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Será que vale à pena?

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"Morrer de fome já não causa mais espanto em ninguém."
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Pedro Vianna · Belém, PA
14/3/2007 · 79 · 5
 

Creio que talvez não amemos suficientemente à vida. Será que alguém já notou que nossos sentimentos só são despertos atualmente através da morte? E tem que ser morte brutal! Morrer de fome já não causa mais espanto em ninguém. É uma morte, digamos assim, sem apelo dramático. Morrer de fome perdeu a graça. Já é matéria requentada. Não surte mais efeito sobre a voraz sede de notícias do público. O público quer sangue. Como já dizia Camus, “É preciso que algo aconteça, mesmo a servidão sem amor, mesmo a guerra ou a morte. E viva, pois, os enterros!”.

O grande tópico agora são as mortes cinematográficas: garotinhos esfolados vivos, arrastados por carros em alta velocidade; meninas dilaceradas pelas mãos do próprio pai, que tenta depois o suicídio e não consegue, enfim basta abrir o jornal na página policial e lá está o menu. Já vi gente comentando a página policial como quem comenta jogo de futebol, ou filme policial americano. Tem gente que só lê a página policial, de preferência aquela que escorre sangue quando espremida. É como se houvesse uma necessidade de tragédia instalada.

E no meio de tudo isso, ressurge a velha discussão sobre pena de morte e diminuição da maioridade penal. É preciso que apareçam culpados, que soluções sejam dadas, mesmo que sejam soluções ilusórias. Será que a pena de morte já não existe? Por acaso já não foram condenadas à morte as pessoas assassinadas brutalmente? Ou os que estão vivendo em condições subumanas sobre fossas nas periferias? Já não estão condenadas as crianças famintas, desnutridas, sem educação, sem uma perspectiva sequer?

Não quero ser mal interpretado. Claro que devemos ser solidários à dor dos que tiveram seus parentes assassinados. A perda de uma vida humana é algo irreparável. Precisamos sim protestar e nos mobilizar para que isso acabe. Mas não podemos fazer uma leitura unilateral do problema. Neste exato minuto seis crianças estão morrendo de fome no mundo. Será que só aprenderemos a ter respeito pela vida através da barbárie? Por que é que não vejo manifestações nas ruas pedindo pelos que morrem de fome? O que é mais cruel morrer de fome, ou arrastado por um carro?













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Bia Marques
 

Pedro, penso que o público não quer sangue, é a mídia que faz a coisa ser tão estúpida, carece nem de ir pra página policial, basta deixar a tv ligada e zapear pelos canais... Entendo que a questão toda é educação mesmo, basta oferecer informação de qualidade que a coisa já começa a mudar (vide a música clássica que levaram pra favela, o povo emocionado ouvindo aquilo). O caso é que a falta da educação embrutece mais que emburrece... E aproveitando a edição, vai um ou dois toques: "Creio que talvez não amemos suficientemente à vida..."
"E tem que ser morte (tira o "de"?) brutal"
Abraço e tô contigo, acrescento que só lamentar não muda nada, passeata raramente faz efeito de fato e de direito.

Bia Marques · Campo Grande, MS 12/3/2007 16:55
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Julz Reb
 

Pedro, questionamentos sem dúvida válidos!
Dizem que é ousadia demais sugerir mudança no título, mas gostei demais da sua tacada: "Morrer de fome perdeu a graça. Já é matéria requentada."
Concordo plenamente com a Bia. Se as pessoas têm opções, aposto que não escolhem "ver" violência, barbárie ou fome. Isso é nos empurrado goela abaixo todos os dias até que qualquer sensibilidade é perdida. Não sei quanto a vocês, mas não conheço qualquer pessoa que compre um jornal e vá direto à página policial: no caso do jornal, nossas mãos controlam o que os olhos verão.

Julz Reb · Canadá , WW 14/3/2007 00:16
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yurik
 

Olá Pedro. Parabéns pelo texto, gostei bastante. Trabalhei como estagiário em um jornal policialesco do interior paulista e a "violência cinematográfica" era uma condição para as pessoas comprarem o jornal. Por conta disso, os jornalistas da empresa tinham que se submeter as maiores atrocidades brutais para conquistar determinada foto ou informação, incluindo relações promíscuas com policias. Concordo em relação a redação da maioridade penal, tema tão latente na opinião púlbica e estimulado pela grande mídia corporativa, seja uma "solução" ilusória - mas tenho receio que essa bandeira da nossa classe média seja consolidada pelos poderes institucionais. Esses orgãoes que se movem pela pressão da mídia convencional e não se comove mais com quem ainda "cumpre pena de vida". Ahhh, essa última parte foi baseada na música Classe Média do cantor Max Gonzaga, já ouviu? Tá disponível no youtube, recomendo!

yurik · Valinhos, SP 25/1/2008 16:45
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Marcos Veríssimo
 

Caro Pedro, gostei do seu texto. Acho que você foi mesmo na canela do sistema. E se a mídia empurra e pauta as demandas, acho que isso não é do nada, não somos tão passivos, consumimos as imagens sim, enfim...Some-se a isso os milhões de lares pobres brasileiros desassistidos até do básico do saneamento básico, das crianças em lixões, da carência e na ausência de tratamento de àgua. Quantas mortes também não seriam evitadas nas favelas, na zona rural ? Qual o imnpácto disso na taxa de mortalidade infantil ? Que grupos sociais vem sendo mais frequentemente afligido por estas mazelas ? Seu texto me lembrou uma música do primeiro disco da Legião Urbana, chamada "Baader-Mennhoff Blues", "A violência é tão fascinante, e nossas vidas são tâo normais", e por aí vai. Parabéns.

Marcos Veríssimo · São Gonçalo, RJ 24/5/2008 15:46
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Marcos Veríssimo
 

Ah... Me esquecí de perguntar: de quem é a foto?

Marcos Veríssimo · São Gonçalo, RJ 24/5/2008 15:48
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