Entre os dias 27 a 30 de setembro do ano 2007, Ipiaú realizou sua I Mostra de Cinema e Cultura. Um evento que significa uma retomada para as exibições públicas e gratuitas de imagens em movimento e que apresentou os primeiros trabalhos profissionais da linguagem audiovisual, de realizadores da cidade.
O evento foi produzido pelo cantor Tito da Cruz (uma personalidade popular do sul da Bahia), com parcerias diversas: desde a secretaria da Educação e Cultura da cidade, SEBRAE e Truq Cine TV e Vídeo.
É interessante apresentarmos tudo isso como foi escrito anteriormente para entendermos e discutirmos sobre algumas especificidades e sobre o todo da cultura do interior da Bahia. Uma cidade como Ipiaú, diante de toda relevância cultural e histórica que tem para o estado, passa por um momento de crise em sua cultura. E sei que muitos vão resmungar por tal afirmação.
A cidade que já foi eleita município modelo da Bahia em 1965, possuiu quatro cinemas, um dos quais é tombado como Patrimônio Histórico e Cultural, e revelou vários artistas e personalidades importantes para o desenvolvimento da região (como o escritor e político Euclides Neto, o fotógrafo Rogério Ferrari, o artista plástico Fauzi Maron, o jornalista José Américo Castro dentre outros), debate-se numa constante discussão sobre a cultura na e da cidade.
Com o apoio da Truq Cine TV e Vídeo, a curadoria a cargo do comunicólogo e cineasta Edson Bastos, apresentou três filmes de longa metragem recentemente lançados nos cinemas do Brasil, todos realizados por diretores baianos e produzidos dentro do estado. Esses Moços de José Araripe Jr., Samba Riachão de Jorge Alfredo e Eu Me Lembro de Edgard Navarro (que já cedeu entrevista ao fotógrafo Rogério Ferrari, editor da antiga Revista Atitude).
Merecem destaque os documentários produzidos por realizadores ipiauenses. Dona Nena, de Edson Bastos, retrata do sincretismo religioso presente na cultura sul-baiana (e em todo o estado). A rezadeira que dá título ao filme, faz caruru todo dia 04 de dezembro em homenagem à Santa Bárbara. O documentário apresenta poeticamente a relação entre o ser-humano e a fé. Dona Nena nos conta a sua história de vida, de frente pro espelho penteando seus cabelos longos e brancos. Como se tornou rezadeira, porque realiza o caruru... Todo o ritual do caruru é apresentado durante a narrativa.
O documentário 105,9, dirigido e produzido pelo jornalista ipiauense, Kaike Lamoso, nos conta a história da Rádio Livre Comunitária de Ipiaú. O Projeto foi pensado inicialmente por um grupo heterogêneo de pessoas, para dar voz aqueles que não têm voz e desempenhar uma função essencialmente comunitária. Durante os primeiros passos, algumas divergências ideológicas surgiram e daí aconteceu o Racha entre os integrantes (fato que consequentemente aconteceu com várias rádios comunitárias após o surgimento delas). Os que se sentiram prejudicados, afirmavam que um determinado grupo usava a rádio para benefício próprio e por isso foram até o local para ocupá-lo. A polícia federal foi acionada para retirá-los do local. A edição do vídeo foi muito bem realizada e dividiu a narrativa em três atos. A grande maioria dos planos são fechados, exceto as imagens da cidade em grandes planos, apresentando ao espectador belas paisagens e monumentos históricos da cidade.
Apesar de toda uma divulgação sobre a Mostra, uma pequena parcela da comunidade prestigiou o evento. Menos de três mil pessoas circularam pela Praça Ruy Barbosa desta cidade, durante todos os dias do evento.
A Mostra concorreu com o final da novela das 20:00 h da Rede Globo e como todo nosso país é educado audiovisualmente pelas novelas desse canal, ou através da locação de dvd’s de filmes hollywoodianos, qualquer produção cinematográfica brasileira perderia de lavada. Em se tratando da região sul da Bahia, exceto Itabuna que possui um cinema (que exibe filmes comerciais) as únicas formas de acesso ao audiovisual, são as citadas anteriormente.
Discute-se a priori, não sobre a efetividade do evento, mas sobre a necessidade de se (re)educar o público, para as nossa produções audiovisuais e acima de tudo, para a valorização da nossa cultura.
Será que todos sabem que praticamente todos os filmes nacionais de longa-metragem são financiados pelo nosso bolso? O imposto que pagamos é convertido em lei de incentivo à cultura. Será que isso é o suficiente para haver uma discussão sobre o fato ou é preciso outra perspectiva?
Foi um momento ímpar, poder prestigiar produções baianas a nível internacional, sendo exibidas num palco, ao lado do Cine Teatro Éden, o cinema tombado, que atualmente funciona uma loja de moveis (representação da situação cultural da cidade).
Podemos observar uma confusão na cabeça de várias pessoas, quando se depararam com imagens provocantes como às do filme Eu me Lembro nas seqüências de nudez, sexo e drogas e em algumas seqüências do documentário Dona Nena, com as possessões durante o caruru. Pessoas que confundiram Riachão com Dorival Caymmi e Dorival com Jorge Amado.
Será uma jornada difícil, cheia de peripécias e pontos de virada, mas precisamos levar o acesso destas produções, às populações que não têm. No meio do caminho, várias pedras. Covardia maior é saber que pedras existirão e desistir antes de passar por elas.
Continuemos caros irmãos, nesta eterna luta. Usando do nosso pensamento íntimo, para a construção de um pensamento coletivo, na busca de mais uma revolução. A revolução da cultura. A revolução do audiovisual.
Edson Bastos
edsonchunior@gmail.com
www.edsonbastos.blogspot.com
Eu estive no Seminário de Cinema que ocorreu em Salvador no mês de Julho. A Bahia Fervilha!
Jornalista81 · Brasília, DF 7/10/2007 16:44
Olá Edson,
Parabéns pela iniciativa e continue lutando pela livre expressão e por um lugar ao sol nessa enxurrada de besteirol que invade as nossas casas através da TV.
Eu nasci em Ibirataia e estudei em Ipiaú, no antigo G.E.I. Tenho saudades desse tempo. Sou professor em Salinas e sempre que posso desenvolvo projetos audiovisuais com meus alunos. Tenho até a descrição de um desses em meu blog:www.sergioaraujoeducador.blogspot.com
Um abraço.
PS. Votei em sua matéria.
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