Se eu tivesse 15 minutos com Eduardo Paes

Revista Veja
Sergio Besserman: foco de sustentabilidade para a marca do Rio
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Luis Marcelo Mendes · Rio de Janeiro, RJ
13/4/2011 · 12 · 3
 

Em entrevista recente ao jornal O Globo, Sergio Besserman, atual presidente da Câmara Técnica de Desenvolvimento Sustentável e Governança Metropolitana, afirmou que o maior legado do bom momento que a cidade passa, dos futuros grandes eventos esportivos ao filme de animação do Carlos Saldanha, é a valorização da marca Rio. Ele está certo. Besserman é uma das poucas pessoas no poder público que falam abertamente sobre o tema com grande convicção. Para ele, a marca do Rio é ligada à sustentabilidade, cujas imagens para o mundo deveriam ser a "cidade verde" e a cultura.

É um bom caminho. Mas é apenas uma visão. Um detalhe importante que está escapando à sua atenção é o fato que, formalmente, essa marca Rio não existe. Ela é apenas uma abstração. Não houve ainda um movimento amplo de definição de valores claros e de um posicionamento sintético partilhado por todos como o fogo do Prometeu. De certa forma, isso é típico da nossa cultura carioca. Para que se dar o trabalho de querer caracterizar algo que já está aí, algo que nos foi dado. Porque essa mania de querer formalizar o que é informal por natureza.

Mas considerar que o Rio já é uma marca em si é uma idéia tão confortável quanto enganosa. Quando essa formulação formal não é estabelecida, cada cidadão cria o seu elenco próprio de valores. Desconsidere a possibilidade de uma posição neutra. Se você não assume o controle e constrói a sua marca, os outros a constroem para você. Besserman diz que não é possível fazer eventos extraordinários sem o engajamento da sociedade. É verdade. Da mesma forma, não é possível engajar extraordinariamente a sociedade sem uma idéia sintética que seja inspiradora para as pessoas, com a qual elas podem se relacionar.

Por isso, se eu tivesse a atenção total do prefeito Eduardo Paes durante 15 minutos, diria a ele nomear Sérgio Besserman como responsável por liderar essa construção da marca Rio, convocando os maiores especialistas em pensamento estratégico de marca da cidade a fazerem uma força-tarefa para chegar a esse objetivo comum. Um time que compreenda plenamente a importância da Economia Criativa e que entenda que a cidade vai dar um salto enorme na hora com uma marca capaz de inspirar a excelência que precisamos atingir.

Durante a era Cesar Maia, o Rio foi encampado para um projeto pessoal que ficou evidente com a apropriação cromática do laranja da Comlurb que oferecia aval para o valor único de competência de gestão. Paes fez um serviço tremendo em promover essa disassociação. A Cesar o que é de Cesar, ao Rio o que é do Rio. Mas o avanço ainda tem que ser maior. A construção formal de uma marca Rio é algo acima dos homens públicos. A manifestação de engajamento pela cidade precisa fazer sentido para os sindicatos, para os artistas, para os pequenos comerciantes, para os funcionários públicos. Uma idéia poderosa para perdurar independente dos partidos políticos. Que pertence a cidade, seus moradores e pessoas que se relacionam diretamente ou afetivamente com ela.

Essa é a melhor contribuição a ser feita para o Rio. Acho que em quinze minutos eu consigo convencer Eduardo Paes disso.

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Inês Nin
 

o que eu acho mais complicado nesse contexto todo, lmm, são as mudanças tão drásticas para a cidade que decorrem desses grandes eventos e que já se fazem sentir. das remoções na zona portuária e em outras áreas à alta dos preços de imóveis, ainda que por outro lado se procure ao menos maquiar melhor alguns serviços (como os de ônibus) de maneira a fazer parecer que a cidade funciona. para existir uma identificação da população com "a cara do rio", principalmente essa cara que ele vai assumindo daqui pra frente, de cidade global, faz sentido que as mudanças que ocorrem atendam de fato à população e sejam capazes de ouvi-la. o que me parece cada vez mais é que tudo é e será cada vez mais feito para quem vem de fora e espera encontrar um passeio turístico propício. não perguntaram à população se queria que os eventos ocorressem aqui, ou não diretamente (que eu saiba). o eduardo paes, sim, é fato (eu diria triste) que o elegeram, entretanto tantas mudanças acontecem à revelia, na forma de um "choque de ordem", como se quisessem transformar o rio em algo que ele não é. "Por que essa mania de querer formalizar o que é informal por natureza"?

não sei se é somente uma questão de encontrar a marca ou o discurso certo para a cidade, ainda que essas tendências "verdes", "sustentáveis" e "criativas" apontem (comercialmente) para coisas importantes. o engajamento da população de fato só surje se há diálogo - como você quer com o paes, como eu gostaria que ele ouvisse (a todos).

Inês Nin · Rio de Janeiro, RJ 13/4/2011 23:14
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Rai Junior
 

acho que é isso. há aqui uma síntese de uma ampla idéia capaz de resolver a maioria dos problemas quando somado à uma educação de qualidade e uma mídia colaborativa. creio que isso resolve do macro problema da corrupção política carioca aos vários motoristas que jogam as latas na rua. é, sim, uma identidade formal. é, sim.

Rai Junior · Rio de Janeiro, RJ 15/4/2011 16:29
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Luis Marcelo Mendes
 

Rai e Inês,

Boas observações. A importância de se ter valores claros de marca é que parte-se de parâmetros de discussão de cada ponto. Eu gosto de pensar os exemplos micros como "os vários motoristas que jogam as latas na rua". É mais do que uma questão de educação. As pessoas se relacionam com o espaço públco por uma questão de marca.

Luis Marcelo Mendes · Rio de Janeiro, RJ 17/4/2011 08:28
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