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Se eu tivesse 15 minutos com o Oi Futuro

Divulgação
Reprodução do site do Oi Futuro
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Luis Marcelo Mendes · Rio de Janeiro, RJ
4/12/2011 · 16 · 3
 

Eu tenho uma teoria: o maior prejuízo para o Oi Futuro na polêmica da artista norte-americana Nan Goldin, não foi o veto à realização da exposição no Centro Cultural da instituição, mas na demora de sair em público em defesa da sua marca quando ela mais precisava. Com isso, ela se intimidou. Somente cinco dias depois, lança um release no site.

Se eu tivesse 15 minutos com a direção do Oi Futuro, diria que isso foi totalmente desnecessário. No primeiro momento em que as acusações acaloradas de censura surgiram, junto com os trocadilhos de "Ciau Futuro" e "Oi Passado", era o momento de pedir tempo, esfriar os ânimos, e tentar trazer a razão para a frente da discussão.

A primeira ação é, sempre, assumir publicamente o erro de ter contratado uma exposição sem ter combinado direito a regra do jogo (VDM). Sem ter validado todo o conteúdo com muita antecedência nas instâncias jurídicas ou no board da diretoria.

Mas nesse comunicado, a instituição foi dúbia: "O Oi Futuro reconhece que pode ter incorrido em falha". Pode ter é papo de dissonância cognitiva do livro mistakes were made. Tudo bem ter errado e assumir. Avaliou melhor e, sendo uma instituição privada, optou por não exibir o conteúdo. Não entendo isso como censura. Ainda mais considerando que manteve o patrocínio para que a exposição fosse montada do MAM Rio, cuja marca acabou por encampar a defesa da liberdade de expressão artística.

O passo seguinte a assumir o erro é apresentar planos de melhoras nos processos de avaliação e planejamento da sua programação. E nada disso está no comunicado. Ao que parece, tudo normal.

O que tem no comunicado, com razão, é a chamada de atenção para a trajetória do Oi Futuro. Sendo o primeiro centro cultural voltado para arte e tecnologia no Rio de Janeiro, o espaço foi aberto em 2005, no local onde funcionava o Museu do Telephone. De lá até hoje, viabilizou um grande número de exposições, eventos, debates que não encontrariam pouso em outro lugar. Abrigaram a exposição Geração Eletrônica, o FILE, o Multiplicidade, o Oi Cabeça, a Regina Silveira, a MTV Art Breaks, Lenora de Barros, Tony Oursler e tantas outras. E isso sem falar em todas as atividades educacionais que tem como a criação do NAVE, projeto em parceria com o poder público que aponta para o futuro da escola pública onde criatividade vem para o primeiro plano.

Não há dúvida que essa turma tem trajetória e estofo para dizer: "Peraí, galera. Também não é assim. Bate, mas não esculacha". Sabemos que o acerto de ontem não justifica o erro de hoje. Mas a legitimidade da marca tem que ser colocada quando ela está em xeque. Repactua com seus stakeholders e vamos em frente.

Por isso, tanto a demora de reação quanto os argumentos de defesa me chamaram a atenção. No comunicado publicado, o Oi Futuro argumenta que "assim como todos os brasileiros, está legalmente compelido a respeitar o Estatuto da Criança e do Adolescente, que regulamenta o tratamento social e legal a ser dado a crianças e adolescentes em todo país, visando sua proteção integral" e que "não apóia e nem apoiará qualquer ação que infrinja o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA)". Mas, ao manter o patrocínio da exposição no MAM, passa uma mensagem estranha de "não sendo na minha casa, não estou nem aí". Se a instituição acredita que a exposição infrinje o ECA, não patrocine.

Eu acredito que o Oi Futuro precisa fazer um movimento de recuperação do prestígio da sua marca, abrindo o seu próprio espaço para discussão, de repensar tudo com os agentes culturais - que deveriam, nesse momento, ser solidários e se engajar para fortalecer a instituição. Pode ser piração minha, mas não tenho visto na programação um "foco prioritário crianças e adolescentes menores de 18 anos". Pelo contrário, tudo me parece apontar para um nível de sofisticação onde as crianças e adolescentes são desafiadas a acompanhar. O que é bom.

Esse exercício de pensamento do Oi Futuro, deve começar pelos seus próprios valores. De que forma a instituição foi se distanciando do seu foco de entender as relações entre tecnologia e arte? É papel dela trafegar por outras searas? O que significa a frase que está no site: "Aqui, cultura é sinônimo de liberdade"?

O André Stolarski costuma citar a frase do Ricardo Guimarães que "marca é uma lente para se ler o mundo". Talvez seja o momento de ajustar o grau da lente e reposicionar o Oi Futuro para aquilo que ele quer ser no futuro.

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Oona Castro
 

Luis Marcelo, muito importante a reflexão e proposição que colocas aqui: a de olhar para o futuro mesmo e aproveitar esse erro para promover melhorias nos procedimentos internos. Esse é um aprendizado constante. O que acho importante pensarmos tb é se a instituição precisa mesmo, para respeitar o ECA, tirar a exposição de sua casa - ou se, ao contrário, melhor que ela esteja ali, mas mantendo a proteção às crianças, informando aos pais sobre o conteúdo (como qualquer classificação indicativa recomenda) e só autorizando a entrada de crianças e adolescentes acompanhados dos pais ou responsáveis. Não?

Oona Castro · Rio de Janeiro, RJ 5/12/2011 10:38
2 pessoas acharam útil · sua opinião: subir
Inês Nin
 

Luis, boa citação de que a "marca é uma lente para se ler o mundo". Mas eu pergunto, é uma lente adequada, considerando o tamanho poder que exerce? http://sergyovitro.blogspot.com/2011/12/valores-corporativos-ditam-o.html

Inês Nin · Rio de Janeiro, RJ 5/12/2011 14:03
1 pessoa achou útil · sua opinião: subir
Luis Marcelo Mendes
 

Oona,

Concordo. Por isso achei a defesa inconsistente.

Minha preocupação maior é de como podemos ser solidários com a instituição e ajudá-la a se entender melhor. Um possível "encaretamento" do centro cultural Oi Futuro é uma perda.

Luis Marcelo Mendes · Rio de Janeiro, RJ 5/12/2011 18:25
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