Só o amor salva

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Yuno Silva · Natal, RN
15/6/2006 · 124 · 7
 

Alto, forte, mãos ásperas, cabelo comprido, roupas simples e jeitão de índio. À primeira vista de olhos preconceituosos, o artista Jordão pode ser confundido com um nômade que sobrevive do artesanato que vende aos turistas que visitam Natal, no Rio Grande do Norte. Anônimo na multidão José Jordão Arimatéia é — simplesmente — um dos maiores escultores de painéis em cimento do continente.

Certo, pode até ser exagero, mas além da estatura corpulenta, esse natalense de 59 anos prefere trabalhar com grandes esculturas e painéis gigantes que adornam fachadas de prédios e auditórios. Como se não bastasse, é dele o maior painel de concreto da América Latina.

A história de sua infância humilde poderia muito bem ser confundida com outras não fosse pela arte. Aos oito anos, ainda José Arimatéia, o artista trabalhava em uma fábrica de pré-moldados de cimento e sempre dava um jeito da massa sobrar. “Tinha um quartinho nos fundos da fábrica que foi meu primeiro ateliê. Ninguém sabia de nada. Quando o dono descobriu primeiro levei uma bronca, mas ele percebeu algo e acabou permitindo que continuasse a criar”, lembrou.

"Desde os quatro anos sabia que ia ser artista"

O “Jordão” foi incorporado aos 14 para 15 anos — “um apelido dado por minha professora, inspirada no rio que a Bíblia tanto fala, pois vendia lata d’água no bairro pra ganhar uns trocados”, desconversa o índio caboclo. Pouco depois, como muitos adolescentes de tantas famílias brasileiras menos favorecidas, José Jordão Arimatéia teve que abandonar os estudos e ir ‘se virar’: “Nunca tive outra profissão, sempre fui artista. Aos quatro anos já sabia que ia ser e que queria ganhar a vida como artista”, diz com orgulho. “Tive que ir trabalhar para criar um menino que deixaram na nossa porta. Vendia esculturas de santos em barro pra vizinhança”.

Esculturas que viraram atração turística

Entre os anos 1970 e 80, o artista — filho de Severina Maria da Conceição, lavadeira e cozinheira, ainda viva — assinou vários trabalhos que até hoje chamam a atenção de quem passa em frente a seus trabalhos. Em Natal, os mais significativos são facilmente identificados na paisagem urbana da capital potiguar: no estacionamento do antigo hotel São Francisco, no bairro do Alecrim (atualmente Hotel Buriti www.hotelburiti.com.br), grandes figuras de concretos parecem saltar do muro no estacionamento do lugar.

As estátuas — hoje ponto turístico do movimentado bairro comercial — representam divindades dos mares, como um sisudo Netuno rodeado por sua corte de sereias. “Não terminei esse trabalho, acertei no dinheiro da época 83 mil e só recebi 3 mil”, conta com mágoa. É, realmente o painel com quase três metros de altura por 15 de comprimento vai se esvaindo até se tornar um amontoado de cimento sem forma definida. Questionado, o jovem recepcionista — que provavelmente ainda engatinhava quando Jordão ‘pegou o serviço’ — não soube dizer o nome do artista e afirmou que a parte inacabada tinha desmoronado (!).

Outra grande obra do artista é a fachada do Centro de Convenções de Natal, no início da Via Costeira em Ponta Negra — avenida entre o mar e o Parque das Dunas (área de proteção ambiental) onde se concentram os principais hotéis da cidade. Ao todo são seis painéis: o externo, de aproximadamente sete metros de altura por 25 de comprimento, retrata a paisagem costeira com coqueiros, cajus, jangadeiros e deusas das águas. No saguão de entrada, uma enorme rendeira e um pescador carregando peixes e cajus dão as boas vindas. Mais adiante no foyer do auditório, também feito de cimento, um trabalho com motivos indígenas domina uma das paredes. Na ala central, dois painéis de latão: de um lado um retrato do cangaceiro Lampião, do outro as salineiras de Macau — cidade do litoral norte do Estado, maior pólo produtor de sal do País.

“Também trabalho com barro, areia, latão e madeira, mas gosto mesmo é do cimento”, garante. Jordão contou que o painel principal do Centro de Convenções levou cerca de três meses para ser concluído.

A um passo de ganhar o mundo

Sem telefone para contato, cruzei Jordão dentro de um ônibus e fiquei sabendo que ele havia voltado à ativa e que estava restaurando seus trabalhos no Centro de Convenções. Encontrar esse artista ermitão é uma raridade, era a oportunidade que faltava para marcar um encontro no dia seguinte.

E o amor entra na história

Mas 'peraê': como assim "voltado à ativa"?

Antes de contar o porquê dessa “volta à ativa”, e é aí que entra o amor na história, tem outros dois trabalhos que merecem destaque: um painel no posto de gasolina Santo Expedito, situado na avenida Alexandrino de Alencar, bairro Barro Vermelho, e o maior painel de concreto da América Latina que enfeita a fachada do edifício residencial Riomar, na Cidade Alta, com motivos tropicais. “Aquele do posto é um dos que mais gosto, é uma romaria conduzida por Luiz Gonzaga à casa de Frei Damião (se é que ele tinha uma casa fixa?) e o do Riomar é que está no Guiness (livro dos recordes)”, informa.

Seu método de trabalho parece simples: “Ninguém me diz o que quer. Faço uma pesquisa, converso com as pessoas que estão encomendando o trabalho para ver o que elas querem, o que estão pensando. Aí imagino tudo e faço os riscos na parede. Depois vem o pedreiro e ajudantes que vão cortando o cimento de acordo com o que vou dizendo... e por aí vai”.

Bem, depois de todos esses trabalhos seu nome ficou conhecido na praça e os convites para trabalhar em outros lugares foram surgindo. “Nessa época fui expor na primeira Bienal de Fortaleza e depois fui trabalhar para um estrangeiro no Rio de Janeiro que me deu uma passagem para conhecer a França. Passei 15 dias em Paris, mas acabei nem conhecendo muita coisa... sabe como é: não estava bem enturmado”, lembra.

De volta ao Rio de Janeiro, foi notícia no Jornal do Brasil e recebeu a proposta de fixar residência por lá mesmo. Estava empolgado e planejou montar sua equipe com gente sua. Retornou à Natal para buscar a família e convidar artistas que haviam sido seus assistentes anteriormente. “Meu erro foi não ter cortado o cordão umbilical. Quando minha família não quis ir comigo ao Rio preferi não voltar. Um erro que até hoje me arrependo. Se fosse hoje não pensaria duas vezes: iria sem olhar pra trás. Perdi toda minha inspiração e deixei de produzir”, confessa com olhar distante.

De artista à ebrio errante, e de novo artista

Jordão mergulhou em um poço que parecia não ter fim: gastou todo o dinheiro que havia ganho, entregou-se à bebida e só fazia uma “esculturazinha ali e outra acolá para levantar um troco”. Nisso passaram-se mais de 15 anos. “Perdi a criatividade, a inspiração. Por desgosto mesmo! Vergonha da sociedade”.

Andou sem eira nem beira, meteu-se com gente que não devia, arranjou confusão até que ‘deu a louca’ e resolveu deixar tudo para trás. Aos 56 anos, morando no mesmo bairro que o viu nascer (parte baixa de Petrópolis, quase Rocas, na beira da praia urbana do Meio), Jordão resolveu atravessar a nado o rio Potengi só com a roupa do corpo e foi se instalar na outra margem, praia da Redinha. O rio Potengi separa a zona norte da zona sul da cidade e, em sua foz, fica o famoso Forte dos Reis Magos. “Na Redinha virei pescador. Passava o dia bebendo e quando precisava pescava alguma coisa”.

Até que um dia alguém o reconheceu e encomendou umas esculturas para decorar um restaurante. “Lembro até hoje: ganhei R$ 250 reais, paguei R$ 150 que devia na praça e guardei R$ 100 em cheque. Sai dali andando, em direção ao norte, até chegar em Maracajaú (praia). Continuei pescando e bebendo, mas aos poucos voltei a me envolver com arte. Dei alguns cursos na cidade e acabei conhecendo Alcione, irmã de uma aluna minha”. Nada estranho se Alcione não tivesse apenas 13 anos, 44 anos a menos que Jordão.

Namorinho de portão

“Foi amor à primeira vista!”, disse a menina que hoje tem 16 anos. “Na verdade me apaixonei antes mesmo de conhecer ele. As meninas diziam que tinha um homem com o nome de Jordão. O artista que estava dando aulas na cidade”. Quando Alcione ficou sabendo que ele estava na padaria, pediu para a mãe pra ir comprar o pão — “e olha que eu nunca queria ir”, salientou. Dava para sentir a curiosidade e o amor que a menina exalava por seu "painho" em todos os seus gestos.

“Conheci ele e comecei a gostar dele. Ele começou a ir lá em casa tomar café e ver televisão, só depois de uns três meses que fomos dar o primeiro beijo. Nunca tinha beijado ninguém e disse que só iria namorar ele se tirasse a barba e parasse de beber”, contou a adolescente. “Aí as pessoas começaram a olhar pra ele... não é amor?! Só que já estávamos namorando”, disse com o aval e o olhar cúmplice e carinhoso do artista.

Claro que Alcione teve que enfrentar toda a família. Ouviu o que não queria, se defendeu como pôde e teve a coragem de sair de casa para viver seu amor. “Foi Alcione que me salvou, quem estendeu a corda para eu sair do poço. Quero me casar com ela. Hoje eu quero é trabalhar e criar minhas obras”, garante. Jordão ainda não se separou no papel da primeira esposa, com quem teve três filhas: Jordânia, Bristiane, de 21 anos, e Joyce, 19.

Com o dinheiro que já conseguiu juntar, comprou uma casinha simples no alto da rua do Motor — com direito à vista para o mar e quintal íngreme com muitas árvores frutíferas — no mesmo bairro onde cresceu. Montou um ateliê improvisado nos fundos, onde me recebeu com vinho e peixe frito. Cheio de planos, pensa em comprar os terrenos vizinhos para construir sua nova casa e um ateliê maior. “Também quero organizar uma exposição individual com os trabalhos de Alcione... ela é meu porto seguro e estou aqui por causa do nosso amor”, aposta.

Se o final será feliz só o tempo dirá, o fato é que a arte de Jordão voltou a correr em suas veias movido pelo amor juvenil de Alcione. Disso ninguém pode duvidar!!

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Mariana Reis
 

Interessante relato, bem coloquial. Sabe do que eu senti falta, Yuno? De imagens. O teu texto remete tanto a um retrato do artista, que eu queria vê-lo, aí, bem como as obras dele.

Mariana Reis · Olinda, PE 15/6/2006 20:18
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cici
 

Oi Yuno, achei muito legal sua reportagem sobre o escultor JORDÃO, pois nosso estado tem muito prossional da arte que estão esquecidos, vc esta de parabéns por resgatar a historia desse grande artista, faltou uma foto do mesmo.

cici · Natal, RN 15/6/2006 22:04
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Ana Murta
 

se o amor salvou, quem somos nós pra julgar né não ...

Ana Murta · Vitória, ES 11/7/2006 18:35
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Yuno Silva
 

Ana, o pior é ver pessoas que não sabem da sinceridade do sentimento e julgam da pior forma possível.

Yuno Silva · Natal, RN 12/7/2006 17:40
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Yuno Silva
 

Fotos do artista e de seus trabalhos no Banco de Cultura:
>>> http://www.overmundo.com.br/banco/produto.php?produto=627

Yuno Silva · Natal, RN 12/7/2006 17:42
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Vivian Caccuri
 

Que história incrííível...
A foto sintetizou tudo

Vivian Caccuri · São Paulo, SP 17/7/2006 19:43
1 pessoa achou útil · sua opinião: subir
Yuno Silva
 

oi Vivian, realmente é uma figura que merece nossa atenção.
O mais legal é que depois dessa matéria ela saiu do ostracismo.

abraços,

Yuno Silva · Natal, RN 7/8/2006 14:38
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