Serás lembrado

Marcus Assunção
Bárbara Heliodora
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Marcus Assunção · São João del Rei, MG
23/3/2007 · 129 · 12
 

Quem merece um busto? Há imaginar se para tanto, neste país, devo matar, esquartejar ou andar com meu advogado à procura de desculpas, saio às ruas para sujar a barra da calça, como gostaria Gay Talese que todos os repórteres fizessem.

Recolhi as informações numa obra do historiador sanjoanense Sebastião Cintra, “Galeria das Personalidades Notáveis de S. João Del-Rei”. Com a exceção de Aleijadinho, que não constava nos alfarrábios de Cintra, encontrei todas as personalidades que vêm enriquecer esta matéria.

Comecemos pela biblioteca municipal, onde encontrei o livro de Cintra, localizada no Largo do São Francisco. Em sua entrada, figura o busto do “escritor, jornalista, professor e poeta portador de grande talento” Franklin Magalhães. Trineto de um sargento-mor e grande minerador do ouro, filho das segundas núpcias de um comendador com Ambrosina Carlota, foi membro da Academia Mineira de Letras, sendo o primeiro sanjoanense a ter uma cadeira. “Enamorado de sua terra natal, deixou belas produções poéticas, nas quais exaltou as tradições e os encantos sanjoanenses”. Tido como presença marcante no teatro, era “um fulgurante poeta, grande animador dos espetáculos”. Segundo Cintra, foi um dos maiores versejadores poéticos de Minas. Em suas conferências humorísticas, usava os pseudônimos de Zabumba, Zebedeu, Sylvano, Dadinho, Saulo e Laurindo. Além da atividade de professor de línguas em escolas de diversas cidades mineiras, colaborou em revistas e jornais do Rio, São Paulo e Belo Horizonte. Publicou oito obras, com destaque para “Calva à mostra”, de 1910. Teve duas filhas com Ana. Morreu em 1968, no Rio de Janeiro. Com certeza, para a posteridade, Franklin Magalhães será lembrado como o promotor de “piqueniques originais”, aos quais compareciam apenas ele mesmo, “seu frango preparado, uma garrafa de vinho, pão, uma toalha, lápis e papel para anotação de versos”.

Deixo a biblioteca, chuvinha chata. Não vou mencionar o busto do ex-prefeito José Nascimento Teixeira, localizado na praça do São Francisco, pois a cabeçorra não se encontra. Sigo pela rua da Prata, atravesso a Ponte do Rosário, entro na Rua Direita. Estou face a face com o nosso próximo contemplado, o Padre-Musicista José Maria Xavier. Filho sanjoanense de um alferes e Maria Benedita, pertencia a uma família de musicistas. “Ainda muito jovem demonstrou vocação para a música, aprendendo com o tio Francisco, diretor de um coro, a arte do violino, clarinete e solfejo”. Tornou-se um compositor sacro de primeira grandeza, com destaque para o seu Ofício de Trevas. Para a eternidade, de maneira inequívoca, o Padre-Musicista José Maria Xavier será lembrado pelas “diversas ocasiões em que combateu com energia os abusos cometidos nos dobres dos sinos”.


Pausa para uma cerveja no Bar Mineirão. Faz sol de repente, vai saber até quando. Sigo pela rua Direita até a igreja do Carmo, dobro à primeira esquerda e chego ao Largo da Cruz. Lá, figura no meio da praça a estátua do ex-vereador, secretário de finanças do estado e deputado federal Augusto das Chagas Viegas. Por sinal, já faço, aqui, a ressalva para Augusto e também para Tancredo Neves e Tiradentes: não são bustos, são estátuas, mas aí é querer fulminar o cronista, abdicar dos últimos dois, só por estarem na forma de estátuas. E também porque gostei desta estátua do Augusto. Nascido em São Tiago, foi filho de um sanjoanense “vítima de um fascínora em São Tiago, no ano de 1896”, e de Maria Cristina. Formou-se em 1908 pela Faculdade de Direito de Belo Horizonte, tendo sido o orador da turma. Em 1958, no jubileu da turma, novamente foi escolhido orador. Era, afinal, “um orador de grande eloqüência, que empolgava seus ouvintes”. Teve seis filhos com Silvia, da qual enviuvou em 1966. Sobre Augusto, Sebastião Cintra se derrama em elogios: “Toda São João Del Rei reconhece e proclama as excelentes virtudes do adorável pai de família, do corretíssimo advogado, do político nobre, de mãos limpas, do jurista laureado e respeitado e do consagrado historiador”. Morreu em Del Rei em 1973.

Para encurtar a linha invisível entre dois políticos, volto pela rua Direita, desço, chego ao Largo do Tamandaré. Aqui está o busto do jornalista e deputado federal Matheus Salomé de Oliveira. Ao contrário de Augusto, e como o descreve o cronista do Estado de Minas em 1947, “longe de ser um grande orador, vossa excelência Matheus Salomé se impõe pelos seus dotes morais, reconhecidos pelos próprios adversários; ouve com atenção os aparteantes e fulmina-os mais pela força da sua autoridade do que pelo vigor de seus argumentos”. Nascido em Cláudio em 1907, mudou-se para São João del Rei e foi aluno talentoso do Colégio Santo Antônio. Assim como Augusto,“ingressou na Faculdade de Direito da Universidade de Minas Gerais. Numa época de grande efervescência política, envolveu-se ativamente nas lutas então travadas”. Advogou por três anos em Cláudio. Em 1935, fixou residência em del Rei, “conseguindo grandes triunfos na profissão”. Casou-se com a sanjoanense Aura Salomé. Na cidade, foi presidente do Clube Teatral Artur Azevedo e também da Sociedade de Concertos Sinfônicos. Para as pessoas que “ao seu enterro”, em 1955, “compareceram em grande número”, e para nós também, Matheus ficará para a eternidade como aquele que teve “a frase demorada, voz cavernosa e pausada, que causa nervos até” e que “no campo largo da liça, na areia movediça, nunca coloca o seu pé”.

No mesmo Largo do Tamandaré, temos o genial Aleijadinho, ou Antônio Francisco Lisboa. Nascido a 29 de agosto de 1730 nos arrebaldes de Bom Sucesso. Filho de um arquiteto português e de mãe africana de nome Isabel, e escrava do mesmo arquiteto, que o libertou por ocasião de fazê-lo batizar. O conhecimento que teve de desenho, arquitetura e escultura foi obtido na escola prática de seu pai. Depois de muitos anos de trabalho sob suas vistas e riscos, encetou Aleijadinho a sua carreira de mestre de arquitetura e escultura, e nesta qualidade excedeu a todos os artistas deste gênero que existiram em seu tempo. Até os 47 anos, gozou de perfeita saúde. De 1777 em diante, as moléstias, provindas talvez em grande parte de excessos venéreos, começaram a atacá-lo fortemente. Perdeu todos os dedos dos pés, do que resultou não poder andar senão de joelhos; os das mãos atrofiaram-se e curvaram, e mesmo chegaram a cair, restando-lhe somente, e ainda assim quase sem movimento, os polegares e os indicadores. Aleijadinho tinha três escravos que o ajudavam como entalhadores e o acompanhavam por toda parte, transportando-o, quando não podia mais caminhar. Segundo seu biógrafo Rodrigo José Ferreira, “durante o tempo em que esteve entrevado, freqüentes vezes apostrofava à Imagem do Senhor que tinha em seu aposento, e tantas vezes havia esculpido, pedindo-lhe que “sobre ele pusesse seus Divinos Pés”. Morreu em 18 de novembro de 1814, em Ouro Preto.

....

Estou cansado, não estou cansado. Poder andar é uma dádiva. Mal posso aguardar a meca, a meca dos bustos e estátuas em Del Rei. Avenida Tancredo Neves, do comércio, avenida beira-rio. Aqui, podemos começar com o Capitão-Capelão Frei Orlando, ou Antônio Alvarez da Silva. Natural de Abaeté-MG, filho de Itagiba e Jovita Aurélia, mortos quando tinha apenas três anos, foi criado por um casal de farmacêuticos. Estudou e fez a primeira comunhão na cidade natal. Em 1925, ingressou no Colégio Seráfico de Divinópolis-MG, da Ordem dos Frades Menores, “onde se distinguiu pela inteligência e aplicação”. Em 1931 foi para a Holanda, ingressando na Ordem Franciscana e fez o voto de fé simples. De volta ao Brasil em 1937, recebeu a ordenação sacerdotal. Iniciou o ministério em São João del Rei. Além de lecionar história e português, aproveitava para “visitar o tugúrio dos pobres e o palacete dos ricos, aos segundos arrecadava auxílios para os amados irmãos em Cristo martirizados pela penúria”. Além disso, foi pioneiro na organização das chamadas Sopas dos Pobres na cidade. Em 1943, é convidado pelo 11o Regimento de Infantaria para integrar a FEB como capelão militar. No ano seguinte, se apresenta no Rio, celebrando de imediato a santa missa para a tropa. Deixo o resto de seu destino com Cintra. “Mas surgiu o dia 20 de Fevereiro de 1945, que ingressou na história como marco indestrutível da heróica expedição do 11o R.I. à Itália. Desfalcando a comunidade franciscana de São João Del Rei, este é o dia em que o manso e santo Padre Frei Orlando Alvarez da Silva, aquele que percorria alegremente as ruas de Del Rei, transmitindo a todos consolo e otimismo, tombou no posto de honra dos Apeninos, atingido por uma bala que lhe atravessou o coração. Apenas teve tempo para pronunciar o nome da Santíssima Virgem Maria”.

Já que estamos na meca, a seguir vêm os nossos pesos pesados. Dentre eles, comecemos com a “heroína da Inconfidência Mineira, Patrona do Professorado Mineiro, Academia Paulista, Mineira e Sanjoanense de Letras”, tudo em uma só, “Bárbara Heliodora”. Sanjoanense, filha de um proeminente advogado e de Maria Josefa, descendia de um bandeirante que comandou os paulistas na primeira guerra civil brasileira, a Guerra dos Emboabas, ocorrida pouco antes da instalação da Vila de São João Del Rei. Seu pai, formado em Coimbra, exerceu importantes funções eletivas na cidade. “Além de receber esmerada educação, era reconhecidamente de extraordinária beleza. Sua grande inteligência causava admiração aos seus conterrâneos, que se orgulhavam de suas virtudes cívicas e de sua forte personalidade”. Muito jovem, já produzia versos e, aqui, Cintra escorrega no machismo, embora tenha sido sincero, ao dizer que “eram versos aceitáveis, fato raro, naqueles tempos, entre as mulheres”. Com seus versos e sua beleza, casou-se com o poeta Inácio José de Alvarenga Peixoto, natural do Rio, formado em leis em Coimbra, que, tendo sido “talentoso e aplicado”, foi nomeado juiz em Portugal. Pouco depois, foi designado ouvidor da importante e vasta comarca do Rio das Mortes, sediada em Del Rei. “Tão logo chegou, encantou-se com a beleza física e com os dotes espirituais de Bárbara”. O romance terminou em casamento no ano de 1781. O padre foi Carlos Corrêa de Toledo, que também viria a ser um dos Inconfidentes Mineiros. Alvarenga Peixoto, “poeta de estro qualificado”, foi nomeado Coronel Comandante de um regimento de cavalaria. Vejam só. Tão logo deixou a função, tornou-se fazendeiro e grande minerador. Quando Tiradentes “iniciou o movimento que visava a libertação do Brasil, encontrou ardoroso adepto na pessoa de Peixoto, que pagou com o degredo e com cruéis humilhações o seu amor ao Brasil e à Liberdade”. Com o marido preso e torturado, Bárbara “suportou com altivez tristes dissabores e em nenhum momento consentiu que Peixoto fraquejasse diante dos esbirros prepotentes e desumanos. Não fugiu, não se curvou, continuou no Brasil, experimentando espoliações, intimidações e seqüestros de bens”. Mas é claro que, para nós, e para todo o sempre, Bárbara Heliodora ficará lembrada como aquela que “vivia cercada de conforto, em companhia dos filhos, criados com desvelo, aprimorada educação e fartura”.

Parece que vai chover novamente, que não vai chover. Só me resta, agora, este embate final entre Tancredo Neves e Tiradentes, sanjoanenses, duas estátuas uma em frente da outra. O vento faz com que farfalhem de forma ameaçadora as folhas das árvores. O que já não sei, o que já não sabemos destes dois? Que talvez Tancredo, de forma inegável, figurará nos anais da história como aquele em que a “eloqüência madrugou cedo”, já “nas festas comemorativas do centenário da Independência”, quando “discursou, com agrado geral, na cerimônia de plantação de árvores”? Que talvez Joaquim José da Silva Xavier, de forma indiscutível, irrevogável, permanecerá em nossos corações como aquele que “manteve contato direto com o povo martirizado pela Coroa”, e que, “no desempenho das profissões de mascate e tropeiro, nas suas andanças, praticou, sem ganho, o curandeirismo, tornando-se, por outro lado, muito conhecido pela habilidade de pôr e tirar dentes”?

Missão cumprida. A avenida beira o rio. As pontes entrelaçam a cidade. Esta é a ternura da tarde morredoura que, como veio, se vai: Getúlio Vargas à frente. Dissimulado, oculto por um coreto, a me esperar para encontro histórico. Desvio, tentado pela noite faiscante. Atravesso a ponte. Na praça da Estação, outro busto me encara fixamente, outro busto me encara eternamente, mas saiba que não serei eu aquele que dirá quem fostes. Não hoje, “Antônio Rocha, Precursor da Viação Mineira”.

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Sergio Rosa
 

Muito bom. Um texto cheio de histórias! Mate a nossa sede de links e fotos.

Sergio Rosa · Belo Horizonte, MG 21/3/2007 12:21
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Helena Aragão
 

Nossa... Fiquei um minuto olhando pra essa estátua (busto, whatever) da Bárbara Heliodora... Ela tá com a sombrancelha franzida. Com cara de preocupada... Haha, fiquei viajando...

Helena Aragão · Rio de Janeiro, RJ 23/3/2007 13:45
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Marcus Assunção
 

é verdade...com certeza, pensando em seu Alvarenga Peixoto...

Marcus Assunção · São João del Rei, MG 23/3/2007 14:59
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Fê Pavanello
 

Gostei muito do texto!
Parabéns!

Fê Pavanello · Brasília, DF 23/3/2007 15:18
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Marcus Assunção
 

valeu fê

Marcus Assunção · São João del Rei, MG 24/3/2007 14:33
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Fernando Mafra
 

Excelente contribuição! Ao mesmo tempo pessoal e informativo.

Fernando Mafra · São Paulo, SP 25/3/2007 14:32
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FILIPE MAMEDE
 

Marcus, acabei de ver seu comentário no texto da Apple e resolvi ver o que era. Muito bom mesmo. Excelente recorte, e as fotos ilustraram muito bem o seu texto, que alíás, é muito bem escrito. Gostei de muitas construções que você usou como "filho das segundas núpcias de um comendador com Ambrosina Carlota ". Muito bom, abraço.

FILIPE MAMEDE · Natal, RN 9/5/2007 10:15
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zepereiranoticias.blogspot.com
 

Estátuas são como múmias, a gente só merece depois que morre. E assim o quer.

zepereiranoticias.blogspot.com · Belo Horizonte, MG 9/5/2007 10:18
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Fernando Mafra
 

Só durante a virada é que fui reparar na quantidade de bustos que tem na Praça da República, é impressionante.

Fernando Mafra · São Paulo, SP 9/5/2007 10:42
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Sergio Rosa
 

Já vi vários bustos anônimos. Muitos não possuem sequer uma identificação.

Sergio Rosa · Belo Horizonte, MG 9/5/2007 10:48
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apple
 

Legal, Marcus! Bacana ao menos saber quais pessoas estão representadas nas ruas, né? Esse conhecimento faz a cidade ser mais nossa, apesar de que penso que a população deveria participar das escolhas dos símbolos das cidades, conforme já mencionei... Ao meu ver, avaliar o quê é valoroso ou não p/ uma sociedade faz parte da democracia.

apple · Juiz de Fora, MG 9/5/2007 20:05
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Marcus Assunção
 

Obrigado, galera. Valeu mesmo.

Marcus Assunção · São João del Rei, MG 11/5/2007 11:13
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