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“Só pra destilar, tenta relaxar, deixa se levar"¹

1
Cury · Salvador, BA
20/9/2007 · 99 · 5
 


Essa coisa de deixar algo pra depois sempre dá merda. Ano passado, quando eu andava com o CD da banda pra onde fosse, eu conheci um restaurante a quilo e na hora de pagar a conta de 14 reais, eu mostrei o disco para o dono do restaurante. Como o disco custava 10 reais, eu dei mais 4 e ficou por isso mesmo. Depois voltei lá e ele me chamou de Zeca, pois o nome da banda era ZecaCuryDamm e, por na foto do disco eu estar em primeiro, ele achou que meu nome era Zeca. Corrigi, dizendo que Zeca era o do meio (na foto) e que meu (sobre)nome é Cury. Então, quando eu chegava no restaurante dele, era sempre “e aí, Cury, tudo bem?”, “Bom dia, Cury”, “Como vai, Cury?”. Beleza.

Mas aí eu saí da banda e ele soube e, a partir daí, ele parou de me chamar de Cury. Acho que ele pensou que era meu nome artístico e que por isso não ficaria bem, pelas circunstâncias, continuar me chamando de Cury. Até aí, tudo bem, mas o problema é que ele passou a me chamar, e não tenho a menor idéia do porquê, de Maurição.

Um belo dia, fui lá e ele:

– E aí, Maurição, como é que tá essa força?

Na hora eu achei que ouvi errado ou que ele deve ter falado com alguém e eu pensei que foi comigo... mas, num outro dia, quando voltei lá, foi a mesma coisa:

– Grande Maurício, como é vai, tá tocando em algum lugar?

Como tinha muita gente ao redor, ele tava no caixa, gente pagando, achei que não ia ficar bem eu corrigi-lo naquele instante e deixei pra fazer isso outro dia. Aí eu passei um tempo sem ir lá e esqueci essa história. Mas quando voltei:

– Fala, Maurição, tá sumido, qual foi?

Uma merda. Demorei pra falar e, como passou tanto tempo, fiquei sem jeito pra dizer que meu nome não é Maurício. Muito menos Maurição.

Já paguei com cartão de crédito, cheque, até preenchi, com letras maiúsculas, uma cédula para um sorteio de um quadro que ele tava fazendo. Cliente: RICARDO CURY. Mas não adiantou. Voltei lá e ele ainda me apresentou à sua esposa:

– Esse aqui é Maurição, um amigo meu, tá escrevendo um livro.

Fico pensando no dia que o livro sair e eu for querer pagar o almoço com ele. Fudeu. Vou ter de fazer um livro exclusivo, assinando Maurício Cury. Ou Maurição.
* * *
A luz laranja, com a sigla EPC, que fica no canto esquerdo do painel do meu carro, um Gol, acendeu.

– Vá logo ver isso – disse meu pai, após uma carona.

Deixei pra depois.

Ainda na banda, eu fui numa feirinha (Feira das Artes) que acontece periodicamente no Largo da Mariquita, Rio Vermelho, e lá conheci Seu Juraci. Ele tem 68 anos e faz parque de diversões de brinquedo. Eu fiquei impressionado com o trabalho dele. Tudo é feito com lata e de forma artesanal. Tem roda gigante, carrinho de cachorro-quente, de pipoca, carrossel, gangorra, balanço... todos pintados com as cores primárias (azul, amarelo, vermelho) e com um acabamento impecável. E tudo se movimenta. A roda gigante roda, o balanço balança, o carrossel gira... E o parque todo em movimento gera uma imagem bastante inspiradora.

A banda tinha (ou tem) uma música chamada Parque. E na hora que vi o parque na Feira das Artes, tive a idéia de fazer o clipe dessa música com Seu Juraci. Seria um clipe/documentário de 4 minutos, com ele dizendo seu nome, idade, profissão, e respondendo às diversas perguntas sobre o parque que ele faz, tendo a música intercalando as suas respostas. O fato de Seu Juraci me parecer bastante comunicativo, inteligente e espirituoso ajudou na certeza de que o clipe seria viável. Mas eu deixei a produção desse clipe pra depois e aí foi tarde. Eu saí da banda e blá, blá, blá...

Dia desses, uma prima disse que ouviu meu nome na TVE, dizendo que uma música minha estava concorrendo a um prêmio. Fui saber do que se tratava e era a tal música Parque. Fui ouvir qual versão da música estava concorrendo e constatei que era a versão gravada ainda comigo na bateria.

“A música também é minha, é a versão comigo tocando, gosto da idéia e Seu Juraci merece. Vou fazer o clipe”, pensei. Porém, ainda estava receoso, e, assim, quase um ano depois:

– Alô, Seu Juraci?

– Sim.

– Aqui é Ricardo. Falei com você um dia na Feira das Artes, eu tinha uma banda, não sei se você se lembra, falei sobre um clipe...

– Você é o menino que meu deu o CD?

– Isso.

– Até hoje tô te esperando.

Esse “até hoje tô te esperando” era tudo que eu precisava ouvir.
Liguei para alguns amigos que poderiam ajudar e o cineasta “argentino-brasileiro” Jerónimo Soffer disse que iria comigo. Dez pras sete da manhã eu buzinei em sua residência.
Seu Juraci mora longe e sua oficina fica na sua casa. Pegamos a Avenida Bonocô, chegamos na AV. San Martin já engarrafada, pegamos o caminho pra São Caetano (já engarrafadíssimo), nos perdemos duas vezes e às 10 horas conseguimos chegar na casa dele. E às 10 e 15 constatamos que as duas mídias que eu comprei no dia anterior, exclusivamente para essa gravação, não eram compatíveis com a filmadora.

– É por isso que a gente saiu cedo, pra dar tempo de resolver os problemas – disse o sábio Jero.

Após mais um louco engarrafamento de volta, chegamos no Extra da Rótula do Abacaxi às 11:30, e constatamos que no Extra não vende a mídia Mini-DVD.

– Vamos no Shopping Iguatemi, é por isso que a gente saiu cedo, pra dar tempo de resolver os problemas – disse o entusiasmando Jero.

Mas, na saída do Extra, ouvindo a porra da música Parque, a voz de meu pai dizendo “vá logo ver isso” ecoou em meu ouvido. Saía fumaça do carro. Até aí tudo bem, mas dessa vez era do motor. E com a luz da temperatura piscando loucamente.

Parei o carro no posto e o frentista disse que era apenas o recipiente que estava sem água. Achei estranho, sempre ponho água, mas achei mais agradável acreditar que o problema era só aquilo mesmo. 500 metros depois eu veria que não. O carro fritava.

– Isso aí é a válvula que regula a passagem de água – disse o mecânico da primeira oficina que encontramos.

Ele tirou a tal válvula dizendo que aqui na Bahia não precisa da válvula.

– Hein?

– Essa válvula é pros carros do Sul, pois lá é frio, portanto, pro carro esquentar mais rápido, tem essa válvula pra bloquear a passagem da água. A sua tava bloqueando direto e por isso o carro estava esquentando.

Depois dessa explicação é impossível não se convencer de que agora o problema estava resolvido. Mas já eram quase duas da tarde e achamos que seria melhor deixar a gravação do clipe pro dia seguinte. Ainda tinha de comprar novas mídias, voltar tudo, a luz já não estaria tão boa, a gente já não estaria tão bem...

Dia seguinte, Jero desistiu e eu fui sozinho.

Em pleno engarrafamento louco da Avenida San Martin, às 7:30 da manhã, eu ouvi a voz de Jero no meu ouvido, “É por isso que a gente saiu cedo, pra dar tempo de resolver os problemas”. “Válvula” e “carros do sul” são a PUTAQUEPARIU. Nem a Mystery Machine de Scooby Doo fazia mais fumaça. Encostei o carro em frente a uma borracharia.

– Isso deve ser a injeção eletrônica ¬– disse o borracheiro.

Ele mexeu em tudo, futucou, mandou eu ligar o carro, desligar, ligar de novo, desligar e disse que eu tinha de achar um mecânico.

Enchi o reservatório de água, e consegui andar por 300 metros. Tive de subir no meio-fio pra não atrapalhar o trânsito. O Sol de 9 horas, no meio do engarrafamento, naquela avenida, se torna um Sol de meio-dia. Eu derretia de calor. Eu e o carro. Derretendo, com raiva da música, do carro e da tecnologia que inventou o Mini-DVD, olhei pra frente e vi que tinha parado em frente a uma Igreja Universal do Reino de Deus, onde tinha uma placa enorme com os dizeres “Pare de sofrer, entre”.

Confesso que quase entrei. Até pra perguntar se ali tinha algum mecânico.

Em uma loja de baterias (para carros), o dono me disse que entrando logo ali, virando à esquerda e depois esquerda de novo, tinha um mecânico.

Fui e achei Seu Santana com seu macacão que nunca foi lavado. Mexeu em tudo e, com um cigarro na boca, mandou eu ligar o carro, desligar, ligar de novo, desligar, ligar de novo, desligar, ligar de novo, pra então dizer:

– É a bombinha.

Era o quarto diagnóstico em menos de um dia. Após conseguirmos parar o trânsito pra que eu desse uma ré pela contramão, pra eu não ter de fazer o retorno lá na casa da porra com o risco do carro explodir, cheguei, junto com Seu Santana, na oficina de Seu Juscelino. Já eram 10 e meia.

De novo o liga e desliga e Seu Juscelino, que é chamado por Kubitschek por todo mundo (imagino que isso seja com todo Juscelino do Brasil), disse que o defeito era no ventilador do motor. E, pela primeira vez, recebi um prazo pro conserto.

– Passe aqui às 16 horas que ele tá pronto.

A Igreja Universal nunca foi tão tentadora.

Resolvi pegar um táxi e voltar pra casa. No dia seguinte pegaria o carro. E quanto ao clipe, achei melhor desistir. Comecei a achar que tinha alguma força negativa atrapalhando. O parque não tava nada divertido. De dentro do táxi, liguei pra Seu Juraci cancelando tudo.

– Mas rapaz, vai deixar pra outro dia? Vai desistir assim tão fácil?
Venha que tô esperando – disse ele.

Era tudo que eu precisava ouvir. Pedi pro taxista dar a volta.

Grande Juraci. Filmei ele construindo a roda gigante, a gangorra, o carrossel...

– Herdei a profissão de meu pai, que era artesão, mas antes eu fazia brinquedos de madeira, só que tive as ferramentas roubadas e, como não tinha dinheiro para comprar outras novas, tive de me virar com as que sobraram, passando, assim, a trabalhar com as latas, o que fez com que eu criasse dignamente todos os meus filhos com os parques – disse ele, que vende pro país todo.

Disse também que gostava de trabalhar ouvindo Jean Michel Jarre, Roberto Carlos e Secos e Molhados.

Terminei a gravação com uma imagem do parque todo em movimento, com Seu Juraci no centro, sorrindo e dizendo:

– Meu nome é Juraci. Sou artesão. Faço parque de diversões. E esse é o Juraci Parque.



Em tempo: para ver Seu Juraci, acesse http://www.fotolog.com/saltimbancos1/30523757
O seu telefone de contato é 71-3259-4726.



________________
(1)Parque, de Damm e Maurição.

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Rafa oliva
 

uooou, que história gostoza de ser lida ahuahua, apesar de tantos desencontros

neste finalzinho deu até pra imaginar o quanto Seu Juraci é fascinante, e o quanto boa ficou esta última imagem do parque com ele

em questão de edição. Só aconselho dar um espaço entre um parágrafo e outro, para o texto ficar mais limpo e facilitar a leitura.

abraço

Rafa oliva · Aracaju, SE 18/9/2007 13:54
1 pessoa achou útil · sua opinião: subir
Cicero de Bethân
 

Salve! Sempre muito bom, já venho acompanhando teus textos. Vim, li e votei!
Abraço!

Cicero de Bethân · Vitória, ES 20/9/2007 08:23
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Joca Oeiras, o anjo andarilho
 

Querido Cury:
Sou seu fã embora seu estilo nada tenha a ver como o meu modelo do bem escrever, talvez por isso!
30 anos atrás, morando em Salvador, era amigo de um Cury, um cara de bigodão, bem magro, voz grossa e fala mansa, que chamava todo mundo de bicho este "i" bem sonoro lembrando u alemão de bütner, por exemplo. Ele era paulista radicado na Bahia. Não seria teu pai, não, né?
beijos e abraços
do Joca Oeiras, o anjo andarilho

Joca Oeiras, o anjo andarilho · Oeiras, PI 20/9/2007 14:25
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Juliaura
 

Cury,
Afinal, é Zé, Maurício ou Ricardo (rsrsrs)?
Seu Juraci é que sabe das coisas.
Li num só fôlego.
Acho que também escreves muito bem, além de engatar uma história na outra com felicidade de raros, mesmo com o carro fudendo a tua paciência e, digo, exasperando o leitor, sinal que passas o clima inteiro, até com dor e temos dó do motora.

Beijin

Juliaura · Porto Alegre, RS 20/9/2007 19:23
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nandyhamatos
 

Encontrar um texto assim (limpo e engraçado) em plena madrugada foi otimo!!!

adorei!

nandyhamatos · Salvador, BA 21/9/2007 22:57
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