Samba ontem, funk hoje

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absurdosturos · Rio de Janeiro, RJ
1/4/2007 · 151 · 31
 

Na minha humilde opinião – e há quem concorde comigo –, ocorre com o funk carioca fenômeno semelhante àquilo que outrora se deu em relação ao samba. Explico:

Quando do prenúncio do século XX, o samba era essencialmente executado e ouvido em uma área geográfica específica – a Cidade Nova, na época conhecida como Pequena África. As casas das “tias” baianas que habitavam esta área se transformavam em verdadeiras escolas musicais, onde negros ex-escravos e seus filhos praticavam uma curiosa mistura do lundu africano e do maxixe europeu, mistura essa que foi adquirindo estilo próprio até consolidar-se como samba.

Indissociável da cultura dos escravos recém libertos, o samba não raro era visto pelas autoridades como “a música de negros e vadios”, o que complicava a vida de qualquer um que perambulasse pela cidade com um violão debaixo do braço. Mesmo na casa das tias, em dias de festa, cabia ao samba apenas o espaço da cozinha e dos fundos, enquanto o choro, dotado de maior prestígio, ocupava a sala de visitas – conforme depoimento de Pixinguinha ao MIS.

No entanto, é consenso entre os pesquisadores do tema que a chegada de Vargas ao poder altera substancialmente este panorama; o projeto de construção da identidade brasileira implementado pelo estadista, e alicerçado pelo mito das três raças que ganhava força com Gilberto Freyre e modernistas como Mário e Oswald de Andrade, alçou o samba à condição de símbolo da tal identidade nacional que era naquele momento forjada. Além disso, a profusão de músicos brancos que iam às casas das tias e aos morros do Estácio para ouvir o samba – muitos residentes da minha querida Vila Isabel, como Noel Rosa, Almirante, João de Barro e Francisco Alves – contribuiu para que este estilo musical tivesse cada vez mais a aceitação e o aval das elites. Hoje, e já há muitas décadas, ninguém estranha que o samba pouse nos olhos azuis de um Chico Buarque ou se reproduza na pele clara de uma Marisa Monte.

Agora vejam bem: o funk, em sua vertente carioca, ou seja, oriundo da mesma cidade, desenvolveu-se majoritariamente em comunidades pobres, e antes mesmo de estampar as páginas dos jornais já movimentava, nos anos 80, centenas de milhares de jovens, notadamente negros, nos diversos bailes espalhados pelos subúrbios do Rio de Janeiro.

Mais de meio século se passou, e é evidente que o contexto histórico, político e social foi alterado; não obstante, continuávamos – e continuamos – a viver a hipocrisia do racismo instituído que associa, na cabeça de muitos, funk, população negra e criminalidade. Na década de 90 o tom não foi diferente: quem vive na cidade – e mesmo alhures – tem vivo na memória o surto de arrastões que se alastrou pela cidade nos idos de 1993, 94, comumente atribuídos a “galeras funk” pelos jornalecos que nos mantêm “informados”.

E quem não conhece alguém que defende a tese de que “funk não é música”? Pois bem: é bom lembrar que o samba, comparado aos outros estilos musicais que eram ouvidos no início do século, era considerado simplificado demais, quase sem base harmônica, muito mais calcado no caráter percussivo e rítmico, ou seja, um tom de crítica deveras similar àquele que ouvimos hoje em relação ao funk.

Entretanto, em que pesem todas as críticas e preconceitos que perduram até hoje em relação ao funk, é fato que, cada vez mais, as elites têm demonstrado interesse pelo “som de preto, de favelado”, como cantam Amilcka e Chocolate. Nas áreas mais nobres da cidade do Rio, não é difícil encontrar academias lotadas de brancos de classe média aprendendo coreografias de funk e danceterias com DJs que tocam estas músicas, assim como não é necessário pesquisar muito para encontrar, nas páginas dos tablóides cariocas, alguma “notícia” sobre fulana famosa da vez que “rebolou até o chão” em alguma boate de 50 reais a entrada.

Cético que sou, no entanto, duvido muito que o funk algum dia alcance o patamar que hoje cabe ao samba, mesmo se for criada um Liga das Escolas de Funk, ou se o Lula lançar uma versão do hino nacional em ritmo de funk, ou mesmo se o Chico Buarque regravar o Bonde do Tigrão – talvez a menos provável das três opções.

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Valério Fiel da Costa
 

Caro absurdos

Parabens pelo texto. E muito dificil encontrar quem analise esse movimento de forma tao sobria, sem os costumeiros chiliques elitistas de sempre. Muito legal.

lembro tambem que, durante os anos 70, com a explosao da industria fonografica no Brasil houve um movimento semelhante de segregacao, desta vez focado na black music que a populacao negra consumia cada vez mais em detrimento do que era prescrito pela elite branca brasileira - o samba (veja so) que era visto como autentica musica brasileira popular.

Acontece que o negro brasileiro, naquele momento, acabou se identificando mais com a cultura de afirmacao etnica norte-americana do que com aquela musica (nesse momento ja glamourizada) que gostariamos que ele cultivasse.

O funk nao corre o risco de virar genero nacional porque esta tarefa ja foi cumprida pelo samba como voce bem lembrou.

parabens novamente pelo texto

Valério Fiel da Costa · São Paulo, SP 30/3/2007 19:19
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Fábio Cavalcante
 

Oi, Absurdosturos; certamente há muitos que corcordam contigo sim. Eu também fico um tanto "passado" com a falta de visão dos que não percebem que a história se repete. Aqui no Pará é moda hoje no meio acadêmico o estudo do carimbó, por exemplo. Mas, com raríssimas exceções, os acadêmicos não ligaram pra essa manifestação na época "áurea" dela, certamente motivados por preconceitos análogos aos que tu descreves.
Hoje é o tecnobrega que é alvo das mesmas críticas por aqui - harmonias simplórias; o caráter ritmico se sobrepondo ao harmônico (que em muitas cabeças "valem" mais); letras banais e etc. Fico apenas esperando o passar do tempo, quando o brega virar "coisa do passado", pra ver a elite se voltando para ele a fim estudá-lo, analisá-lo - típico de quem prefere tratar as criações populares como que dentro de um tubo de ensaio; pra não tocar e se contaminar.

Fábio Cavalcante · Santarém, PA 1/4/2007 13:43
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Spírito Santo
 

Absurdoturos,
A idéia é maneira mas acho é preciso aprofundá-la mais. Há que se ter muito cuidado com a história da cultura negra do Brasil. Sempre. Está tudo meio mal explicado ainda. Você (s?) quando defendem o Funk parece(m?) intuir isto. Pena que parece(m?) estar apenas repetindo a história oficial do Samba e reportando a história do Funk muito superficialmente. Muito legal mas, que tal dar uma aprofundada, pesquisar mais (não é só nos livros não, na rua também) o Funk carioca por exemplo e voltar num novo post com mais força ainda?
Abs,

Spírito Santo · Rio de Janeiro, RJ 1/4/2007 17:06
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Felipe Obrer
 

Absurdosturos, gostei do teu texto. Só diferencio o samba e o funk carioca em um ponto: o samba tem um caráter mais orgânico, com percussão feita na hora e com as mãos nos instrumentos, já no funk predominam as batidas fixas e eletrônicas, o que (sem entrar em julgamentos definitivos) impede que se compare, pelo menos sonoramente, os dois estilos musicais. Já a analogia entre os processos histórico-sociais é possível, sim, e foi bem explorada por ti.

Abraço

Felipe Obrer · Florianópolis, SC 1/4/2007 17:08
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Valério Fiel da Costa
 

Bem... quem sou eu para discordar de Spirito Santo. So posso esperar que ele se disponha a trocar conosco sua vivencia no assunto. Ainda estou sem entender o seu post pois a meu ver ninguem esta atacando ou defendendo coisa nenhuma, nem fazendo coro a uma visao oficialesca do samba. Muito pelo contrario. Porem, voce pode usar esse espaco para esclarecer-nos sobre o seu ponto de vista. Por favor.

Valério Fiel da Costa · São Paulo, SP 1/4/2007 17:49
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Spírito Santo
 

Calma, Valério!:)))
Ninguém falou que você está atacando nada. Defendendo sim. Ou não? Pelo menos o Funk, ao que parece, o que não tem nada de errado, pelo contrário.
Você pode - e deve - discordar, de quem você quiser (do Spirito Santo, da Virgem Maria e até de Deus). Também não falei que você 'está fazendo coro' com a visão oficialesca de Samba. Eu disse apenas que a história oficial do Samba (na qual você se baseou, certo?) não é lá muito confiável. Discorde dela, Valério. Discorde de tudo que é oficial, foi o que eu falei. A gente só evolui com a dúvida, sabia? Agora quanto estar disposto á 'trocar vivências' com você (ou será vocês, não sei ainda) , ora ora, claro, Valério. Com o maior prazer.
Calma, Valério. estou do mesmo lado de vocês.

Abraços

Spírito Santo · Rio de Janeiro, RJ 1/4/2007 18:50
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Spírito Santo
 

Em tempo:)
Valério,
Você é o (ou um dos) Absurdosturos? Pela seu comentário fiquei na dúvida.

Spírito Santo · Rio de Janeiro, RJ 1/4/2007 19:16
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Valério Fiel da Costa
 

Oi Spirito.

Não defendo, tampouco. Estou tentando lança uma luz à discussão sobre o samba a partir da crítica ao oficialesco. Minha matéria aqui são os enunciados e não os objetos em si. Nesse sentido está tudo aí. Quando te provoquei a dizer o que pensas sobre o tema foi para ver se novas luzes se acendiam e novas nuances fossem acrescentadas ao problema. Estamos em movimento, duvidando, duvidando sempre. Mas não é pelo caráter permanentemente provisório dos objetos que devemos evitar posicionamentos eventuais. São atualizações e recortes dentro de um processo maior de busca infinita.

Que apontamentos você acrescentaria à história oficial do samba? Pode ser que a gente avance bastante no problema a partir de tua posição.

Não sou absurdosturos... e sei bem que estamos do mesmo lado (relax).

Abraço

Valério Fiel da Costa · São Paulo, SP 1/4/2007 22:09
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Valério Fiel da Costa
 

... pensando bem esse lance de "estar do mesmo lado" é um pouco século XX demais pro meu gosto. reformulo: estamos ambos buscando ver a coisa em perspectiva e, daí, é possível crescimento mútuo.

Valério Fiel da Costa · São Paulo, SP 1/4/2007 22:13
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Felipe Obrer
 

Vendo a discusão constato o óbvio: Cada um está do lado de dentro da sua pele.

Felipe Obrer · Florianópolis, SC 1/4/2007 22:16
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Spírito Santo
 

Mas, Valério...Eu sou memso um cara do século 20 (escapei por pouco de ser do 19) e, cá pra nós...pra dizer a mesma coisa você gasta um tempão, heim?

Spírito Santo · Rio de Janeiro, RJ 1/4/2007 22:17
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Valério Fiel da Costa
 

!

Valério Fiel da Costa · São Paulo, SP 1/4/2007 22:47
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Valério Fiel da Costa
 

Estou costumado a discutir temas no overmundo e não ficar desqualificando os outros gratuitamente. Se nada mais há para se aproveitar desse aqui (Sr. absurdosturos que me perdoe), migro para algum outro onde a interlocução seja mais promissora e respeitosa.

Valério Fiel da Costa · São Paulo, SP 1/4/2007 22:52
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Spírito Santo
 

?

Spírito Santo · Rio de Janeiro, RJ 2/4/2007 06:43
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absurdosturos
 

Camaradas, agradeço pelos edificantes comentários que vocês fizeram a este texto. É a minha primeira publicação no Overmundo, e fiquei muito satisfeito com o resultado. Concordo que é sempre preciso aprofundar as pesquisas, trocar opiniões e impressões, e creio que isto está sendo feito.

Fabio: o tempo já apssou, me amigo. Existem pesquisadores (como o Hermano Vianna, por exemplo) saindo daqui do Rio e indo pra Belém (minha terra natal, siga-se de passagem ) estudar o tecno-brega que, assim como o funk de outrora, não conta com o aval das elites e dos meios de comunicação e, mesmo assim, atrai milhares de pessoas interessadas no som das aparelhagens (diz a pesquisa que são mais de 4.000 festas mensais no Pará!).

Felipe: tens razão, meu caro. Enquanto músico, embora eu goste de alguma coisa de funk e hip hop, acabando dando mais valor (musical, pelo menos) para a música orgância, aquela tocada com bocas, mãos e pés nos instrumentos.

Spirito: amigo, embora eu já tenha ido a muitos bailes funk, meu interesse maior é pelo consumo deste estilo pelas elites. O artigo acima não se propõe a contar a história do funk, e sim trabalhar uma analogia que faço entre este estilo e o samba do início do século XX (o nosso século, aliás. Creio que todo mundo que comenta aqui é do tempo em que Plutão ainda era planeta!).

E obrigado a geral pelos apontamentos, críticas e sugestões. Aquele abraço.

absurdosturos · Rio de Janeiro, RJ 2/4/2007 10:04
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Felipe Obrer
 

Absurdosturos, ainda bem que o autor da colaboração chegou e deu uma boa dose e bom senso a esta profusão de comentários. E também fiquei contente com o ponto de concordância a respeito da música orgânica. Eu sou apaixonado mesmo pela instrumental brasileira.

Abraço!

Felipe Obrer · Florianópolis, SC 2/4/2007 10:10
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Felipe Obrer
 

boa dose de bom senso, quis dizer

Felipe Obrer · Florianópolis, SC 2/4/2007 10:11
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Spírito Santo
 

É isto aí, gente boa!
Desde o tempo em que se via 'buguiug' com pandeiro e violão, orgânicos somos, unidos seremos. Tudo vai bem quando acaba bem.
Pra frente Absurdosturos! Fui!

Spírito Santo · Rio de Janeiro, RJ 2/4/2007 19:57
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Fábio Cavalcante
 

Oi Absurdosturos. Só um pequeno esclarecimento: quando falei em "passar o tempo", me referi a quando o tecnobrega virar "moda do passado", não a quando pesquisadores como o Hermano estudarem o movimento. E o Hermano certamente está muito longe de ser um representante da elite que quer tratar das criações populares sem se contaminar - como falei no meu comentário.

Outra constatação minha que acho engraçada em relação a esse "movimento do preconceito":
Conheço pessoas que tinham enorme repugnância ao brega paraense nos anos 80, e agora reconhecem nele um certo valor melódico, até uma delicadeza nas letras... E hoje voltam o seu asco para o Tecnobrega, usando os mesmos argumentos. É meio parecido com essa relação samba-funk que descrevestes, não?

Um grande abraço.

Fábio Cavalcante · Santarém, PA 3/4/2007 08:58
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FILIPE MAMEDE
 

Só pra ajudar: João de Barro, vulgo BRAGUINHA. E você esqueceu de Henrique Brito. Quanto ao assunto propriamente dito, acredito que o samba tem raízes muita mais profundas. Os valores são outros, principalmente se formos levar em conta o atual funk carioca, expressão musical do mais baixo calão, enfim...fora isso, o texto tá muito bacana.

FILIPE MAMEDE · Natal, RN 3/4/2007 09:46
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Roberta Tum
 

Bem, gostei do tema e da abordagem. Acho que tem tudo a ver sim, o sentido de resistência e de manifestação na música daqueles que ainda são discriminados, hoje por motivos diferentes. Só acho, pessoalmente, o samba mais rico. Muito mais...rs.
Abraços!

Roberta Tum · Palmas, TO 3/4/2007 09:54
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Diogo Lyra
 

Desculpe Felipe, mas, pelo que eu entendi, o texto trata justamente da similaridade dos valores e, sobretudo, das ACUSAÇÕES que versam sobre seu valor reduzido atribuído ao samba ontem e ao funk hoje!

Diogo Lyra · Rio de Janeiro, RJ 3/4/2007 10:53
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absurdosturos
 

É por aí mesmo, Fábio!

absurdosturos · Rio de Janeiro, RJ 3/4/2007 11:03
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FILIPE MAMEDE
 

Diogo, é Filipe, não Felipe. Opinião é pessoal e intrasferível.

FILIPE MAMEDE · Natal, RN 3/4/2007 14:39
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FILIPE MAMEDE
 

Vi agora que tem um Felipe por aqui também. De qualquer forma já foi. Mas lembremos que opinião só exite que existem opiniões contrárias. Do contrário, estaremos diante de um concenso. Não faltei às aulas de Opinião Pública. Abraço pra todos.

FILIPE MAMEDE · Natal, RN 3/4/2007 14:53
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Felipe Obrer
 

Na verdade agora fiquei em dúvida sobre a quem se dirigia o comentário do Diogo...

Felipe Obrer · Florianópolis, SC 3/4/2007 15:08
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Diogo Lyra
 

Foi pro Filipe.
Só queria esclarecer que é justamente sobre este antagonismo de perspectivas que trata o texto (no caso, os diferentes valores atribuídos ao samba e ao funk a despeito de suas gritantes similaridades de fundo).
Creio que, se você tivesse mesmo ido a todas as aulas de Opinião Pública teria aprendido que um bom debate se faz justamente assim - sobretudo que uma opinião contrária não desmerece nem pretende anular a outra.
Mas tá valendo, afinal opiniões são pessoais e intransferíveis...

Diogo Lyra · Rio de Janeiro, RJ 4/4/2007 14:21
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Douguinissímo Nãt
 

pois é né cara, é interessante a questão do eterno retorno!
talvez seja isto que estaja ocorrendo, o retorno de uma situação já passada, mas com uma roupagem nova, mas será que é nova mesmo?
Como vc mesmo disse as criticas que rendem ao funk, são as mesmas que outrora foram apregoadas ao samba.
Portanto é interessante pontuar algumas coisas:
primeiramente - aqueles que hoje produzem funk são herdeiros do samba.
Analisando as situações o universo em que o samba surgiu era de uma atmosfera direfente, apesar de geograficamente estarem situados nos mesmos lugares.
Agora veja só, os sambista que acompanharam o nascimento do samba e que participaram deste momento, cantavam a exaltação boemia, o doce-amargo da vida, o amor, a felicidade pueril e mais uma outra gama de temas.
Agora o funk: sua linguagem é mais direta e enfática, dentro de todas as suas vertentes, o neurotico, o proibidão, o consciente , eles apontam a metralhadora giratoria direto pro sistema. Apresentando sua realidade com poucos recursos musicais, mas muito o gritar.
é interessante percebermos as mudanças que ocorreram deste o samba até o funk, e talvez possamos entender melhor quais os lugares comuns e tambem os incomuns.

Curti o seu texto e tambem comungo de sua ideia!
sou pesquisador de musica popular brasileira e estou interessado em trocar figurinhas sobre este tema
e isso aí!!!!!!!!!
Douguinssimo Nãt

Douguinissímo Nãt · Ouro Preto, MG 22/6/2007 17:12
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Denis Martins
 

absurdosturos, muito interessantes tanto o texto em si como o enfoque.
Coloquei na fila de edição minha monografia sobre a relação do funk carioca com o Direito, que aborda, entre outras coisas, esta relação funk/samba, que se presta a muitas comparações mais. Se quiser dar uma olhada e opinar, está em
http://www.overmundo.com.br/banco/direito-e-cultura-popular-o-batidao-do-funk-carioca-no-ordenamento-juridico
Abraço!

Denis Martins · Rio de Janeiro, RJ 15/7/2007 14:35
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Mestre Jeronimo - JC
 

E quem não conhece alguém que defende a tese de que “funk não é música”?

Eu acho que o ritmo do funk, eh musicasim. Agora, certas letras colocadas em baixo desse, levam muita gente, principalmente quem nao compatua com certas imoralidades que sao funkiadas, faz um servico de deseducacao, muita gente vota que o funk, nao serve pra ser musica.

Ateaih, gosto musical, inclusive, tem livre arbitrio, e dependendo do grau espiritual e educacional de que ouve o 'funk', o ritmo poderah se perder, a funcao, e ate ser classificado de outra coisa, que musical.

Comparar samba, baiao (que nao eh esse produto 'brega' em voga) com o funk, estilo musical, e pra que funcao social, buscando lah atras no pessoal que mandava ver na parte ritmica e lirica, deixa lacunas, e nao encaixa muito as veses no que se poderia enfocar pra definr, e posicionar o funk em questao.

O tema, eh interessante... a musica... bom, eu gosto muito mais do ritmo, em geral, do que do produto escrito, letra, que produzem.

abr

Mestre Jeronimo - JC · Austrália , WW 22/7/2007 21:41
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Gian22
 

Se me permite, quero dividir contigo algumas considerações sobre o chamado “funk carioca” a título de reflexão. A disseminação da lascívia, que é a marca registrada das músicas do funk carioca, com letras descaradamente chulas, coreografias indecentes, roupas agarradas e decotadas, suor e muita "pegação", não pode ser confundida com força revolucionária, transformadora, libertária. Penso nos jovens funkeiros, assim como nos timbaleiros e nos pagodeiros (não confundir aqui pagode com samba de raiz), como vítimas inconscientes de uma ideologia que permite a expansão do desejo na construção de uma "cultura" juvenil irreverente, libertina e irresponsável, atrelada a estruturas de poder que legitimam o corpo como mercadoria. Parece paradoxal para você? Vamos então dissecar essa afirmação. A massa favelada de seres humanos maltratados historicamente por uma civilidade oca, inconsistente, segregacionista, negricida e economicamente antagônica, está refletida sim nas letras do funk carioca que falam da vida das pessoas da favela: assassinato e tráfico no horário comercial, sexo e drogas à noite para relaxar... Destituídos de sua cultura popular original, são "escravos momentaneamente felizes" que sugam gulosamente sua própria miséria nas formas culturais miseráveis que consomem. Agora, o funk carioca não nasceu nas favelas do Rio. Assim como os maiores traficantes de droga não estão no morro, mas nos gabinetes e escritórios em arranha-céus do centro da cidade carioca ou de Nova York, de onde ditam suas regras sociais e econômicas. Se o funk fosse tão subversivo assim como alguns o defendem, por que razões a mídia televisiva iria dedicar tardes inteiras a esse tipo de música, com as câmaras pegando ângulos "ginecológicos" das dançarinas? Claro que as letras do funk carioca falam da vida das pessoas da favela: volto a citar, "assassinato e tráfico no horário comercial, sexo e drogas à noite para relaxar", com uma imodesta obtusidade, uma infantil crença de que um mundo necessariamente melhor se situa nessa "cultura" funkeira. Mas se isso for a energia social transformadora que resta a esse povo eu gostaria de saber no que se deseja transformar a realidade social? Agora, se não se sabe aonde se quer chegar não se deveria sequer começar a andar. A isso se chama "método". Não vamos confundir a libertinagem funkeira com a figura do "malandro carioca” do final do séc. XIX e primeiras décadas do séc. XX - negro, mestiço, afro-descendente, lúdico, vadio, absolutamente subversivo. E nunca época onde não havia globalização, pós-modernismos, indústria cultural... O malandro carioca, distante do tipo de afro-brasileiro pacato e conformado, usava a malandragem como forma de resistência, porque não há pacatez possível diante da inexorabilidade da própria miséria. A estandardização midiática do funk carioca, marcado por uma ambigüidade situada entre "o bem e o mal", não crucifica o funk, mas não o apologiza: acende uma vela para Deus e outra para o demônio - uma vela para o sexo libertino e outra para o moralismo (igualdade, justiça), dois grandes clientes da indústria cultural. O funk carioca não significa liberdade lúdica para as massas reprimidas econômica e sexualmente, não é, nem nunca será o novo "punk dos pardos". Também não se trata da velha história do princípio de prazer metendo bala no princípio de realidade. É a juventude social, histórica, econômica, política e emocionalmente doente mostrando sua cara. Seres miseráveis sugando gulosamente sua própria miséria nas formas culturais miseráveis que consomem. Sexo dá lucro! Aos afro-brasileiros favelados, destituídos dos prazeres de bem morar, bem vestir, comer bem, ter digno acesso à educação e à saúde de qualidade, não resta outro prazer senão o sexual. O mercado se nutre das idéias, dos modos de viver, de todas as nossas necessidades e formas de expressão: palavras, gírias, roupas, gestos, sexualidades... a lista beira o infinito. O capital toma posse de nossos desejos reprimidos, expectativas e até esperanças pra depois voltar nos vendendo essas mesmas coisas sob a forma de fantasias, promessas irreais de realização de prazeres frustrados, com a cara de pau de tentar nos convencer de que aquilo é o que precisamos e devemos consumir pra nos mantermos felizes, livres e atualizados com e na moda. Pornografia vira sexualidade/sensualidade pra depois virar moda, pois esse estilo de vida possui bons predicados no mercado. Para a subversão crescer ela deve ser pop surreal? Um termo bonitinho até, pena tratar-se de mais um rótulo pós-moderno, onde a ética e todos os valores são relativos e o velho bom senso das grandes verdades construídas historicamente pela humanidade é decapitado pela manhã!
O caos é a "nova Jerusalém", o éden perdido? Com todos os outros prazeres retirados de nós - que nos são necessários como seres humanos - o que nos resta como redenção humana, como proclama de liberdade? Seria mesmo o gozo pornográfico proclamado pelo funk carioca?

Gian22 · Maringá, PR 31/3/2010 12:42
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