Dizem que a primeira impressão é a que fica. Desta vez não foi bem assim...
Já passara da hora do almoço e eu ainda estava imerso nos tacs tacs dos teclados da redação da assessoria em que trabalho, quando o telefone tocou. Era Guerra, o porteiro do gabinete da Prefeitura. Com sua voz de cristão arrependido, me disse que havia deixado dois "irmãos" descerem para falar comigo.
Olhei o relógio do celular, respirei fundo e disse que tudo bem:
- Ok, já que tá dentro...
Saí da minha mesa cinza como as nuvens que cobriam aquela manhã de quinta-feira e abri a porta da sala para os dois irmãos. Surpresa! Em vez de me deparar com aqueles tradicionais irmãos, com roupas de velório e bíblias em mãos, me bati com duas pessoas que me passaram à mente serem jornaleiros do A Tarde, com seus coletes e calças azuis e jornais que largam tinta debaixo das axilas da fardinha.
- Bom dia irmão!
Agora sim ele se fez parecer com um "irmão" de verdade.
- Meu nome é Romário e este é Gilberto (não me lembro se era este o nome do colega de Romário). Nós somos do jornal Aurora da Rua.
Esta frase já me fez pensar uma coisa bastante ruim: a mistura de um "irmão" com vendedor à lá telemarketing bem na minha hora do almoço. Porém, o nome e a imagem do jornal, bem colorido e que me fez lembrar o caderno A Tardinha, me chamaram muito a atenção. Resolvi dar trela a eles.
- Este jornal é todo feito por nós, ex-moradores de rua de Salvador. Aqui a gente conta nossa história, nossas vidas. Moramos numa igreja perto da Feira de São Joaquim e, o bom de dormirmos lá é que não ficamos mais expostos aos riscos da noite nas ruas.
Enquanto Romário, que até se parece com o dos mil gols, baixinho e com carinha de marrento falava, eu pensava na disciplina da Pós-graduação e no texto que a história deste cara dava para publicar no Overmundo.
- Custa um real.
Voltei a cair na real.
- Tá, e o dinheiro vai para quem? Perguntei.
Romário, que não tinha a língua presa e não sabia muito bem o português, começou a me explicar que a verba era dividida da seguinte forma:
- Setenta e cinco centavos fica "pra" mim e o resto, vinte e cinco né, é "pra" pagar o papel.
Olhei para Romário novamente, com sua fardinha de jornaleiro azul, parecendo um smurf, e percebi que só os 25 não davam para tanto.
- Certo, mas têm outras pessoas que ajudam vocês?
- Tem sim senhor. Tem uma jornalista que olha as matérias, outra que monta, mas tudo é a gente que faz. A igreja também ajuda.
Romário era morador de rua de Lauro de Freitas, cidade da Região Metropolitana de Salvador. Ele guardava carros e morava na praça por onde passo todos os dias para ir trabalhar e ouvir os benditos tacs tacs dos teclados que as fabricantes dizem ser silenciosos.
Nunca o havia percebido, assim como os ex-colegas dele, com seus colchões de papelão e bombinhas de cachaça, que ainda habitam a Praça da Igreja Matriz. Agora "irmão", ele diz estar liberto não só dos perigos das madrugadas ao léu, mas também das drogas.
Quando dei por mim, estava arrepiado e percebi como o jornalismo, a escrita, a publicação e o ato de se ver em boa forma num jornal havia mudado a vida dele. Voltei a pensar como um calouro de faculdade que se acha capaz de mudar o mundo com seus textos jornalísticos, não sabendo ele o que o mercado o reserva.
Botei as mãos no bolso e só achei um real.
-Só tenho para um, mas gostei muito do jornal. Amanhã você pode trazer mais um deste número e dois da edição anterior?
- Posso sim senhor.
Não imaginei que ele voltaria. No dia seguinte, novamente na hora do almoço daquela manhã cinzenta como a minha mesa, o telefone tocou. Era Guerra, agora com uma voz mais contente, anunciando o retorno do irmão:
-Marvin? Oi, é o mesmo irmão de ontem, ele quer falar com você.
- Ah, Romário?! Tá, deixa ele descer.
Romário desta vez chegou mais alegre e me entregou os jornais como lhe pedi. Paguei o que devia e fiquei com uma sensação de vazio, como a de quem vê um pedaço de costela mas só pode comer uma folha de alface no almoço.
- E como eu posso ajudar mais este projeto de vocês?
Tomei um susto com a minha própria pergunta. Romário respondeu com um ar de alegria:
- Pode mandar um e-mail com sugestão, opinião. Aí no jornal tem nossos contatos, nosso site.
O peitoral de Romário, ao terminar a frase, se encheu de ar, como quem conseguiu completar uma prova para a qual havia treinado muito. Seus olhos brilhavam. Romário saiu de lá com a certeza que conquistara mais um para colaborar com o projeto que mudou a sua vida, a mesma cara que deve fazer um cristão pregador após uma visita bem sucedida à uma casa qualquer numa manhã de domingo.
Romário S. de Oliveira, o jornaleiro cidadão, tem 37 anos, e agora ele volta todos os dias às ruas que desde os sete anos lhe serviram de morada, mas, agora, seus passos com as havaianas verdes e o sorriso miúdo no rosto trazem um brilho que, com toda certeza, inspirou no nome do jornal: Aurora da Rua.
Obrigado por proporcionar uma alegria aqui dentro de mim com seu texto. Agradecida estou também a Deus por dar mais uma chance ao Romário. Parabéns!
anamineira · Alvinópolis, MG 3/8/2007 19:10
Marvin, muito bom. Não sei se é real, meio real, meio sim meio não. São duas coisas que pegaram no Brasil
a) a ideia do filho único, camisinha, anticoncepcional - o tal do mais por menos.
b) catar latinha de aluminio. é mais fácil se achar R$ 50,00 do que uma latinha dando sopa nas ruas, Brasil por aí.
E também são os dois problemas do mundo>
a) o lixo,
b) o homem.
Nesta conta do lixo tem pintado alguma coisa, não solução, mas interessante. Talvez, a do jornal.
Muito legal, a ideia e a feitura, bem tecida, coisa de baiano. andre.
Porra cara, juro mesmo me emocionei com a resposta dele para a sua pergunta.
Parabéns pela matéria. Valeu por trazer a história do Romário pra gente.
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