Rubem Fonseca, ainda contemporâneo

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Mauro Paz · São Paulo, SP
1/12/2007 · 33 · 4
 

I
Desde a década de 70, Rubem Fonseca é uma figura fundamental para a literatura brasileira. Contando com uma linguagem objetiva e seca, o autor registra em suas histórias um Brasil que deixou de ser rural para ser urbano. Porém, como se percebe nos primeiros livros do autor, os brasileiros conheceram na cidade outras formas de violência, muito diferentes da dos jagunços de Guimarães Rosa, que já anunciava o final do Brasil rural. No primeiro momento da literatura de Rubem Fonseca, a violência da cidade tem sua explicação nas diferenças sociais.
Durante sua carreira, Rubem Fonseca já publicou mais de vinte livros, escreveu roteiros para cinema e televisão. Contudo, vários críticos afirmam que seus últimos livros não têm a mesma relevância de suas primeiras publicações. Há, ainda, críticos mais extremos que afirmam que Rubem cristalizou uma fórmula que mistura sexo, violência e palavrões para compor best-seller.
Entretanto, o objetivo deste ensaio vai contra a opinião dessa crítica. Buscando demonstrar o quanto atual e sutil se tornou a literatura de Rubem Fonseca, será tomada como base a trama do conto Alice, do seu penúltimo livro, Ela e outra mulheres (Ed. Companhia das Letras, 2005).

II
O conto Alice retrata uma passagem na vida do adolescente Gabriel. A narração que ocorre nos tempos atuais, fica por conta do pai do menino de, então, quatorze anos. Gabriel era gago, na escola,um bom aluno, porém tinha muita dificuldade em língua portuguesa e não gostava de ler. Todo inicio de ano letivo, seus pais iam ter com a professora encarregada pela matéria para comentar sobre as dificuldades do filho. Naquele ano, a professora era nova na escola, chamava-se Alice. Uma mulher de aproximadamente quarenta anos, separada do marido e sem filhos.
Depois de passados dois meses do primeiro encontro, Alice chamou os pais de Gabriel novamente à escola. Afirmou que realmente o menino tinha grandes dificuldades e precisaria de aulas particulares. O casal, que não dispunha de muito dinheiro, lamentou o gasto extra, no entanto a professora se dispôs a dar aulas particulares para Gabriel. Os encontros seriam na casa da mulher, nas noites das terças e quintas-feiras.
Certo dia, o pai de Gabriel encontrou surpreendentemente o menino lendo um livro de Machado de Assis. O casal não acreditava que seu filho estava lendo. As notas do menino em língua portuguesa melhoraram muito e o menino parou de gaguejar. Segundo o médico que havia examinado Gabriel anteriormente, a causa da sua gagueira era emocional e só poderia se curar através do holístico. O tratamento holístico recomendado custava caro para as possibilidades do casal. Assim, ficaram extremamente gratos à professora.
Tudo ia bem até o dia em que o pai do garoto recebeu a ligação de um comissário de menores chamado Lacerda. O homem conversou com o pai de Gabriel e explicou que vinha investigando Alice há algum tempo. A mulher tivera sido expulsa da sua antiga escola por uma denuncia de abuso sexual a um aluno. Lacerda acreditava que Gabriel estava sofrendo abusos da mulher durante as aulas particulares. O comissário, ainda, ponderou que mulheres pedófilas são raras, mas que a lei considerava crime qualquer situação em que um adulto submetesse um adolescente à exploração sexual, independendo do sexo.
Lacerda solicitou ao pai que pudesse conversar com o menino. Prontamente o pai foi buscar Gabriel na escola. Após duas horas interrogando Gabriel, o comissário saiu da sala e desculpou-se pelo incômodo, pois nada ocorrera entre o menino e a professora. Foi embora. Ao final do conto o pai revela, que no percurso da escola para casa, onde o comissário aguardava para o interrogatório, aconselhou seu filho que mentisse a favor da professora, uma vez que não havia nenhum pecado na relação dos dois. Escondeu o episódio de sua esposa que sempre foi muito católica.
Certamente numa primeira leitura, o fato do pai de Gabriel ter aconselhado-o a proteger sua professora parece fruto de uma sociedade machista que valoriza o homem por sua diversidade de parceiras. No entanto, Rubem Fonseca vai além. Não é à-toa que o autor marca durante o conto a desfavorável situação financeira na qual se encontra a família de Gabriel. Antes do pai do menino, ter orgulho do filho por esse manter relações sexuais com uma mulher mais velha, ele sente-se em dívida com a mulher que curou a gagueira do filho.
Assim, retratando a forma contraventora com que o pai de Gabriel retribui a professora pelo fato de ter curado seu filho, o autor demonstra a consolidação da idéia de homem cordial proposta por Sergio Buarque de Holanda, no livro Raízes do Brasil, o qual teve sua primeira publicação no ano de 1936. Segundo Sérgio, “só pela transgressão da ordem doméstica e familiar é que nasce o Estado e que o simples individuo se faz cidadão, contribuinte, eleitor, elegível, recrutável e responsável, ante as leis da Cidade”. Porém, Sérgio coloca, na seqüência do seu ilustre ensaio, que o homem cordial ignora as estruturas do estado e prioriza a esfera familiar.
Como já comentado, Raízes do Brasil teve sua primeira publicação no ano de 1936, data em que o Brasil ainda possuía a maior parte da sua população em zonas rurais. Segundo dados do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), no ano de 1940, o Brasil tinha aproximadamente 40 milhões de habitantes, sendo que 27 milhões estavam em zonas rurais e no ano 1996 a população do país já chegava aos 160 milhões, sendo que 122 milhões em áreas urbanas. Logo não havia como Sergio Buarque de Holanda prever que o perfil do homem cordial resistiria, décadas adiante, ao processo de inchaço das grandes cidades brasileiras e toda reestruturação social que este fato promoveu.
Entretanto, Rubem Fonseca, que registrou o primeiro susto brasileiro com a violência urbana na década de 70, consegue, nesse início de século XXI, retratar a confirmação do brasileiro como homem cordial.

III
Devida a sua experiência prévia como policial, Rubem Fonseca retirou muitas das suas histórias de casos reais. Fato interessante é que no ano de 2005, um ano antes da publicação do conto Alice. Todos os jornais do mundo noticiavam o caso de Debra Beasley Lafave, professora norte-americana que manteve relações sexuais com um de seus alunos de 17 anos. Debra foi denunciada pelos pais do garoto e, como manda a lei americana, presa.
Tendo inspirado Rubem Fonseca ou não na criação do conto Alice, o desfecho da pedófila norte-americana contrapõe-se ao da história de Gabriel, que retrata perfeitamente uma possível reação de um pai brasileiro perante de abuso sexual de seu filho homem por parte de uma mulher mais velha. Agarrado à esfera familiar, o pai brasileiro ignora o Estado e sua legislação acobertando a professora que curou a gagueira do seu filho sem custo financeiro algum.
Assim, percebe-se que Rubem Fonseca não se limita a repetir uma fórmula que se resume em sexo, violência e palavrões. O escritor mostra-se acompanhando o tempo e atento ao comportamento do brasileiro perante as novas variações comportamentais decorrentes do mundo globalizado.

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Estrangeiro
 

Que a obra do Fonseca continua atual, não tenho dúvidas. Mas esse link com o homem cordial do S. Buarque... sei não. Acho o enredo diz mais é da visão machista/latina, embora até sirva como metáfora das relações do brasileiro com a lei e a ordem. Só acho que essa é uma corrente menor - demasiadamente cerebral - pra pensar o texto. No Brasil (ao contrário da Europa e dos EUA) adolescentes "pegos" pelas professoras são considerados heróis, não vítimas: é assim que se constrói a tão sonhada fama de "comedor". É certo isso? Prefiro não julgar. O fato é que acontece. E creio que essa é uma faceta muito mais óbvia para o RF (e diz muito mais da cultura brasileira) do que essa questão do homem cordial. O eixo sexo-violência (palavrões não são elementos fundamentais, embora ajudem a compor o cenário) continua sendo sim a base o substrato principal da literatura do cara. O que os críticos se negam a reconhecer é que ISSO NÃO É RUIM. Abraço.

Estrangeiro · Rio de Janeiro, RJ 29/11/2007 11:33
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Mauro Paz
 

Certamente numa primeira leitura, o fato do pai de Gabriel ter aconselhado-o que protegesse a professora parece fruto de uma sociedade machista que valoriza o homem por sua diversidade de parceiras. No entanto, Rubem Fonseca vai além. Não é à-toa que o autor marca durante o conto a desfavorável situação financeira na qual se encontra a família de Gabriel. Antes do pai do menino, ter orgulho do filho por esse ter relações sexuais com uma mulher mais velha, ele sente-se em dívida com a mulher que curou a gagueira do filho.

Mauro Paz · São Paulo, SP 29/11/2007 14:18
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Cintia Thome
 

Mauro

Já estive aqui e tua colaboração é pernitente ao Overmundo com que se refere a obra de Fonseca no texto Alice, onde se vê uma situação dos moldes da família brasileira e ainda muito atual.abçs.

Cintia Thome · São Paulo, SP 1/12/2007 15:49
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Mr. Silva
 

Curar a gagueira não é tão fácil quanto o conto faz parecer. É algo tão difícil quanto curar síndrome de Tourette ou mal de Parkinson. Mas na ficção tudo vale. Não se faz boa literatura aferrando-se demais à verdade. Afinal, literatura não é ciência.

Mr. Silva · Rio de Janeiro, RJ 18/6/2009 02:23
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