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Sexta-feira

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Marcato Pereira · Rio de Janeiro, RJ
19/8/2007 · 25 · 6
 

Andou pelas ruas chutando uma quantidade absurda de lixo. Volta e meia era obrigado a parar para retirar um pedaço de sei-lá-o-quê que grudara na sola dos sapatos. A última coisa que grudou foi uma goma de mascar, que por sua vez grudou num cartaz de um show que aconteceu no ano anterior- como estava vivo ainda?-, que por sua vez grudou numa matéria orgânica não-identificada, e isso o fez chegar ao cais aos pulos.

Já que chegou ao cais aos pulos, por que não ir embora também aos pulos? Tirou o sapato e jogou longe. O sapato descreveu uma bela parábola no ar- uma gaivota passava por ali e ficou surpresa ao descobrir que sapatos também voavam- e afundou no mar. Ora, o que era um sapato perdido diante do tanto que perdeu até ali? Lembrou-se de desenhos animados onde pescavam sapatos, retiravam os pregos como se espinhas fossem, e os assavam, como se filés de peixe fossem. Talvez tivesse sido uma boa ação, como naquela vez em que dividiu um último copo de bebida com um bêbado que discutia eletrônica com a alma de D. Maria, a Louca. Quanto às perdas, pensou: “Quantas mais?”, e ao pensar viu as letras das palavras que constituíam a frase em caracteres verdes, iguais às que nadavam na tela dos primeiros computadores. Decidiu andar mais, fazer alguma coisa que não fosse pensar.

Passando por uma igreja, notou que havia um casamento em andamento. Entrou. Na verdade, o casamento estava parado, porque a noiva não havia chegado- isso alguém lhe contou. Achou estranho, pois, ao entrar no pátio da igreja, vira uma mulher vestida de noiva que andava agachada, parecendo procurar alguma coisa- ou quem sabe, pagando uma promessa ou cumprindo algum ritual secreto, vai saber... Mas outra pessoa contou pra ele- o melhor dos casamentos é que sempre alguém tem alguma coisa para contar- que a noiva estava indecisa e que resolveu dar um certo número de voltas ao redor da igreja à espera de um sinal, positivo ou negativo, to marry or not to marry, enquanto o noivo suava frio, o padre contorcia o queixo- com extrema e invejável habilidade- e os padrinhos especulavam com os celulares nas mãos, como se estivessem negociando na bolsa de valores.

A noiva entrou na igreja, finalmente, e parecia ter saído de um furacão, sem véu, descabelada, descalça- uma das meias furou e os dedos do pé dela saíam das meias como se fossem filhotes de passarinho sendo alimentados pela mamãe pássaro-, maquiagem borrada, etc. O vestido parecia uma pele de dálmata, por causa da sujeira. A mãe, que correu como um avestruz pela nave da igreja, tentava recompor a filha e dizia “Você é louca!” O padre gritou- tentou gritar, tinha uma voz de pato fanho, foi é ajudado pela acústica do templo-: “Então, casa ou não???” Ela, sem tomar fôlego: “Talvez...”

Aí ele saiu da igreja, riu, acendeu um cigarro amassado e pensou no “Talvez...” Talvez é melhor do que não. Não é pior do que sim- embora possa ser melhor- isso descobre-se, dependendo do caso, obviamente, num abismo de tempo, mesmo abismo que está entre um amendoim e uma unha. “Talvez eu mude de emprego amanhã, talvez eu me case daqui a três anos e meio, talvez eu dê de presente à minha tia uma viagem de férias para Rondônia e talvez eu diga não a minha mania de conceber futuros antes de adormecer- porque eu acordo coberto de açúcar e isso ainda vai fazer com que eu seja assediado por um pote.”




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Lumenezes
 

Marcato Pereira.
Achei o texto uma obra de arte. Você é original e um artista-plástico das letras. Bom ver gente assim escrevendo no Over.
Luciana

Lumenezes · Nova Friburgo, RJ 19/8/2007 15:18
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Marcato Pereira
 

Lu, muito obrigado! Música e Artes-Plásticas são outras paixões que tenho, além da literatura.

Marcato Pereira · Rio de Janeiro, RJ 19/8/2007 18:57
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baduh
 

Marcato.
O teu estilo de escrita é único. Há no que escreves uma originalidade notável! Espero que você continue a nos oferecer esses momentos de belíssimas letras.
Baduh

baduh · Rio de Janeiro, RJ 20/8/2007 19:19
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ritacarvalho
 

Achei instigante e muito original, Marcato! Será que vão sentir que há aqui uma obra de arte? Tomara!
Beijo.
Rita

ritacarvalho · Campo Grande, MS 20/8/2007 19:30
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geralgomes
 

Marcato.
Não sei... Mas parece que justamente o tipo de tessitura de conto que mais gosto não é ainda muito apreciado aqui.
Gostei muito e espero que as sutilizas do teu conto sejam lidas com atenção.
Abraço de Geraldo Gomes
Parabéns.

geralgomes · Teresópolis, RJ 20/8/2007 19:37
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Marcato Pereira
 

Baduh: gentileza sua! Obrigado, abraços!
Rita: você também foi gentil! A leitura daquilo que a gente escreve já é um prêmio. Obrigado, beijo!
Geral:: não sei, estou aqui há pouco tempo, mas me parece que os outros estilos que não o conto têm uma repercussão maior. Obrigado, abraços!

Marcato Pereira · Rio de Janeiro, RJ 21/8/2007 00:22
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