar como um calouro de faculdade que se acha capaz de mudar o mundo com seus textos jornalísticos, não sabendo ele o que o mercado o reserva.

Botei as mãos no bolso e só achei um real.

-Só tenho para um, mas gostei muito do jornal. Amanhã você pode trazer mais um deste número e dois da edição anterior?

- Posso sim senhor.

Não imaginei que ele voltaria. No dia seguinte, novamente na hora do almoço daquela manhã cinzenta como a minha mesa, o telefone tocou. Era Guerra, agora com uma voz mais contente, anunciando o retorno do irmão:

-Marvin? Oi, é o mesmo irmão de ontem, ele quer falar com você.

- Ah, Romário?! Tá, deixa ele descer.

Romário desta vez chegou mais alegre e me entregou os jornais como lhe pedi. Paguei o que devia e fiquei com uma sensação de vazio, como a de quem vê um pedaço de costela mas só pode comer uma folha de alface no almoço.

- E como eu posso ajudar mais este projeto de vocês?

Tomei um susto com a minha própria pergunta. Romário respondeu com um ar de alegria:

- Pode mandar um e-mail com sugestão, opinião. Aí no jornal tem nossos contatos, nosso site.

O peitoral de Romário, ao terminar a frase, se encheu de ar, como quem conseguiu completar uma prova para a qual havia treinado muito. Seus olhos brilhavam. Romário saiu de lá com a certeza que conquistara mais um para colaborar com o projeto que mudou a sua vida, a mesma cara que deve fazer um cristão pregador após uma visita bem sucedida à uma casa qualquer numa manhã de domingo.

Romário S. de Oliveira, o jornaleiro cidadão, tem 37 anos, e agora ele volta todos os dias às ruas que desde os sete anos lhe serviram de morada, mas, agora, seus passos com as havaianas verdes e o sorriso miúdo no rosto trazem um brilho que, com toda certeza, inspirou no nome do jornal: Aurora da Rua.

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anamineira
 

Obrigado por proporcionar uma alegria aqui dentro de mim com seu texto. Agradecida estou também a Deus por dar mais uma chance ao Romário. Parabéns!

anamineira · Alvinópolis, MG 3/8/2007 19:10
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Andre Pessego
 

Marvin, muito bom. Não sei se é real, meio real, meio sim meio não. São duas coisas que pegaram no Brasil
a) a ideia do filho único, camisinha, anticoncepcional - o tal do mais por menos.
b) catar latinha de aluminio. é mais fácil se achar R$ 50,00 do que uma latinha dando sopa nas ruas, Brasil por aí.
E também são os dois problemas do mundo>
a) o lixo,
b) o homem.
Nesta conta do lixo tem pintado alguma coisa, não solução, mas interessante. Talvez, a do jornal.
Muito legal, a ideia e a feitura, bem tecida, coisa de baiano. andre.

Andre Pessego · São Paulo, SP 5/8/2007 21:28
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anamineira
 

Voltei pra votar. Um abraço mineiro.

anamineira · Alvinópolis, MG 5/8/2007 23:04
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Higor Assis
 

Porra cara, juro mesmo me emocionei com a resposta dele para a sua pergunta.

Parabéns pela matéria. Valeu por trazer a história do Romário pra gente.

Higor Assis · São Paulo, SP 6/8/2007 17:22
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Yuri Almeida
 

ave cartes

Yuri Almeida · Salvador, BA 7/8/2007 14:14
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