Dia 4 de setembro é a véspera do dia mais importante da história do Estado, quando é comemorada a Elevação do Amazonas à Categoria de Província. Traduzindo: é a independência do Amazonas, a conquista da autonomia administrativa no lugar da submissão ao Grão-Pará. Um novo tempo! Em 2008, quando for meia-noite do dia 5 (sexta-feira), uma multidão vestindo camisas pretas já estará em festa, aplaudindo, gritando e cantando em mais um inestimável culto ao ritmo eletrizante do rock, a reconstruir nos fãs da cidade uma outra sensação de independência: a dos altos custos de deslocamento para assistir a shows internacionais que vêm ao país. Os Scorpions estão de volta ao Brasil, e um ano depois, estão novamente em Manaus.
Não é fácil amar o rock nos quintais da Zona Franca, uma cidade que aparenta não ter a paixão correspondida se analisada a não-realização de shows internacionais na medida esperada pelos admiradores, mas vendo a música pelo viés desapaixonado dos negócios, as dificuldades logísticas para a capital ainda de mostram o motivo-chave deste afastamento colocando a relação ao patamar do amor proibido. Porém, Manaus se permitiu alguns flertes que geraram shows raros, memoráveis e explosivos.
Estamos na tarde do dia 8 de agosto de 2007, há pouco menos de um ano e um mês, a parte conhecida como “ferradura”, do Sambódromo de Manaus, recebia os últimos ajustes para o show do Scorpions. O bom humor dos alemães desde o desembarque alimenta a perspectiva de uma grande apresentação com o anunciado registro da sua gravação em DVD. São 18h, o empresário Marcus Martins, 33, checava as instalações dos generosos 110 metros quadrados do camarote onde vai receber amigos e convidados, quando um estalo metálico acompanhado de gritaria chama sua atenção para a pista: o portão começara a ser aberto e como uma represa que rompe, deixava passar sem controle o número espacialmente possível de pessoas na medida em que se movia: uma, três, seis, onze, trinta... e sob o olhar agora emocionado do empresário, a pequena multidão corre aos berros na direção de um palco ocupado somente por técnicos anônimos ainda à luz do dia.
De emocionado à comovido, Marcus acompanha tudo. Ele sabe muito bem como a corrida termina. Seus olhos já estiveram a poucos centímetros de um portão fechado, vendo este se abrir, e em seguida um palco crescia em sua direção enquanto suas pernas o conduziam em uma velocidade que provavelmente desconhecia até aquele momento que poderia alcançar. Era março de 1991, Manaus acabara de assistir o segundo Rock In Rio pela televisão, mas a inauguração de uma casa de shows com capacidade para 3 mil pessoas prometia a possibilidade da vinda corriqueira de super-astros internacionais. Já no segundo espetáculo, a casa trazia uma revelação da cena mundial que passou pelo super palco carioca e estava no auge. Com 17 anos, o então estudante Marcus, atirou seu corpo de modo quase suicida na divisória em ferro e madeira, onde se agarrou com força suficiente para nenhuma força da natureza removê-lo. Espaço conquistado, respirou e ainda ofegante pôde conferir um a um de seus amigos de escola preencherem aquele espaço lado a lado. A cada berro eufórico, um significado: “estamos o mais próximo possível e não tem ninguém na nossa frente”.
A esperança tinha nome: Faith No More
De volta ao sambódromo, já recebendo cerca de 200 convidados em sua área VIP, Marcus lembra da expectativa gerada pela vinda do Faith No More para Manaus. “Aquele foi histórico, o primeiro show internacional de rock na cidade, foi aquela coisa de chegar cedo por volta das 5 da tarde e esperamos pelo menos 6 horas até começar”, explica. O empresário nem desconfiava que as horas de pé agarrado na grade nem se comparariam aos sete anos de marasmo até a cidade assistir ao show seguinte.
Paul Di’Anno pousou em Manaus somente em 1998, mobilizando os fãs do metal para exibir o seu trabalho independente na condição de ex-vocalista do Iron Maiden, na prática, uma noite transformada da promessa para uma paradoxal apresentação em uma quadra de escola de samba com duração de apenas 40 minutos. Há quem classifique até hoje o evento como “o gozo precoce da década”. Depois disso, o internacional silêncio perturbou os ouvidos manauaras até o lampejo de excentricidade do duo hype estadunidense White Stripes, em 2005, que escolhia locais inusitados para gravação de videoclips, e assim como o fundo de um boteco na região das ruínas jesuíticas argentinas, a dupla também decidiu que o Teatro Amazonas era um local dentro dos critérios da inusitabilidade procurada. Manaus agradeceu, os ingressos esgotaram em horas para o show que é considerado até hoje, por críticos da mídia dita especializada, como um dos mais importantes já realizados no Brasil, com direito à lotação externa ao Teatro, no Largo São Sebastião, onde telões transmitiram ao vivo a performance de Jack e Meg White para os roqueiros que não conseguiram entrar.
Motivos da estiagem
Na opinião de Marcus, que acompanha o rock na mesma proporção que se alimenta, o ciclo de uma superexposição da indústria da música - ascensão e queda - pode estar entre os principais fatores conjunturais que colaboraram para a não-continuidade de shows em Manaus. “Em 1991 haviam muitas bandas no auge, mas o Faith No More veio para ser um divisor-de-águas assim como o Nirvanna, o grunge chamou atenção da indústria tornando também a cena hard rock e heavy metal populares, mas tudo que é popular sucumbe”, analisa.
Como um ciclo industrial leva muitos artistas a aproximarem suas composições ao estilo explorado no momento, no intuito de chamar atenção de gravadoras e participar dos benefícios financeiros do “boom”. De repente, músicas e bandas estão muito parecidas e uma cara homogênea empobrece o cenário. Porém, o mesmo mercado não perdoa, e em troca de outra novidade para investir o esgotamento do rock na cena trouxe efeitos mais devastadores ainda. Outros estilos musicais passaram a ser incentivados e por volta do final da década de 1980, as guitarras não povoavam mais o mainstream das rádios e televisões comerciais.
Marcus comenta que demorou para o rock assimilar o golpe. “Pouco depois de 1991 o estilo entrou em uma fase morna, grandes bandas saíram da cena que só foi retomada de 2005 em diante”, afirma. Esses fatores somados às dificuldades logísticas de se trazer uma apresentação à cidade ajudam a entender os promotores de eventos no sentido que, onde há dúvida, não pode haver investimento. Mas atualmente, o rock já mostra uma retomada impulsionado também pelo movimento que justifica sua presença nesta noite de 2007, a volta à ativa de bandas que construíram o sucesso com um trabalho autêntico, alheio aos modismos. O rock volta à tona a partir de ícones como o Scorpions.
Da grade à área VIP na vida
Ao invés de procurar os amigos na grade, Marcus hoje confere quem chegou (ou ainda falta) consultando uma lista nas mãos da recepcionista. Para o show do Scorpions de 2007, solicitou uma área diferenciada (leve este termo às últimas conseqüências) e 200 ingressos para revender aos amigos, cerca de 30 destes, unidos em torno do rock deste a época de colégio. “É o heavy metal que nos une, eu diria que a única coisa que nós temos em comum é gostar de heavy metal e sempre vale a pena reunir todo mundo”, avalia, colocando ainda a paixão pelo rock como um diferencial positivo na construção de sua vida e de seus amigos. “A gente trabalha para fazer o que sempre sonhou, quando não estamos ouvindo rock a gente trabalha demais. Aqui tenho amigos que são juízes na capital e no interior, advogados, engenheiros, donos de construtoras o que nos dá o privilégio de poder sair de Manaus para seguir os shows que acontecem dentro e fora do Brasil”, revela.
No palco, uma banda tocando covers faz o pré-show, apenas mais uma evidencia da falta de sensibilidade de promoters com a competente cena doméstica do rock manauara, repleta de bandas com estrada e trabalho próprio eficiente. A platéia que já toma grande parte da pista e ocupa metade dos segmentos das arquibancadas interage com a banda sem demonstrar muita euforia diante do repertório sem surpresas audível em qualquer bar de rock da cidade.
Da área VIP à grade no show
Os ingressos dos camarotes especiais dão direito de descer as escadas e chegar até uma área privilegiada, de pista, colada ao palco. Atrás deste cerco VIP há outra divisória e uma fila de seguranças que vigiam o espaço entre o território privilegiado e a pista aberta ao público. Ocupando seus valiosos primeiros lugares na pista comum devidamente grudadas na grade estão as estudantes e amigas Jadd Ayala e Manoela Marinho, ambas com 17 anos, cada uma ostentando um sorriso olímpico de quem conquistara o direito de viver um grande momento. “Cresci ouvindo Scorpions. Isso é demais, é um sonho que estamos realizando”, desabafa Jadd, que mesmo sem ser perguntada engatou o relato da conquista da posição. “A gente chegou 13h30 porque disseram que iriam abrir os portões às 16h, tava chovendo e a gente ficou na frente do portão pegando chuva e tudo. Foi muito legal, valeu a pena”. Tendo compartilhado toda a espera com a amiga, Manoela lembra que mesmo com atraso, os portões só foram abertos às 18h. “Se a gente não tivesse feito uma manifestação acho que eles não teriam aberto, tinham algumas senhoras e estávamos preocupadas”, revela. Jadd explica que toda a preocupação desapareceu sob um agudo estalo metálico seguido de gritaria. “A gente só saiu correndo, correndo muito, agoniada porque a gente tinha que ficar na frente. Desde lá não saímos daqui e vamos ser as últimas a deixar o sambódromo”.
A esperança do estudante Marcus tem a idade de Jadd, que agora carrega a sua própria expectativa de assistir aos principais ídolos sem sair da cidade, mas se o tempo passar, Jadd já tem planos. “Vou fazer faculdade, trabalhar e fazer de tudo para viajar para outros países para ver quantos shows puder de outras bandas e dos Scorpions, que ainda vão ter uma vida longa”, conta, e feliz mostra uma pista da magia que envolve e mantém a paixão cíclica de gerações que balançam as cabeças sob riffs. “Conheci o rock pelo meu pai e quero poder passar essa alegria para os meus filhos. Meu pai me incentivou muito para estar aqui, e é também por ele que vou gritar muito, ele mandou: vai lá e fica feliz”.
Marcus, Jadd e Manoela não se conhecem, mas sabem que, ao lado da legião que ama o rock em Manaus, são personagens ativos e torcedores de um processo. Ao final de mais um raro show, os roqueiros de Manaus podem chegar a uma orgulhosa conclusão: o de morar em um lugar onde o deslumbramento dos ídolos se torna tão intenso quanto a vontade dos fãs em assistí-los. Prova no empolgante bis interminável dos Scorpions (2007); no arroubo de Jack White (2005) ao sair do Teatro Amazonas no meio do show para tocar à multidão aglomerada do lado de fora, e para quem arriscou, ser bem recebido em conversar com Mike Patton e os integrantes do Faith No More (1991) como melhores amigos à beira da piscina do hotel.
Depois do show de 2007, Manaus vive a disputa do clássico da Alegria vs. Frustração, com uma vitória ligeiramente apertada em 3 a 2. Scorpions e Whitesnake marcaram para bem da nação roqueira, ajudados pelo show conjunto das alemães Helloween e Gamma Ray. Os dois golpes na expectativa local fica pelos lamentáveis cancelamentos das bandas Deep Purple e Megadeth. Nesta quinta, que os Scorpions ampliem o placar para o bem, em uma data tão especial para o estado e a cidade, que Manaus seja elevada em definitivo à categoria de rota dos grandes shows de rock.
Muito bom! Sempre interessante perceber como as gerações renovam as motivações a partir de intenções ligeiramente próximas, só ligeiramente próximas. Existe algo de identificação no rock que vai além dessas questões todas: paixão! Acredito até que, esses caras aí, amigos do Marcos, usam o rock para justificar a paixão uns pelos outros, assim, encontrando argumentos claros para deixar esposas, filhos, cachorros em casa. Sabe, bem aquela coisa de que, se o cara não for, a culpa é da mulher. Afinal, rock´n roll all night!
Michelle Portela · Manaus, AM 1/9/2008 21:13Ah, sim, claro que as mulheres são bem vindas, vide Manawar e mesmo que Bruce tenha dito que os caras não querem ter bandas por causa das mulheres, afinal, mulheres infernizaram e provocaram o fim de bandas. Eu mesma estou lá ou não estou lá, um dos dois... acho que os dois. E, bem, tem uma questão que acredito ser fundamental aos rockeiros: money, dindin, grana... dinheiro é muito importante para um rockeiro, pois, uma vez pobre, se torna limitado. É trampando galera!
Michelle Portela · Manaus, AM 1/9/2008 21:17
votadíssimo!!
quem mora no Piauí sabe o quanto é difícil ter "direito" a ver os grandes shows!
"...o portão começara a ser aberto e como uma represa que rompe, deixava passar sem controle o número espacialmente possível de pessoas na medida em que se movia: uma, três, seis, onze, trinta... e sob o olhar agora emocionado do empresário, a pequena multidão corre aos berros na direção de um palco ocupado somente por técnicos anônimos ainda à luz do dia".
Esse trecho, especialmente, 'fez-me pele de galinha' (tradução para 'fiquei arrepiado' em um dvd do Iron Maiden com legendas de português de Portugal).
:-D
Para comentar é preciso estar logado no site. Faça primeiro seu login ou registre-se no Overmundo, e adicione seus comentários em seguida.
A Chapada dos Veadeiros, como você já deve saber, é um lugar bonito por natureza. Com a beleza da sua diversidade biológica, o lugar parece um... +leia
No Overmixter você encontra samples, vocais e remixes em licenças livres. Confira os mais votados, ou envie seu próprio remix!