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Samba da Portela a Marselha

Leonardo Lima
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Daniel Cariello · Brasília, DF
29/7/2006 · 95 · 3
 

"Olá, Daniel. Boa tarde. Que bom que você atrasou um pouco. Eu estava na rua até agora mesmo". Com essa frase e um sorriso constante no rosto Carlos Elias entrega duas características marcantes de sua personalidade: a inquietude e a simpatia. E uma da minha: a dificuldade de chegar no horário.

Aos 72 anos, o sambista, que já foi gravado por Nara Leão e Beth Carvalho, está em fase de divulgação do seu novo grupo, Som Brasília. E tem visitado amigos e meios de comunicação em sua incansável cruzada de propagação do samba, iniciada há mais de 50 anos, quando o mineiro de nascimento ainda morava no Morro do Pinto, no Rio de Janeiro, para onde se mudou aos 3 anos de idade. "Foi lá que nasceu Ernesto Nazareth", revela, referindo-se a um dos grandes nomes do chorinho, autor do clássico Odeon.

A paixão pela música começou na adolescência, quando tentou estudar alguns instrumentos. O destino não ajudou muito. De seus três professores de piano, um se mudou sem deixar o endereço. Outros dois morreram. Depois, passou para o violão. E seu primeiro mentor também acabou falecendo. Coincidência ou não, sempre no período de férias. "Meu segundo professor de violão até brincou, dizendo que se eu viajasse não voltasse para lá como aluno, apenas como amigo", ri, cheio de vida.

Outro amor de Elias, a Portela surgiu para ele durante o carnaval de 1954, quando os desfiles ainda ocorriam na Avenida Rio Branco, no Centro do Rio. Tornou-se relações públicas da escola. Lá, nos anos 60, conheceu Paulinho da Viola, Elton Medeiros, Candeia, Argemiro do Patrocínio, Monarco e outros nomes de peso do samba. E tornou-se um respeitado compositor. Foi gravado por Nara Leão (Canção da Primavera) e Beth Carvalho (Homenagem a Nelson Cavaquinho), entre outros.

Nelson Cavaquinho, aliás, foi um grande amigo. Tentaram uma parceria, que nunca se realizou. "Acho que o Guilherme de Brito (parceiro mais freqüente de Nelson) teve um pouquinho de ciúmes. Dizia que a parceria não daria certo. E não deu mesmo", sorri. "Nelson me entregou uma música com um pedaço de letra. Eu terminei, mas infelizmente nunca tive tempo de mostrar pra ele."

Nesse momento deixa escapar uma pontinha de tristeza. Como quando conta da decepção causada por sua escola do coração no carnaval de 2005. Foi escalado para entrar na Marquês de Sapucaí ao lado da Velha Guarda, mas a ala não conseguiu desfilar. "A Portela saiu muito cheia. E o presidente não teve outra escolha a não ser impedir a entrada da Velha Guarda. Do contrário, não encerraríamos o desfile a tempo e seríamos rebaixados."

Mas logo volta a falar das coisas boas que realizou. Como a temporada Sexta-Feira É Dia de Samba, em 1966 e 1967. Começou no Teatro Jovem, em Botafogo, e depois foi transferida para o Teatro Princesa Isabel, em Copacabana. "Uma noite o Grande Otelo foi convidado para cantar. E levou com ele um grupo elétrico, com guitarra e bateria. Teve gente que torceu o nariz, mas eu gostei", conta. "E ainda teve a vez em que recebi um bilhete de um amigo, pedindo para abrir espaço para um jovem cantor que estava começando. Sabe quem era?". Eu não sabia. "O Martinho da Vila."

No meio dos anos 70, mudou-se para Brasília por necessidade de seu trabalho administrativo no Itamaraty. E fundou o Clube do Samba, anterior ao que João Nogueira montou no Rio. Funcionou semanalmente de 1978 a 1981. "Mas os músicos não aprendiam novas canções. O repertório ficou o mesmo durante três anos, e aí começou a esvaziar". O que seria desânimo para uns tornou-se motivação para ele. Manteve o samba apenas uma vez por mês, e ocupou as datas restantes com mais um de seus projetos, também seminal para a cultura brasiliense: a Feira de Música. Os frutos foram tão bem plantados que nos anos 90, já sem o seu comando, a Feira tornou-se o principal palco do rock de Brasília.

Depois, foi pra França. Morou em terras napoleônicas em dois períodos: de 1984 a 1989, em Marselha, onde recebeu a notícia da morte do amigo Nelson Cavaquinho. E de 1997 a 2003, em Paris. E fez muito bem o seu trabalho de embaixador do samba. Tocou em badaladas casas de show, como a Favela Chic, montou espetáculos e até participou de um desfile de moda do estilista japonês Yoshi Yammamoto.

Há dois anos de volta à capital, é uma das figuras mais queridas da cidade. Tanto que existe até comunidade no Orkut em sua homenagem. Com fôlego de criança, tem gente que jura já tê-lo visto em duas rodas de samba ao mesmo tempo! O segredo, revela, é sua vida regrada. "Procuro seguir uma dieta e não bebo cerveja, só um pouco de vinho". E como com cavalheiro, nunca nega uma dança. "As mulheres pedem para dançar comigo. Acho que é porque eu sou animado e adoro inventar meus próprios passos. Meu ídolo é o Fred Astaire".


Link: Comunidade "Eu Conheço o Carlos Elias", no Orkut

Contato: carloseliasdacruz@yahoo.com.br

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Rodrigo Teixeira
 

Parabéns Daniel, q figura! É o Overmundo mostrando quem faz este Brasil! valeu mano

Rodrigo Teixeira · Campo Grande, MS 28/7/2006 17:16
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Gilvan Costa
 

Eh isso ai Daniel. Gente como o 'seu' Carlos é que mantém viva a cultura brasileira. Que bom que o Overmundo tá aqui pra mostrar isso pro resto do país. Parebéns pra vc e pro 'seu' Carlos.

Gilvan Costa · Boa Vista, RR 29/7/2006 23:20
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Daniel Cariello
 

Ele é uma figura mesmo. Juram em Brasília que ele já foi até visto em dois lugares ao mesmo tempo. Mas melhor não chamar de "Seu" Carlos. Ele tem mais fôlego do que muita criança.

Daniel Cariello · Brasília, DF 30/7/2006 13:55
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