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S.B.A. - Síndrome do Blog Anônimo

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Rodolfo Arruda · Marília, SP
12/2/2007 · 13 · 3
 

Naturalmente somos constituídos para a busca do reconhecimento. Sabem o que é isso, significa dizer que o eu de cada um de nós não é nada, absolutamente nada, sem os outros. Tudo aquilo que pensamos ser depende dos outros, pensamos a todo momento que somos senhores de nossa personalidade, que escolhemos e construímos nossa personalidade. Mas, na verdade, temos muito pouco poder sobre isso, uma ínfima parcela de contribuição eu diria, na elaboração da nossa própria personalidade, do nosso eu.

Em momentos em que o nosso eu está em crise, ele se volta pra si mesmo, viramos ensimesmados. Perdemos o eixo com o mundo. E o mundo nos excluí mais ainda e nos tornamos pessoas estranhas. Loucos, para alguns.

Quando estamos num estado considerado de normalidade estamos voltados para os outros, buscando coisas nos outros. Os outros podem ser qualquer coisa, dinheiro, poder, sexo, conforto, reconhecimento, conhecimento, qualquer coisa, estão sempre fora, o eu nunca os controla. Não há escapatória, estamos sempre chamando a atenção para o nosso lado, por uma necessidade de sobrevivência: precisamos do olhar do outro para continuarmos vivos. Plantamos bananeira, colocamos melancias na cabeça, nos embriagamos, inventamos piadas, compramos carros importados, vestimos fantasia de palhaço por conta dessa necessidade natural, por essa exigência da sobrevivência. Evidentemente, nesse rol infinito de coisas que fazemos para chamar a atenção, escrevemos.

Quando alguém escreve sem uma obrigação profissional ou técnica de alguma ordem, escreve para chamar a atenção. Mas essa atenção, como se percebe, não tem nada de patológica nem egocêntrica, ela é espontânea, imposta pela sobrevivência psíquica. Escrevemos para nos sentirmos vivos. O olhar dos outros nos dá vida.

Quando os blogs surgiram, uma possibilidade de escrever publicamente e chamar a atenção surgiu. Foi como se do dia para noite tivéssemos mais um outro canal para nos lançar e mais uma dimensão de nossa personalidade para cuidar. Aparentemente, estávamos recebendo um presente.

No entanto, o que muitos esqueceram de avisar foi o fato de que um endereço eletrônico com a faculdade de receber textos não significava muito em termos de comunicação e abrangência. A verdade é que endereços eletrônicos não ocupam lugar no espaço e por isso podem ser muitos, quase infinitos. Eles podem se multiplicar muito além da capacidade que as pessoas comuns têm de guardar referências distintas. Pouco se desenvolveu no sentido de descentralizar a atenção dos leitores e de propagar canais alternativos de visibilidade. A pouca transformação existente é muito mais resultado da reformulação da postura do usuário do que propriamente de uma redistribuição dos canais. O que aconteceu após um tempo: o número de escritores se multiplicou muito além da capacidade dos leitores e dos canais de divulgação.

O resultado é que os blogs, geralmente, não são públicos. Embora disponíveis para quase todas as partes do mundo, são regionais em seu funcionamento cotidiano. Os indivíduos que produzem conteúdo para os blogs também são regionais e não se especializam na capacidade de produzir conteúdo. O que isso acarreta: que cada vez mais a projeção e a abrangência dos blogs se torne uma regionalidade interiorizada, o dono do blog vai se tornando cada vez mais o centro gravitacional de sua própria produção. Ele se nutre de sua própria experiência regional para oferecer um conteúdo que terá abrangência e pertinência regional.

Se tomarmos como base aquele primeiro entusiasmo, aquela primeira sensação causada pela promessa dos blogs (publique, compartilhe suas idéias, seja visualizado, tenha destaque) com aquela necessidade natural de atrairmos a atenção alheia, temos um castelo de expectativas. Se concordarmos que o desenvolvimento dos blogs se limitou ao regional e que muito pouco ou nada foi feito para mudar a relação da produção do conteúdo e da distribuição da atenção dos leitores, então teremos um amendoin. Nos prometeram um castelo e recebemos um amendoim: essa foi a realidade dos blogs, pelo menos até agora.

Isso não significa que não existam exceções. Entretanto, mesmo que nos seja absolutamente impossível calcular a dimensão desta exceção, o que se percebe é que um blog, quando faz sucesso e explode a condição regional, ao que parece ele se torna outra coisa. Ele se torna obrigado a lidar com o conteúdo não regional e a se auto regular de modo a se enquadrar nos padrões da audiência, igual aos meios convencionais de comunicação tradicionalmente estabelecidos. Isto não impede que surja num blog, a criação de um novo nicho editorial. Mas a criação de um novo nicho editorial é uma criação, independe se é um blog ou não.

Com essa promessa frustrada, não causa espanto de que esteja em curso uma reação característica a esta lacuna, que iremos chamar aqui de Síndrome dos Blogs Anônimos, ou S.B.A. (Isba). Basta uma scaneada sincera na internet com vistas aos blogs que será encontrado um grande número de pessoas insatisfeitas, ou preocupadas com o pouco acesso de seus blogs. Mais engraçado ainda, será percebido que, diante da síndrome, os autores passem a produzir outros posts que estabelecem uma intertextualidade com a própria preocupação causa pela síndrome de blog anônimo. Os posts passam a discutir a própria falta de acessos do blog ou se faz ou não sentido de continuar postando coisas a partir da falta de visitação. Com isso, a tendência é o blog virar um caracol e ser abandonado. Quantos blogs abandonados na rede não existem na rede agora? Certamente muitos, basta procurar.

Para concluir, julgo importante defender que essa síndrome, apesar do nome, é absolutamente simples de ser dissolvida. Acreditamos que, mais do que passar aqui um receituário de como elaborar melhores posts ou que tipos de ferramentas podem aumentar a visibilidade de seu blog, acreditamos que o melhor remédio para tal sensação é desfazer o equívoco que origina a frustação, ou seja, repensar aquela alegoria de que nos prometaram um castelo e nos deram um amendoim. É isso, o blog não é um castelo, é um amendoin e escrever, embora um comportamento de nossa natureza, saudável (sempre é bom lembrar) é apenas uma, tão somente uma forma de chamarmos a atenção (a atenção em níveis normais, não em caso egocêntricos ou mal-resolvidos). É isso, no momento em que escrever é apenas escrever e um blog é quase tão trivial e comum como uma caixa de e-mail, tudo volta ao normal e respirar volta ser o que sempre foi: uma coisa quase imperceptível. Natural.

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Egeu Laus
 

Rodolfo,
Parece que o Overmundo comeca a se preocupar justamente com isso. Veja o Overfeeds que possibilita linkar o seu Blog com o Overmundo para uma maior distribuição.
Veja mais informações aqui.
Abraço!

Egeu Laus · Rio de Janeiro, RJ 14/2/2007 09:50
1 pessoa achou útil · sua opinião: subir
Rodolfo Arruda
 

Egeu,
Obrigado de coração pela dica. De fato, existem muitas maneiras de contornar essa sensação de ausência dos blogs e eu a cada dia me surpreendo com a riqueza delas. Pretendo escrever mais sobre isso na próxima vez.
Abração.

Rodolfo Arruda · Marília, SP 14/2/2007 11:42
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Egeu Laus
 

O seu texto está ótimo, Rodolfo!

Egeu Laus · Rio de Janeiro, RJ 14/2/2007 11:57
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