Seu Diô, patrono do samba de côco sergipano

Kadydja Albuquerque
Seu Diô
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Kadydja Albuquerque · Aracaju, SE
27/6/2009 · 47 · 16
 

O dia é de São João. O samba é de côco. E a festa é de seu Diô. “Uns me chamam de Diô, outros de Dió, outros de Dio, como em italiano. Não me importo. Quando pedem desculpa, eu digo: ‘por que¿ se você não me fez nada”, estende. Há 40 dos seus 60 anos, seu Rosualdo da Conceição garante a festa da véspera e do dia de São João em sua comunidade no loteamento Galego, no Mosqueiro. Garantir é o verbo mais apropriado porque ele faz tudo com recursos próprios. “A comunidade só vem curtir a festa”, diz.

A família ajuda nos enfeites do salão e na arrumação do altar da igrejinha. Ou melhor, as famílias. Seu Diô tem 10 filhos e 16 netos. Corre a fama de que ele divide seu tempo com três mulheres. “Não, isso quando era novo. Agora só tenho duas”. Dona Nivalda é a oficial – “minha esposa mesmo” – e estão juntos há 40 anos. Cuida da barraquinha de comida. Simpática, flor no cabelo, não sai um minuto do seu ofício nem pra rezar a novena.

A “outra” é Dona Maria Gilza, que há 30 anos sustenta o título de segunda. Também estava na festa, mas apenas como espectadora. “As duas não se gostam, mas nunca brigaram. Não dou razão pra mulher minha brigar. Se vai falar alguma coisa, eu já digo: ‘o cachorro sou eu’. E ouço calado”, conta seu Diô, que carrega a sensibilidade da alma feminina. “Mulher a gente deixa falar, brigar, e apenas ouve. Aí ela tem o momento que vai chorar no quarto. É nessa hora que você chega e conversa”.

Seu Diô não lembra quando surgiu o Samba de Côco no Mosqueiro. Sua avó já cuidava da festa muito antes dele nascer. Seu pai assumiu e passou para ele a tarefa de manter a tradição. E que ele cumpre com perfeição. Operado recentemente, Seu Diô, este ano, não fez parte da banda e nem arriscou uns passos no salão. Mas desfilou como rei da festa entre a comunidade, os visitantes fieis e os curiosos que foram conferir se a festa era arretada mesmo. Cada ano chega mais gente, mais câmeras fotográficas e de vídeo, mais jornalistas com bloquinho na mão. Chegam meninas bonitas também pra competir com as senhoras no samba de côco. Em vão. É preciso nascer lá pra segurar uma noite inteira de dança. Mas há uma saída pra esquentar o corpo e adquirir resistência: a meladinha que ele e seus filhos distribuem aos sambistas. “Isso é pra segurar até o final”, explica.

Além do samba de côco e da meladinha, a festa também tem a novena de São João, que acaba, adivinhem, com uma roda de samba dentro da igreja. Depois, é hora de acender a fogueira pra queimar o mastro. Lá em cima, nas folhas, estão as prendas: uma lata de goiabada, um pacote de biscoito recheado, uma lata de atum, alguns milhos, e uma caixinha de fósforo com R$ 50. O grande prêmio que movimenta todas as crianças e adultos da comunidade. O mastro provoca e demora a cair. Quando cai, em segundos não se vê mais um rastro do trabalho de um dia inteiro.

Seu Diô vai acompanhando a evolução da festa. Recebe e se despede de todos. Sorriso largo, quase um fidalgo, considera-se um homem feliz e rico. “Sou rico na minha alegria, na minha saúde, na consideração do meu povo. Não tenho inveja”. Exemplo vivo de agente da cultura popular sergipana, seu Rosualdo ama o que faz e o que já deixou nas linhas do passado. É aposentado do Corpo de Bombeiros e durante 22 anos foi salva-vidas na praia de Atalaia. Já foi segurança de governadores também. Atleta, adora corrida e futebol. Coleciona medalhas em competições de atletismo e lembra com carinho dos dois anos que jogou no Vasco de Sergipe (1974-1976). “Sou Fluminense e Confiança. Já fui ver o Fluminense jogar no Maracanã com o Flamengo. Ganhou de 1 a 0. Fiquei calado, tava com meu tio flamenguista e não podia comemorar muito”, lembra esse senhor que vira e mexe fala em calar, mas que é bom de prosa e facilita qualquer conversa.

Entretanto, a paixão de seu Diô mesmo é o samba de côco. Toca zabumba, tambor pequeno, canta e dança no salão. Quando pode. Se pudesse também, gostaria de ver um CD seu, desses que alguns “turistas” gravam em suas idas às festas. “Já veio muita gente aqui gravar o samba de côco. Agora trazer o CD que é bom, ninguém nunca trouxe”. E o registro dos anos vai ficando na memória. Saudade, ele sente das épocas de infância, das brincadeiras, do respeito aos mais velhos.

“Naquela época era mais fácil criar os filhos”. Seu Diô vem de família grande: 21 irmãos do mesmo pai e da mesma mãe. “Nasci das mãos da parteira daqui, Mãe Candinha, meus irmãos e meus filhos também. Hoje tem que ir pra maternidade”, quase reclama se não fosse por ele estar em um dia tão especial.

O dinheiro da festa sai de seu bolso, mas o retorno vem para toda comunidade. Em cada casa, um bar improvisado com geladeiras e isopores na porta. A água é de graça, como a meladinha. É preciso não deixar o visitante cansar. Porque a tradição, seu Diô garante com maestria que ela não vai morrer. “Meus filhos já cuidam de muita coisa da festa. Você não viu eles por aqui¿”, e sai apresentando os que estão por perto. O orgulho é recíproco e contagia os sergipanos que chegam. E assim, fica a certeza de que muitas outras noites juninas virão e de que a cultura sergipana pode contar com essa bela festa.

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Hermano Vianna
 

Texto delicioso! Adoro gente que se "garante" assim como o Seu Diô. Estão sempre dando um jeito de produzir alegria geral. Viva o coco! Viva a festa de São João!

PS: Essa poligamia informal sempre foi comum no Brasil. Neste comentário de colaboração sobre o Batalhão de Bacamarteiros de Aguadas, falo de outro caso bem sergipano!

Hermano Vianna · Rio de Janeiro, RJ 27/6/2009 13:42
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Hermano Vianna
 

oi Kadydja: vi que você colocou fotos bem bonitas da festa nesta outra colaboração. Muito obrigado!

Hermano Vianna · Rio de Janeiro, RJ 27/6/2009 13:49
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Kadydja Albuquerque
 

Oi Hermano... um elogia vindo de você é muito bom. :-) Obrigada!

Kadydja Albuquerque · Aracaju, SE 27/6/2009 14:16
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Hermano Vianna
 

xiiii, só vi agora: concordância muito troncha no meu primeiro comentário: "gente... estão..." Desculpa! Foi a pressa de fazer logo o elogio!

Hermano Vianna · Rio de Janeiro, RJ 27/6/2009 14:25
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Kadydja Albuquerque
 

hahahaha... sem problemas. Então, a idéia é fazer mais perfis de personagens sergipanos e dar uma contribuição pro registro da nossa cultura. Depois virão mais.. ;-)

Kadydja Albuquerque · Aracaju, SE 27/6/2009 14:31
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Hermano Vianna
 

que boa a idéia desta série de personagens sergipano! fico aqui aguardando ansioso!

Hermano Vianna · Rio de Janeiro, RJ 27/6/2009 15:10
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Andre Pessego
 

Muito boa e muito oportuna a apresentação do seu Diô.
abraço
andre

Andre Pessego · São Paulo, SP 29/6/2009 17:25
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Lice Soares
 

Lindo! Salve, o nosso povo, salve!
E viva a nossa cultura.

Lice Soares · Feira de Santana, BA 29/6/2009 18:59
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Viktor Chagas
 

Muito bom! E como se não bastasse a ótima reportagem sobre a festa, aprendi horrores com essa "sensibilidade da alma feminina" que carrega Seu Diô. :)

Viktor Chagas · Rio de Janeiro, RJ 29/6/2009 23:42
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Lucas.... Overmano
 

O texto ficou ótimo. Embora não traga elementos suficientes que justifiquem o título de patrono do samba de coco sergipano...
Vale o registro e de continuidade à série.
Abs

Lucas.... Overmano · Aracaju, SE 3/7/2009 12:41
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lu almeida
 


"Dê licença pra entrar na roda". Essa frase deveria ser mais adotada. Ela fala de ternura. Coisa que anda um pouco fora de moda. Vô falar de uma coisa que ,particulamente, falta "nos turistas" (expressão muito usada entre aqueles que fazem o melhor da nossa cultura). Cadê a postura, o bom trato e jeito no lidar com as pessoas? Arrepare! Dessas andanças de brincadeira popular já vi mestre dando bronca em cinegrafista por atrapalhar evolução da dança, fótografos quase caindo no braço por uma posição melhor e fazer a tal "fotografia etnográfica".
Esse ano, no samba de coco de Seu Diô foi o pico da falta de respeito. Tinha de tudo. De apresentador de programa de fofoca até "produtores independentes". Nome chique, né? Todos sem qualquer capacidade de perceber qual o limite de não ser inoportuno. Valia uma matéria sobre isso. A primeira pergunta poderia ser: "você deu boa noite ao dono da casa?". Um bom começo. Isso interfere no resultado do material que vc faz ali : um vídeo com melhor depoimentos, falas mais reveladoras, texto/descrição sem erros. Vi empurrarem Seu Otávio (a pessoa não tinha noção da importância dele no samba) pra enquadrar melhor. Mas Seu Otávio é muito bom na caixa e não perde o ritmo. O incômodo permaneceu:

" - Dona Didi, a casa tá cheia que só, né?!"
" - Ô minha filha, a gente vai fazer o quê?"

Talvez boa parte dos "turistas" saíram dali sem ter noção de quem é Dona Didi. Sintomático.

lu almeida · Aracaju, SE 4/7/2009 12:41
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Thiago Paulino
 

Kadydja,

Muito legal o perfil de Seu Diô... boas informações e uma boa descrição da festa. Esse registro por aqui é muito legal porque muitas pessas podem mergulhar um pouco nesse arraial do Mosqueiro... Só acho que aquela foto dele com a garrafa de neladinha na cabeça ficou mais legal que essa (que tbém está muito boa)

Lu,

Suas palavras foram muito boas e sábias... a sensibilidade para não interferir na dinâmica da festa é essencial. O respeito a todos ali também é fundamental para que a brincadeira seja bonita...

Mas é preciso atenção a outro tipo de coisa: a roda de coco é algo extremamente democrática. Se todos saberem bricar.. tem espaço para todo mundo.. Acredito que Seu Diô fica feliz quando tem alguém gravando, pessoas de fora apreciando a festa e isso é até legal para a auto-estima da comunidade... Mas reforço a questão da sensibilidade e respeito são essenciais.

O que Seu Diô me disse em conversa certa vez é que ele fica um pouco chateado pelo fato muito desse material de registro.. fotos, vídeos.. não é mostrado a eles depois ou sequer dado uma cópia para o pessoal da comunidade.

Um boa idéia seria fazer um mural.. na próxima festa para colocar diversas fotos que foram tiradas e disponibilizar algumas cópias para as pessoas da comunidade.

Abraços e vamos conversando..

Thiago Paulino · Aracaju, SE 8/7/2009 23:29
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Kadydja Albuquerque
 

Oi Thiago, boa idéia. Eu vou levar para ele alguns Guias Divirta-SE também. :-)

Kadydja Albuquerque · Aracaju, SE 20/7/2009 23:22
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Rodrigo Siqueira O.
 

Samba é Brasil! E Brasil é alegria... by Ser Universitário

Rodrigo Siqueira O. · São Paulo, SP 9/5/2011 14:08
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Jéssica Liliane
 

Sou estudante e estou fazendo umas pesquisas sobre o samba de coco, alguém tem o contato do seu Dio ou como achar ele? Agradecida.

Jéssica Liliane · Aracaju, SE 26/4/2014 10:35
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Andre Pessego
 

Jéssica, abre o perfil da Kadydja que tem meios, endereços eletrônicos, e daí entra em contato com ela.
Este seu comentário vai também aviso-email pra ela e com certeza ela vai lhe deixar recado........
abração

Andre Pessego · São Paulo, SP 26/4/2014 22:21
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