Rompendo paradigmas: língua e sociedade.

Capa do livro "Preconceito lingüístico: o que é, como se faz"
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Jéfte Sinistro · Cabo de Santo Agostinho, PE
20/9/2009 · 3 · 3
 

"Rompendo paradigmas: repensando preconceitos sociais na defesa da identidade lingüística brasileira."
(por Jéfte Sinistro)

“Preconceito lingüístico: o que é, como se faz”. Já o nome traz à tona uma reflexão sobre uma realidade vivida, muitas vezes inconscientemente, no cotidiano do povo brasileiro. Não à toa é a obra mais conhecida, já em sua 51ª edição, lançada pelas Edições Loyola, do professor do Instituto de Letras da UnB, Doutor pela USP, escritor conhecido e premiado nacionalmente, lingüista e tradutor, Marcos Bagno. Trata-se de uma obra voltada à defesa do estudo da lingüística nas práticas cotidianas e à revisão de paradigmas sociais voltados à língua, rompendo com a visão elitista desta e enfatizando métodos práticos que favorecem a democratização dos usos da linguagem.

Logo de início, ao apresentar sua obra, o autor fornece uma breve reflexão sobre tema, trabalhando, inclusive, o preconceito dirigido aos indivíduos ao se impor uma maneira “certa” de falar e as falhas na terminologia comumente utilizada, que deixa margem a interpretações ambíguas, como o uso do termo “norma culta”, que pode ser utilizado tanto para determinar a norma padrão idealizada quanto para definir a maneira como realmente fala a “classe culta”, urbana, socioeconomicamente favorecida.

Tendo introduzido o leitor ao assunto, são servidos oito mitos – oito máximas – comumente utilizados e largamente difundidos, em especial pela mídia e pelos defensores de uma gramática normativa morta e conservadora, em nosso convívio social, como o clássico “português é muito difícil”. Tais mitos dizem respeito à confusão entre língua e gramática normativa, ao conservadorismo por parte de alguns gramáticos, ao desuso da norma padrão e à discriminação geográfica, histórica e social, além da oralidade e a própria autodiscriminação.

É essa mitologia que dá base a todo o livro. Refutando, fundamentado em sólidos argumentos sociológicos e lingüísticos, afirmações – às vezes claramente preconceituosas e separatistas – de gramáticos conservadores de renome, que segundo ele alimentam “comandos paragramaticais”, atuantes no “círculo vicioso do preconceito lingüístico”, o autor deixa claras as lacunas deixadas pelos métodos da gramática tradicional.

O círculo vicioso do preconceito lingüístico se dá numa relação tríplice: a gramática tradicional inspira as práticas tradicionais de ensino que alimentam o mercado dos livros didáticos, estes que, por sua vez, baseiam sua estrutura na gramática tradicional, fechando assim o círculo vicioso. Tal fenômeno demonstra-se claramente através da crise no ensino da língua portuguesa no Brasil, uma vez que de tal modo ensina-se nas escolas uma norma padrão obsoleta como verdade absoluta, desprezando-se as demais variedades lingüísticas, resultando num padrão punitivo de ensino que acaba por restringir a livre expressão do aluno, além de intimidá-lo, desmotivando-o e despertando um sentimento de incapacidade.

Diante de tais situações, Bagno motiva o espírito pesquisador do professor sugerindo uma apresentação das variedades da língua ao aluno, instruindo-o à produção das mais diversas formas preocupando-se, a priori, com o desenvolvimento do conteúdo, demonstrando, no evoluir deste processo, a aplicabilidade de cada variedade, incluindo a norma padrão, e desconstruindo o conceito de “erro” e de relação de superioridade entre as variedades lingüísticas, introduzindo, em detrimento deste conceito, uma noção de aplicabilidade, de adaptação às situações.

No contexto “extraclasse”, Marcos Bagno traz duas interessantes questões para o debate. Primeiro, a questão da conscientização e do papel da mídia nesta tarefa, salientando o reforço contrário que, infelizmente, os veículos de comunicação têm dado ao reforçarem teses de gramáticos conservadores e ao ignorarem os lingüistas, que são os cientistas de domínio deste campo de estudo. E, segundo, o importante reforço da afirmação da identidade da língua portuguesa brasileira, salientando as particularidades da língua que falamos, embora seja questionável o desejo romântico de dissociar por completo nosso idioma do de Portugal.

De tal maneira, combatendo os preconceitos, em especial sociais, e a desvalorização do povo brasileiro como país independente implícitos na discriminação das variedades lingüísticas, o autor defende uma democratização e reforço da identidade plural da língua portuguesa brasileira e respeito pelos que a tem como língua mãe, de maneira clara, simples, objetiva e bem fundamentada, fazendo de sua obra uma recomendação não só aos que se debruçam sobre o estudo da língua e do ensino, mas a todos os brasileiros que apreciam a língua de seu país.


(BAGNO, Marcos. Preconceito lingüístico: o que é, como se faz. 51.ed. São Paulo: Edições Loyola, 2009.)

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Viktor Chagas
 

Lembro de ter lido este livro no meu ensino médio. É bacana mesmo.

Viktor Chagas · Rio de Janeiro, RJ 19/9/2009 12:21
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Raiblue
 

Meu querido,Jéfte!! Nosso fururo (grande)jornalista!!!
Excelente e importantíssima matéria!!!

Português ou brasileiro?? Eis outro livro maravilhoso do Bagno!
É, no meu ponto de vista, incontestável o valor da linguística no estudo da língua, considerando vários aspectos esquecidos ou marginalizados pela gramática tradicional (norma culta), como: social, regional,etc. Somos vários Brasis e seus diversos falares, o que faz com que , hoje, não possamos mais considerar nossa língua como 'língua portuguesa apenas', mas 'língua portuguesa brasileira', pois existem construções que são só nossas, de mais ninguém. Em contrapartida , não podemos abandonar (ainda) a denominação 'língua portuguesa', pois existe todo um processo histórico embutido aí, o nosso período de Brasil colonial... Contudo, a tendência é que a nossa língua caminhe se afirmando cada vez mais como 'brasileira', afinal a língua é dinâmica, é reflexo da sociedade...só não mudaria, se esta( a sociedade) estivesse paralisada no tempo.

O que existe mesmo é um imenso preconceito , principalmente por parte dos gramáticos tradicionais , e, também por muitos falantes, de uma camada social mais alta, que, na maioria das vezes, desconhecem o estudo da linguística, e discriminam aqueles que falam 'diferente' deles, considerando que falam 'errado' mesmo.
A discussão sobre 'erro' é fantástica!!! Dá 'panos pra manga' até entre nós professores, acredite!

Ler e discutir 'Bagno' é preciso!!! E urgente!!!
Maravilhoso postado, meu lindo!!! Não somente pelo conteúdo abordado, mas pela forma como você conduziu a matéria.
Esse futuro jornalista promete!!!!

Aplausos pra ti!!

Mil beijos bluecarinhosos per te!!!
Blue

p.s.: não esquece da nossa coluna revolucionária no jornal, hein?rsrs

Raiblue · Salvador, BA 20/9/2009 19:42
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Raiblue
 

Huhuuuu! Votadíssimo!!!!!!

...mais besitos azules....
Blue

Raiblue · Salvador, BA 20/9/2009 19:43
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