Serra da Barriga, história que a terra conta

Foto: Marcelo Cabral
Alex e Daniel, sob a sombra da mata, causos da Lagoa dos Negros.
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Marcelo Cabral · Maceió, AL
2/10/2006 · 185 · 15
 

Arqueologia, estudo das manifestações materiais de culturas antigas, ou seja, partir de um pedaço de osso ou um caquinho de cerâmica pra contar a história de civilizações! Fascinado por história como eu sou, as grandes e as pequenas, fui a um dos mais importantes sítios arqueológicos de Alagoas, a famosa Serra da Barriga, palco da luta por liberdade de Zumbi e seus guerreiros negros.

Tomei o rumo de União dos Palmares na intenção de conhecer e vivenciar um pouco do trabalho que está sendo realizado pelo Nepa - Núcleo de Ensino e Pesquisa Arqueológico da Universidade Federal de Alagoas, ligado ao Centro de Ciências Sócias e capitaneado pelo o doutor em arqueologia Scott Joseph Allen, americano de New Hampshire, que há nove anos estuda a região.

Cheguei à cidade por volta de onze horas da manhã, atravessei União dos Palmares até a antiga ponte sobre o rio Mundaú, que dá acesso à estrada de terra de 9 km em um vale entre os canaviais até o pé da Serra da Barriga. Apesar da estrada estar boa, aconselho não fazer este passeio em período de chuva, mas, claro, se você é uma pessoa off-road , e eu agrado, o caminho pode ser um atrativo a mais.

A vista para a serra é bonita, mas lindo mesmo é ver o vale crescendo quando comecei a me elevar nos 550 metros de altitude da serra, que não é tão alto mas garante uma linda vista para um mar de morros e vales de um verde vivo, com serras mais altas no horizonte, a vista dos pássaros, a vista da liberdade, a vista de perceber a chegada dos inimigos! Claro que os caras foram pra lá montar um quilombo, uma resistência! Eu pensava nisso à medida que subia e o mundo parecia ficar menor e maior ao mesmo tempo lá embaixo. Claro!

Lá no alto, encontrei a equipe do Núcleo, o cientista social Daniel Meira, o arqueólogo Leandro Surya e um grupo de estudantes. Eles estavam no meio de um trabalho de campo, escavando, fiquei conversando com eles ali e observando aquele trabalho. Que paciência, eles cavam com umas coisas menores que um canivete, e um pincel pra ir tirando a terra com o maior cuidado, coisa delicada, cuidadosa, me lembrou outra atividade de preservação que é a restauração de monumentos e igrejas, pela meticulosidade. Só que embaixo do sol quente, com a mão na terra, e “a terra conta muita história” como disse Daniel.

Comentei essa minha admiração por aquele trabalho com eles, Leandro disse “muitas vezes fazemos escavações como essa que você esta vendo, encontramos materiais como ossos e cerâmica, por exemplo, e continuamos o trabalho, afinal, podem ser ossos humanos antigos e urnas funerárias ou outros artefatos importantes. Mas podemos descobrir também que se trata de um cachorro ou uma telha moderna.” E começa tudo de novo, em outro ponto. Haja paciência e dedicação.

Segundo o doutor Scott, em conversa posterior, esse trabalho vai exigir menos paciência com a chegada ao Nepa de um equipamento que detecta anomalias magnéticas, ajudando muito no mapeamento e na estratégia de escavação da Serra da Barriga.

Durante a tarde, saí com Daniel e Alexandro dos Santos, o Alex, de 23 anos, um dos vários moradores das dezenove famílias que vivem na Serra da Barriga e trabalham com o pessoal do Núcleo. Descemos uma trilha entre pés de laranjas. Daniel estava fazendo STPs – sigla em inglês para Shovel Test Pit, ou no bom português, poço teste de pá, em áreas previamente marcadas.

O sol quente já estava começando a queimar o juízo quando aos poucos fomos entrando em uma mata de reflorestamento em estágio razoavelmente avançado, uns 10 a 15 anos segundo Alex, que diz ter plantado algumas daquelas árvores, vários exemplares de mata atlântica como jaqueiras, muricis, cupiubas, banana de papagaio. E, claro, palmeiras nativas, que deram nome ao quilombo e a cidade. O clima ficou mais agradável.

Seguimos descendo pela trilha até chegarmos à Lagoa dos Negros, um lugar mágico e cheio de histórias. Me chamou atenção de imediato uma árvore linda na beira do pequeno lago, me disseram que se chama ogan, e que é algo como a árvore sagrada da Serra da Barriga! Sentamos em umas pedras na sombra, onde havia nítidas marcas de lanças outrora afiadas ali, e Alex explicou “embaixo da árvore ficava a fonte mais forte de onde brotava a água e por isso o povo acredita que ela é sagrada”.

A lagoa hoje é maior que seu tamanho natural e sofreu um forte impacto, assim como os vestígios de atividades humanas antigas na área, por causa do período em que aconteceu a corrida atrás de um suposto ouro de Zumbi enterrado na serra! Aconteceu entre o final dos anos 70 e começo dos 80, usaram explosivos e tratores, Alex conta que quando era criança ouvia o barulho de “coisas” quebrando por onde o trator passava, possivelmente artefatos de cerâmica importantíssimos. Claro que ninguém achou ouro nenhum, mas o estrago estava feito.

Há também as lendas do lugar, Alex conta que várias pessoas já viram o negro da lança, um guerreiro que levanta sua arma ao alto e grita assustando o povo. Tem também a história de uma tal serpente, que desce até a lagoa às seis horas da tarde para beber água. Depois desse horário, ninguém chega perto da lagoa. Ele mesmo disse que uma vez entrou na água e ouviu uma voz gritando “oooooi”, e que “de certeza era sobrenatural”. A maioria das lendas, e são várias, giram em torno da Lagoa dos Negros.

Subimos até o Morro das Graças, ponto mais alto da serra e onde encontramos ainda um bom pedaço de mata nativa, só a paisagem lá de cima já paga a caminhada. Começaram a cavar. Perguntei a Daniel quais os principais vestígios que se encontram por ali, segundo ele são artefatos de cerâmica, ossos e materiais líticos, ou seja, pedras que foram modificadas pela mão do homem para a fabricação de instrumentos. Bom lembrar que não se trata somente do Quilombo dos Palmares, mas de ocupações indígenas ou qualquer agrupamento antigo que tenha deixado sua marca ali.

Segundo o professor Scott Allen, existem ali duas arqueologias. A de Palmares trata especificamente do período histórico do Quilombo. E a arqueologia da Serra da Barriga, que leva em consideração todas as épocas. “Temos que analisar e tratar de tudo que encontramos, estamos tentando entender, estudando os sítios de Alagoas, o que era ser negro e ser índio durante esses períodos históricos”.

Os principais sítios arqueológicos de Alagoas se encontram em Porto Calvo, Porto de Pedras, Paripueira e Maragogi, ao norte (Invasões Holandesas) nas cidades históricas de Penedo e Marechal Deodoro, e em Pão e Açúcar e região de Piranhas e Canindé do São Francisco (SE) no sertão, onde se encontram pinturas rupestres e outros materiais com datas de até 8.000 anos no passado. No sertão a preservação é mais duradoura devido ao clima seco e árido.

Voltando do meu dia na Serra da Barriga eu pensava no Brasil, e na quantidade de vestígios existentes num país desse tamanho. E o pior, a quantidade que já se perdeu, com a intervenção do homem moderno, desde as cerâmicas que Alex ouvia quebrar sob a fúria do trator na Serra da Barriga até hidroelétricas e outros grandes empreendimentos que destroem para sempre um patrimônio inestimável que poderia ser resgatado e preservado por esses profissionais.

É a chamada arqueologia de contrato, coisa nova ainda no Brasil, consiste no seguinte: as empresas que vão causar um forte impacto numa região de relevância histórica e ambiental, como uma usina ou uma represa, são obrigadas pelo Iphan (Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional) a contratarem uma consultoria que recolha e preserve os vestígios arqueológicos. Scott adverte que é preciso ser muito criterioso quanto a isso, pois muitas dessas consultorias apenas recolhem o material e guardam em um depósito, sem que haja um estudo de contextualização e datação daquele material.

Acontece que a profissão de arqueólogo não é reconhecida no Brasil! Já houve uma graduação em arqueologia na Faculdade Estácio de Sá, no Rio de Janeiro, mas fechou há algum tempo. O único curso universitário de graduação existente hoje no país fica no município de São Raimundo Nonato, no Piauí, onde está um dos mais importantes sítios arqueológicos do país e do mundo, o Parque Nacional Serra da Capivara, onde tive a oportunidade de conhecer aquele belo conjunto de pinturas rupestres e entrevistar a arqueóloga doutora Niède Guidon há alguns anos atrás.

Aliás, a faculdade de arqueologia de São Raimundo Nonato é um dos cursos oferecidos pela Univasf, Universidade Federal do Vale do São Francisco, uma boa notícia para o semi-árido. A idéia é levar o conhecimento ao sertão, de maneira que seu povo não precise ir embora para ter a oportunidade de ingressar em um curso superior. A Univasf possui três campus nas cidades de Petrolina (PE), Juazeiro (BA) e São Raimundo Nonato (PI).

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Zezito de Oliveira
 

Legal Marcelo, texto pertinente
Só lamento que a atenção por parte das autoridades não faz jus a importância do lugar.
Dá para escrever sobre isso em outra ocasião.

Um abraço

Zezito de Oliveira · Aracaju, SE 30/9/2006 16:10
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Marcelo Cabral
 

Valeu Zezito, na verdade, acho que nos últimos anos as autoridades estão se movimentando um pouco com a criação do Parque Memorial Zumbi dos Palmares, que está se estruturando com o acompanhamento do Iphan. O trabalho de pesquisa do pessoal do Nepa é uma parte bem importante na criação desse parque, para que ele faça sentido.

Marcelo Cabral · Maceió, AL 30/9/2006 20:00
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Viktor Chagas
 

Uma delícia o texto. Não sabia da situação da arqueologia por aqui, e fico triste em saber da precariedade. Mas acho que a atenção vai surgindo assim, de pouco em pouco. Tenho certeza que a arca perdida do Indiana Jones tá por aqui... :)

Viktor Chagas · Rio de Janeiro, RJ 1/10/2006 12:59
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Tati Magalhães
 

Opa, Marcelo! Já falei pra tu que agora, grudada no computador escrevendo a bendita dissertação, minha distração é visitar, ler e comentar o overmundo, né? pois é. Esse texto tá ótimo! Eu tinha vontade de fazer uma matéria sobre a Serra da Barriga, mas era por outro viés, o do não-investimento e não-reconhecimento social do espaço para a preservação da memória, que passaria por uma conversa sobre a permanência e a negação da sociedade alagoana com a cultura negra, coisa que já conversava com o Moisés, do Neab, mas que o professor Bruno Rocha é especialista. Pode ter ministro, governador, o escambau. Achava que seria interessante traçar esse paralelo - de que houve essa repressão no passado e a negação da presença negra continua, seja através do silenciamento cotidiano ou da não-ação relacionada à Serra da Barriga. O negócio fica esquecido o ano todo e aí no dia 20 de novembro tem festa pra população (esquece o fato de que a dica indicada nesse link consta como Palmeira dos Índios... foi um lapso que aconteceu sei lá como).
Bom, no fundo era pra dizer que adorei que o teu texto tenha tomado um rumo tão interessante, instigante e diverso do que havia pensado!

Tati Magalhães · Maceió, AL 1/10/2006 22:59
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Tati Magalhães
 

Ah, e importante ressaltar que adorei saber que esse trabalho está sendo feito!

Tati Magalhães · Maceió, AL 1/10/2006 23:01
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Barba
 

É impressionante, aqui em Minas Gerais os sítios arqueológicos também são vitimas dessa depredação feita por pessoas que buscam "ouro escondido". Entre 2002 e 2004 eu visitei pelo menos 8 sítios que haviam sofrido esse tipo de intervenção, inclusive um muito significante em termos de importânica histórica: o Capão do Lana, uma estalagem antiga muito citada pelos viajantes que passavam pelo Caminho Novo.

Barba · Belo Horizonte, MG 5/10/2006 11:54
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Marcelo Cabral
 

Uma pena saber disso Barba, logo em Minas que eu considero um estado que sabe preservar bem seu patrimônio histórico, mas esse tipo de ganância inconseqüente e ignorante está em todo canto mesmo.

Marcelo Cabral · Maceió, AL 12/10/2006 14:15
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Paty Marinho
 

Oi Marcelo, 10 pro seu interesse e pela sua disposição em relatar sua experiência.
Estou produzindo uma monografia sobre Arqueologia de Quilombo e foi procurando info sobre o tema que encontrei seu texto atualizadíssimo.
E barbaro também foi a informação sobre a existência de uma "árvore sagrada" da Serra da Barriga (meu tema de mestrado!).
Ainda não é tempo de ir pra Alagoas, por enquanto vou pirando no material que pesquiso. Quero saber se você tem mais informações sobre a arqueologia da Serra, sobre publicações recentes do Prof. Scott, contatos, povo que estudo a geografia do lugar etc. Valeu!

Paty Marinho · São Paulo, SP 20/2/2007 13:42
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Marcelo Cabral
 

Olá Paty, você pode procurar diretamente o pessoal do Núcleo de Arqueologia, ligando para Centro de Ciências Humanas Letras e Artes CHLA da UFAL.
Boa pesquisa pra você, espero que o texto tenha sido de alguma ajuda, abraço.

Marcelo Cabral · Maceió, AL 21/2/2007 18:32
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Andre Pessego
 

É, Marcelo,
"Temos de nos contentar com o que existe de oficial porque nada temos de testemunho dos pr´prios palmarinos", disse mais ou menos isto Decio Freitas.
Ainda ouvi, na decada de 1950 e proximo historias, relatos guardados na oralidade de muitos descedentes de quilombolas, fugidos, corridos, etc. Infelizmente os organismos oficiais, nem a intelectualidade os acolheu, etc. um abraço, andre.

Andre Pessego · São Paulo, SP 12/5/2007 08:53
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Paty Marinho
 

Oi Marcelo,
Éntrei em contato com o Prof. Scott (super gente boa).
E estou dando continuidade para minhas pesquisas, e tenho planos de ir pra Serra da Barriga no próximo ano. Valeu
Abraços!!

Paty Marinho · São Paulo, SP 12/5/2007 09:13
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Marcelo Cabral
 

Oi Paty! Que ótimo! Fico feliz que a história tenha servido de ponte pra esse contato.

Aproveito pra atualizar informações: O Parque já está bem estruturado, construíram varias instalações com arquitetura de inspirações africanas como restaurante e centro receptivo. Um dos trabalhos do pessoal da Ufal é evitar que construam em cima de alguma riqueza enterrada por ali.

Marcelo Cabral · Maceió, AL 12/5/2007 11:03
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Paty Marinho
 

Oi Marcelo,
E que trabalham esse dos arqueólogos! Se por um lado o Parque é muito importante pra memória, pra circulação do conhecimento, os tesouros que estão debaixo da terra podem também contribuir pro entendimento da formação cultural do brasileiro.
Qualquer novidade faço questão de te contar.
Valeu!
Paty Marinho

Paty Marinho · São Paulo, SP 14/5/2007 15:46
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Spírito Santo
 

Marcelo,

Muito bacana o seu texto. Sempre me causou grande interesse a possibilidade de se encontrar resíduos arqueológicos na Serra da Barriga. Tenho certeza que um grande achado ainda será feito por ali. Louváveltambém o trabalho abnegado dos arqueólogosa envolvidos neste trabalho.

Prarabéns, mais uma vez.

Abs

Spírito Santo · Rio de Janeiro, RJ 12/8/2007 17:27
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Li Silva
 

Lega, Marcelo a sua história limpou um pouco a memória do massacre que se deu no lugar e trouxe uma dimensão mais sagrada para a Serra da Barriga. Deu vontade de ir conhecer. Valeu

Li Silva · João Pessoa, PB 28/3/2008 23:16
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