Dom, dom, dom, dom... Fazem em ritmo acelerado os sinos. Não, estes não dizem as horas. Hoje é domingo e eles convidam a comunidade para a última celebração do dia. São 7 e meia. Parece que a população aceita o convite e lota a matriz Nossa Senhora do Carmo.
- Há quanto tempo os sinos estão aí? Indago pensativa.
- Ixe...! Deve ter uns 200 anos. Observa Guta.
Guta se entende bem com os sinos. São cinco anos de convivência. Em todos os dias de missa e velório é ela quem fica aos pés da torre puxando as cordas que produzem as batidas. Os sinos estão lá no alto amarrados às cordas. O menor fica preso a uma mais fina e o maior preso a mais graúda. Em hora de missa Guta puxa as duas cordas de uma vez só e as badaladas são rápidas e faceiras. Em dia de enterro é uma de cada vez e o sino ecoa triste. Quando morre homem, é a corda mais grossa que trabalha primeiro. Quando morre mulher é o sino menor que fala antes. Lá no alto eles cantam e contam histórias para a cidade carmelitana há muito tempo. Eles são pedacinhos de fé pendurados no alto da matriz.
A construção que se ergue não é a original. Ouvi dizer que lá no ano de 1.810 ela era uma capelinha singela, feita de pau a pique e coberta por palha. Sei que em 1.908 passou por uma reforma e em1.921, outra, concluída em 1.925. Em 1960 a antiga matriz foi demolida e a construção de hoje, que carrega 200 anos de história, tem espaço suficiente para abraçar todos os fiéis.
Eita 200 anos! Quanta história tem essa paróquia! Dona Preta, coordenadora da igreja localizada no bairro do Rosário, lembra que a Matriz Nossa Senhora do Carmo ficou fechada por uns tempos. Isso por causa do sangue que foi derramado dentro dela. Lá perto de 1.880, tentaram matar o padre Jones Nery de Toledo Lion dentro da igreja. Aconteceu que os fieis zelavam pela segurança do padre quando um homem, inimigo assumido, quis atirar no vigário. Alguém levantou-lhe o braço e o tiro acertou o altar. Naquela época os costumes eram bem diferentes e o homem que tentou matar o vigário acabou sendo morto dentro da igreja. A matriz foi fechada e as celebrações transferidas para a igreja do Rosário.
Os mais novos mal sabem desse episódio. Acham que a primeira vez que o sangue caiu na paróquia foi no ano passado, quando um moço se escondeu dentro da igreja, esperou que ela fosse fechada e começou a quebrar todos os vidros das portas.
- Valha-me Nossa Senhora do Carmo! E ela atendeu.
Nenhum estrago foi feito nas imagens. Apenas os vidros foram destruídos pelo punho do rapaz. Guta, que além de cuidar do sino, zela pela paróquia, ouviu a quebradeira e abriu a porta da sacristia para que a polícia pudesse conter o rapaz. Quando ela perguntou ao moço porque ele havia feito aquilo, ele falou que estava obedecendo a ordens de Nossa Senhora Aparecida.
Mas não só de sangue se alimentam as histórias dessa paróquia. Quantos momentos de ascensão foram celebrados nesse lugar! É incalculável o número de carmelitanos que embargam a voz contando que foram batizados, fizeram primeira comunhão, crismaram, casaram, batizaram os filhos e até os casaram debaixo deste mesmo teto abençoado. E quantas vezes a comunidade juntou as mãos e pediu por um milagre. Quantas tantas outras vezes esta voltou à paróquia trazendo o alívio como oração.
O último caso desses envolveu o Padre Mário Pio de Faria que foi pároco da Nossa Senhora do Carmo por mais de 40anos. Quando ele ficou muito doente e o véu da tristeza cobriu Carmo do Rio Claro, todos se uniram em oração. Deus parece que ouviu a prece do povo e padre Mário continua, não à frente da paróquia, mas juntinho da comunidade e com a cabeça mais esperta do que a de muitos jovens. Padre José Ronaldo Rocha é quem, agora, toca essa história de fé.
Eita 200 anos! Se os sinos que avisam das missas, mortes, batizados e casamentos falassem português, imaginem só quantas histórias nos contariam.
Histórias pungentes e humanas !
Tá faltando isso para a Humanidade cansada e sem perspectivas morais !
Por quem os sinos dobram hoje ?
Um beijo !
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