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Santa Marta: Duas Semanas no Morro

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Bruna Deitos · Chapecó, SC
13/11/2008 · 92 · 4
 

Já no título do documentário Santa Marta: Duas Semanas no Morro pode-se perceber uma das maiores características do diretor Eduardo Coutinho: informar as condições em que o documentário foi filmado. Produzido em 1987, durante duas semanas a equipe de Coutinho ficou no Morro Santa Marta, uma favela do Rio de Janeiro, para falar sobre violência e discriminação.

No início do documentário, outra vez o diretor deixa claro as condições de filmagem. Ele conta que a equipe colocou aviso no morro para quem quisesse falar sobre histórias que tinham vivido de violência e discriminação. Sendo esse o ponto de partida, o documentário ganha força nos depoimentos das pessoas que seguem até o lugar combinado e começam a dar uma idéia de como é a vida na favela. Coutinho também realizou as entrevistas nas casas, ruelas, além da associação, onde promove encontro de grupos de moradores.

No livro “O documentário de Eduardo Coutinho: televisão, cinema e vídeo” escrito por Consuelo Lins, auxiliar de Coutinho, ela conta que para realizar esse vídeo eles dispunham de pouco dinheiro e tudo deveria ser feito no mais curto prazo de tempo possível. Por isso, pode-se perceber, tanto nesse documentário como em outros do autor, a simplicidade da produção, como a escolha por um espaço restrito (apenas uma favela), talvez uma escolha até proposital para tratar o conteúdo. Fato que não desmerece nem a estética, nem o conteúdo do vídeo.

Eduardo Coutinho é lembrado por ser o documentarista mais maleável ao roteiro. Ele estabelece um pré-roteiro, fixa o motivo do filme e o que pretende com ele, mas não se prende as regras. Exemplo simples acontece quando uma depoente do documentário Santa Marta reclama ao policial a forma como os favelados do morro são tratados. Ela afirma que em todos os lugares existem pessoas boas e pessoas más e não apenas porque as pessoas moram no morro é que devem ser tratadas com violência. No filme, o diretor deixa que o telespectador perceba a presença da equipe no lugar de filmagem, mesmo assim, ele não interfere na queixa da mulher. Consegue assim, um relato bastante fiel da realidade presente.

O filme é produzido sob encomenda do Instituto Superior dos Estudos da Religião (ISER). O documentário retrata a violência da forma mais simples: com o relato de quem as vive. Opção que dá ao diretor o grande mérito de prender a atenção dos telespectadores com histórias dos personagens que vivem aquela realidade. Coutinho também usa do intercalo entre os vários depoimentos, que gera uma quebra de diálogos e permite que mais de uma pessoa fale sobre o mesmo tema.

As favelas sempre são retratadas pela mídia como pontos negativos em relação ao resto da população, ou busca-se lá um exemplo de personagem que representa a favela de forma digna. Mas não é isso que busca Coutinho, ele costura o depoimento de vários moradores justamente por acreditar na singularidade, na particularidade de cada um. No documentário, são filmadas as alegrias, as dificuldades, os amores, os amigos, a religião. Percebe-se fortemente o desejo dos moradores de desmistificar a relação da pobreza/favela como ponto negativo de uma sociedade. Em mais de um depoimento, os moradores citam que apesar de todos os problemas que vivem, não trocariam aquele lugar por outro, que foi lá que eles constituíram família e amigos, que lá é um lugar bom para se viver.

O documentário não deixa de contextualizar as condições dos moradores, como a sujeira e o tráfico de drogas. Mas não é esse o eixo principal do filme, o objetivo principal era focalizar a estratégia dos moradores para sobreviver em meio a diferentes tipos de violência.

Ao mesmo tempo em que eles ressaltam o lugar bom de viver, mesmo vivendo em condições subumanas, os jovens entrevistados afirmam não ter expectativa de vida de qualidade. Tratam dos sonhos profissionais apenas como sonhos: distantes, impossíveis, utópicos. Eles falam o que querem ser, mas logo seguem afirmando que sabem que não vão ser. O recorte e o agrupamento desses depoimentos parece intencionalmente querer causar um efeito emotivo ao telespectador.

Ao invés de uma voz em off, ele opta por costurar as imagens com trilhas sonoras produzidas pelos próprios moradores e que contribuem para ilustrar os pensamentos e o modo de suas vidas. Percebe-se também, além da trilha sonora, que o diretor opta por cobrir com imagens os depoimentos dos entrevistados.

No livro escrito por Consuelo Lins, ela termina o capítulo sobre o Santa Marta contando que foi o filme de Coutinho mais exibido e que houve grande repercussão nas favelas, mas que a situação do vídeo-documentário no Brasil é precária. Apesar da grande aceitação de quem teve acesso a ele, as televisões comerciais brasileiras se negaram a veicular o filme com diferentes argumentos, o que provoca a inviabilidade econômica de produção dos documentários.

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Stella Tuttolomondo
 

Bruna, parabéns pela divulgação. Abraço!

Stella Tuttolomondo · Rio de Janeiro, RJ 12/11/2008 00:20
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José Cycero
 

Louvo tão bela e salutar iniciativa.

José Cycero · Aurora, CE 12/11/2008 09:50
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Ilhandarilha
 

Eduardo Coutinho é um exemplo de documentarista. Todos os seus filmes têm essa característica de, ao mesmo tempo, dar voz aos seus personagens e deixar claro que o que estamos vendo é um filme - por isso sujeito aos recortes de leitura de quem o produz. Chorei em vários de seus documentários. O último que vi dele, Edifício Master, é tocante. E, quem diria, ele já dirigiu um documentário para a TV Globo! Isso acho que foi no final da década de 70: nele um "coronel" nordestino se mostra inteiro pra gente, abrindo sua casa e as portas do seu pensamento. Acho que o Coutinho tem essa capacidade fantástica de estabelecer uma empatia com os entrevistados e saber deixar que eles falem por eles mesmos. Volta e meia passa na TVE algum filme dele.
Valeu lembrar desse aqui, Bruna!
abraços

Ilhandarilha · Vitória, ES 12/11/2008 22:55
2 pessoas acharam útil · sua opinião: subir
roquemedeiros
 

Aventura é momigo, votado e aprovado dessa vez eu cheguei bem na horo rs rs rs

roquemedeiros · Nazaré, BA 13/11/2008 11:33
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