Observatório

A história do Overmundo na memória de seus colaboradores
O Overmundo foi pensado para trazer à luz a cena cultural brasileira, independente da grande indústria cultural e que, justamente por ser independente, não costumava figurar com destaque nos grandes meios de comunicação. Algum tempo passado, constatamos que ainda há muito o que fazer e que, a cada dia – sobretudo com o advento da internet colaborativa e de ferramentas de autopublicação... leia

 
Sambaqui do Crioulo Doido
Joca Oeiras, o anjo andarilho · Oeiras (PI) · 27/8/2008 14:36 · 206 votos · 21 comentários ·  
 
1
overponto
Acervo Carlos Rubem
Hermínio em seu sítio: pilões em quantidade
Imagens
Herminio arranhando a sanfona
Dignitario da Medalha do Mérito Renascença
pequena amostra da doideira
Vidros de doce de leite e facões: estoque de guerra?
Estoque de Fogões
Cemitério de Autos do Hermínio
Esclarecimento:
Alguns overmanos certamente já terão ouvido falar de um neurótico de guerra oeirense, Hermínio Antonio da Silva, que passou seus ultimos 30 anos de vida adquirindo e estocando coisas absolutamente inúteis, entre elas, mais de cinquenta carros das mais variadas marcas e modelos, mas muitíssimo mais que isto, como tentarei mostrar. Acontece que o Seu Hermínio, já com 82 anos, morreu e seus herdeiros organizaram, semana passada, aqui em Oeiras, um grande Bazar para vender uma parcela das inutilidades que ele colecionou.
Sobre a morte do Hermínio e sobre a Feira peço que se debrucem nos links acima, de autoria de dois oeirenses, ambos também overmanos, mas que não se dispuseram, ainda, a postá-los neste site. Vou tentar convencê-los a fazer isso mas, enquanto não ocorre, ...Temo que o texto abaixo não possa ser inteiramente compreendido sem aquela leitura vestibular.



O que mais me encantou na crônica "O Bazar do Seu Hermínio". de autoria do Secretário da Cultura de Oeiras, Stefano Ferreira, foi ter apontado o caminho de uma reflexão acerca do falecido proprietário dos estoques do bazar que, ora promovem, os seus herdeiros.

Em primeiro lugar, creio que devemos reconhecer, em meio à sua desvairada loucura, uma grande coerência, raramente desmentida, nas atitudes do Hermínio.

O Dr. Bill (Carlos Rubem) me contou uma história interessante. Anos atrás, em visita a Hermínio, levou consigo seu filho, Gerson Oeirense, que se encantou com um dos quatro quadriciclos de propriedade do ex-pracinha e insistiu com o pai para que o comprasse. Temeroso de desagradar o anfitrião, Bill recusou-se a propor-lhe a venda, mesmo penalizado por não poder fazer a vontade do garoto. Tempos depois, no entanto, em nova visita ao sítio, soube da venda dos quadriciclos, atitude inédita nos anais das histórias do neurótico de guerra.

Esse episódio ressalta, no meu modo de entender, na outra ponta, a coerência das atitudes por ele tomadas durante anos a fio: compra permanente de absolutas inutilidades (sendo a venda absoluta exceção) sem qualquer critério a não ser o ânimo de possuir, e uma vida não apenas modesta mas miseravelmente vivida em economia de guerra.

Uma parte dela eu ainda não pude ver contada. Gostaria muito de saber como se desenrolavam as negociações quando as pessoas levavam objetos para vender a ele, visto que, de fato, tanto fazia um caminhão quanto uma mala velha pois ambos eram votados, ao fim e ao cabo, à mesma inutilidade. Que valor monetário poderia atribuir ele a cada coisa?

Sambaqui do Crioulo Doido

Entre as inutilidades domésticas compradas a mancheias, também não sei por que critério (talvez a senhora que morava com ele pudesse dizer) escolhia uma meia dúzia delas que “tornavam-se” utensílios.

O “para que?” não figurava em seu dicionário; parece até que odiava comprar coisas úteis, dinheiro desviado da compra das tão necessárias inutilidades. Uma grande amiga minha, a professora Shara Jane, quando lhe falei do Hermínio, lembrou-se, incontinente, fã declarada que é dele, do grande poeta das coisas ínfimas, Manuel de Barros. Seja como for, o acervo museológico do Hermínio – inclusive porque infenso a qualquer critério objetivo de seleção – não deixa de ser carregado de dramática carga poética.

Terapia Ocupacional

A melhor definição a respeito do que se passava com o Hermínio ouvi do Dr Bill quando disse que a doidice aparente do velho foi, de fato, a sua salvação, isto é, sua aplicação em agir da forma que agia salvou-o ,provavelmente, de uma morte totalmente inglória num manicômio público ou privado.

Problema sério administar a posse e propriedade de tanta coisa: segundo cálculos feitos pela equipe da TV Record, gastava mais de mil e duzentos reais só no aluguel de armazéns onde estocava a quinquilharia. Ostentava uma dignidade invejável ao par da vida extremamente humilde. Reinava o dia inteiro, do escritório para casa e da casa para o escritório, realizando seus mirabolantes negócios. Contam que, vez por outra, dirigia-se ao Mercado da Carne empurrando um carrinho de mão. Lá, para a felicidade dos açougueiros, adquiria todas as fussuras* que houvessem no Mercado e saia empurrando o carrinho lotado, em direção à casa e atravessando, com essa carga, as ruas centrais da cidade. Entendia , com este gesto, estar economizando na comida de seus inúmeros cachorros.

Tinha planos, inclusive o de freqüentar um curso de mecânica para consertar, ele mesmo, os mais de cinqüenta automóveis que possuía, carros de (quase) todas as marcas, anos e modelos.

Por tudo isso eu ouso dizer: esse homem atormentado, este ex-soldado indelevelmente marcado pelos horrores da guerra, essa figura – totalmente improvável! – e divorciada de qualquer padrão de normalidade psíquica, esse louco genial soube construir, em meio a tantas tormentas, a própria Felicidade!

* Fussura, para quem não sabe (eu, por exemplo, não sabia antes de vir morar no Piauí) são os pertences do porco ou carneiro, utilizados para fazer sarapatel.

tags: Oeiras PI cultura-e-sociedade


 
canto_esquerdo comentários rss postar novo comentário canto_direito
 
Joca,

A história do Hermínio é incrivelmente parecida com a do grande artista Arthur Bispo do Rosário, um ex-marinheiro e ex-boxeur que também endoideceu e deu de colecionar coisas. A diferença está só na in-utilidade que os dois deram ás suas tralhas. Bispo, convencido de que tinha sido incumbido por Deus de inventariar todas as coisas do mundo, inventou uma forma complexa e delicada de catalogá-las e organizá-las, exercendo assim, exatamente, a mesma função de um artista entre os mais modernos que poderia haver. E olha que ele fez isto dentro do manicômio.
Eu sempre achei que a arte é uma espécie de loucura que dá nas pessoas (algumas). O que não quer dizer, é claro, que todo maluco possa ser artista.

Abs
Spírito Santo · Rio de Janeiro (RJ) · 25/8/2008 10:13 
Dê sua opinião! Você achou esse comentário útil?
Sua opinião: Útil   

Depois de ler as duas excelentes crônicas que você anexou, fiquei olhando as imagens por muito tempo para tentar apreender o significado delas para seu colecionador. Ao mesmo tempo, fiquei imaginando pensando nos conceitos de beleza e utilidade e no quanto são pessoais.
Elogio da loucura? Não, não creio. Antes, elogio de quem ama o mínimo....

beijos

Saramar · Goiânia (GO) · 25/8/2008 19:54 
Dê sua opinião! Você achou esse comentário útil?
Sua opinião: Útil   

Lendo aqui lembrei, como o Spírito, do Bispo.O título do texto está supimpa!
Ilhandarilha · Vitória (ES) · 25/8/2008 20:55 
Dê sua opinião! Você achou esse comentário útil?
Sua opinião: Útil   

No fim do seu texto você diz exatamente o que eu iria falar. Existe várias formas de ser feliz e essa foi a que ele encontrou menos loucas do que as dos lúcidos que existem por aí que vivem para violentar as pessoas, matá-las. Além do mais imagnem esses carros consertados por quem gosta de coisas antigas,uma verdadeira fortuna levantar-se-a entre as velharias do nosso amigo.Cheiro e parabéns.
Ecila Yleus · Recife (PE) · 26/8/2008 09:39 
Dê sua opinião! Você achou esse comentário útil?
Sua opinião: Útil   

muito bom mesmo, é a vida de suas varias farces, o mundo em seu ponto diferencial.
ze sampaio · Feira de Santana (BA) · 27/8/2008 07:38 
Dê sua opinião! Você achou esse comentário útil?
Sua opinião: Útil   

Muito bom, parabéns.
Poeta Devany · São Paulo (SP) · 27/8/2008 08:13 
Dê sua opinião! Você achou esse comentário útil?
Sua opinião: Útil   

Joca Oeiras, o anjo andarilho · Oeiras (PI)
Sambaqui do Crioulo Doido

Um Trabalho Admirável e um Personagem singular além de ter sido Combatente da Segunda Guerra Mundial contra o Nazi Fascismo, é um Herói Nacional que honra a tradição do povo do Piaui de ser pela defesa do bem de todos.
Gostei muito.
Parabéns.
Abração Amigo
Espero que em memória ao Heroismo do Sr Hermínio a gente construa uma Amizade Fraterna.
azuirfilho · Campinas (SP) · 27/8/2008 09:07 
Dê sua opinião! Você achou esse comentário útil?
Sua opinião: Útil   

Ineressante a história do Hermínio. Infelizmente ou felizmente, conheço outros personagens com as mesmas manias . Abraço
Frederico Rego · Rio de Janeiro (RJ) · 27/8/2008 09:08 
Dê sua opinião! Você achou esse comentário útil?
Sua opinião: Útil   

nina araújo Maravilhosa história que me remete a um senhor muito próximo aqui da família com uma peculiaridade parecida, é de fato uma vida rica para ser contada e apreciada a do seu Herminio, estou disposta a saber tudo, realmente muito rica esta vida! Parabéns pela sensibilidade e pesquisa! Abraços,Nina.
nina araújo · Rio de Janeiro (RJ) · 27/8/2008 10:16 
Dê sua opinião! Você achou esse comentário útil?
Sua opinião: Útil   

Oi Joca.

Maravilhosa homenagem.
É interessante notar que as pessoas que voltam da guerra sempre aprensentam algum tipo de neurose, devido as atrocidades presenciadas, e as que foram obrigados a praticar.
Mestre Hermínio soube canalizar esta neurose para algo produtivo, que embora inutil, devia lhe proporcionar um prazer fora do comum e ao mesmo tempo e esquecimento para tantas barbaries de guerra.
Que descanse em paz nosso soldado brasileiro
.bjssssss
Doroni Hilgenberg · Manaus (AM) · 27/8/2008 10:29 
Dê sua opinião! Você achou esse comentário útil?
Sua opinião: Útil   

O que e loucura e o que é lucidez.
Interessante tema a ser estudado.
Grande trabalho.
Abraços...
ayruman · Chapada dos Guimarães (MT) · 27/8/2008 15:59 
Dê sua opinião! Você achou esse comentário útil?
Sua opinião: Útil   

O prazer de juntar dá uma sensação de poder, conheci e conheço muitos assim, donos de antiquários, por exemplo, vc vai querer saber o preço e muitas vezes desconversam, não querem vender, tem muito doido por aí, mas atrás disso sempre tem algo sério, uma desilusão,uma carência, frustração, neuroses...e assim passa o tempo. São apegados a objetos e esquecem que morrendo a família faz "fogueira". Estrapolou o sr. Hermínio, exemplo gritante. Bem apresentado post. Um tipo pra Oeiras.
Cintia Thome · São Paulo (SP) · 28/8/2008 01:11 
Dê sua opinião! Você achou esse comentário útil?
Sua opinião: Útil   

Joca, curti muito esse texto. "O 'para que?' não figurava em seu dicionário; parece até que odiava comprar coisas úteis, dinheiro desviado da compra das tão necessárias inutilidades." É muito bom ver essas pessoas que desvirtuam os conceitos de útil e inútil. No caso dele chama mais atenção, mas se formos pensar, é uma quantidade de gente que se dedica a colecionar coisas sem sentido (pra gente) e, em geral, caras... Antiguidades, jóias, carros... Fui lendo seu texto - que está delicioso - e chegando à mesma conclusão que você chega no fim: que ele encontrou o jeito dele de ser feliz. Abraço
Helena Aragão · Rio de Janeiro (RJ) · 28/8/2008 14:52 
Dê sua opinião! Você achou esse comentário útil?
Sua opinião: Útil   

Adorei a matéria Joca. E como o Spírito e a Ilha me lembrei logo do Bispo.
Bjs
Ize · Rio de Janeiro (RJ) · 28/8/2008 22:50 
Dê sua opinião! Você achou esse comentário útil?
Sua opinião: Útil   

Muito interessante e necessária a publicação. E olha um caso que não deveria "morrer" assim, ao contrário merecer a tenção de quantos dignatários das modalidades das ciências humanas e sociais.
abraço, meu caro Joca
andre.
Andre Pessego · São Paulo (SP) · 29/8/2008 06:52 
Dê sua opinião! Você achou esse comentário útil?
Sua opinião: Útil   

Que incrível! Adorei esta estória verdadeira com as suas reflexões! Daria até um bom cordel. Parabéns! Overvotei!
Também estou em edição e votação. Dê-me prazer de sua visita.
Abraço
do cordelista
Guilherme de Faria · São Paulo (SP) · 30/8/2008 14:38 
Dê sua opinião! Você achou esse comentário útil?
Sua opinião: Útil   

Votado!
Estou com nova publicação, leia e opine.
Obrigada.
Beijo
http://www.overmundo.com.br/overblog/overmano-rubenio-marcelo-e-convidado-da-i-bip

Creative Commons
Alguns direitos reservados

clara longhi · Campo Grande (MS) · 3/9/2008 14:52 
Dê sua opinião! Você achou esse comentário útil?
Sua opinião: Útil   

Amigo, sabe, hoje, visitando seus escritos, achei bacana esse pouco contado desse personagem "Herminio", se um amigo meu souber disso é bem possível ele se desabalar daqui aí para tentar comprar algum carro "véio". Vou buscar um pouco mais da biografia do "home".
Passei por Oeiras em fevereiro, visitei o museu sacro, gostei muito. Vi que D. Avelar B. Vilela foi bispo ai, lembrei desse ilustre cidadão , pois quando, ele, bispo em Petrolina frequentou minha casa, conforme papai contou..., cantei numa vaquejada por esses sertões.
Grande abraço e foi um prazer te visitar.
Aldy carvalho, o cantador beradeiro láaaaaaaaaaaa do Sertão
Aldy Carvalho · São Paulo (SP) · 12/9/2008 15:40 
Dê sua opinião! Você achou esse comentário útil?
Sua opinião: Útil   

Querido Audy:
Que bom que você esteve em Oeiras e levou daqui uma boa impressão. No entanto, a bem da verdade, D Avelar não foi Bispo de Oeiras, mas arcebispo em Teresina. Por outro lado, sem querer te chatear, escrevi sobre o museu de arte sacra de Oeiras e, embora não discorde, de vc, meu texto é bastante crítico ao nosso único Museu. Veja lá, se estiver curioso.
beijos e abraços
do Joca Oeiras, o anjo andarilho
Joca Oeiras, o anjo andarilho · Oeiras (PI) · 12/9/2008 16:59 
Dê sua opinião! Você achou esse comentário útil?
Sua opinião: Útil   

Amei a foto dos fogões e a história é, no mínimo, tragicômica. Dá pra escrever um livro inteiro só sobre essa figura. Eu tenho paixão por doidos, tenho fotos de vários aqui de Ilhéus, eles nos revelam um universo paralelo, onde talvez temamos chegar e ficarrsrsrsrsr, se é que não já estamos lá!
Diacui Pataxo · Ilhéus (BA) · 22/9/2008 15:14 
Dê sua opinião! Você achou esse comentário útil?
Sua opinião: Útil   

Adorei a história ela me trouxe algumas idéias , será que dentro de nossos paradigmas não conheço ninguém que não os tenha ,também não somos anormais insistindo em erros tentando fazer o correto, acho que todos temos um pouco da neurose de Herminio.Bjs
Catia Mendes · Anaurilândia (MS) · 25/9/2008 12:51 
Dê sua opinião! Você achou esse comentário útil?
Sua opinião: Útil   
 



  Adicione seu comentário: para comentar é preciso estar logado no site. Faça primeiro seu login ou registre-se no Overmundo, e adicione seus comentários em seguida.

 
canto_esquerdo   canto_direito