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Sabedoria para o mundo

Yusseff Abrahim
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Yusseff Abrahim · Manaus, AM
16/1/2007 · 137 · 4
 

Antes não havia nada no universo além da escuridão, por isso, cansado de viver sozinho, o “Avô do Universo” chamado Umuri ñehku – um ser que segundo a crença surgiu por ele mesmo – decidiu criar a terra e todos os seres para habitá-la. Utilizando-se de sete peneiras, cada uma feita de um material diferente, criou a terra, matas, rios, animais e peixes em um ritual onde abençoava cada objeto. “Esta peneira de uarumã de água será os rios e lagos de crescimento da ‘Gente do Universo’, dando-lhes a bebida e a saúde que nunca terão fim”. O registro original desta cosmologia está no livro A Mitologia Sagrada dos Desana-Wari Dihputiro Põrã, que faz parte de uma coleção de oito volumes intitulada Narradores Indígenas do Rio Negro. Cada livro é dedicado a uma etnia específica, e o lançamento da primeira obra no ano de 1995, evidenciou uma das ações mais bem sucedidas da Federação das Organizações Indígenas do Alto Rio Negro – FOIRN, no resgate, documentação e revigoração de ensinamentos da cultura tradicional para povos que corriam o risco de perder seus referenciais com o passar do tempo.

Assim que terra e água começaram a existir, Umuri ñehku abençoou mais uma vez a terra, benzendo-a como se fosse uma mulher para que ela gerasse filhos. Feito isso, surgiu uma mulher, Yebá Buró, a “Velha da Terra”, como o primeiro retrato da mulher-mãe, a qual as mães das gerações futuras iriam se assemelhar. Eles se saudaram, mas durante muito tempo Umuri ñenku procurou fazer sozinho a “Gente do Universo”, nunca obteve sucesso, somente com a participação de Yebá Buró isso foi possível. Em demorada cerimônia, Umuri ñehku permitiu que ela soprasse a fumaça de um cigarro para dentro de uma cuia que estava sobre um suporte e foi coberta em seguida por outra cuia de mesmo tamanho, ao mesmo tempo em que soprou a fumaça, Umuri ñehku orava para abençoar a mulher. Quando terminaram a cerimônia, os dois destamparam a cuia e viram sete sinais de gente, parecendo-se larvas.

A produção do conteúdo sobre a mitologia Desana-Wari Dihputiro Põrã seguiu a mesma lógica dos demais volumes, ao gravar depoimentos somente daqueles que possuem a legitimidade nas tribos para relatar o conhecimento mítico. O narrador Diakuru, também tuchaua da sua comunidade, foi traduzido para o português pelo filho Kisibi, em uma contínua rotina de revisão entre ambos. Supervisionados pela antropóloga Dominique Buchillet, ao final do trabalho, os autores incluíram notas explicativas assim como Dominique incluiu curtos esclarecimentos de pontos etnográficos particulares para permitir melhor entendimento.

“Agora sim, nós conseguimos formar a Gente do Universo”, disse Yebá Buró, mas Umuri ñehku estava preocupado em saber quem seria o líder supremo dos sete sinais de gente, somente depois de algumas horas, decidiu. “O primogênito será Abe, a luz que nunca terá fim, fará o bem para os seus irmãos e dominará a terra inteira”. Em seguida, abriu a cuia e ordenou: “Abe, saia da cuia transformadora e comece agora seu trabalho”. Abe saiu da cuia e no mesmo instante surgiu a luz, pouco depois apareceram as estrelas que mais tarde geraram seus descendentes. Depois, Umuri ñehku voltou-se de novo para a cuia e disse: “O segundo irmão será Deyubari Gõãmu. Dono da caça e da pesca, inventará instrumentos para que as gerações futuras se alimentem. Agora saia da cuia e comece seu trabalho conforme eu lhe ordenei”. Assim os sete sinais de gente se transformaram nos sete líderes ancestais dos Desana, segundo o grupo dos Wari-Dihputiro Põrã, tendo ainda Baaribó, como o dono das plantações; Buhsari gõãmu, o mestre da natureza, Wanani gõãmu, o dono do veneno, e as líderes mulheres Amo e Yugupó, a primeira destinada a trabalhar na nascente dos rios, e a segunda na foz. Nestes dois últimos casos o livro revela o que poderia ser considerado uma falha, sob o ponto de vista documental, justificada por uma afirmação do seu narrador indígena logo no texto de apresentação. “Este livro somente conta o que os cinco líderes ancestrais dos Desana fizeram”, afirma, na declaração em destaque.

Ao final do livro, o leitor percebe que as duas líderes mulheres não são sequer citadas após sua gênese entre as sete larvas na cuia de Umuri ñehku. Entre o conceito de falha editorial e o que a nossa cultura interpretaria como menosprezo, a cada página, percebe-se o papel apenas secundário do feminino na mitologia a excessão da sua importância para a criação da Gente do Universo. Caso a hegemonia do masculino se manifeste nas relações interpessoais dos indivíduos desta sociedade em questão, fica a ordem de Umuri ñehku para as duas líderes como a perspectiva que, desde a criação do mundo, não se concretizou a tempo da edição do livro. “Vocês duas mulheres serão grandes criadoras e seus trabalhos serão muito prestigiados pelas gerações futuras”.

Abe resolveu procurar um bom lugar para morar sossegado, conversou com seus irmãos para saber onde poderia ficar para tomar conta de todos eles. No fim, resolveram que Abe deveria morar no centro do universo para iluminar o mundo inteiro, e assim fez o imortal e líder supremo dos Umuri Mahsã (Gente do Universo). Deyubari Gõãmu, o segundo líder, casou-se com uma descendente da Gente-Estrela, o problema é que os descendentes da Umuri Mahsã não reconheciam a liderança da Gente-Estrela, embora esses tivessem surgido no mesmo momento que a luz de Abe. Com o passar do tempo, a Gente do Universo foi enfraquecendo o poder da Gente-Estrela e os baniu, por este motivo a união de uma descendente com um Umuri-Mahsã era mal vista pela Gente-Estrela, que conseguiu separá-los deixando Deyubari Gõãmu sozinho para criar um filho, enquanto o outro foi transformado em pássaro. Além da beleza simbólica das alegorias, a mitologia revela ao leitor a origem de todas as coisas existentes na natureza, no livro da etnia em questão, a ênfase se concentra na origem das doenças segundo a cultura tradicional, já que todas são conseqüências de algum episódio mítico, assim como a descrição da planta e a reza que as combate usadas até hoje pelos curandeiros. Todos os volumes são abastecidos com notas explicativas, glossários com nomes científicos das plantas e animais citados, assim como seu correspondente na língua da etnia em questão e até mesmo mapas apontando os locais sagrados onde ocorreram os fatos míticos.

Deyubari Gõãmu não suportou criar o filho sozinho e mudou-se para morar com uma família vizinha que era Gente-Sukuku – nome de um tipo de sapo – que não sabiam pescar e sempre voltavam da pesca sem trazer nada. Um dia Deyubari Gõãmu sentiu fome e resolveu pescar, antes, ele fez criar no corpo de seu filho feridas que escorriam gordura com o cheio de todos os tipos de jenipapo que havia no mundo. Colocando o menino sobre uma árvore, a gordura ao pingar na água atraía vários peixes pela sua essência de jenipapo, mas Deyubari Gõãmu flechava apenas o limite de cinco peixes por dia. A Gente-Sukuku não entendia por que apenas Deyubari Gõãmu conseguia pescar, então, aproveitando um dia em que foi caçar, abordaram seu filho e o forçaram a contar o segredo. Um aspecto importante das obras é perceber que alguns mitos são compartilhados por etnias distintas, alteram-se nomes, alguns desdobramentos, mas a essência do ensinamento mantém-se apenas com as variações que justificam e enriquecem ainda mais diversidade dos povos que habitam o alto Rio Negro. Para uma compreensão exata desta complexidade, acompanhe (com calma) o caso dos narradores Diakuru e Kisibi: eles moram na comunidade chamada Cucura, no igarapé de mesmo nome e afluente da margem esquerda do rio Tiquié. Sua etnia de origem soma aproximadamente mil indivíduos divididos em 50 comunidades pelos rios Tiquié e Papuri, sendo representantes de um grupo de descendência Wari Dihputiro Põrã, os “Filhos de Cabeça Chata”, dentro da etnia Desana, que se auto-denominam Umuri Mahsã, Gente do Universo. Por sua vez, os Umuri Mahsã são parte de um dos 15 grupos indígenas da família lingüística Tukano Oriental que moram com outros povos da família oriental Arawak e Maku, na região do Rio Negro. Ao todo, são 25 mil pessoas vivendo em cerca de 500 povoados dispersos ao longo do Rio Negro e seus afluentes.

Coagido, o filho de Deyubari Gõãmu revelou o segredo para a Gente-Sukuku, imediatamente eles levaram o menino e o amarraram sobre uma árvore. Como de costume, a gordura das suas feridas começou a pingar dentro da água e sem demora, os peixes, atraídos pelo cheiro de jenipapo começaram a se aproximar para lambê-la. Vendo isso, os rapazes começaram a flechá-los, mas eles ultrapassaram o limite de Deyubari gõãmu. Vendo o excesso, o menino começou a gritar “- Meu pai não flecha tantos peixes! Vocês já passaram dos limites! Tirem-me logo daqui! Chega de flechar! Me levem logo de volta para casa! Tenho medo que alguma desgraça aconteça comigo!”. Ao mandar o menino calar a boca, a Gente-Sukuku mal viu a cobra grande Diá-Doe, a Cobra-Traíra, devorar o menino e fugir. Deyubari Gõãmu mesmo longe sentiu que algo ruim havia acontecido ao seu filho, e depois de várias outras decepções em sua vida, resolveu deixar a Terra e ascendeu ao universo se transformando em um pássaro Tukano. Hoje os indígenas desta etnia são seus descendentes. Embora o público-alvo destas publicações seja os próprios indígenas, a Coleção Narradores Indígenas do Rio Negro revela o valor da sabedoria destes povos para o mundo e todas as suas raças. Em tempos em que a preocupação com o meio ambiente consegue ocupar onipresença na mídia, a mitologia Desana na alegoria do filho de Deyubari Gõãmu, mostra uma reação adversa da natureza representada pela cobra-grande após uma ação predadora da Gente-Sukuku. Atualmente, o uso deste conhecimento é percebido quando comunidades ribeirinhas no Amazonas, para proteger seus manancias, contam histórias sobre a presença de feras devoradoras que habitam estes lugares para amedrontar invasores.

No geral, a reflexão histórica que o conteúdo destes ensinamentos provocam é de pesar, ao lembrar-mos que, no ano de 1500 os colonizadores tenham utilizados mais arcabuzes do que os ouvidos para absorver conceitos que, se utilizados, poderiam construir sociedades bem diferentes das atuais. O registro deste conhecimento é uma vitória para as comunidades indígenas brasileiras e um presente para o resto do mundo... pena que este mundo ocidental que conhecemos, dificilmente vai dar ler.


Os livros podem ser adquirido por meio da Casa de Produtos Indígenas Wariró, contatos pelo telefone (97) 3471-1450 / 1349, ou pelo endereço eletrônico wariro@foirn.org.br. Os valores variam entre R$ 25 e R$ 60 reais, mais despesas postais.


NOTA: Os trechos em itálico são apenas um resumo produzido pelo autor da matéria, o conteúdo original das obras segue uma transcrição muito mais rica e detalhada por vir dos relatos gravados diretamente dos anciãos das tribos.

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Fábio Fernandes
 

Yusseff, que coisa bacana. Vou já encomendar esses livros!

Fábio Fernandes · São Paulo, SP 16/1/2007 18:24
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Yusseff Abrahim
 

É Fabio!
Acredito você vai gostar... minha análise sobre esta viagem para São Gabriel da Cachoeira, foi descobrir que tudo o que sabia sobre indígenas no Brasil não representava 0,1% do que temos para conhecer e entender.
Os mitos são um excelente meio para este entendimento. Alías, um conhecimento de mundo mais sofisticado do que muita gente pensa.
Obrigado pelo comentário e espero que tenha gostado do formato meio que experimental do texto. Abaixo regras! Viva o entendimento.

Yusseff Abrahim · Manaus, AM 16/1/2007 19:54
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Fábio Fernandes
 

Gostei do texto, gosto de mitos
e acho que a única regra realmente importante é o próprio entendimento.
Valeu, Yusseff!

Fábio Fernandes · São Paulo, SP 18/1/2007 09:54
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anamineira
 

Yusseff,
É muita coisa que temos que aprender...
Estou aqui pensando com meus botões...
Por que essa obra maravilhosa não está na mídia?
Nas grandes livrarias?
Parabéns pela divulgação.
Um abração mineiro.

anamineira · Alvinópolis, MG 13/1/2008 09:10
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