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Sementes da Violência

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Patrick Brock · Salvador, BA
24/5/2006 · 113 · 6
 

Cinema vandalizado, juventude transviada: pesquisador reconstrói a chegada do rock em Salvador, com a Jovem Guarda.

Nos últimos sete anos, era possível ver José Castro Jr, 30 anos, caminhando ocasionalmente, algo como assustado, pelas ruas do Campus do Canela da UFBa, agarrado a uma maçaroca suada de discos de vinil. O trabalho formigueiro de Zezão, como é conhecido, varreu sebos obscuros e até arquivos de rádios rendidas para a religião. A coleção já tem mais de dois mil discos, que ele guarda com tranqüilidade em um apartamento no centro de Salvador, aos pés do Quartel dos Aflitos e de frente a um motel com luminoso piscante.

Este dinossauro do rock baiano, figura capilar com ares de DJ messiânico, é uma autoridade local no gênero filtrado de influência americana. Zezão prepara uma pesquisa de mestrado sobre a história do rock na Bahia, em especial, como o fenômeno da Jovem Guarda foi assimilado pela geração do final dos anos 50 e ínicio dos 60. Nesta época, Salvador enfrentava o início de uma fase de crescimento que explodiu com a indústria petroquímica, nos anos 70.

Com Zezão não adianta discutir grunge e outras coisas mais modernas. Ele vai brandir uma clava pré-histórica do rock, com aquela sonoridade arenosa das agulhas. A obsolescência e a memória formam o banquete de Zezão. Ortodoxo, costuma dizer que Kurt Cobain "queria fazer
sucesso, quando fez, não segurou a onda".

Em 1956, na primeira exibição do filme Sementes da violência, em Salvador, no atual (e em ruínas de eternas promessas de arteplex) Cine Glauber Rocha, a galera, incluindo Raul Seixas, que estava na platéia, ficou tão ensandecida ao ponto de vandalizar o cinema. Anos mais tarde, Tom Zé contou que também viu o filme na época e imediatamente sentiu vontade de compor. A reação, segundo os jornais da época, foi mundial: cinemas foram destruídos na Grã-Bretanha, Canadá, Estados Unidos. O filme dirigido por Richard Brooks, com Glenn Ford e Sidney Poitier, abordou temas tabu na época como racismo, tensão sexual e violência juvenil, e tinha na trilha sonora a canção Rock around the clock. Cultura de massa enlouquecendo as massas e semeando o rock.

O primeiro grupo de rock na Bahia, segundo nosso dinossauro, foi Waldir Serrão e seus Cometas, em 1957. Também surgiu o primeiro programa, Só para brotos, na Rádio Cultura da Bahia (atualmente na mão dos crentes). Grupos obscuros também surgiram nas cidades do interior, com discos de rotação menor.

Dessa época ficaram discos como o de Thildo Gama, com versões de standards do rockabilly. Gama depois integraria a formação de Os Panteras, primeira banda de Raul. Zezão conta que está produzindo o grupo Bahia Jazz Quartet, com músicos da época e da geração seguinte, nos anos 70. Figuras como Lula Nascimento - baterista, tocou no Jessildo Caribé Trio com Bira, do Jô Soares, e Don Salvador, "o papa da afro-bossa no Brasil" - lança Zezão).

No cenário atual de bandas baianas, Zezão aponta os ingredientes da moqueca: "Noventa por cento é fruto da mescla de hip-hop com mangue beat, grunge e metal. Dizem que a Tropicália foi a época das misturas, mas a década de 90 foi mais radical. Ele coloca a divertida Retrofoguetes (instrumental com proposta surf-music que é extrapolada de maneira magnífica pelo power trio), e a Honkers (cujo vocalista costuma despir-se nas apresentações e comanda uma legião de fãs adolescentes), como dignos de nota pela "relação medular com o rock". Sobre Pitty, "ela teve que fazer pequenas adequações na postura hardcore, são concessões que os conjuntos costumam fazer. Ao vivo, continua pancada, mas pra gravar teve que tirar o pé do acelerador um pouco".

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Fábio Fernandes
 

Ótimo artigo!
Só um detalhe para complementar: a exibição de Sementes da Violência provocou quebra-quebra em cinemas de todo o Brasil. No Rio de Janeiro (onde naquela época, onde o Rio era capital federal, os filmes costumavam ser exibidos antes que no resto do Brasil), pelo menos um grande cinema do centro da cidade (na CInelândia) foi vandalizado.

Fábio Fernandes · São Paulo, SP 22/5/2006 07:11
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Zema Ribeiro
 

Gostei do artigo, inclusive da postura "politicamente incorreta" quando se fala em "crentes". Faltou ilustrar: uma foto da pilha de vinis, ou do pesquisador, ou mesmo do luminoso de motel que pisca em frente à janela do ap do cabra.

Zema Ribeiro · São Luís, MA 23/5/2006 10:48
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andre stangl
 

Boa lembrança Patrick! O acervo de Zezão devia ser tombado, ele também conhece a fundo o samba e a música do sertão. Tem preciosidades como discos dos Tincoãs e uma das coisas mais bizarras que já ouvi na vida: um lp chamado “khrishnanda” de 1968, lançado por uma criatura chamada Pedro Santos. Nunca descobri nada sobre esse disco que pode ser classificado, se isso é possível, como uma afroumbandaciberdélia. Quanto a pesquisa de Zezão, que diga-se de passagem é um dos melhores gonzo jornalista de nossa terrinha, fico na esperança de que ele me ajude a entender porque tem tanto roqueiro na Ribeira e adjacências. Seria o clima anos 50....? abçs

andre stangl · São Paulo, SP 24/5/2006 01:07
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Vânia Medeiros
 

texto SUPER massa.

já fui pra festa de samba-rock discotecada por Zezão - este baú de sonoridades...

abraço!

Vânia Medeiros · Salvador, BA 24/5/2006 20:59
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piesdenegra
 

Tava querendo falar com Zezáo!!! Vc pode mandar meu contato pra ele?

piesdenegra · Salvador, BA 27/5/2006 08:06
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andre stangl
 

o e-mail dele é jccastro@grupoatarde.com.br. abçs

andre stangl · São Paulo, SP 27/5/2006 13:41
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