Sertanejo made in MS: fábrica de sucessos

Divulgação
Maria Cecília e Rodolfo
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Rodrigo Teixeira · Campo Grande, MS
31/8/2011 · 17 · 13
 

As guitarras passam bem longe. Backing vocal nem pensar. Nada de distorções, teclados empastelados e solos longos. Refrão chicletinho, uma base musical estilo pop-rock com muito violão e bateria na cara e uma letra que ora beira o romantismo ultra-açucarado outra o humor de segundas intenções. Esta é ‘fórmula’ que colocou nos últimos anos vários artistas de Mato Grosso do Sul nas listas dos mais tocados nas rádios nacionais e entre os que mais fazem shows no país. Os cantores Luan Santana e Michel Teló e as duplas Maria Cecília & Rodolfo e João Bosco & Vinícius - estes mais ligados ao chamado sertanejo universitário – extrapolaram as fronteiras sul-mato-grossenses e se tornaram ídolos nacionais com milhões de acessos no YouTube e uma agenda com centenas de apresentações por ano.

Em todos os cantos do Brasil ouviu-se ‘Meteoro’ e depois a agitadinha ‘Adrenalina’ do ‘garoto-prodígio’ Luan Santana. Estes artistas de Mato Grosso do Sul, mais conhecido musicalmente por ser a terra de Almir Sater e Tetê Espíndola, furaram a tradição sertaneja de duplas de Goiás, Minas e São Paulo. O cantor Michel Teló, que se lançou na carreira solo depois de deixar o grupo Tradição, emplacou o sucesso ‘Fugidinha’, também gravada pelo Exaltasamba em 2010.

Michel Teló ressalta que não apenas o refrão da música precisa ser eficiente para uma canção se tornar hit hoje em dia. ‘É importante escolher um tema que faça a pessoa que escute se envolver com a música. Agora é o papo inteiro que interessa, não só refrão. A melodia também precisa ser fácil de assimilar. Eu acho que é mais o romantismo e não o duplo sentido que faz ‘Fugidinha’ ser sucesso’, pondera. A cantora Maria Cecília, da dupla Maria Cecília & Rodolfo, concorda com o colega: ‘A canção precisa despertar sentimentos e tocar o coração de quem esta escutando. Os nossos hits falam do cotidiano dos jovens. Tudo isso combinado com um arranjo instrumental.’

Este arranjo instrumental também tem uma linha entre os artistas ligados ao sertanejo atual de MS. “Os arranjos estão mais para uma pegadinha pop-rock-acústico. Antes o sertanejo não tinha muita coisa pop’, observa Teló. ‘Você de Volta’, primeiro sucesso de Maria Cecília & Rodolfo, do compositor Marcos Aurélio, é uma balada agitadinha com cheiro de jovem guarda. ‘Esta música colocou a gente nas paradas de sucesso de todo o Brasil. A gente não esperava o tamnho da repercussão’, garante Maria Cecília.

A internet, assim como os DVDs ao vivo, é ferramenta fundamental na estratégia de divulgação destes artistas. Michel Teló revela que a construção de um hit atualmente começa pela internet. ‘No caso de ‘Fugidinha’ nós colocamos na internet sem ter disco ainda. Para divulgar para as rádios de todo o Brasil em mp3 mesmo. Isso tudo de forma independente’, explica. ‘Conforme as rádios executam, os programas de auditório de tevê chamam para participar. É importante a tevê porque com isso o público liga a música que toca na rádio com a imagem do artista. Assim começa a caminhada para atingir o sucesso’, completa.

Músicas como ‘Adrenalina’, de Luan Santana, ‘Tchau Tchau’, de Maria Cecília & Rodolfo, e ‘Tema Diferente’, de João Bosco & Vinícius, não só foram hits em 2010 nas rádios brasileiras como continuam com acessos crescentes na ordem de milhões no YouTube. Só o videoclipe oficial da música ‘Fugidinha’ com Michel Teló ultrapassou os 16 milhões de acessos. O sucesso no Brasil leva o pessoal do sertanejo universitário para se apresentar fora do país. Maria Cecília & Rodolfo fizeram fizeram a primeira turnê nos Estados Unidos em março, seguindo o mesmo caminho já trilhado por Michel Teló, Luan Santana e João Bosco & Vinícius. ‘Os nossos hits ajudaram a gente da fazer sucesso não só nacional, mas internacionalmente também’, comemora Maria Cecília.

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Hermano Vianna
 

Oi Rodrigo: muito obrigado pelo texto! Fico ainda mais curioso com essa cena sertaneja do MS. Em que tipo de grupo social aparecem essas duplas? Há muitas outras, que não fazem sucesso? Tocam em que tipo de casas de espetáculo antes de fazer sucesso? Ou só passam a tocar ao vivo depois que fazem sucesso? São de Campo Grande ou de cidades do interior? E as duplas são famílias do MS ou de novos imigrantes para o Estado? Isso tem importância? Grande abraço!

Hermano Vianna · Rio de Janeiro, RJ 30/8/2011 09:15
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Bia Marques
 

as duplas brotam do chão feito aquele matinho que nasce nas rachaduras da calçada e não há mata mato que resolva...

Bia Marques · Campo Grande, MS 2/9/2011 12:17
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Rodrigo Teixeira
 

Olá Hermano! Vou tentar responder as suas perguntas, pois acho pertinente para entender e aprofundar mais o tema.
1 - Estas duplas mais especificamente que eu citei na matéria nasceram na classe média. João Bosco & Vinícius e Maria Cecília & Rodolfo são duplas que saíram de dentro da Universidade Federal de MS (UFMS). O Michel Teló é de classe média, que depois deu certo na vida. O Luan Santana a mesma coisa. Seu pai era bancário.
2 - Sim. Há muitas outras. É realmente um fenômeno, pois são dezenas de duplas, com muitas vindas da classe 'baixa', do povão mesmo.
3 - Eles tocam em lanchonetes dos bairros, bares, pizzarias, na feira... eles estão em todos os lugares. E tocam ao vivo desde o princípio.
4 - É bom salientar que as melhores (com mais estrutura) são as dedicadas ao público sertanejo. E sim, é onde estão as mulheres mais bonitas da cidade também. Ou seja, a classe A, B, C, D e E... é sertaneja. A elite e o povão.
5 - Até o começo dos anos 90 havia mais gente de fora de MS que residia no Estado. A partir daí começaram a nascer os sul-mato-grossenses, que cresceram e moraram sempre aqui. E sim, eles são, em maioria, sertanejos.
6 - Para mim a grande questão é que esta música tomou conta do Brasil e agora está penetrando em vários países da América do Sul. A diferença deste sertanejo para os outros, é o vento fronteiriço. A verdade é que estes artistas conseguiram desfocar todos os outros gêneros, até mesmo o mais popular de todos, o axé music. Hoje o Luan Santana vende mais que o Roberto Carlos. E agora está ocorrendo um fenômeno aqui em MS de cantores solos, como o Luan. Enquanto o público de todo o Brasil recebeu de braços abertos o Luan - até mesmo no Rio, onde históricamente o sertanejo nunca havia conseguido entrar - a grande mídia e a 'intelligencia' brasileira - como o Lobão e o filho do Chico Anísio, que vi várias vezes ridicularizando o Luan - não conseguem ter uma visão equilibrada do novo fenômeno sertanejo. Eu vejo nisso, um imenso preconceito e desconhecimento mesmo sobre os diferentes brasis e principalmente este de dentro. Não vejo diferença no som que o Luan faz, do da Tati Barraco, ou do pessoal da guitarrada, ou do forró universitário... kkkkk falei demais hermano! grande abraço!

Rodrigo Teixeira · Campo Grande, MS 2/9/2011 16:36
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Bia Marques
 

Tex, você é a lucidez ideológica em pessoa! Respeito pra caramba tua produção viu?!

Bia Marques · Campo Grande, MS 2/9/2011 17:24
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Hermano Vianna
 

oi Rodrigo: muito obrigado pelos esclarecimentos! só mais uma pergunta: existe diferenciação clara entre os sertanejos de classe média e os da "periferia" (circuitos diferentes de casas de espetáculo, públicos que não se misturam etc.)?

Hermano Vianna · Rio de Janeiro, RJ 2/9/2011 17:49
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Rodrigo Teixeira
 

Hermano, acredito que os artistas que mais fizeram sucesso neste gênero vieram de famílias que tinham mais condições sim. No entanto, estas duplas sertanejas surgem de toda as classes há décadas em Mato Grosso do Sul. A primeira geração de artistas deste gênero em MS era toda do interior/fronteira e vinda das classes baixas. E desde estes anos 50/60 que o povão já gostava e que a elite veio assumindo até se tornar um 'modo de vida'. Campo Grande é a 'Nashville brasileira' não é de hoje, com a diferença que desde final dos anos 90 começou a influenciar na própria indústria da música sertaneja do Brasil. Com os produtores daqui, como Ivan Miazzato, imprimindo uma marca que foi dar nesta fórmula do violão de aço, bateria e voz do cantor em primeiro plano e que foi jogando aos poucos 'erva de tereré' em cima da percussão baiana que imperou soberana na música brasileira dos 90 até meados dos 2000.
Quando o Exaltasamba grava Fugidinha do Michel Teló, o grupo está mordendo uma 'isca' jogada pelo grupo Tradição no final dos 90, com a mistura da levada do vanerão com o axé, e que isso 'sertanejando' o axé music até a micareta sertaneja invadir o pelourinho. Fico pensando Hermano como é na Bahia. Lá os grupos mais populares saíram de que classe social? abração

Rodrigo Teixeira · Campo Grande, MS 2/9/2011 18:08
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Hermano Vianna
 

boa pergunta sobre a Bahia - tem um baiano (ou alguém entendido na análise social da produção musical baiana) aqui para nos responder?

Hermano Vianna · Rio de Janeiro, RJ 2/9/2011 18:18
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Rodrigo Teixeira
 

os grandes nomes do axé - Ivete, Daniela, Chiclete, Eva, Claudia Leite, aquele do 'sou praieiro...' - vieram de que classe social? e quem quiser se aprofundar no tema 'música sertaneja de ms' eu postei um texto que escrevi e que vai dos 50 a Luan Santana http://www.overmundo.com.br/banco/a-musica-sertaneja-de-ms-rodrigo-teixeira abração

Rodrigo Teixeira · Campo Grande, MS 2/9/2011 18:24
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Abílio Neto
 

Meus Deus, jovens de classe média estão fazendo o Brasil descer a ladeira no que se refere à produção musical de qualidade.

"Nóis merece"! Descuida-se da educação e cultura e o resultado não poderia ser diferente.

Abílio Neto · Abreu e Lima, PE 2/9/2011 21:17
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Abílio Neto
 

Rodrigo, entenda, a crítica não é dirigida a você. O seu relato é excepcional. Mas em quem os jovens iriam se mirar? Num Chico Buarque no ocaso que lançou recentemente um disco de andamento lento, de melodias excessivamente jobinianas e de letras que forçosamente nos lembram que onde ontem era casa hoje é tapera?

Quem sabe esses jovens não estejam com a razão? Abraços do

Abílio Neto · Abreu e Lima, PE 2/9/2011 21:28
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Abílio Neto
 

A elite do axé citada por você, Rodrigo, veio da classe média. Somente aqueles grupos que são mais ligados ao samba de roda é que surgiram das classes C e D.

E pelo visto o axé sofreu um ataque por dois flancos: o vanerão gaúcho também se juntou ao forró de raiz e deu origem ao forró eletrônico do Ceará, Pernambuco e Sergipe, com direito a muita bunda de fora. Também já chegou ao Pelourinho!

Abílio Neto · Abreu e Lima, PE 2/9/2011 21:44
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Alexandre Marino
 

Essa música não passa de lixo. Acho estranho o Overmundo abrir espaço pra isso.

Alexandre Marino · Brasília, DF 20/9/2011 14:52
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Rodrigo Teixeira
 

Prezado Alexandre, o Overmundo é um espaço democrático, até mesmo para o lixo a que você se refere.

Rodrigo Teixeira · Campo Grande, MS 20/9/2011 15:02
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