SEVERINO ( PARALAMAS,1994) - UMA ANÁLISE ESTÉTICA

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PENHA DE CASTRO · São Luís, MA
28/4/2008 · 98 · 4
 

SEVERINO (PARALAMAS DO SUCESSO, 1994)
-UMA ANÁLISE ESTÉTICA-


SEVERINO é mais um daqueles discos lançados dez anos à frente de seu tempo (tal como ocorreu com SELVAGEM?, 1986, também dos Paralamas), portanto são necessários pelo menos dez anos para uma melhor compreensão do mesmo.
SEVERINO, assim como SELVAGEM?, é um disco revolucionário, entretanto, este foi um sucesso de vendas e aquele não repercutiu tanto no mercado. Não que SELVAGEM? Tenha sido um disco mais comercial, mas o fato é que 1986 foi um ano mais aberto a novas idéias e revoluções. Imperava o pensar coletivo e o desejo de mudança, e SELVAGEM? Falava de um Brasil recém liberto da ditadura militar, com todos os vícios que a dita cuja poderia deixar em uma nação. Fazer com que o público sentisse orgulho de ser brasileiro, mesmo vivendo em um país cheio de contradições e misérias, foi o grande trunfo de SELVAGEM? que apesar de ter causado um certo espanto, todo mundo quis ouvir.
SEVERINO nasceu em uma outra época, quando o individualismo falava mais alto e os jovens só pensavam, como o alquimista de Paulo Coelho, em abrir caminhos para suas realizações pessoais, esquecendo-se de que são importantes para a construção de um mundo melhor para todos, para eles e para seus filhos. Não havia mais lugar para utopias, e sem idealismo não se faz revolução. As leis do mercado não permitiam que os infortúnios de uma nação de origens escravista e subdesenvolvida fossem expostos ao público por uma banda. Ninguém estava a fim de pensar, principalmente nesse tipo de coisa.
SEVERINO não é um disco que agrada muito em uma primeira audição, não tem o mesmo suingue dos outros trabalhos dos Paralamas, e, por isso, assustaria até mesmo um fã desavisado do trio. O álbum tem como principal característica uma sonoridade no mínimo exótica, marcada com a inserção de instrumentos não convencionais como cano de PVC, latão de óleo, serrote e outros. Também conta com as participações especiais de Tom Zé, Linton Kwesi Johnson, Fito Paez, Brian May, Egberto Gismont e Reggae Philarmonic Orchestra.
Sua temática antropológica e social surge de uma reflexão sobre a constituição do homem (considerado universalmente) e sua inserção no meio ambiente (aqui, o Brasil dos degredados, dos retirantes, dos proletariados e dos Severinos). Este fato já se denuncia na capa, onde vemos o desenho de um homem envolvido pelos nomes de vários órgãos do corpo humano e com a legenda: ‘eu preciso destas palavras escritas’ (aliás, não só a capa, porém, todo o material gráfico do álbum foi inspirado na obra de Arthur Bispo do Rosário, que ao morrer em 1989, em uma colônia, deixou um impressionante acervo, composto de estandartes costurados a mão, dando o testemunho da importância do ato artístico-criador e sua relação com a afirmação da dignidade humana. Arthur não se considerava um louco. Dizia-se, às vezes, preso político. Era sem dúvida um retrato fiel dos Severino...).
O título SEVERINO carrega consigo duas referências: a primeira ao Rio São Francisco, que para sabermos de sua importância basta que nos recordemos de nossas aulas de geografia (que é sinônimo de vida para as populações ribeirinhas), e a segunda, à obra de João Cabral de Melo Neto, ‘Morte e Vida Severina.
Logo na primeira faixa nos deparamos com o conflito e a contradição, em “Não me estrague o dia” os Paralamas retomam o diálogo como narrativa musical e apresentam o embate entre o proletário e o patrão; as diferenças sociais; o antagonismo entre os privilégios e a exclusão.
Em “Navegar Impreciso”, o álbum se torna bem atual nestes dias em que se comemora os 500 anos do descobrimento do Brasil.É uma saudação aos que foram abandonados pelas naus portuguesas com a árdua missão de colonizar uma terra já habitada.
Em “Varal”, encontramos o lirismo, a poesia explícita e a sensualidade implícita, ainda na contra-mão do mercado.A música fala do amor, da vida em gestação, do homem que nasce e se torna homem, ‘rebenta a bolsa, revela ao mundo a cabeça quem a tiver que mereça a coroa’.É nessa faixa que encontramos um dos mais belos arranjos dos Paralamas. Vale conferir.
“Réquiem do pequeno” contém versos que a si mesmo se explicam. É uma ode aos severinos que, ao invés de viverem, sobrevivem com alegrias compradas a prazo.
“Vamo batê lata” é o funk da lata, é a linguagem das ruas, o ranger de dentes dos pobres diabos no inferno urbano, a nova língua de Brown no balanço funk do ônibus lotado.
Em “El vampiro bajo el sol”, uma belíssima balada de fito Paez, os Paralamas contam, como em um tango argentino, as desventuras de um vampiro debaixo do sol que diz em sua fuga desesperada:”los que me siguen no me alcanzarám”. É mais uma proclamação do amor a vida e a esperança.
“Músico” é a canção que mais fala de vida e reafirma a temática da composição do homem. A letra de Tom Zé traduz a maravilha que somos em uma visão estrutural microscópica. Diz: “cadeia de gens, somos um trem, um trem que tema ignição de ser...”
“Dos margaritas”, é um coquetel de ritmos e de idéias, é Funk, é Jazz, (e é um blues em ‘SANTORINI BLUES’, o segundo trabalho solo de Herbert Vianna), é um drink para relaxar as tensões do e as angústias do cotidiano.
“O Rio Severino”é a música mais planfetária do álbum. A narrativa em forma de diálogo da primeira faixa retorna com mais agressividade, em frases incômodas: “me diz o que você tem” (com duplo sentido); “quem não tem ABC, não pode entender HIV, nem cobrir, evitar ou ferver”; “É muita gente ingrata reclamando de barriga d’água cheia, são maus cidadãos, é essa gente analfabeta interessada em denegrir a boa imagem de nossa nação; “és tu Brasil, ó pátria amada, idolatrada por quem tem acesso fácil a todos os teus bens.”É a radiografia de um país doente, infectado pela fome, pela corrupção, pelo descaso das autoridades, pela falta de consciência política, onde os Severinos, nordestinos, brasileiros vivem à espera da assistência que não vem, orando nas contas de um rosário que é um rio, um rio que trás a morte e a vida.
“Cagaço” é a redenção, é o ultimo despertar de quem “bateu de frente com o trem social” e quer libertar o seu pensamento burguês, é o constrangimento, o desconforto de quem tem a mania de pesar de mais.
“Quando o amor dorme” é oficialmente a única faixa romântica do álbum, uma bossa despretensiosa que fala de partidas e reencontros, de momentos e lembranças.
SEVERINO ainda conta com duas faixas bônus, “Go back” e “Casi um segundo”(esta foi considerada por Renato Russo uma das mais belas canções de nosso tempo), ambas em espanhol, pois, esquecidos, na época, pela mídia brasileira, os Paralamas já eram o principal produto cultural brasileiro exposto no mercado latino americano.
Como todos os discos dos Paralamas, SEVERINO é uma salada de ritmos, onde se encontra um pouco de tudo, do jazz, da bossa, da viola repentista, do funk, do baião, do Pop e do Rock. Eles mantém a identidade sonora da banda (ao ouvir, mesmo de relance, você sabe que são eles que estão tocando). O álbum conserva a mesma narrativa em todas as faixas. É uma unidade onde a diversidade é o ponto distintivo da essência. SEVERINO pode não ser o melhor disco do rock brasileiro, mas, sem dúvida, é um dos mais interessantes.


Penha de Castro
(em memória do meu avô materno que se chamava Severino, e foi em vida um Severino, e que apesar de todas as dificuldades deu educação e garantiu o futuro de seus filhos).





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junerlei luis saletti
 

A análise estética é sempre algo maior melhor e mais importante que a crítica, pois que necessita aprofundamento no assunto e acerca dos Paralamas do Sucesso Penha de Castro provou que conhece. Vai ser muito bom quando os jornais e revistas especializados em arte perceberem que a análise estética deve substituir a crítica.

junerlei luis saletti · São Luís, MA 27/4/2008 20:02
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Rute Frare
 

Gostei!
Tá votado rsrsrs
Beijos

Rute Frare · São Paulo, SP 27/4/2008 22:55
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Ceará
 

Alguem sabe informar quem é o compositor da música Marvin? Eu sei que é R. Dunbar. Mas quem é ele?

Ceará · Natal, RN 28/4/2008 15:51
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azuirfilho
 

PENHA DE CASTRO · São Luís (MA)
SEVERINO ( PARALAMAS,1994) - UMA ANÁLISE ESTÉTICA

Humildemente estou aqui no táo bem feito Trabalho da Mestra Poetisa Penha de castro para atestar a sua beleza e profundidade de conteudo para elevar a Formacáo da Nossa Gente em assunto de tamanha importáncia.

Receba meu voto de reconhecimento pelo bem que esta aqui feito e pelo seu mérito como Cidadá Brasileira na luta por um Brasil melhor para Todos.
Parabéns Amiga
Gostei Muito

azuirfilho · Campinas, SP 19/5/2008 19:05
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