Samba no prato - sobre O Som de J.T. Meirelles

Pedro Paulo, Toninho Oliveira, Manoel Gusmão, Dom Um Romão e J.T. Meirelles
1
Bernardo Carvalho · Rio de Janeiro, RJ
23/6/2008 · 156 · 11
 

Saxofonista, produtor e arranjador, João Theodoro Meirelles, conhecido como J.T. Meirelles, foi decisivo na construção do estilo que se convencionou chamar “samba-jazz”. Meirelles foi um dos representantes do Beco das Garrafas, juntamente com uma geração de ouro formada por Sérgio Mendes, Luiz Eça, Dom Salvador, Tenório Jr., Raul de Souza, Paulo Moura, Edison Machado, Airto Moreira, Wilson das Neves, entre outros. Em 1964, no mesmo ano em que escreveria o arranjo do sucesso “Mas que nada”, de Jorge Ben, Meirelles reuniu Manuel Gusmão (baixo), Luiz Carlos Vinhas (piano), Dom Um Romão (bateria) e Pedro Paulo (trumpete) e formou o conjunto Copa 5. Com ele, produziu o álbum O Som que, juntamente como Edison Machado É Samba Novo, representou uma espécie de guinada desses instrumentistas em relação à bossa nova. Meirelles faleceu no último dia 3 de junho, aos 67 anos.

* # *

Já passou da hora de discernir o samba-jazz da bossa nova. E nesse caso, é preciso considerar alguns critérios históricos e formais, para não confundir, como se vê por aí, alhos com bugalhos. São contextos bastante diferentes, e discografias idem. Pena que algumas reavaliações como esta se iniciem somente através de enviesadas interpretações estrangeiras, como foi, por exemplo, com o funk carioca e o metal do Sepultura. No caso do samba-jazz, foram os djs ingleses que primeiro se renderam ao vigor da música intrumental brasileira da década de 60, levando-a para a pista de dança, o espaço anti-bossa nova por excelência. E embora o célebre Beco das Garrafas concentrasse boa parte dos artistas ligados aos dois movimentos, existem diferenças radicais entre eles.

Por exemplo, considerando a economia do instrumental e da interpretação um fator precípuo na constituição formal da bossa nova, evita-se a confusão entre ela e o samba-jazz. Pois economia não designa adequadamente a música de Dom Salvador, Tenório Jr., Raul de Souza, Paulo Moura, Airto Moreira, Wilson das Neves, Pedro Paulo, entre outros. Pelo contrário. Edison Machado até cunhou um termo distintivo, o “samba no prato”, para designar o som que produziam: muitas vezes barulhento, dinâmico, aberto aos improvisos, lembrava mais os ataques da Orquestra Tabajara, do que as sutilezas harmônicas dos arranjos de Tom Jobim e Roberto Menescal. Portanto, o samba-jazz não é “filho indireto da bossa nova”, mas uma espécie de desenvolvimento de vertentes instrumentais da música brasileira: os lundus alucinados da música de barbeiros, os choros da banda do corpo de bombeiros de Anacleto de Medeiros, as orquestrações de Radamés, Maestro Gaya, e a já citada orquestra de Severino Araújo. Trata-se, portanto, de depreender o ingrediente secreto que diferencia o samba-jazz da bossa nova, o torna uma corrente autônoma, e até mesmo contrária, embora contígüa em muitos aspectos (sentir-se à vontade no paradoxo é fundamental para compreender o mundo, dizia o geógrafo Milton Santos…).

O som não é o disco-marco do samba-jazz; esse título cabe a Edison Machado é samba novo, realizado um ano antes, com arranjos de Moacir Santos. Mas pode ser abordado literalmente como um disco de perfeita síntese do samba com o jazz. Do samba, a levada em 2/4 maliciosamente marcada no tempo fraco, que torna o improviso uma tarefa para iniciados. Do jazz, a liberdade harmônica, o espaço para o improviso e a estrutura de arranjo. Este aspecto sintético pode ser conferido nas seis faixas do disco, todas compostas por Meirelles. No entanto, O som faz algo mais do que a mera síntese: ele cria um vocabulário de tramas, texturas e dinâmicas que, por sua variedade, se distancia da regularidade com que se construía o arranjo dos discos de bossa nova (os de primeira hora, claro…). E ai, percebe-se mais uma diferença: enquanto a bossa era influenciada pela suavidade enxuta do cool jazz, o samba-jazz estava mais antenado no bebop e no hard bop de Miles, Coltrane, Mingus… O enfoque é, obviamente, mais concentrado nas cores e no improviso do que na canção propriamente. Na cozinha, por exemplo, o diálogo entre Dom um Romão e Manuel Gusmão admira pelas variações contínuas, mesmo quando se trata de repetir o tema principal. O piano de Vinhas cria desenhos melódicos e harmônicos com uma liberdade jamais experimentada (e desejada) pelos bossanovistas, variando do balanço marcado até os arroubos dissonantes mais inesperados. Meirelles e Pedro Paulo também variam conforme o clima, ora conferindo estabilidade aos temas, ora criando solos mais agressivos e “expressionistas” (como, por exemplo, no primeiro solo de Meirelles em “Solitude”). Esta combinação de inflexões apolíneas e dionisíacas, criada por músicos conscientes das possibilidades de seus respectivos instrumentos, confere ao samba-jazz uma singularidade inalienável na história da música feita no Brasil.

Tomar O som como exemplo é apenas uma homenagem ao recém-falecido J.T. Meirelles, pois poderíamos nos referir também ao já citado Edison Machado É Samba Novo, a Embalo de Tenório Jr., a Impacto de Hector Costita, a Rio 65 Trio e muitas outras obras-primas da mesma época. Em todos eles, a segurança na execução, a ousadia nas harmonias e no improviso, um balanço indescritível, uma concepção de arranjo e dinâmica absolutamente originais, que não descartava a produção de uma massa sonora, muitas vezes ruidosa e dissonante. Absolutamente divergente da suavidade descartável, ainda hoje praticada e, pelo visto, eternamente identificada à bossa nova. (Bernardo Oliveira)

compartilhe

comentários feed

+ comentar
Helena Aragão
 

Bernardo, não sei se por lapso meu ou por ter sido pouco noticiado (acredito mais na primeira hipótese), só fiquei sabendo da morte do Meirelles pelo teu artigo. Que lástima! Jovem e, se não me engano, ainda numa fase de retomada de visibilidade do seu trabalho maravilhoso. Muito interessante teu artigo, que tem como gancho a notícia triste, mas que faz o melhor tipo de homenagem que se pode a um artista: a análise de seu trabalho. O som do Meirelles é eterno, os arranjos do primeiro disco do Jorge Ben são antológicos e espero que tudo isso faça o reconhecimento que ele merece continuar a reverberar... Abraço e bom ver teus ótimos textos de volta por aqui!

Helena Aragão · Rio de Janeiro, RJ 20/6/2008 12:42
1 pessoa achou útil · sua opinião: subir
Bernardo Carvalho
 

obrigado Helena. uma pena que a morte do Meirelles nao tenha sido divulgada adequadamente... mas ja leio por ai muita gente chateada com isso... certamente por conta desta retomada a que voce se refere...

Bernardo Carvalho · Rio de Janeiro, RJ 21/6/2008 12:21
sua opinião: subir
Rodrigo Teixeira
 

Nossa Bernardo, não sabia da morte do Meirelles. Vi várias apresentações dele ali na Modern Sound! Vou acabar de ler o artigo depois... Salve o histórico Copa 5 e o nosso 'Paul Desmond' brasileiro... abs

Rodrigo Teixeira · Campo Grande, MS 24/6/2008 03:45
sua opinião: subir
joao xavi
 

Apesar da notícia da morte do J.T. Meireles, o papo também pode caminhar para o que existe da sobrevida na obra do maestro.

Neste sentido, é curiosa a relação que você faz do samba-jazz com Miles Davis e Charles Mingus. Tendo em vista a forma como o rap underground americano faz uma reapropriação, através do bom e velho sampler, destes artistas de lá. Enquanto o próprio Meireles, e os citados Edson Machado, Dom Salvador, Jorge Ben e Wilson das Neves são algumas das "vítimas" favoritas dos produtores daqui.

joao xavi · São João de Meriti, RJ 24/6/2008 07:00
1 pessoa achou útil · sua opinião: subir
Bernardo Carvalho
 

recentemente o Madlib se juntou ao baterista do Azymuth, Mamão, e fizeram um disquinho curioso sob a alcunha Jackson Conti. Mamão não é propriamente da galera do Beco, mas representa uma certa música instrumental brasileira, que é certamente um dos pólos de atração dos sampleiros de todo o mundo... o disco apresenta um visão bem diferente da música brasileira do que a do Thievery Corporation, que na minha opinião parece simplória e utilitária...

Bernardo Carvalho · Rio de Janeiro, RJ 24/6/2008 09:32
1 pessoa achou útil · sua opinião: subir
joao xavi
 

tô ligado nesse disco, que me lembra um poquinho o projeto brasiliantimes, que envolvia bateristas e dj´s.

dois bons x-9 de sampler:
o blog taxa de amostragem;
e a rádio boom shot, que vem por outra produz especiais colocando sampleadas e originais lado a lado.

joao xavi · São João de Meriti, RJ 24/6/2008 10:15
1 pessoa achou útil · sua opinião: subir
Bernardo Carvalho
 

ótimos sites joão, muito obrigado!!

Bernardo Carvalho · Rio de Janeiro, RJ 24/6/2008 10:33
sua opinião: subir
Mariana Mansur
 

para ouvir e pra baixar

só para registrar: o disco sujinho partes 1 e 2 de jackson conti (mamão + madlib) é mesmo fruto do brasiliantimes, que aliás, foi um showzaço.

Mariana Mansur · Rio de Janeiro, RJ 24/6/2008 12:08
1 pessoa achou útil · sua opinião: subir
joao xavi
 

outro bacana de sampleadas e originais.

mariana, o blog do tamenpi é um dos meus favoritos!

joao xavi · São João de Meriti, RJ 24/6/2008 13:50
sua opinião: subir
Mariana Mansur
 

é joão, pode crer, o blog é dos melhores.
bom esse blog francês tb.

Mariana Mansur · Rio de Janeiro, RJ 24/6/2008 21:15
sua opinião: subir
Elliana Alves
 

Muito bom,parabéns,melhor ainda levar o conhecimento de todos,parabéns e votei!

Elliana Alves · Petrolina, PE 1/7/2008 07:23
1 pessoa achou útil · sua opinião: subir

Para comentar é preciso estar logado no site. Faça primeiro seu login ou registre-se no Overmundo, e adicione seus comentários em seguida.

filtro por estado

busca por tag

revista overmundo

Você conhece a Revista Overmundo? Baixe já no seu iPad ou em formato PDF -- é grátis!

+conheça agora

overmixter

feed

No Overmixter você encontra samples, vocais e remixes em licenças livres. Confira os mais votados, ou envie seu próprio remix!

+conheça o overmixter

 

Creative Commons

alguns direitos reservados