O projeto da pós-modernidade nos trouxe, por algum tempo, a ilusão de que as narrativas individuais dariam conta de expressar o indizível de uma linguagem aprisionada em metanarrativas.
Ao abrimos mão de um ser fundado na representação de uma linguagem nomeadora acabamos por desatar nossas expressões em fragmentos que nos colocam em desamparo ao invés de nos conduzir ao encontro de uma linguagem poética que poderia servir de ponte para os indizíveis dessa linguagem.
Para Benjamin (1985), o homem moderno estaria perdendo a sua capacidade narrativa onde as trocas sensíveis estariam sendo substituídas por vivencias individuais, o que me leva a crer que ao compartilharmos nossas narrativas poderíamos promover experiências coletivas que não nos restringiria a uma linguagem fundante de representações, mas à possibilidade de infinitas alternativas de ser e estar no mundo coletivamente. Essas reflexões me levam a uma perspectiva teórico-metodológica que se fundamenta na linguagem tomando-a tanto como foco do problema como instrumento de análise deste.
- Professora o que uma mulher chique, loira e ainda por cima de olhos azuis quer com a gente da favela? Por que foi se interessar logo por gente como a gente? (K. estudante de Letras da UFRJ)
Senti na fala dessa aluna, uma possível resposta para minha própria dificuldade em delimitar o problema de minha pesquisa. Sabia que ali havia algo, uma ponte de interlocução naquilo que ali estava dito, mas que não conseguia visualizar. Mas, foi lendo um artigo sobre os “Funks Proibidões” de Soares (2006) que algo se revelou...
"...Ao invés de nós e eles, do maniqueísmo entre bem e mal, radicalmente separados, emerge um quadro diferente: eles e nós reunidos, expressões diferentes, mas próximas de uma só humanidade, com suas fraquezas, vaidades, ambições, medos e angústias. [...] O canto triste, cheio de ressentimento, ameaçador, rouco, desafinado e desatinado das vozes jovens que os CDs carregam e balbuciam num português ruim, esse canto ecoa outros cantos e entoam um coro de almas despedaçadas, impotentes e sem esperança. Há um pedaço de cada um de nós naquelas letras repletas de sangue e desespero, como no inferno de Dante ou nas imagens de Hieronymus Bosch. As descrições horripilantes de esquartejamentos são expressões de nosso esquartejamento pessoal e social, por isso doem tanto quando as escutamos. São nossas divisões internas e as divisões de nossa sociedade que ali encontram um retrato catártico e agressivamente feio. As vozes gravadas nos CD encarnam e encenam o inferno de nossa guerra cotidiana. Os meninos que grunhem e gritam, esganiçados, representam os pedaços de nossa sociedade que ardem no fogo desse inferno, enquanto nós, os bons, aquecemos o narcisismo na fogueira das vaidades. Entretanto, estamos partidos. Partes de nós choram, enquanto outras partes de nós se iludem, tomam Lexotan, bebem e celebram pequenas vitórias nas competições diárias. Infernal é depararmo-nos com o real, esse mundo real que é o Brasil, País tão vergonhosamente cínico, hipócrita, injusto e desigual."
Não sei se encontrar afinidades com esse texto me trouxe alento ou mais angústia, mas contribuiu para que entendesse o porquê de meu desejo de estar ali. Junto. Tentando compreender as visões de mundo expressas por jovens estudantes oriundos das classes populares através de suas expressões; voltar meu olhar para uma estética que não se reduz às formas estetizantes, mas procura despertar sentidos diante das indiferenças.
Sentidos que atendam a uma ética que consiste em dar realce à pronuncia do outro; ouvir a polifonia presente nos discursos para romper com fluxos de exclusão, considerando o outro enquanto outro, num movimento onde a pluralidade seja instrumento de criação em detrimento dos postulados de desigualdades.
Estabelecer relações entre o dizível e o indizível que possibilita “resgatar o sentido comum (...) resgatar esse viver cotidiano como espaço de produção de conhecimento e como espaço de produção e troca de sensibilidade”. (MARTIN BARBERO, 2002:60).
Nessa direção, tomo como ponto de partida refletir sobre as múltiplas linguagens expressas por jovens, em um percurso que se aproxima de Deleuze quando este problematiza a complexidade das relações implicadas na linguagem apontando que muitos autores ao reconhecer três dimensões clássicas da proposição: a designação, a manifestação e a significação acabam por desconsiderar essas dimensões entre si, formando um círculo fechado que daria conta de explicar as relações lógicas da linguagem, mas não seu princípio de organização o que possivelmente explicaria os efeitos incorporais de superfície (os acontecimentos). (DELEUZE, 2000).
Assim, este trabalho compreende que a linguagem se encontra na multiplicidade dos gêneros do discurso, na diversidade de "estilos de linguagem" que expõem aspectos de experiências singulares e coletivas, acontecimentos que devem ser fontes imprescindíveis da analise compreendendo-a como espaço estético de criação cultural. E é nas vozes de jovens oriundos de classes populares, que busco reconhecer ações instituintes que indiquem a possibilidade de rupturas com produções redutoras impostas por “lógicas hegemônicas”, camufladas numa fragmentação que reafirma uma ordem esquizóide que parte, reparte, “esquarteja os sujeitos pessoal e socialmente” levando-os a perder o sentido de suas vidas.
Creio no poder dessas linguagens abrirem a possibilidade de vieses que destaquem a inesgotabilidade das produções poéticas presentes nas práticas culturais coletivas de nossos jovens, identificando nessas expressões, argumentos que tenham o poder de se contrapor às linguagens de um poder que, ao se tornar liquefeito produziu – “um mundo repleto de sinais confusos, propenso a mudar com rapidez e de forma imprevisível – trazendo consigo uma misteriosa fragilidade dos laços humanos” (BAUMAN, 2003)
Apóio-me numa linguagem que se constitui em sistemas simbólicos oriundos dos diversos grupos humanos fornecendo os conceitos, as formas de organização do real, mas também objeto de criação, fruto da mediação entre o sujeito e o objeto do conhecimento. Por meio dela se criam espaços de negociações no qual seus membros estão em constante processo de recriação e reinterpretação de informações, conceitos e significações culturalmente transmitidas.
Com essas considerações espero ter definido o que entendo por múltiplas linguagens de jovens oriundos das classes populares, ou seja, não só as formas como representam o universo de significações que lhes é dado, mas também, como espaço de criação, que se dá a partir de mediações entre os sujeitos históricos e suas inter-relações com a vida.
Acredito que uma escuta atenta das linguagens que expressam práticas culturais desses jovens, pode contribuir para o delineamento de práticas educacionais mais próximas dos sujeitos, assegurando-lhes efetivamente seus espaços e, portanto o lugar de cidadãos em nossa sociedade, construindo espaços de relações mais coletivas.
Mesmo diante da existência de inúmeras pesquisas sobre a importância das culturas ou subculturas juvenis e do papel que esses grupos desempenham na transição da adolescência para a vida adulta, na construção da identidade étnica e de gênero desses sujeitos, constato que os estudos sobre essas práticas culturais, ainda não são suficientes para compreendermos a imensa rede de significados, formas de apropriação e re-elaboração dos produtos culturais existentes nos distintos contextos sociais já que estamos diante de um universo de produção, consumo e incorporação de diversas manifestações culturais.
Essas manifestações se dão no campo estético seja através de movimentos musicais, corporais, comportamentais, sexuais, etc. e são perpassados, também, por práticas de consumo. Creio que escutas e olhares atentos para esses estilos de vida podem oferecer contribuições para percebermos as disputas travadas nos processos de negociação das contradições existentes nas culturas hegemônicas revelando resistências ou adesões aos papéis tradicionais atribuídos aos lugares determinados para os sujeitos em nossas sociedades.
Desta forma a juventude passaria a ser compreendida como um devir permeado por experiências que deixam expostas suas marcas não só em seus corpos, mas constroem novas referências socioculturais.
Estas reflexões nos levam à desconstrução de atitudes elitistas que rejeitam os principais meios de comunicação e produção que se constituem no campo das culturas populares juvenis e que, muitas vezes, têm sido olhados e escutados apenas como espaços de estilos e modismos inconsistentes, subculturas. Proponho aqui, que estas questões promovam um novo olhar que direcione seu foco para as apropriações desses jovens em suas experiências e visões de mundo.
Opto pela linguagem que se permite linguajar por múltiplas línguas. Línguas que, se contrapondo ao endeusamento do símbolo, se perguntam sobre a demonização de um outro que se torna estranho justamente por apontar a contradição da diferença que está em nós, mas negamos reconhecer. (CORAZZA, 2001)
Nessa perspectiva, tento priorizar minhas escutas para vozes consideradas passivas, dando realce para sua semântica que pretende “significar o silêncio e dar voz aos que são outro” (CORAZZA, 2001).
Caminho com Martin-Barbero quando, ao se referir a recepção diz que não podemos estudá-la sem analisar os processos de exclusão cultural, ressaltando os modos de deslegitimação e desqualificação do gosto popular. Para o autor o que agrada aos receptores populares é considerado algo de mau-gosto e deslegitimado.
Corazza (2001), ao resenhar Larrosa e Skliar (2001), nos fala dessas práticas “compostas por sujeitos dispersos, exilados da Ontologia, que não vivem em uma cidade nem em uma só língua, e agem como signos para nomear os outros. Comunidade dos que povoam a Terra: Habitantes de Babel.” Apontando para a importância de estarmos atentos a esses movimentos que nos impedem perceber micro-físicas de poder e resistências.
Com este artigo proponho que tentemos captar, nas vozes de jovens de classes populares, sentidos que continuam obscuros para a escola e que, acredito, podem ser desvelados por suas aproximações e identificações com as linguagens expressas pelas culturas jovens, compreendeendendo que sentidos essas mediações podem produzir tanto em relação à vida de um modo geral, como em relação a seus processos educativos especificamente.
Acredito encontrar nessas vozes caminhos que revelem que esses jovens não estão tão submissos à lógica de um sistema capitalista excludente, mas constroem formas criadoras de se rebelar e se oporem ao que “JÁ É!”, optando “por falar com a vida em vez de deixar que ela lhes diga: “qual a paz que não querem conservar para tentarem ser felizes...”
Por essa via tento estabelecer uma crítica às relações de produção de saber na educação que, muitas vezes, impossibilitam a visibilidade de uma autonomia de seus usuários, em suas produções culturais.
Sob estes encaminhamentos me pergunto: que mediações estariam ensejando determinadas culturas jovens como forma de expressão cultural coletiva mais ampliada? Que sentidos essas expressões culturais tomam na relação com espaços educativos?
Penso que ao desvelarmos, através das vozes de seus atores, aspectos significativos das linguagens expressas por algumas culturas jovens podemos contribuir para o delineamento de políticas educacionais mais comprometidas com os interesses dos jovens, além de ampliar o campo de conhecimento e pesquisa sobre práticas culturais de jovens e principalmente, poder afirmar que:“nem tudo está dominado!”
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
BAKHTIN, Mikail. A estética da criação verbal. São Paulo, Martins Fontes, 2000.
BARBERO, Jesús Martín. América Latina e os anos recentes: o estudo da recepção em comunicação social, p. 39. In: SOUSA, Mauro Wilton (org). Sujeito, o lado oculto do receptor, 2ª reimpressão, São Paulo, Brasiliense, 2002.
BAULMAN, Zygmunt, Modernidade Líquida, Jorge Zahar Editor, RJ, 2003.
BENJAMIN, Walter. Obras Escolhidas I - Mágia e técnica, arte e política. São Paulo, Brasiliense, 1985.
CORAZZA, Sandra Mara. Resenha do Livro: Larrosa, Jorge & Skliar, Carlos (orgs.). (2001). Habitantes de Babel: políticas e poéticas da diferença. Belo Horizonte: Autêntica. Capturado em: http://edrev.asu.edu/readrev.html acesso em 12/08/2006
DELEUZE, G. Conversações. Rio de Janeiro: Editora 34, 2000.
______. Lógica do Sentido. 4ªed., São Paulo: Perspectiva, 2000.
GAGNEBIN, J. M, História e Narração em W. Benjamin São Paulo, FAPESP, 1994.
_____, Walter Benjamin, os cacos da história. São Paulo, Brasiliense, 1981.
KEHL, Maria Rita (org.). Função fraterna. Rio de Janeiro, Relume Dumará, 2002.
MURICY, K., Tradição e Barbárie em Walter Benjamin. Revista Gávea, Rio de Janeiro, nº. 03, 1986.
SKLIAR, Carlos. Otherness and pedagogy: or... What if there were no other?. Educ. Soc., ago. 2002, vol.23, no.79, p.85-123. ISSN 0101-7330.
SOARES, Luiz Eduardo. Uma viagem ao inferno. Palestra proferida na PUC (Pontifícia Universidade Católica – RS., em: 10/12/2001 capturado em: http://www.luizeduardosoares.com.br/, ano: 2006.
Oi Dag,
Tá tudo bem? Seguinte: a parte final do seu artigo poderia ter, a exemplo dos primeiros parágrafos, também algumas linhas em branco entre parágrafos, para "arejar" mais o texto. Que tal?
Abraço!
(E aproveitando vai um pedacinho de Manuel Castells: (...) "somente se soubermos como os jovens pensam e vivem, e porque pensam assim, poderemos encontrar uma nova linguagem, fundamento de uma nova política" (...)
Dag,
Uma outra opiniãozinha: pessoalmente acho que títulos em Caixa Alta e baixa são mais "elegantes".
Abraço!
Egeu
Agradeço muito suas sugestões, mas gostaria de ouvir sua opinião crítica sobre meu artigo. Considero de fundamental importância ter referencias de como o "outro" lê o que escrevo. Ficaria muito feliz se atendesse meu pedido.
Abraço..
oi Dag: vou ler o artigo com calma e depois mando comentários - muito obrigado pela sua colaboração!
Hermano Vianna · Rio de Janeiro, RJ 19/5/2007 16:28
Oi Hermano...
Obrigada pela atenção. Fico aguardando...
abraço
Dag, de há muito pessoas recorrem a Dante para comparar o horror. O horror, os horrores dos ´descobrimento e ocupação da América não há crueza capaz de retratar. E o de hoje não tem um único país americano com uma sociedade americana...
Bem urdido, bem escrito, acho, o seu texto. Só acho e, na minha idade tenho pressa, que as conceituaçãoes todos sabemos. A pergunta é o que fazer? Como fazer? Quando começar? um abraço Andre.
Caro Pessego.. concordo com vc. Diante da barbárie; "não temos tempo a perder".. Mas, como vc. mesmo coloca, esta (refiro-me a barbárie), não é uma condição dos nossos tempo. Sempre existiu e sempre existirá, resta saber o que fazemos para que o eterno retorno seja um retorno da diferença? Penso que o caminho esteja em ações coletivas, movimentos sociais como os do relato de uma menina chamada Natacha (Isto é MP3) e que apontam talvez não soluções definitivas, mas linhas de fuga, fissuras que possamos vislumbrar esperanças, ou melhor, a possibilidade de invejarmos o futuro...
Abraço
Dag, as preocupações que vc expõe no seu artigo são profundamente éticas. Adorei sua resposta ao Andre Pessego. Parabéns!
Ize · Rio de Janeiro, RJ 21/5/2007 00:56
Oi Ize
Que bom que vc. gostou. Viu que coloquei vc. entre meus preferidos?
Bjs
Oi Dag, estou lisonjeada. Leia o artigo do Luiz Geremias "A rebeldia consentida do underground", meu comentário ao artigo e a resposta que ele me enviou. Achei fantástico. As sugestões de bibliografia dele são quentes e acho que podem ajudar vc.
Bjs
Não sei se vc se interessa, mas um livro bacana seria "Cabeça de Porco" de Mv Bill, Celso Athaíde e o antropólogo Luiz Eduardo Soares. Além de fazer um recorte dos jovens em situação de risco no Brasil, o livro "bate" muito na tecla da linguagem; falam até de massificação do linguajar do bandido. Muito interessante.
No começo do artigo você fala um pouco sobre a crise da oralidade, culpa do chamado paradigma digital... Um abraço.
muito bom texto, dag. e sua resposta ao pessego me encantou: "fissuras que possamos vislumbrar esperanças"é ao mesmo tempo poético e realista demais.
André Gonçalves · Teresina, PI 22/5/2007 10:05
Filipe, muito obrigado pela dica, mas já conheço o livro. De qq. forma é uma boa lembrança para revisitá-lo... Quanto ao que vc. chama de paradigma digital... Não creio que possamos atribuir culpa a qualquer manifestação de linguagem, mas, sim a intolerância que nos colocamos diante de linguagens que nos são estranhas e soam aos nossos ouvidos como ruídos.
Abraço
Bela estréia! Parabéns!
Cris
Dag, vi ontem o filme do João Jardim (Pro dia nascer feliz) e esse seu texto aqui veio a calhar. Estou me propondo a entrar na área de educação, onde já atuo informalmente com um projeto de cinema, e fico bastante chocada, mais do que com o nível dos alunos das escolas públicas (estou falando do nível de conhecimento dos conteúdos didáticos!), com a falta de uma linguagem comum entre escola, professores e alunos.
No filme do João tem uma menina de 16 anos de Manari, interior de Pernambuco, que é um gênio, e não tem seu trabalho e seu valor reconhecido pelos professores. Eles acreditam que ela não é autora dos próprios trabalhos, pq eles são bons demais para uma menina do sertão nordestino. Um pré-conceito estúpido que vejo acontecer todos os dias e que, acredito, vem da falta de disposição para entender a linguagem do outro. E, principalmente, para ver o outro, individualmente, e não como estatística ou como parte de um grupo que "é assim".
Vou imprimir seu texto. Acho que vai ser de ajuda na construção do meu projeto. Um abraço!
Ilha, estou respondendo pela Dag porque ela anda sumida, imersa que está no "campo", misturada a essas formas criadoras juvenis que se constituem na e pela linguagem, opondo-se ao que "já é". Ela, inclusive, participou de uma sessão do "Pro dia nascer feliz" em que houve um debate com João Jardim. Lá ela fez contato com uma menina que, se não me engano, é essa que vc fala. Tenho certeza que vcs teriam mto para trocar. Vou avisar a ela do seu post. O projeto dela é uma beleza. Desculpe perguntar, mas seu projeto é em que área e sobre o que? Não me tome por inxirida, é que a Dagmar faz parte do meu grupo de pesquisa, e esse seu interesse pelo texto dela me deu cócegas. Aliás tem a ver com o último post do Spirito em que ele traz um proibidão cantado a plenos pulmões pelos meninos com quem ele trabalha. Acho que vc já passou por lá.
Bjs
Ize, obrigada por seu interesse. A Dag já me respondeu via e-mail e me falou da menina, que se chama Valéria, e da participação dela nessa sessão.
Minha formação é jornalismo, mas atuo na área de audiovisual na UFES e coordeno um projeto de extensão, o Ação Audiovisual, que além de exibir cinema nacional e capixaba em escolas e comunidades que não têm acesso ao cinema, organizar Mostras, etc., está implantando oficinas de linguagem e realização de vídeo em escolas. A idéia é trabalhar com professores e bibliotecários para que eles tenham maior conhecimento da linguagem cinematográfica e possam utilizar filmes como apoio pedagógico e gancho para a interdisciplinaridade.
Estou atualmente estudando para a prova do Mestrado em Educação e construindo meu projeto de mestrado sobre a utilização do cinema e do vídeo como instrumento pedagógico. Isso é engraçado pq abandonei um curso de Educação Artística pela metade por achar que não tinha talento para a área e agora estou muito interessada em Educação. Acho que é esse trabalho com as escolas que me desperta. Nas sessões que realizo nas escolas vejo absurdos tais como professores que simplesmente se aproveitam do fato de ter um filme para irem embora. Fico lá eu com a turma e o filme, muitas vezes, cai no vazio da mera diversão. A maior parte dos professores não se preocupa em ler o material que envio antes, procurar ganchos com suas respectivas disciplinas e elaborar um trabalho posterior com o filme.
Vejo a garotada mais esperta no entendimento da linguagem do cinema que muitos professores. Crianças e jovens conseguem fazer ligações imediatas do filme com suas vidas e os conteúdos das disciplinas. Mas quando vão á biblioteca escolas, quando há, só encontram Xuxa, Trapalhões.
Acho que o grupo de pesquisa de vocês pode me dar uma luz, não? Um abraço!
Querida Ilha, com certeza as pessoas não se encontram por acaso. Nossa! essa seria uma enorme conversa. Concordo com tudo o que vc disse sobre o uso do cinema na escola, e por isso mesmo, acho que vc devia tomar cuidado no seu projeto para não tomar o cinema e o vídeo como meros instrumentos didáticos, como a escola faz com a literatura, por exemplo. Penso que trata-se mais, pelo que vc diz, de pensar uma "pedagogia da imaginação", como propõe Italo Calvino em "Visibilidade" (texto que integra o Seis Propostas para o próximo milênio").
Meu grupo de pesquisa tem "links" com outros grupos aqui do Rio que estão pensando a relação da criança e do jovem com a imagem técnica, como é o caso da Rosalia Duarte da PUC-Rio que tem um livro muito legal que pode te interessar "Cinema e Educação", da Autêntica. Outro grupo que tem muito a ver com seu interesse é o da Solange Jobim e Sousa, da UERJ e da PUC-Rio. Veja aqui o primeiro livro do site. Na UERJ, eu (Maria Luiza Oswald) e Rita Ribes Pereira tb temos nos dedicado a pensar a relação do aluno com a imagem, não só pela via do cinema, mas tb dos desenhos animados, das telenovelas, das HQs, das propagandas. Puxa, v me empolgou. Estou orientando uma dissertação de mestrado, da Anne, cujo título é A CRIANÇA E A PRODUÇÃO DE SENTIDOS SOBRE VALORES MORAIS A PARTIR DOS ANIMES DE HAYAO MIYAZAKI, e segunda-feira agora o Leo, outro orientando, defende sua dissertação que tem o título MANGÁS E MARCAR IDENTITÁRIAS JUVENIS: UM NOVO OLHAR PARA A RELAÇÃO ENTRE MÍDIA E EDUCAÇÃO.
Continuando, desculpe-me, mas vc tocou em uma das minhas paixões atuais, que é a seu barato tb, né? Falei na segunda-feira passada com a Rosália e ela me disse que estava chegando de uma cidadezinha na Espanha aonde tem um cineasta (não ligado à Academia) que está desenvolvendo um trabalho fantástico de produção de longas-metragens com jovens da comunidade. Ela ficou lá, a convite dele que esteve aqui no Rio, uma semana e voltou deslumbrada. Se vc tiver interesse, te mando o contato dela (não dá pra vc vir fazer o mestrado aqui com ela ? rsrsrsrsrsr)
Ai querida, desculpe-me novamente por tomar seu tempo. O que podia fluir num papo cara a cara, na internet pode se tornar um bla,bla, bla impertinente. Não foi minha intenção.
Um beijo grande
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