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São João em Gravatá

Ângela Smaniotto
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Bruno Nogueira · Recife, PE
28/6/2006 · 55 · 5
 

A maior franquia já instalada no interior de Pernambuco são as próprias cidades. Gravatá lembra muita coisa de Arcoverde e Garanhuns, que lembram muita coisa de Caruaru e por ai vai. Com descuido, você acaba perdido numa rua querendo chegar aonde só existe em outro lugar. São palcos do perfeito conflito entre centro e periferia. Cidades enxertadas de lan houses e restaurantes caros, mas carentes de asfalto e saneamento. Todas carentes de uma atenção disputada no tamanho de seus valores. Caruaru diz ter o maior São João do mundo. Gravatá diz que tem o mais animado do mundo. Em pólos específicos, são apresentadas até os maiores pé-de-moleque, canjica, pipoca e outras receitas de milhos. Também do mundo.

Gravatá fica a 80km da capital Recife. É conhecida como a “cidade dos morangos”, e também é o reduto, no interior, da classe média alta de Pernambuco. Escolhida para algumas das maiores granjas e haras da região. A temperatura é baixa, comparada com as cidades centrais. Varia entre 17 e 20 graus de noite. Na programação de São João, foi a única cidade que, este ano, não deu um espaço maior ao pé-de-serra. Então, as atrações ficam para nomes como Calypso, Saída Rodada, Bruno e Marrone, entre outros. Por lá, passam cerca de 160 mil pessoas entre os dias 23 e 24 de junho.

A 'cidade dos morangos' se livra de todos os estigmas no período junino. A imagem de lugar frio, bucólico e tranqüilo dá espaço para ruas quentes – cada casa tem, mesmo em ruas apertadas, uma fogueira na frente – movimentadas e em ritmo diferente de festa.

As razões para a fama que Gravatá tem de segurança – são oito anos sem registrar nenhum homicídio na cidade - aparecem rápido. Aqui, tudo é feito seguindo a regra, sem pestanejar. Os shows começam pontualmente, mesmo que num horário ainda cedo para reunir o público. Às 19h, a concentração maior é no palco Dançando o Nordeste, reservado para vários trios de pé-de-serra. Lá, o público ainda é mais velho, dançando até suar. Numa velocidade cada vez mais rápida, sempre ao lado das fogueiras, todos parecem entrar em transe.

O palco principal dá margem a momentos estranhos, como o músico Elifas Jr. gritando "Ah, eu to maluco", cercado por triângulo, zabumba e sanfona. E para Bruno e Marrone se sentirem à vontade para estrear uma música inédita, um samba que, de samba, é idêntica as outras do repertório. Mas nesse transe de felicidade, ninguém dá muita atenção. Pula, grita e dança acochado.

A expectativa do público do domingo foi bem maior, atraído pelo fenômeno semi-nu da Saia Rodada. Com direito a strip tease no palco, a banda fez o show do novo DVD, reunindo o que deveriam ser 200 mil pessoas. No camarote, o global Luiz Fernando Guimarães achava o máximo. "Nessa época não tem manifestação no Rio [de Janeiro], então to achando ótimo, me divertindo bastante", contou.

Bem no meio do furacão, naquele tradicional empurra-empurra, a recifense Flávia Dias, 26 anos, era o resumo de toda folia da noite. Sorriso de orelha a orelha e suor que negava os 20 graus que faziam. Dançava com as amigas, os amigos e sozinha. "Eu sempre ia para o [São João] de Caruaru, essa é a primeira vez que escolhi Gravatá e to adorando", disse.

O positivo é que toda essa gente pode ver também o show seguinte, de Genaro e Walkiria. Ele, sanfoneiro que acompanhava Luiz Gonzaga e hoje um dos mais elogiados do país, trouxe junto com a companheira um pé-de-serra autêntico e rico em referências. Conseguiu segurar mesmo quem só tinha ido para o "arrocha". Não teve a mesma sorte Daniel Bueno, que esticou até às 4h, para um público já menor.

Como tudo que acontece no interior de Pernambuco, o São João de Gravatá é um evento muito político. O nome do prefeito é citado por todas as bandas entre cada música. Os apresentadores fazem constante agradecimento a figuras políticas que estão nos camarotes. Entre eles, o já candidato a presidência Geraldo Alckmin.

Campanha
Para todos os efeitos, na noite de 23 de junho (sexta-feira passada) em Gravatá, o Governador de São Paulo Geraldo Alckmin (PSDB) já era Presidente da República. "Por aqui, seu Presidente", repetia sempre o colega de partido e prefeito do município, Joaquim Neto, que também repetia o título para apresentar o convidado no São João da cidade para os pedestres no caminho. Ele foi acompanhado o tempo inteiro por uma comitiva modesta, formada também pelo governador Mendonça Filho e o ex-Ministro da Saúde Humberto Costa (PT).

Na passagem de pouco mais de 30 minutos na cidade – vindo de Caruaru - ele comeu escondidinho de charque e pamonha. E disse que tudo estava uma delícia. "Na minha terra chamamos isso aqui [a pamonha] de Curau", em tom de felicidade com a descoberta pela culinária de milho.

Alckmin já está em discurso de eleição (ele se candidata em coligação com o PFL) e, para os jornalistas, falou da importância de parcerias estratégicas com o Nordeste. Para os amigos, preferia comentar as cerca de 150 mil pessoas que ouviam seu nome ser repetido pelos apresentadores da festa no palco do Pátio de Eventos. Para os dois grupos, entretanto, falou bem pouco.

Apesar da fama de pouca simpatia, o abraço do pré-candidato foi disputado. Maria das Graças, que veio do Recife para vender espetinho no São João de Gravatá, pediu também dinheiro para ele. "Ainda não vendi nada desde que cheguei aqui, o movimento ainda tá (sic) fraco", disse depois, sem vergonha de ter pedido, "ele não quer ser presidente?", justificou.

O texto que você acabou de ler faz parte de uma série sugerida e organizada pela comunidade do Overmundo. A proposta é construir um panorama do São João no país. Mapeando a variação dos estilos musicais, comidas, danças, brincadeiras etc. Vendo como a tradição sobrevive fora do nordeste, sua evolução no próprio berço, nos grandes festivais onde bandas modernas convivem com as tradicionais. Para ler mais relatos, busque pela tag Especial_São_João_2006 no sistema de busca do Overmundo.

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andre stangl
 

Jóia! meu caro Bruno, acho q Pernanbuco está p/ o forró pé-de-serra c/ a Bahia está p/ o samba e o axé. É berço. No texto vc afirma q Gravata: "foi a única cidade que, este ano, não deu um espaço maior ao pé-de-serra". Mas logo abaixo informa q "Às 19h, a concentração maior é no palco Dançando o Nordeste, reservado para vários trios de pé-de-serra". Seria então um palco alternativo? c/ menos destaque? E as outras cidades ocorria o inverso? É só curiosidade... abçs

andre stangl · São Paulo, SP 26/6/2006 15:53
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Bruno Nogueira
 

É uma espécie de "palco 2". Menor, distante do foco principal dos shows. Geralmente com cerca de 20 pessoas no público. Em contraste com as 200 mil que estavam no outro.

Nas outras cidades, a única atração são os pé-de-serras. Também com mesmo número de público.

Bruno Nogueira · Recife, PE 27/6/2006 14:17
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Gilvan Costa
 

Valeu Bruno. Pensei que meu texto sobre o especial iria ficar órfão. Acho legal essa história das cidades se auto-intitularem capital disso ou daquilo. Meu único senão com relação ao texto é a sua incursão política dentro dele. Mas, valeu por mostrar um pouco dos festejos juninos de Pernambuco. Um abraço.

Gilvan Costa · Boa Vista, RR 28/6/2006 17:20
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Hermano Vianna
 

alô Bruno: uma curiosidade: o que é pé-de-serra autêntico? quem determina o que é autêntico e o que não é? e o que é autenticidade?

e caramba: 200 mil pessoas é muita gente! para um reduto de classe média alta, o negócio parece bem popular...

Hermano Vianna · Rio de Janeiro, RJ 29/6/2006 02:46
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Bruno Nogueira
 

Pé-de-serra autêntico é formado por um vocalista, uma zabumba, um triângulo e uma sanfona. Geraldinho Lins faz pé-de-serra, mas com guitarra, baixo e bateria junto com esses elementos. Não é autêntico (no sentido de original), mas é muito bom também!

Esse público é mais ou menos o mesmo nas cidades vizinhas. Caruaru deve ter um pouco mais. A diferença é que são pessoas de mais classes sociais. =)

Bruno Nogueira · Recife, PE 29/6/2006 07:42
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