Petrobras Brasil.gov.br Lei Rouanet
 
 

São Pedro, a Praça do Papa e o Zeca

divulgação/site oficial do cantor
1
Ilhandarilha · Vitória, ES
3/7/2008 · 227 · 13
 

Estava triste, tristinha...

Foi uma semana difícil: muitas tarefas acumuladas, a burocracia sentando sua enorme bunda sobre a minha ansiedade e uma frustração não curada por conta de uma viagem desejada que não deu certo. A vida exigindo coisas demais e dando energia de menos.
Mas enfim chegou a sexta-feira, o dia universal da catarse. E junto com a sexta-feira veio também a abertura da tradicional festa de São Pedro – o último santo da santíssima trindade de junho.

Aqui em Vitória a festa de São Pedro é aguardada ansiosamente pelos católicos da Praia do Suá e Jesus de Nazareth, bairros que compõem a paróquia do santo guardião do céu e das chuvas. E também por grande parte da população que tem na festa popular uma oportunidade de curtir, de graça, shows com artistas famosos (bons ou não). A festa dura três dias e termina sempre no domingo com a belíssima procissão marítima dos pescadores na baía de Vitória. Ela completou 80 anos de existência e consegue unir, ainda, o sabor de quermesse paroquiana com o de grandes festas populares, com mega-shows para centenas de pessoas. E o show de abertura da festa esse ano ficou por conta de Zeca Baleiro.

A recém inaugurada Praça do Papa, na Enseada do Suá, é um espaço realmente lindo. Na noite de sexta-feira, estava particularmente bonito, com o nublado do céu reforçando a aura do Convento da Penha iluminado do outro lado da baía e as luzes azuis do vão central da terceira ponte sublinhando a Cruz do Papa projetada sobre a praça e o povo presente. Um cenário perfeito para a festa e o show de Zeca Baleiro.

Se tem uma coisa que gosto nessas festas populares é a diversidade de gente presente: famílias inteiras, crianças, adolescentes (muitos) e velhos comungando o mesmo espaço. Gente de meia idade em busca de um bom show e a garotada de várias tribos convivendo em harmonia em torno da música, das barracas de cerveja, churrasquinho e acarajés (porque, inexplicavelmente, a gente quase não encontra na festa de São Pedro é quitute junino).

Nesse clima de quermesse, harmonia e diversidade, com as bênçãos do convento e da cruz do papa, e depois do público devidamente esquentado pelo forrózinho honesto do grupo Comichão, Zeca Baleiro entrou no palco para seu show. E sua primeira música foi o mega sucesso Telegrama. Eu tava triste, tristinho... A multidão, de imediato, identificou os primeiros acordes e formou um coro: eu tava só, sozinho... Esse coral inicial marcou o tom de todo o show, que esquentava a cada música. Um show que teve como maior característica a alegria e participação do público. Quase ao final, com a coisa já bem encaminhada, Zeca atacou de Heavy Metal do Senhor. O som pesado das guitarras animou a platéia, que, a essa altura, já pulava e cantava em uníssono. Ver o público acompanhar a letra nem um pouco crente da música e o contraste de tudo com a cruz e o convento logo ali do lado foi um espetáculo, no mínimo, interessante.

O show acabou por volta da meia noite. O povo foi saindo feliz e em paz. Os pontos de ônibus lotados, certa confusão de carros saindo, mas nada que quebrasse a paz do momento. Também fui embora para casa, feliz e suada dos pulos no show, com vontade de beijar o português da padaria... E fiquei pensando no caminho que a nossa cidade bem que merecia um carinho desses mais vezes por ano. Uma programação cultural efetiva e periódica, que possibilitasse momentos de comunhão da população com a arte e com ela mesma seria algo assim tão complicado e caro para a nossa prefeitura?

Leio no Diário de Vitória que semana que vem o espaço da Estação Porto reabre para o público. Com instalações mais adequadas, novo sistema de som e refrigeração, o espaço reabre na quarta-feira, dia 2, com lançamento do CD Vitória em Canto e show de Mart’nália . Muito bom. O Estação é um espaço que a cidade adotou, principalmente pela qualidade da programação, e era uma pena ter ficado fechado por tanto tempo. Mas e as praças lindas da cidade? Elas, como espaços públicos abertos e democráticos, não mereciam também uma programação constante de boas atrações? Afinal, de que servem os belos novos espaços de Vitória se neles não circula permanentemente a vida do povo da cidade?





comentários feed

+ comentar
Renato de Mattos Motta

Gostei, Cláudia!
Volto pra confirmar!

Renato de Mattos Motta · Porto Alegre, RS 1/7/2008 09:46
sua opinião: subir
Renato de Mattos Motta

Viu?
Voltei!
e votei!

Renato de Mattos Motta · Porto Alegre, RS 1/7/2008 17:14
sua opinião: subir
Saramar

Um texto pequeno e cheinho de coisas boas. Gostei muito, assim como gostaria demais de ver essa maravilhosa procissão marítima de São Pedro. Ainda vou aí.

Todas as cidades merecem esses momentos de comunhão. Todas...

Sua pergunta ao final, sobre as praças me levou a pensar que todos pedem praças, anseiam por elas e, depois de porntas, são largadas, ninguém as toma para si, ninguém as ocupa, a não os ser políticos e suas mentiras.
Aqui, ao contrário (mas não para o bem), pelo que vi em crônica de Luiz de Aquino, uma praça foi tomada por alguns cidadãos. Dela, só os que ajudaram a construí-la, podem desfrutar (ai, ai).

Para aprender, ainda temos que andar muito nesta vida, tal qual perene procissão.

Obrigada pelo belo texto.

beijos

Saramar · Goiânia, GO 1/7/2008 22:42
1 pessoa achou útil · sua opinião: subir
Ilhandarilha

Pois é Saramar, aja caminho pra percorrer ainda... estamos longe da cidade ideal, né mesmo? Mas ao mesmo tempo bem perto. Os espaços existem, basta que o poder público saiba o que fazer deles e tenha vontade política para isso.

A procissão de São Pedro desse ano está no link lá no texto. No corpo da matéria lincada tem o vídeo da TV Gazeta. Vale conferir. Mas é claro que é bem melhor ao vivo, principalmente de dentro dos barcos. Fui apenas uma vez de barco e foi uma experiência lindíssima.
Beijos

Ilhandarilha · Vitória, ES 2/7/2008 15:33
1 pessoa achou útil · sua opinião: subir
Andre Pessego

Ah Ilha,
quase estive me vendo lá. Mas não, agora que me dei conta -era a narração. Lindo com a tua capacidade de contar.
abraços
andre.

Andre Pessego · São Paulo, SP 2/7/2008 19:57
1 pessoa achou útil · sua opinião: subir
MarcilioMedeiros

Ilha,
Ótimo!
Abs,

MarcilioMedeiros · Recife, PE 2/7/2008 23:44
sua opinião: subir
silviaraujomotta

Cotidiano retratado!Espaço democrático! Visão universal!
Gostei.
VOTO CERTO,Sílvia.

silviaraujomotta · Belo Horizonte, MG 3/7/2008 12:28
1 pessoa achou útil · sua opinião: subir
André Teixeira

Puxa!!! Me senti no próprio show!!! Pulando e dançando e cantando junto! Gosto muito da veia poética desse maranhense arretado!!! Parabéns a ele e à você!!! Sem entrar nos méritos religiosos...

GRANDE abraço!!!

André Teixeira · Aracaju, SE 3/7/2008 18:26
1 pessoa achou útil · sua opinião: subir
Ilhandarilha

Overmanos, agradeço bastante comentários e elogios. Mas gostaria que os comentários enveredassem por outros caminhos. A idéia do post, bastante singelo, foi a de lançar um mote para a discussão dos projetos de cultura que são implantados pelos governos, sejam eles municipais ou não.

Aqui temos uma discussão infindável sobre a necessidade da efetivação de projetos culturais governamentais que não sejam apenas pontuais, nos quais o município ou estado agem apenas como promotor de eventos, mas sim de projetos a longo prazo que possibilitem a formação cultural da população, contemplem as várias manifestações artísticas, locais ou não, e formem público interessado nas produções artísticas locais ou não.

Como acho que deixei claro no post, eu acredito nas praças e espaços públicos como palco ideal para essas iniciativas. São amplos, democráticos e públicos. Mas existem possibilidades mil para a efetivação de projetos assim: circuitos culturais itinerantes que contemplem os bairros, criação de teatros, espaços culturais e afins em locais de fácil acesso e grande movimentação de pessoas e, até, aumento na eficiência dos transportes públicos, com ampliação de linhas, veículos e horários de atendimento (aqui temos a síndrome de Cinderela: às onze e meia todos têm que correr para casa ou só conseguem ônibus no dia seguinte pela manhã, ou seja: só dá pra ir a um show de carro).

abraços

Ilhandarilha · Vitória, ES 3/7/2008 18:53
1 pessoa achou útil · sua opinião: subir
ayruman

Muito bom sua reflexão. De que serve as praças se nelas não fervilha a essência da Alma do Povo ? Se nelas não se vê a possibilidades de realizações culturais que realmente dêem ao público algo mais do que um fastidoso "passa Tempo no final de Semana" e por que não, ampliem também a possibilidade de crescimento sócio, político, econômico e cultural das pessoas ?
Então... Prá que serve as Praças? Será que é só para dar milho aos Pombos e para o discurso mascarados de nossos políticos ???
Saudações Ayrumânicas. jbconrado

ayruman · Chapada dos Guimarães, MT 4/7/2008 15:59
1 pessoa achou útil · sua opinião: subir
Spírito Santo

Ilha,
Você, de novo, reclamando de barriga cheia. Precisa ver a carência destas coisas aqui no Rio. Aqui (você sabe) rolava muita coisa deste tipo até os anos 90, por aí. Me lembro de uma época (anos 80) em que haviam, toda sexta feira, ao mesmo tempo, shows na Lapa, na Cinelândia e na Praça XV. Várias vezes cheguei mesmo a tocar neles, isto sem falar nos shows nos bairros ou em Niterói e no interior, nas cidades próximas. A maioria esmagadora destes shows (alguns realmente memoráveis) eram bancados pelas prefeituras.
Por aqui fala-se muito que a violência urbana é a causa desta dieta magra de shows em esapços públicos (só rolam na Zona Sul, em mega eventos que são sempre meio eventos de marketing de grnades empresas com artistas-celebriaddes de muita mídia, etc. Não vou. Acho um porre.
Acho, pelo contrário, que o recrudescimento da violência urbana é sim, fruto da falta deste tipo de iniciativa, política pública na melhor acepção da palavra.
Elitismo, burrice, exclusão social, tudo junto nesta cidade (falo só da minha, que dirá as outras) que anda para trás, voltando aos seus piores tempos de Corte imunda, bárbara e malcheirosa da época da escravidão.
Papo de saudosista? Acho que não. Papo de indignação com a obviedade do problema. Gente estúpida.

Abs

Spírito Santo · Rio de Janeiro, RJ 4/7/2008 21:57
1 pessoa achou útil · sua opinião: subir
Ilhandarilha

Spírito,
Concordo inteiramente com vc quando diz que esse tipo de programação cultural em lugares públicos não é causa da violência e, ao contrário, pode até contribuir para diminui-la. A característica democrática deles já é inclusão social e, de quebra, possibilita uma interação entre camadas sociais que se mantém distantes pelas vicissitudes da vida. Além disso, a gente está cansado de saber, a cultura não gera violência. A falta dela, sim.
Quanto a eu estar reclamando de barriga cheia, não estou não: aqui esse tipo de evento ocorre somente na festa de São Pedro, no fim do ano - com o concerto de natal da Vale, na praia de Camburi - e eventualmente, na programação de verão da prefeitura, também na praia. Fora isso não temos nada.
Quinta-feira aconteceu a abertura do circuito cultural no Centro da Cidade: som péssimo, organização zero, infra-estrutura ruim. A cultura servindo de escada para a política. O público não teve paciência - e os artistas convidados saíram de lá se sentindo lesados pela prefeitura. É assim que a coisa caminha...

Ilhandarilha · Vitória, ES 5/7/2008 09:50
1 pessoa achou útil · sua opinião: subir
Ana Murta

Que texto bom, aliás mais que isso: fundamental. Sua colaboração no overmundo também é fundamental nega. Parabéns!

Ana Murta · Vitória, ES 9/1/2009 11:23
1 pessoa achou útil · sua opinião: subir

Para comentar é preciso estar logado no site. Faça primeiro seu login ou registre-se no Overmundo, e adicione seus comentários em seguida.

filtro por estado

busca por tag

observatório

feed
Reparou na novidade?

O Overmundo nasceu com um objetivo bem claro, o de dar visibilidade às práticas e manifestações culturais brasileiras, abrindo, para isso, um c... +leia

overmixter

feed

No Overmixter você encontra samples, vocais e remixes em licenças livres. Confira os mais votados, ou envie seu próprio remix!

+conheça o overmixter

 

Creative Commons

alguns direitos reservados