Sabal anuncia, figuras bailam:lá vem o Menino Deus

Marco Vieira
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Thiago Paulino · Aracaju, SE
24/12/2008 · 258 · 7
 


Com 203 anos, o Reisado do Marimbondo resiste pisando forte no chão e cantando com um coro afinado de quatro gerações.


Antônio dos Santos é um pescador. Mas desde menino não parava quieto em um canto. Camisa de botão “meio sambada” aberta no peito, quem vê a figura de Seu Antônio sentado na varanda de sua pequena casa no Povoado Marimbondo¹, no município de Pirambu (SE), não imagina em quem ele se transforma. Nas rodas de brincadeiras, festivais culturais e encontros de mestres o nome é outro: Sabal. “Eu mesmo pequenininho brincava careta na época de semana-santa. Andava muito de quatro-pé, correndo, pegando parêia. Aí chegava nessas janelas, saltava de lá de fora e caía dentro. Nisso o pessoal inventou que eu era liso que nem um sabão. De sabão ficou Sabal. Eu fiquei com raiva uns tempos, não queria o tal do apelido, mas depois deixei para lá”, explica.

A energia de quando era pequeno continua pulsante até hoje. Sabal, que não bebe e nem fuma, é um dos brincantes mais conhecidos no meio da cultura popular sergipana. Para quem já viu uma brincadeira sua, pode concordar que as suas maiores características são a risada contagiante e uma energia de sair faísca quando ele começa a dançar. Um vigor na altura dos seus 61 anos que impressiona. “Eu fiz uma apresentaçãozinha lá no Ceará e falei assim ó ‘Minha brincadeira é diferente da de todos vocês. Quer ver como é?’ E comecei. Pisei...pisei.. pisei.. com as meninas que foram mais eu. Ave Maria! Aí todo mundo queria que a gente se apresentasse mais, mas tinha outros mestres. Se deixa, eu faço uma apresentação de noite até o dia clarear e não repito uma canção ”.

E diz aí, Sabal, esse negócio de reisado o quê que é? “E apois, mestre, o reisado é assim: quando o Menino Deus nasceu na manjedoura quem se apresentou naquele horário foi o reisado. Não foi outra brincadeira. Ele canta a chegada de Jesus, canta o bendito. A cantiga fala do nascimento do Menino Deus”.

Pesquisadores apontam a origem ibérica do reisado. A brincadeira, pertencente ao ciclo natalino, é um auto-popular que, dentre outras histórias, explica e celebra o nascimento de Jesus e o trajeto dos reis magos. Muitos são os reisados espalhados pelo Brasil afora, cada um conta sua história de uma forma diferente². Nesse teatro popular de Marimbondo, Sabal faz o palhaço Mateus que comanda a festa, puxa as cantigas e conversa com a Dona do Baile. “A Dona do Baile é quem faz as perguntas ao Mateus e ela é quem diz qual cantiga vai sair”. Junto com os dois personagens, o reisado deste povoado de Pirambu soma 18 figuras, os personagens da brincadeira.

“Meu reisado é familiar”

O mestre explica que seu reisado vem do bisavô e dos diversos parentes que mantém a brincadeira viva há 203 anos. “O natal é uma coisa muito importante para nós. Antigamente aqui em Marimbondo a gente fazia uma manjedoura e colocava o presépio para na hora fazer o nascimento do Menino-Deus. Naquela época do meu avô Estevão a gente dançava dentro da Igreja. O reisado vem do meu bisavô. É de 1805”, Sabal puxa pela memória mas não lembra. Pede ajuda a mãe. “Ô mãe, sabe o nome do meu bisavô?”. Dona Ismênia que observa a conversa-entrevista na beira da porta responde: “Finado pai véi? É Luiz dos Santos”.

Dona Ismênia representa a geração mais antiga no reisado, foi ela que levou Sabal para a brincadeira. “Comecei a botar esse meu filho, Antônio, para brincar o caboclo [figura semelhante ao Mateus] quando ele tinha 15 anos de idade. E ele pegou com jeito, é como falam, né? É de família”. A mãe do brincante acompanha o grupo e puxa as cantigas, mas lembra de outras épocas. “Reisado como o de antigamente não fica mais um no mundo. Já brinquei muito. Antes a gente saia na sexta e só voltava na terça. Meu irmão fazia o caboclo. Eu já fiz a baronesa, a andorinha e a sereia”.

O mestre do Reisado de Marimbodo tem oito filhos, todos fazem parte do folguedo. José Alberto dos Santos, o Beto de Sabal, 30 anos é responsável pelos toques e melodias da sanfona. Beto tocou na quadrilha junina Sacolejar e já foi do grupo Casaca de Couro, conhecido por fazer um forró de alta qualidade. “Vez por outra Joaquim [vocalisata do Casaca] me chama para tocar com ele”, disse Beto explicando que aprendeu a tocar com o pai e aos poucos foi desenvolvendo a técnica na sanfona.

E Sabal manda Beto interromper a pintura da casa para pegar algo que considera uma herança preciosa da família: uma zabumba que foi do bisavô. E para mostrar que o instrumento ainda é bom Sabal precisa tocar. Ele, então, convoca o outro filho. “Ednei pegue aqueles pífanos”. Dessa forma é apresentada outra arte da família, também secular, a banda de pífano. Ednei na caixa, Beto pega a histórica zabumba e Sabal, o primeiro pife. Como atento observador e sem desgrudar da perna do pai está o pequeno Lucas, filho de Beto. No meio da rua de pedras em Marimbondo o som ecoa. Moradores saem nas portas para ver o breve ensaio. De madeira, grande e parecida com uma alfaia de maracatu, o som grave da zabumba impressiona. “Parece um trovão”. Sabal dá uma risada do meu comentário.

“Meninada preste atenção o Reisado é bem assim...”

O mestre fala bem alto num microfone. O cenário agora é outro. Três dias depois do toque de pífano, Sabal está se apresentando na sede de Pirambu. A cidade está animada com o Culturarte que está na sua XVIII edição. É uma sexta-feira e durante a tarde os grupos fizeram um cortejo. Além do Reisado de Marimbondo participam também do festival o Ilariô, Capoeira Unidos das Tartarugas e o Lariô das Tartarugas. Depois do cortejo, os grupos se apresentaram no Clube da Trataruguinha².

Abre-se um grande parênteses - - - Um leitor atento vai perceber que o nome de um animal se repete. E isso não é por acaso, faz parte de uma idéia muito bacana de integrantes do Projeto Tamar que resolveram aliar preservação às brincadeiras da cultura popular. A consciência ecológica aliada à identidade cultural, quem inventou essa fórmula merecia uma estátua em praça pública. Deyse Rocha, além de Overmana, é coordenadora ambiental e uma das figuras centrais nesse processo. Participou da coordenação de 16 dos 18 festivais Culturartes. Ela explica que esse ano o seminário do Curturarte serviu para fazer um balanço dos diversos festivais e formar uma comissão para organizar e discutir novas idéias para o evento. O professor de história Agnaldo dos Santos Silva é da coordenação e vibra, apesar das dificuldades, em ver o Clube da Tartaruguinha cheio. “É um momento onde a cultura local culmina. O festival acontecendo é uma honra e uma alegria”. - - - Fecha o parênteses.

E a apresentação de Sabal fez o público vibrar com a energia dos dois cordões do reisado. O que mais impressiona é que o brincante havia contraído uma gripe na mesma semana, mas a animação apagou qualquer efeito da doença. Estava programada uma hora e foram quase duas de apresentação. Sabal mostrou como guerreia, cantou a chegada dos reis magos. Provocou a Dona do Baile arrancado risos. Dona Ismênia soltou a voz, Beto castigou na sanfona e seus irmãos o acompanharam, sem parar, na percussão. As dançarinas do baile deram um colorido especial. Dentro do salão um coro de quatro gerações do Reisado de Marimbondo cantava e dançava.

Mas o ponto alto da apresentação mesmo foi a chegada do boi. Cobrado várias vezes “Ô Sabal cadê o boi?”, perguntava o público. Nessa parte entra um roteiro muito comum dos reisados. O Mateus chama o Boi que entra e faz aquela folia. Assusta a garotada, corre atrás de todo mundo. A meninada mais atiçada provoca o boi e se diverte. Mas o Mateus acaba matando o boi³. Apreensão. “Eita Dona Deusa... viiixe Maria e agora que eu matei o boi?!” pergunta o Mateus Sabal que tenta, em vão, levantar o boi a pulso. E nada. “Já sei. Vou fazer uma oração que minha avó ensinou. Criançada preste atenção que agora vou ressuscitar o boi”. A bela cantiga começa, o boi volta à vida e com ele a animação da garotada. Morte e ressurreição é um ponto forte dos reisados, talvez para fazer um paralelo com a vida de Jesus.

“Minha gente preciso de espaço”

Pede Sabal para todos. O mestre agradece a Deyse e outros da organização que o deixaram se apresentar para contar a história do reisado. “Mas está vendo como é bom assim. Agora quando eu vou para outros festivais é quinze minutinhos para uma ruma de grupo. Ninguém vê nada”. Sabal canta então a última de despedida, chama todos para dançar. O salão fica lindo. Crianças de todas as idades, inclusive algumas acima dos 50 anos, como os integrantes do grupo lariô da Tartaruga (a atração seguinte) eram as mais animadas.


_________________

¹Marimbondo, povoado com cerca de 423 famílias que sobrevivem basicamente da agricultura familiar e da pesca no Rio Japaratuba. O comerciante Cláudio da Conceição, morador do povoado, explicou certa vez numa conversa de fim de tarde entre amigos: “No início eram duas famílias. A filha de uma casou com o filho da outra. Aqui tudo é parente. Todos são dos Santos. E aí viviam tudo assim, juntos. Numa casa só, feito marimbondos”, explica gesticulando, rápido. Os amigos ao lado não se seguram e riem, desconfiados, ao ouvir a história. Mas Cláudio não se aperreia, e justifica. “Bem, foi o que eu escutei, né! Agora, se é história de Trancoso...”.

²O Clube da Tartaruguinha foi fundado em 1989, mas em 2005 recebeu um novo formato. Um salão amplo com pequeno palco e externamente imita a tradicional casa de taipa (madeira e barro). Um espaço fundamental para a apresentação de grupos e da comunidade.

³Na encenação de Sabal, o boi foi morto por acidente. Mas em outros reisados, ele é morto para satisfazer o desejo da Dona do Baile que quer comer a língua do boi.

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Helena Aragão
 

Linda matéria, Thiago! Totalmente no espírito do fim de ano. Bárbaros esses personagens e também o "parênteses" no meio do texto. Pra completar, parabéns ao Marco Vieira pelas fotos belíssimas. Abs

Helena Aragão · Rio de Janeiro, RJ 21/12/2008 12:19
1 pessoa achou útil · sua opinião: subir
Andre Pessego
 

Viajei no tempo, dei uma volta no espaço e me vi ali.
Bela matéria; necessária materia.
Bem feita, bem ilustrada, e as curiosidades......
Também nasci e me criei até os 15 anos numa localidade em que todos eram (aliás éramos) parentes.
Feliz Natal a todos
abraço
andre.

Andre Pessego · São Paulo, SP 21/12/2008 17:52
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N.Lym
 

Muito bacana! Adoro textos como o seu em que aprendo bem mais sbr coisas q antes eu n sabia!Votadíssimo!

N.Lym · Fortaleza, CE 24/12/2008 00:32
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clara arruda
 

Bela matéria.Um feliz ano de 2009

clara arruda · Rio de Janeiro, RJ 26/12/2008 09:11
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lu almeida
 

Sabau é azedo, virado na gota serena. Dono de uma gaitada rasgante. Maravilha vê-lo retratado e tão fielmente descrito nas palavras brincantes de Thiago.
Certa vez, Sabau me contou que o reisado dele não sae em datas comemorativas, como o Natal - manifestação típica dessa época do ano. Diz o Sr. Mateus que só arruma a folia dele no caso de convite para festas/festivais. Como será que ele pensa hoje? Isso é uma coisa que sempre me deixou encucada.

lu almeida · Aracaju, SE 26/12/2008 14:35
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Doroni Hilgenberg
 

Thiago,
Gostei demais
Lendo e aprendendo.
bjs

Doroni Hilgenberg · Manaus, AM 26/12/2008 18:38
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nina araújo
 

Maravilha de Brasilzão e maravilha de gente que ama este torrão gigante!!! Parabéns!
Feliz 2009!
Abraços daqui,

nina araújo · Rio de Janeiro, RJ 27/12/2008 10:30
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O pequeno Lucas na barra da calça do pai entre a zabumba e a caixa zoom
O pequeno Lucas na barra da calça do pai entre a zabumba e a caixa
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