Ser Professor: aos que almejam Revolução

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J. Felipe Brito · Rio de Janeiro, RJ
7/8/2008 · 146 · 14
 

Uma das mais atraentes perspectivas que me fez optar pelas Ciências Sociais como área de atuação legítima, como carreira, foi a possibilidade de compreensão das nuanças e conexões tão pouco percebidas no âmago de nossa vida social. Era a ânsia de desconstruir o que aí está posto, questionar o dogmatismo do cotidiano. E fazer o que depois? Revolucionar, instigar mudanças de atitude, propor novos rumos para os que amo e que me identifico, meus semelhantes! E também conhecer os que me são estranhos. Confiava que a compreensão também destes valer-me-ia para um crescimento em espírito e, posteriormente, como ferramenta de modificação da realidade que me cerca - e que pouco me agrada.

Ora, como são muitos os questionamentos e distintos os meios de atuação de quem se almeja revolucionário, a Sociologia pareceu-me insuficiente – como outrora o cristianismo de minha mãe também me fora. Precisava de um algo mais, qualquer coisa que me renovasse as aspirações de um mundo novo, de um país menos desigual e de uma sensação interna de justiça que, desde muito novo, me faz dormir e caminhar em paz.

Surgiu uma nova vereda, com um vento áspero, como o sirocco do Saara, que passa raspando a pele e faz parar e fechar os olhos, agindo no equilíbrio do corpo. Uma luz rubra, que se vê ao longe, e não se sabe o que é, mas, de antemão, já se percebe tratar-se de algo que requer atenção.

Ao ler Pedagogia da Autonomia , de Paulo Freire, pude perceber que algo grandioso estava para introduzir-se nos meus planos de vida futura. A Educação já não era mais a tal “marquise” (Professora sim, Tia não – Cartas a Quem Ousa Ensinar) tão estimulada pelos defensores de uma intelectualidade de gabinete, egoísta, inerte e opaca. Percebi com o Freire – assim como percebi com outro pernambucano, um Freyre com y, um Brasil singular e vistoso – que a identidade de professor requer generosidade e intervenção no mundo. Pois bem, não fossem só estas belíssimas sentenças avulsas, toda lucidez teórica que se seguiu despertou em mim uma flama de reconhecer no outro parte daquilo que aprendi e aprendo, como se eu precisasse dele, este outro carente e desejoso de conhecer, para a concretização de minha experiência como sociólogo, como brasileiro, como homem.

Ainda no plano da identidade profissional do docente, Selma Pimenta atenta à necessidade de uma compreensão sobre a significação social da profissão. Desta forma, não só a coragem para ensinar, o ímpeto e comprometimento são necessários, mas também a assimilação do quão crucial é para a sociedade esta função. Parte da desvalorização e do baixo reconhecimento desta categoria se entende na quase completa alienação dos docentes sobre seu lugar na rede de sociabilidades por que vivemos e, como acrescenta Freire, na majoritária aceitação de uma passividade frente às estruturas que aí estão, naturalizadas, isentas de qualquer crítica.

Quanto aos saberes pedagógicos, a contextualização do saber e sua atualização são deveras importantes para que o conhecimento adquirido não seja apenas informação. Uma didática variada e adequada aos receptores do conteúdo também legitima a autoridade do mestre e qualifica seu exercício. Outrossim, a experiência do professor, e até sua experiência como ex-aluno, direcionam-no a uma maior competência profissional e permitem-no desenvolver melhores e mais eficazes meios de transmissão dos conteúdos específicos.

O verdadeiro professor não é outro senão aquele que assume uma autoridade coerentemente democrática, que delega para si uma tomada consciente de decisão. Porém, uma decisão progressista, libertária, que desfaça as amarras da opressão e da exploração; que não perca o sentido do diálogo e da humildade; que lhe faça um sujeito ideologicamente apto à ruptura com a vontade dos dominantes; que saiba que neutralidade é parte do discurso daqueles que estão em posição de poder; que tenha grandes sentimentos de amor e de partilha.

Unir o conteúdo do ensino à formação ética é tarefa indissociável de quem ensina. Talvez seja esta a faceta mais bonita desta profissão: se reconhecer como parte de um todo, e não uma figura isolada. Sempre ouvi que água e comida não se negam a ninguém. Incluo nesta lista de bens fraternos o conhecimento, que quando partilhado torna-se sabedoria.

Pode o mestre inovar, pintar paredes ou lecionar à sombra de um juazeiro. E ainda que se esteja em condições de extrema adversidade, como nos sertões deste país ou nas ermas aldeias africanas, haverá sempre uma oportunidade de promover a liberdade, a solidariedade e o desenvolvimento de um sentimento de reciprocidade, de pertença a este mundo, que pode ser outro, de cooperação com os que estão próximos, e com todos os outros. No alvorecer de novos tempos, o professor se lança como flecha no anseio ardente da emancipação humana.

*Artigo escrito para o curso de Didática Geral da Faculdade de Educação da Universidade Federal do Rio de Janeiro.

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Helena Aragão
 

Poxa, li esse texto como um verdadeiro manifesto de amor à profissão... Que ele consiga inspirar professores desgastados, que são tantos por aí!

Helena Aragão · Rio de Janeiro, RJ 4/8/2008 14:59
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J. Felipe Brito
 

Pois é, Helena. E olha que nem sou professor (ainda). E nem tinha muito anseio de ser antes de ler Paulo Freire... ;)

J. Felipe Brito · Rio de Janeiro, RJ 5/8/2008 01:42
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graça grauna
 

Felipe: parabens pelo texto, sobretudo pelo espirito guerreiro, pois ser professor exige de nós também essa ousadia. Levarei (se me permitir) seu texto pra os meus alunos. Abraços.

graça grauna · Recife, PE 5/8/2008 07:03
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J. Felipe Brito
 

Claro, querida. Faça bom uso, desde que me dê os créditos...hehe (vaidades, vaidades...rs).

A professora da faculdade a quem destinei este artigo assim já o fez também! =)

J. Felipe Brito · Rio de Janeiro, RJ 5/8/2008 14:57
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Nic NIlson
 

Meu amigo, tive umas experiencia muito boa dias desses aqui no overmundo. Um professor nao aceitou minhas criticas q fiz a um seu texto sobre a professor "sofressor". Mas meu caro, eu sempre achei e vou morrer achando igalzinho ao q disse no seu texto. No dia em q o professor cair do seu pedestal, no dia q ele abandonar a velha cartilha, no dia em q ele se der ao aprender com todos os alunos, quando ele levantar a bunda da cadeira "trono" ele sera um mestre! Asssim se fará a revolução. Qdo ele não for apenas um suporte de giz, pois é isto q temos visto, um professor na frente do quadro, transcrevendo o q o autor ja escreveu no livro. E agora, chamando os professores de burro, sem aptidão, incapaz e outros, inventaram um jornalzinho, onde ali colocam tudo o q deve ser ensinado, a maneira como deve ser, etc... Faça-se a revoluçao e comece por mim! Q eu me dispa desse traste e me faça um auxiliador, um aglutinador, um sedento de experiencias novas... para q quando eu morrer possa ter aprendido muito com aqueles q me ensinaram. Viva seu texto! Bravo! Bravo! Aplausos!

Nic NIlson · Campinas, SP 6/8/2008 16:52
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Edinho SP
 

Felipe,
Parabéns pelo texto. Pessoas como você fazem que, eu continue a acreditar em um futuro melhor para o nosso Pais.
Abraços.

Edinho SP · Piracaia, SP 6/8/2008 16:52
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J. Felipe Brito
 

Nilson e Edinho, agradeço os elogios e fico lisonjeado com os mesmos. Espero que possamos continuar alavancando respostas para os temas que nos inquietam!

Abraços cordiais!

J. Felipe Brito · Rio de Janeiro, RJ 7/8/2008 01:44
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Samara Caroline
 

Me identifiquei com o texto o tempo todo!
Curso Pedagogia e leio Freire frequentemente.
Eu deveria ler esse texto para todas aquelas pessoas que já me disseram: "Meu Deus! Mas pedagogia? você é tão jovem...vai morrer de fome. Pq não ser médica, advogada?"
Mesmo assim, acredito que eles não entenderiam, tenho pena. São todos frutos desse mundo capitalista que não os permite pensar.

Parabéns Felipe!

Samara Caroline · Nova Mutum, MT 8/8/2008 09:09
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Rafael D.
 

Assim como você também alguns caminhos profissionais parecem que me levar à Educação, gosto do papel do professor e da educação na sociedade. Levanto a bandeira da pedagogia e educação, apesar das controvérsias sociais que vem embutidas...mas este é o maior desafio....parabéns pelo artigo.

Rafael D. · Belo Horizonte, MG 8/8/2008 12:27
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Juscelino Mendes
 

Excelente o seu texto. Sou professor concordo inteiramente com o que escreve. Estou lendo um livro excelente "Educação: a solução está no afeto".
J.

Juscelino Mendes · Campinas, SP 8/8/2008 18:38
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phe
 

Ótimo ! Mais elogios virão.

phe · São Gonçalo, RJ 8/8/2008 21:07
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J. Felipe Brito
 

Agradeço os elogios e tento não me deixar envaidecer com eles...hehe

Espero que o texto desperte reflexões para ações práticas também! Isso sim seria motivo de júbilo!

Abraços a todos!

J. Felipe Brito · Rio de Janeiro, RJ 9/8/2008 18:52
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N.Lym
 

Já li o "Pedagogia da Autonomia": muito bom, embora questionável em trechos que se dispersam muito do assunto em foco. Sobre essa reflexão que você colocou, muito boa e apropriada. Penso nisso praticamente todo dia já que atuo no meio! X) Vou visitar seu blog!o/

N.Lym · Fortaleza, CE 14/8/2008 12:59
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José Braga
 

Valeu!

Veja esta rede:

http://sociologiaemrede.ning.com/

Lá pode postar esta mensagem, depois de cadastrar, no seu próprio blog interno.

José Braga · Brasília, DF 31/5/2009 15:25
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